Diário de Alphonse Wilborn, 1948
3 Capítulo III
Meus passos eram vacilantes, e meu olhar estava fixo naquela porta de madeira escura. A maçaneta dourada e um tanto gasta me observava, sedenta pelo toque de minha mão. A cada passo dado, meu coração batia mais forte, e a alguns metros do destino, sentia como se ele quisesse espremer-se por entre minhas costelas e, de alguma forma, escapar rompendo músculos e pele.
Finalmente estava diante da porta. Minha mão estendia-se diante da maçaneta, mas recusava-se a tocá-la. Aquile medo era certamente doentio, eu pensava, mas mesmo assim não conseguia controlá-lo. Já me peguei pensando por horas nesse medo doentio, e sempre chego à mesma conclusão: era meu destino abrir aquela porta. Era meu destino subir nas montanhas da loucura e me jogar de lá. Quem sabe não fosse o destino me avisando, sussurrando suavemente dentro de minha cabeça, desde criança, a causa desse medo? Nada além disso explica tamanha aversão.
Finalmente, após um longo suspiro, minha mão fez contato com o cobre frio da maçaneta. Ao sentir aquela superfície lisa e fria, um arrepio subiu pelo meu braço. Finalmente girei a maçaneta, e, após um estalo, a porta foi destrancada. Abri devagar, enquanto acompanhava a madeira escura dar lugar a uma sala tão familiar, que quando criança habitava nos meus costumeiros pesadelos. A cabeça do cervo ainda estava lá, encarando a porta com uma seriedade cadavérica, fria, sem vida. O console da lareira ainda conservava os pássaros empalhados, cujos olhos brilhavam à meia luz que entrava das janelas semicerradas. A escrivaninha de mogno do meu pai continuava lá, imponente, mas dessa vez, vazia. Nada de papéis e mais papéis, canetas nanquim e livros abertos com diversas marcações e anotações de rodapé. Nada além de uma finíssima camada de poeira que cobria toda a extensão lisa da mesa. E lá, embutida na parede esquerda do escritório, estava a maldita estante de livros.
Entrei devagar, receoso, mas inegavelmente curioso para ver aqueles volumes que por anos sequer dei tanta atenção. Será que entre aquelas lombadas empoeiradas eu encontraria algo interessante? Onde minha vista alcançava, nada além de volumes de poesia, história e um sem número de romances. Alguns deles li após sair daquela casa, durante meus anos na universidade de economia e, subsequentemente, meus anos no banco. De fato, naquele momento, o medo deu lugar a um rápido momento de arrependimento por não ter lido algumas daquelas obras antes, em meus momentos de ócio no início da juventude. Novamente uma onda de desconforto se abateu sobre mim como se o mar me pegasse de surpresa e me derrubasse, e quando dei por mim, estava observando os volumes da prateleira de cima, mas não tinha altura suficiente para alcançá-los. Peguei a escada corrediça que ficava no canto da estante e puxei-a até o centro. Estranhei que os trilhos estavam perfeitamente lubrificados, como se tivessem sido usados com certa frequência. Imaginei que o sr. Cleveland, contra todas minhas expectativas, fosse um leitor assíduo. Antes fosse apenas isso.
Subi devagar a escada. Chegando ao topo da estante, os títulos tornaram-se consideravelmente mais obscuros. Diversos livros sobre bruxaria, um grande e antigo exemplar do Ars Goetia, um sem número de volumes tratando de demonologia e de divindades de diversas culturas. Tudo entre um emaranhado de teias de aranha e uma grossa camada de poeira. Não, tudo não. Havia um volume, especialmente antigo, que não estava impregnado de teias de aranha ou poeira. Além disso, havia um rastro em sua frente, como se ele tivesse sido recentemente puxado de sua posição, e posteriormente recolocado. Não havia nome algum em sua lombada de couro escuro, gasta nas bordas e nas dobradiças.
Puxei o volume devagar, enquanto meu coração palpitava mais e mais rápido, e eu, tão nervoso quanto impressionado com meu nervosismo bobo e irracional, resolvi simplesmente arrancá-lo da estante. Alguns livros o acompanharam involuntariamente, movendo-se alguns centímetros para frente por conta do súbito movimento que fiz para retirá-lo da prateleira, e após o volume ser completamente retirado, desabaram para os lados, encobrindo parcialmente o vácuo que aquele pesado e antigo exemplar deixara.
Desci a escada, que deslizava centímetros a esmo para cada lado a cada passo que eu dava rumo ao sólido e seguro chão. Pressionava o pesado livro com o braço direito sobre meu peito, enquanto a mão esquerda me auxiliava na descida. Finalmente alcancei o chão de madeira escura, e me dirigi à escrivaninha do meu falecido pai. Com a mão nua, sacudi a fina camada de poeira que havia sobre a superfície lisa, empurrando os minúsculos grãos para o ar em uma dança lenta e rodopiante nos raios de sol que invadiam o interior da sala, que permanecia numa soturna, e estranhamente calma penumbra.
Finalmente, joguei o livro pesadamente sobre a mesa. O livro era extremamente grosso e pesado, e o impacto sobre a escrivaninha de mogno estremeceu as gavetas que ladeavam uma confortável cadeira reclinável, feita inteiramente de madeira escura e com estofamento em couro vermelho escuro, com pequenos trançados negros de uma fibra finíssima adornando o assento e o encosto. De fato, era uma cadeira extremamente confortável, dada sua idade. Não me impressiona meu pai nunca ter se queixado de dores nas costas.
Sentei-me, e finalmente comecei a observar a capa do livro. A capa de couro era visivelmente velha. Se eu, um leigo, pudesse estimar sua idade, diria que teria pelo menos cem anos. Sua capa era escura, com gastas gravações douradas num alfabeto que eu nunca vi, pois era diferente de qualquer outro, por mais exótico que pudesse ser. As letras, ou fonemas, ou o que quer que representasse aqueles caracteres, eram nada mais do que linhas que desenhavam ângulos retos misturados com círculos e semicírculos e pontos. Nada parecido com os elaborados hieroglifos egípcios ou a simplicidade do nosso alfabeto.
Abrindo uma das gavetas à direita, encontrei diversas canetas nanquim e um ou dois vidros de tinta. Puxei os dois vidros e uma das canetas, joguei-as na mesa sem muita cerimônia, e abri uma gaveta abaixo, e lá estava o que eu procurava: uma luminária. Meu pai sempre usara essa luminária de latão, cuja cor já começara a abandonar o conhecido dourado, e começara a dar lugar a um verde metálico sem vida. Puxei a luminária da gaveta, fechando-a com um pequeno empurrão. Desenrolei o incômodo cabo, com os fios finos e entrelaçados de cobre já expostos em alguns pontos, apoiei sobre a mesa e conectei numa tomada que meu pai colocara embutida ao lado da escrivaninha. A lâmpada vagarosamente começara a esquentar, e seu brilho aumentava gradativamente, sem pressa. Mas eu, tomado por uma curiosidade, salivava por um pouco mais de luz.
Finalmente, após um minuto que pareceram eras, a lâmpada estava acesa e estável. Posicionei o livro próximo ao halo de luz amarela que emanava da velha lâmpada, apurei a visão e comecei a estudar cada parte daquela capa de couro em busca de algo que denunciasse o que era e do que se tratava aquele exemplar. Não demorou muito para que eu encontrasse uma tipografia quase completamente apagada, camuflada no escuro couro que cobria a capa do livro. Uma tipografia que certamente havia sido incluída séculos depois da publicação desse exemplar. Aproximando a vista e encontrando um ângulo em que a luz incidisse na tinta desgastada, pude ler uma única e misteriosa palavra.
Necronomicon.
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