Diário de Sobrevivência
33 Diário 2 - Everthon
Notas iniciais
Resolvi descer do carro. Havíamos parado em uma espécie de ponte que cruzava uma rua menor lá embaixo. Ouvi os outros falando com alguém que não identifiquei quem era. Desci do carro e olhei ao redor: ao redor das estradas havia uma vegetação muito densa, composta de eucaliptos, pinheiros e do outro lado, bambu. O sol estava escondido entre as nuvens escuras do céu, sério, quando digo escuras, quero dizer realmente escuras. Isso até chegou a me assustar um pouco.
– Quem está aí? — perguntei curioso.
Canni que estava no parapeito de segurança da ponte apenas fez sinal para eu me aproximar.
Joe estava apoiado no parapeito com uma mão em baixo do queixo. Me aproximei do parapeito, ao lado de Canni. Percebi que haviam duas pessoas lá em baixo, quando a minha visão focou, percebi de quem se tratava. O garoto ficou pasmo ao me ver.
– Droga... — ouvi o garoto lá em baixo dizer.
Se tratava de Giovanna e Jimmy. Sim, eles estavam vivos.
– Mas eaí, o que os dois pombinhos estão fazendo aqui, tão longe de casa? — Joe perguntou ironicamente.
Zoe riu.
– Hã... Estamos buscando algumas... Droga. — Jimmy focou o olhar em mim.
– Você o conhece? — Joe perguntou.
Olha, eu os conhecia até bem demais. Porém o que eles fizeram comigo e com o Canni, não achei certo. O cara salva a sua vida e depois sofre risco de vida e o que você faz? Claro! Você foge com seus amigos, quem nunca?
Fixei o olhar em Canni por uns instantes. Ele fez um sinal negativo com a cabeça, quase imperceptível.
– Não. — respondi seriamente.
– Ah, ótimo. — Joe sorriu.
– Gostei do arco, garota. — Zoe sorriu em deboche para Giovanna.
– Mas... — Giovanna começou.
– Não! Sigam as vidas de vocês, antes que eu mate vocês. — Joe respondeu.
– Como assim, vocês estão vivos... Pensei que, que estivessem mortos ou coisa pior... Mas... — Jimmy deu três passos à frente.
– Não conhecemos vocês. Por favor, fique onde está. — Canni pediu calmamente.
– Mas, vocês estão loucos, somos nós! Giovanna, eu!
– Nós não conhecemos vocês. — Canni rebateu.
– Estão surdos? Devem estar cometendo um engano ou... Apenas devem estar chapados nas ervas. — Joe debochou.
– Canni, Everthon porquê estão fazendo isso? Eu sei que nós erramos mas...
Joe deu um tiro no para-choque da caminhonete vermelha que ali estava.
– Mais um passo e eu mato os dois! — Joe gritou.
Ambos recuaram com um passo atrás. Coloquei as mãos nos bolsos da jaqueta e me apoiei no parapeito da ponte.
– Vamos embora. Não vale a pena. — Zoe se afastou e voltou para o carro.
O carro do nosso outro time deu partida e seguiu a estrada, atropelando alguns zumbis no caminho. Canni entrou na parte de trás do carro e eu o segui. Ouvi Joe dizer alguma coisa para os dois e então voltar para o banco do motorista.
– O próximo não deixo passar. Não podemos dar chance à esses, quantos casos já tivemos de invasões no início? — Joe bufou ao dar a partida.
– Muitos... Vários. — Zoe olhou pelo espelho.
– Talvez esses que invadiram só queriam proteção. — eu disse.
– Era ladrões, isso sim! Por favor, eu disse não para a entrada deles. — Joe acelerou e passou por cima de uma zumbi.
– Sai, encosto. — ele sussurrou.
Zoe riu.
– Eaí, Canni quais são os planos e hoje? — Zoe virou-se para o nosso banco.
– E eu deveria ter? Sobreviventes têm? — Canni indagou.
– Achei que sim... Sei lá, algum hobbie novo? Tipo caça?
– Só trabalho mesmo.
– No final de semana faz o que?
– Apenas leio... Por quê, quer me convidar para sair? — Canni sorriu maliciosamente.
– Talvez. — Zoe riu. — Estou brincando...
– Sei... — Canni sorriu enquanto observava à janela.
– Tente passar o rádio para o Derby, mas não fale mais que dois minutos. A bateria é pouca e difícil de achar. — Joe disse à Zoe.
– Claro. — ela pegou o rádio do painel do carro — Alô... Derby? Consegue me ouvir... Frequência 23-43... Derby?
Após alguns segundos ouvimos a voz dele ao rádio "estou ouvindo".
– Estamos na rodovia, chegaremos antes do sol se por... Se é que não já se pôs... — Zoe observou pela janela. — É... Isso... Provavelmente sim. Tudo bem.
Ela desligou o rádio e o pôs no painel novamente.
– Ele disse para nos apressarmos, está preocupado.
Joe riu.
– Derby preocupado? Aquele ali não liga para nada além dele mesmo. Se apossa do que não é dele e usa os outros para conseguir o que quer.
Zoe fez cara de nojo.
– Pior tipo.
***
Depois de um longo caminho, chegamos até os portões do forte. Derby estava apoiada na pequena passarela que passava em cima do portão e nos observava com olhar desafiador. Adentramos no estacionamento e saímos do carro enquanto Derby dispensava o outro grupo. Ele veio até nós.
– Ora, ora... — ele segurava uma prancheta com uma lista. — Pensei que não veria vocês mais... Estou brincando. Como foi?
Joe passou por Derby e deu um esbarrão de leve no ombro dele.
– Tirando o fato de que fomos bombardeados, quase mortos por umas quatro hordas de zumbi, perdemos alguns homens inclusive o meu irmão... Olha, o resto está ótimo. E contigo? — Joe continuou a caminhar.
– É alguém não está tendo um bom dia! — Derby gritou.
Joe parou subitamente e virou-se para encarar Derby.
– O que foi que disse? — ele se aproximou. — Eu perdi a porra do meu irmão.
Quando Derby ia interrompê-lo, Joe gritou
– EU PERDI A PORRA DO MEU IRMÃO! VOCÊ SABE O QUE É ISSO DERBY? AH, MAS É CLARO QUE NÃO! NUNCA SOUBE O QUE É ISSO PORQUÊ NUNCA PASSOU POR ISSO! O MÁXIMO QUE PERDEI FOI O CACHORRINHO QUANDO TINHA OITO ANOS. MORRA!
Joe caminhou furioso para dentro do prédio principal.
– É... Depois passa. — Derby sorriu. — Everthon, ah, preciso de você como segurança da torre oeste hoje, ok?
– E..eu? — perguntei.
– Sim, sim. Encontre a Dakota lá às oito, não se atrase. Por enquanto, estão dispensados.
***
Encontrei Dakota em frente a torre oeste exatamente às oito. Ela usava camiseta xadrez verde musgo, shorts curtos e surrados com uma meia-calça e um All-Star preto pichado.
– Eae, como vai? — ela me cumprimentou.
– Eae, estou bem, eu acho.
Subimos a torre e ficamos dentro da cabine no topo. Os computadores estavam desligados e uma caixa verde com munição estava perto da porta. Peguei a metralhadora inglesa que estava ao chão e a recarreguei.
– Brinquedinho bonito, não? — perguntei.
Ela sorriu.
– Realmente... Vamos pra fora.
A segui até a plataforma em volta da torre e ficamos observando o horizonte por alguns segundos.
– É lindo, não é? — ela perguntou.
– O que?
– O céu, o clima, tudo. Está calor. Está tão escuro, assim como eu.
– Ui, desculpa.
Ela riu fortemente.
– Ei, para. Eu estava falando sério... Ah, esquece.
Sorri de volta.
– Que frio. — ela se encolheu.
– Mas, mas você disse que estava calor 40 segundos atrás.
– Mas já estou com frio. Acho que sou bipolar. Mas está frio sim.
Eu ri. Tirei minha jaqueta e ofereci à ela.
– O que é isso? Não. Você sentirá frio.
– Não, use. Estou com uma de lã por baixo. — rebati enquanto observava a floresta.
Levei um susto. Dakota sacou uma arma e mirou em direção à estrada. Levei meus olhos para lá. Haviam dois infectados, um atrás do outro.
– Está vendo eles? Preste atenção. — ela mirou no da frente e atirou nele.
Certeiro. O tiro atravessou os dois.
– Yeah! Headshot. Segura essa!
– Ah, eu posso fazer melhor. — peguei a arma dela e mirei no pé de uma infectada que estava em frente a uma arma espinho-de-madeira feito por nós. Atirei no pé dela e ela cambaleou para trás, caindo sobre um espinho de madeira. Ela gritava enquanto o espinho ia atravessando o seu corpo.
– Eu disse! — sorri para ela.
Ela fez algo que me surpreendeu. Ela me beijou. Ficamos nos beijando por cerca de dois minutos.
– Eu disse que faria melhor. — ela sorriu.
– Cale a boca. — puxei ela pela cintura e a beijei por uns instantes.
Uma voz subitamente surgiu dos alarmes de segurança. Ela dizia: "Alerta: código vermelho de invasão no setor leste."
Dakota me soltou e pegou a arma. Observamos o setor leste: um tanque de combustível explodiu atrás do prédio principal fazendo alguns estilhaços voarem. Foi quando vimos o pior: os infectados estavam aqui dentro.
***
Homens e mulheres corriam para tudo que é lado enquanto matavam os infectados. O fogo continuava a subir do tanque, o que fez com que o pátio do refúgio ficasse iluminado na maioria das partes. Vimos os infectados gritarem, vimos pessoas sendo mortas.
– DROGA! MERDA, COMO ASSIM. — Dakota gritava loucamente.
– PRECISAMOS SAIR E AJUDAR OS OUTROS! — gritei.
Observamos o fogo cruzado entre soldados e infectados. Eu sussurrei:
– Precisamos achar o Joe.
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