Me familiarizo cada dia mais com estas paredes. As manchas amareladas de inúmeras infiltrações que progressivamente tomam o teto branco desse cubículo são minha única companhia. Elas mudam constantemente, e, como olhar para o céu durante a primavera, procuro associar o formato de cada uma delas a um objeto ou animal. É realmente divertido quando não se tem nada melhor para fazer.

Mas bem, acho que é hora e deixar minha amizade com manchas nas paredes de lado.

Admito que se fosse eu a eventualmente ler o conteúdo deste diário, não acreditaria em nenhuma palavra, afinal, sei que o que estou prestes a escrever é da mais pura loucura, e para mentes sãs e convencionais, simples fruto da mente de um louco. Mas acredite, cada palavra, cada sentença, cada acontecimento, é real. Não estou preso nessa cela claustrofóbica por puro delírio. Existem coisas que se escondem sobre as nuvens do céu e sob a superfície do mar e além dos longínquos montes que dilacerariam a inocente mente humana pela simples ciência de sua existência. Me considero um homem de sorte por não ter enlouquecido completamente, e por não ter perdido todas minhas faculdades mentais após os acontecimentos que relatarei muito em breve. Aliás, considero-me o mais são dos homens, pois vi e vivenciei o inferno. Eu vi a verdade além do véu da confortável realidade.

Minhas noites de sono, infelizmente, se resumem a alguns poucos minutos toda noite, pois aqueles acontecimentos ainda povoam minha mente à noite. Mas sei que, em breve, eles cessarão, e dormirei profundamente.

Mas não agora. Não antes que eu termine a história de como eu enlouqueci. Ou seria a história de como meus olhos se abriram para o horror que se esconde sob nossos pés e sobre nossas cabeças? Infelizmente não posso convencê-lo, caro leitor. Mas espero que você acredite em minhas palavras.