Nenhuma outra era foi tão grandiosa ou perigosa quanto a época de guerras da república, entre a recém Corporação Rekember e Rune-Midgard. Uma época de glória, do erguimento de uma nação, e infelizmente, das maiores derrotas da história de nosso mundo. Nenhuma derrota foi tão devastadora quanto à de meu senhor, Lorde Seyren, o Seyren das lendas que comovem o mundo de hoje e faz até mesmo os mais poderosos guerreiros da atualidade tremer diante sua grandiosidade. Foi a pouco tempo, isso é verdade, mas os acontecimentos foram de tamanha importância para o mundo, que mesmo se tivesse ocorrido ontem, nada faria diferença, e as nossas vidas são atormentadas como as maldições desde o início dos tempos. Estou velho, enfraquecido diante as guerras que se seguiram, e estou em meus últimos dias em uma maca de um hospitalzinho qualquer na cidade de Rachel, e sei que comecei um diário há alguns anos, tentando contar minha vida e como eu cheguei até o momento da minha glória, mas fatos marcantes me fizeram parar e estudar minha própria história, e concluí que a história não seria minha, e sim de Seyren, um amigo, uma lenda, o Inimigo do Povo. E como já contei como nos tornamos espadachins e iniciamos nossa viagem, vou escrever para minha rainha, esposa do Rei Tristan III, que me deu apoio total ao saber de minha história, e principalmente a de Seyren, o Senhor das Espadas, aquele que sofreu infinitamente pelos deuses. A nossa história começa há um bom punhado de tempo, quando era inverno e as terras foram devastadas pelas tempestades de neve. Geffen estava atulhada de pessoas, a maioria usava casacos de pele, botas de couro, luvas, e mesmo os guerreiros possuíam uma proteção extra de couro por baixo da cota de malhas ou armaduras. O Vento era cortante, o sol se mostrava tímido por cima das nuvens e uma névoa fina caía dissipando-se por entre os homens e mulheres naquela cidade. Estava frio, estava triste, e eu estava lá.

O amanhecer em Geffen foi tranqüilo. Logo, magos perambulavam pelas ruas, indo da escola de aperfeiçoamento até a gigantesca torre situada no centro da cidade, e lá eles possuíam acesso a uma biblioteca gigante, com os mais variados conteúdos escritos naquelas páginas secretas. Bruxos, uma classe que demonstra a sabedoria avançada de um Mago, caminhavam majestosos com suas capas esvoaçantes. Era a cidade da magia, porém, por entre aquele povo de meio mágico e com os mercadores e ferreiros que ali se instalavam para que suas riquezas crescessem , havia um tumulto perto a fonte de água do sul da cidade. Vários nobres e membros do reino de Tristan II estavam conversando e alardeando para o povo da cidade. Logo que a multidão inundou a praça sul e as ruas ficaram apinhadas pela lotação, eu cheguei à cidade. Eu era jovem, não possuindo mais que dezesseis anos, estava no auge da minha força e juventude como Templário, e jurei seguir apenas as leis ditadas por Odin, o deus regente de nossa terra. Quando me aproximei para ver o motivo da multidão estar reunida, consegui enxergar o arauto do reino, seguido de vários nobres de Prontera.

-Nosso Rei está morrendo, e mesmo que o seu sucessor esteja forte e capaz, ainda é muito novo para deter a revolução no norte do continente. Precisamos de toda ajuda possível, pois se conseguirmos fazer uma boa campanha além dos mares e dos céus, Rune-Midgard reinará soberana frente a toda e qualquer nação revolucionária, incluindo também a religião e devoção pecaminosa a deusa Freya, na qual seus cultistas se encontram além das montanhas. – Naquele tempo, Freya era uma deusa indesejada, pois era deusa da fertilidade, beleza e amor, enquanto nós, guerreiros e magos, acreditavam no poder das divindades soberanas em guerra, como Odin, Balder, Thor e Tyr. Eu, claro, era um deles, mas eu não me interessava pela religião, pois havia seguido o caminho da espada, e tudo que eu queria era lutar pelo meu reino. Tornei-me um Templário como muitos outros, mas o que me diferenciava dos demais, era o meu modo sutil de lidar com as pessoas e os deuses, além de ter-me tornado independente e aprendi tudo fora dos limites de Prontera, ou seja, sem a ordem saber de minha existência. Isso foi algum tempo depois de quando eu e Seyren seguimos por outros caminhos, e desde então, meu mestre me ensinou tudo. Aproximei-me do arauto, que usava nada mais que algumas roupas pomposas, como um casaco vermelho e ricamente detalhado com o símbolo do Rei – um estandarte com um leão rugindo – mas que parecia empoeirado e amassado por cima das calças de couro e botas de cano longo. Não houve muitos detalhes de sua conversa depois que eu fiquei bem a sua frente.

-O senhor gostaria de lutar, meu nobre Templário? – O homem fedia a suor e ferrugem. Era alto, porém, com o rosto cansado e enrugado, mas não aparentava ter mais que 28 verões de idade. Ignorei seu comentário lisonjeador.

-Qual é a quantia que eu ganharei por essa besteira?

O homem espantou-se com minha objetividade. Obviamente não pensara que um homem que segue o fardo de seguir os deuses humildemente seria capaz de tamanha ousadia. Ele pigarreou, olhou-me de cima a baixo, depois cochichou para um dos nobres atrás dele, tampando a boca com a mão, para que eu não lesse seus lábios. Ele voltou-se para mim novamente, com o olhar cansado e apático.

-Mas o senhor, honrado e venerado como humilde cavaleiro do templo, não pode pedir uma coisa dessas, meu senhor. Poderia ser dado como desertor. – O seu tom parecia um tanto sarcástico, e me deixou um pouco irritado. Fiquei imaginando que homenzinho infeliz ele era, e seria se lhe desse uma surra. Agarrei-o pelo colarinho que parecia um babador e o ergui no alto, enquanto ele se debatia e reinava.

-E quem disse que preciso ser humilde? Seu rabugento, eu quero saber o que irei ganhar com essa besteira.

-Me solte. Isto é uma ofensa ao reino e aos deuses. – Ele tinha certa razão ao dizer isso. Um arauto era como um príncipe, porém não possuía sangue real, mas tinha a nobre função de anunciar a palavra do rei ao povo. E como a crença antiga de que um arauto também era também quem anunciava a palavra dos deuses, eles eram considerados homens totalmente protegidos por eles, e se um arauto for subjugado ou for ferido, então seu mal-feitor seria castigado pelos deuses. Mas, como eu disse, nunca gostei dessas coisas, por isso apertei um pouco mais seu casaco e o ergui um pouco mais. Os guardas que rondavam por Geffen viram minha ação esse postaram perto de mim, com as lanças nas mãos e suas pontas brilhantes apontadas para mim. Eu olhei para eles demasiadamente animado, mas então larguei o arauto e deixei-oele cair no chão, com o som de um baque surdo.

-Pois bem, me diga onde tenho que ir?

-Seu insolente!- O velho devia estar muito furioso, pois ficou ruborizado de tanta vergonha do público. Os guardas chegavam mais perto de mim, mas então eu os forcei a saírem de perto, fazendo uma pequena luz branca surgir no chão. Eu comecei a minha habilidade, a Crux Magnum, mas somente para mostrar que eles seriam pegos pela luz que retalha o corpo. Pareceu ter funcionado, ou eles simplesmente obedeceram a ordens, pois recolheram as lanças e pararam pouco atrás de mim. O arauto havia levantado e agora ajeitava sua roupa, tirando a poeira com a palma das mãos.

-O senhor deve estar empolgado com a guerra. Bem, pode pegar o teleporte daqui mesmo para Juno. Lá você irá voando até Lighthalzen.

Voando? Eu nunca havia imaginado que existiam máquinas de transporte voadoras naquela época, mas eu não levei a sério e achei que ele estivesse brincando comigo. E ele, vendo minha reação, começou a me explicar sobre o grande saco de ar que os cientistas de Juno desenvolveram, e colocaram um casco de navio suspensa nesse saco. Chamavam essa máquina de Aeroplano. Assenti, ainda que não acreditasse totalmente em suas palavras, e sem sequer agradecer, me virei para ir até a Kafra da cidade.

Sempre adorei Kafras. São lindas, amores de pessoa. Mas como nada é perfeito, elas também possuem ou fazem aquilo que mais odeio. São monótonas. Elas vivem repetindo a mesma coisa, e mesmo que sejam uteis para nós, elas só se preocupam com seu trabalho. Certa vez, eu e meu mestre fomos parar em uma estalagem onde havia uma Kafra no horário de repouso e eu decidi fazer um teste. Fui até ela e dei minhas melhores cantadas, mas nada funcionou. A única coisa interessante foi quando eu lhe disse que adoraria vê-la nua, e ela me deu um tapa. Meu mestre disse que vencedor é aquele que tenta, mas eu discordo. Nunca tente pedir a uma mulher para deitar-se com ela sem antes passar uma boa pomada preparatória, ou usar um elmo. Nunca falha. O teleporte é uma magia que consiste em transportar uma pessoa de um lugar a outro, por troca de átomos, energia e a mana, nosso espírito ou alma. É uma sensação estranha estar na frente de várias pessoas, sentir o estômago gelar e o corpo ficar leve de súbito, piscar e ver que está em outra cidade. E foi essa mesma sensação que senti ao chegar a Juno, mas não superou a sensação de estar no meio de uma guerra. Na época, uma guerra se alastrava pelo motivo da cidade de Juno estar adotando uma democracia, mas submetida ao reino de Rune-Midgard, e muito embora os esforços do Rei Tristan II serem grandes para apaziguar os governantes, a República não queria ceder à cidade, e as forças das cidades de Hugel, Einbroch, Lighthalzen e até mesmo da distante capital Rachel, a aliança combatia as tropas de Midgard com eficiência terrível, e magias e armas nunca vistas. E para piorar a situação, o Rei estava doente, estava morrendo, e seu sucessor tinha apenas 12 anos, não sendo qualificado para governar até que tenha idade suficiente. Por isso, o reino estava resgatando os melhores guerreiros para mandá-los nas fronteiras de Juno, logo abaixo da encosta oeste e entre as montanhas do norte, mas os que eram chamados pelos arautos como voluntários vinham para a cidade apenas para guardar os castelos suplementares, e essa agora seria minha tarefa. Eu era conhecido pelo Rei, tendo já a seus serviços com meu mestre, mas nunca sozinho, e agora retribuiria o favor por ter permitido a mim me tornar um Templário independente.

A cidade estava apinhada de guerreiros. Vários Cavaleiros e Bruxos caminhavam por entre as suas ruas, alguns contando histórias e preparando suas armas, ou apenas treinando uma magia nova e criando especativas quanto ao resultado final. Os mais velhos prepravam-se com mais cautela, enquanto os mais novos tremiam de medo e temor por suas vidas, ou bebiam hidromel forte e caiam bêbados pelas esquinas. O cheiro de aço e carvão queimando em brasa pairavam no ar enquanto os Ferreiros batiam os martelos sobre as bigornas, forjando armas para a sustentação. As tropas eram divididas entre a linha de frente da parede de escudos, formada em sua maioria por Cavaleiros de lança e escudo que formava uma linha de escudos, enquanto os Cavaleiros de espada lutavam montados em seus Peco-Pecos logo atrás das linhas. Os Bruxos e Sábios lutavam uma guerra particular, onde escolhiam os lugares mais remotos e faziam os duelos mágicos, pois era restrito o uso da magia em locais públicos. Nossa tropa era mai forte no lado bélico, enquanto a tropa republicana tinha muito avanço tecnológico e também possuíam conhecimento mágico superior. Eu fui até a praça central, onde havia cabanas e barracas que os líderes usavam para se resguardarem. Em uma delas, um homem forte e de peito largo, lia as cartas sentado atrás de uma mesa longa de madeira. Tinha cabelos curtos, negros e empastados pelo uso contínuo dos elmos, e possuía cicatrizes de batalha em todo o braço esquerdo. Eu me adiantei por entre a persiana que bloqueava a entrada da barraca e entrei, com minha espada embainhada e o escudo, que tinha o símbolo do Rei Tristan, virado com a cabeça para cima, em sinal de paz, e naquele instante eu começaria a minha jornada na guerra.