Os livros da prateleira de cima já estavam espatifados no chão como pássaros escuros abatidos por um caçador. Lembro-me de continuar contemplando aquela chave cor de bronze por muito tempo, sobre aquela escada. A chave parecia mais velha do que eu. Mais velha do que meu pai. Mais velha do que a própria casa.

Após alguns minutos de uma observação débil, retirei-a de dentro das páginas recortadas, joguei o diário no chão, mais distante do que o que eu queria, e, a medida que descia a escada, derrubava mais e mais livros das prateleiras inferiores. Com pouco tempo, uma pilha de livros se formara, disforme e volumosa, no chão de madeira.

Desci a escada e, bem na prateleira central, vi, mesmo que com certa dificuldade, uma pequena fechadura dourada, bem onde ficavam os estranhos livros que meu pai lia para mim antes de dormir. Ainda hoje me pergunto se era a intenção dele que eu terminasse o trabalho que ele começou. Nada poderia ser mais cruel, especialmente vindo de um pai.

Com a chave girando entre meus dedos, aproximei-me e coloquei-a na fenda metálica escondida na penumbra. Girei-a e, após um estalo metálico particularmente forte, como se houvesse algum mecanismo realmente grande por trás daquela pequena fenda, a estante dividiu-se em duas, afastando um lado do outro alguns centímetros. Chutei os livros que se amontoaram para trás, sem o menor cuidado, e, com esforço, empurrei o lado esquerdo, que correu para o lado até se chocar contra uma lâmpada que ficava na parede. Da mesma forma, empurrei o lado esquerdo, que deslizou até bloquear a porta do escritório. O que estava na minha frente nada mais era que uma caverna escura, construída grosseiramente. Uma boca vazia de dentes, enorme e escura, cujo esôfago seguia rumo à barriga do desconhecido.

Como a porta de saída estava bloqueada, resolvi procurar alguma vela ou lanterna no escritório. Certamente meu pai deixaria alguma por lá, justamente para adentrar naquela horrenda caverna. Após alguma procura, encontrei uma lanterna a gás atrás de sua poltrona de couro vermelho. Acendi a lâmpada que havia quebrado após o choque com a estante corrediça, liguei-a até que o fino filamento iluminado estivesse quente o bastante e, usando a chama que se formava, acendi a lanterna a gás. Mesmo sabendo que o gás poderia acabar a qualquer momento, não havia outro meio de entrar naquele local, então, respirando fundo, com a lanterna na altura dos meus olhos, entrei naquela boca que abria-se na parede do escritório.

Eu podia ouvir minha própria respiração ecoando nas grosseiras paredes de argamassa pobremente depositada, enquanto descia o que parecia ser uma espiral descendente sem fim. Era como se a própria caverna respirasse, e quanto mais fundo eu ia, mais minha respiração ofegante reverberava naquelas paredes ásperas. Após bons minutos de uma cansativa descida, era como se a escuridão engolisse a luz que a lanterna emitia. Era uma escuridão palpável, e se eu estivesse com uma faca naquele momento, certamente seria possível cortá-la, tamanha sua densidade crescente.

Finalmente parei de descer. Agora deparei-me com um corredor escuro, cujas paredes eram talhadas na própria pedra grosseira. O corredor seguia reto e, mais à frente, podia ver uma fraca luz emanando da abóbada daquele local. A luz cortava a escuridão e revelava uma ampla sala à frente.

Apressei o passo, e, meio trôpego por conta dos pedregulhos que cobriam o chão, finalmente cheguei àquela sala. Era um amplo salão de pedra, certamente mais antigo que a própria casa. Devia datar de séculos antes da Guerra da Independência, certamente. Era quase rupestre, mas havia um tom solene e horrendo naquele local que me tirava o fôlego. As paredes eram cheias de símbolos que reconheci como a mesma forma de escrita do Necronomicon. No meio do salão, havia um altar de pedra cuidadosamente esculpido, como se mãos esqueléticas, com enormes garras, brotassem do chão, segurando uma superfície do mesmo tipo de pedra, mas completamente lisa, exceto por alguns símbolos talhados nos cantos. Havia algum vestígio de sangue naquela superfície, mas era certamente antigo, pois não passava de uma mancha marrom a meio caminho de desaparecer. A iluminação que vinha de cima não passava da própria iluminação das ruas na superfície. Certamente era um bueiro desativado, selado com o intuito de levar aquele templo ao esquecimento. Infelizmente não foi suficiente.

Enquanto circundava aquele altar, tropecei em um pedregulho, e esbarrei no altar. Ele se moveu alguns centímetros. Não era um simples altar. Era um baú de pedra. Arregacei as mangas da minha camisa social branca, que, naquele ponto já estava ensopada de suor e coberta de poeira, e comecei a empurrar a pesada tampa para o lado. Finalmente, após alguns minutos, o peso deslocado para o lado fez a pedra cair pesadamente no chão de pedra.

Baixei a lanterna até ver o que aquele baú tenebroso guardava. Havia um pesado e ancestral livro, cuja capa marrom e gasta parecia possuir um rosto monstruoso, um pesado pingente de pedra com um símbolo semelhante a uma espiral, e em seu centro, uma lua minguante, e, o mais misterioso dos já macabros itens, uma folha de papel de um período completamente diferente. Não tinha a aparência ancestral do livro ou do pingente. Era relativamente recente. Tirei os itens juntos, e, quase automaticamente, meus olhos dirigiram-se ao papel. A caligrafia, dessa vez, não era do meu pai. A letra era trêmula, desajeitada, quase infantil.

Como o último cultista da Aurora Negra, espero que essas palavras cheguem até alguém

No lado oculto da Lua, na última estrela do infinito

Nas nebulosas mais isoladas, na mais profunda fossa do mar

Eles esperam aqueles que entregarão sua sanidade e seus dias

Os Infinitos aguardam a singela oferenda

Pois o que é a faísca da humanidade se comparada à chama eterna do seu reinado de horror?

Confesso que senti um calafrio com aquelas palavras. No verso do papel, um mapa estava anexado. Um antigo mapa dos EUA, com um x marcando o estado de Maryland, especificamente a cidade de Baltimore. O que será que era esse tal culto da Aurora Negra? Quem era esse misterioso cultista? O que essas palavras igualmente enigmáticas, proféticas e assustadoras queriam dizer? No fim das contas, mais perguntas foram feitas do que respostas foram dadas. E, naquele momento, confesso que minha curiosidade havia vencido a batalha. Eu precisava ir até Baltimore.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.