Diário de 83
32 Vamos Ficar Amigos Para Sempre
Notas iniciais
Bay Lake, Flórida – 20:30 hrs
11 de dezembro, 1983
Diário…
Há tempos não escrevo nesse bloco de notas idiota, mas senti saudade. Detesto admitir, mas é terapêutico. Desde que voltei à Londres, não senti mais falta de escrever sobre os meus dias, os meus pensamentos, porém eu refiz meu caminho de volta aos Estados Unidos por causa do recesso de fim de ano, e eu acho que vai ser interessante escrever sobre o que aconteceu nessa aventura. Eu prometi ao Michael que voltaria, eu combinei de passar as minhas férias aqui, era o único jeito que achamos de nos despedirmos de maneira decente.
Nos encontramos na sacada do hotel, na Epcot (sim, mãe, estou na Disneyland, vim abraçar o Mickey e o Pateta). Michael me chamou para ver o show de fogos do quarto dele, contudo, sinceramente, acho que ele usou o espetáculo de desculpa. Eu não o culpo, estava pensando na mesma coisa, mas ele foi mais rápido em me convidar.
— Serviço de quarto…
Eu o chamei. Michael abriu a porta logo em seguida, com um sorriso no rosto.
— Ah, que bom que chegou, eu preciso que faça uma limpeza geral no meu quarto antes das nove.
— O quê? Só trinta minutos pra limpar tudo? Quero os meus direitos de estrangeiro agora!
Ele riu e me deixou entrar. Olhei rapidamente o perímetro e vi que a suíte em que ele havia ficado era quase tão luxuosa quanto a minha, coisa de suíte presidencial. Eu até tentei me equiparar, mas era difícil acompanhar o mesmo ritmo que o Michael.
Assobiei.
— Uau… Você pegou uma visão privilegiada, hein? A queima de fogos já começou?
— Ainda não. É a sua primeira vez aqui?
— Sim… caralho, e pensar que, há alguns anos, o próprio Disney estava perambulando por aqui.
Michael assentiu e se espreguiçou, em seguida se jogou na cama. Pela forma como o colchão se moveu, era possível sentir o quão macio era.
— Sim… eu queria ter o conhecido. Ele é uma fonte de inspiração.
Ele levou as mãos para trás da cabeça e relaxou. O olhei por alguns instantes, tão vulnerável, e sorri. Me aproximei lentamente, me arrastando para o seu lado. Michael percebeu minhas intenções, pois estampou um sorriso sapeca no rosto. Tirei os sapatos, ele repetiu o meu gesto (os sinais estavam aí). Me deixou chegar perto, deixou que eu sentisse sua respiração quente, que eu tocasse o início dos seus lábios com o meus, porém, quando eu estava perto de beijá-lo, ele escapou num piscar de olhos.
— Ei! Isso é muita maldade…
Ele riu, pegou um travesseiro e jogou em mim.
— Nem vem, não te chamei aqui pra isso.
— Jura? Pensei que tinha uma mensagem subliminar no convite.
— Não te chamei só pra isso. Melhor assim? — Michael voltou à cama com um pulo, pulou mais algumas vezes e caiu de joelhos próximo a mim. Suas mãos seguraram as minhas e ele olhou em meus olhos — Solta sua criança interior, Morten!
— O quê…?
Com um puxão, Michael me levantou, me instigou a pular. Eu me senti um retardado por alguns segundos, mas era divertido ser retardado com mais alguém do seu lado. Deixamos a falta de vergonha na cara nos dominar e bagunçamos aquele quarto como duas crianças teimosas, isso antes do Michael enjoar e querer brincar de outra coisa.
— Ei, ei, dança comigo?
— Agora você quer isso? — ele brincou, aos risos.
Saímos da cama e fomos xeretar os discos que ele havia trazido da viagem. Michael não escolheu nenhum daqueles, na verdade escolheu um compacto branco e sem título que eu não fazia ideia do que era. Ele colocou pra tocar e eu conheci o arranjo imediatamente. Era minha música. Eu não fazia ideia de como ele havia conseguido aquilo.
“Aqui eu fico e enfrento a chuva
Eu sei que nada vai ser o mesmo novamente
Eu temo pelo que o amanhã traz…
Confie em mim por quem eu sou
Coloque toda sua fé nessas mãos
Não tenho nada a dizer
Mas vamos ficar amigos para sempre
Para sempre…”
Eu olhei pra ele.
— Como…? Como você conseguiu isso?
Ele sorriu.
— São os meus segredos, não vou te contar — após essas palavras, Michael ficou em silêncio. Suas mãos encostaram nas minhas, seus dedos acariciaram os meus e, então, ele olhou para mim. — Você ainda tem medo do futuro?
— Tenho… você não?
Ele não me respondeu. Do contrário, segurou nas minhas mãos e me puxou.
— Dança comigo, Morten…
E foi o que fizemos. Ainda muito desengonçado, eu tentei acompanhar os seus passos. Michael conseguia sentir a música, mesmo uma que ele não tenha produzido, e sempre uma dança surgiria naquela mente brilhante. Nós dançamos, dançamos até os meus pés doerem, até perdermos o fôlego de tanto rir, dançamos bem a tempo de sermos surpreendidos pela chuva de fogos que se alastrou pelo céu, por trás de nossas cabeças. Corremos que nem duas crianças até a sacada do hotel e, de lá mesmo, observamos em silêncio. Eu não tinha palavras para proferir naquela hora, todas elas fugiram dos meus pensamentos, eu só sei que eu queria estar dentro daqueles momentos para sempre. Para sempre.
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