Diário de 83

16 Quando as Máscaras Caem


Notas iniciais
Capítulo 2 liberado! Que tensão, hein? O que será que vai acontecer? Boa leitura! ♥

Encino, Califórnia – 09:15 hrs

9 de abril, 1983

Querido diário… que dia de filho da puta.

Aquela manhã se iniciou de um jeito estranho. Joe Jackson estava lá, e só a presença desse cara me fazia ter ideias pra mirabolantes planos de fuga. Tomei meu café da manhã e saí antes que ele me fizesse perguntas — ele me olhou em silêncio a todo momento, a sensação que eu tenho é que ele estava começando a se incomodar com a minha presença na casa (ou alguma porra do tipo). Peguei minha câmera, fui até o pomar do jardim e tirei algumas fotos das macieiras, havia tantos outros pontos naquele lugar que eu ainda não tinha registrado; o pomar, o zoológico, os ornamentos em concreto, lugares que eu queria ver com o anfitrião.

E, falando nele, Michael estava meio silencioso hoje. Dadas as circunstâncias, eu não esperava algo diferente, ele sempre ficava assim quando Joe estava por perto. Depois do que quase rolou entre a gente, eu resolvi deixá-lo em paz, talvez fossem coisas demais para processar.

Tirei uma última foto das flores e fui me abrigar do sol. Escolhi a sombra das copas das árvores que ficavam no lugar secreto do Michael, um pouco além dos canteiros. Eu não devia estar surpreso, mas acabei me deparando com ele também se abrigando lá e confesso que aquilo me desnorteou um pouco.

— Er… bom dia.

Ele virou o rosto rapidamente, e só relaxou os músculos quando percebeu que era eu.

— Oi…

— Tá se escondendo do "tubarão"?

Me sentei ao seu lado. Vi quando Michael engoliu seco enquanto olhava para o gramado verde. Ele aquiesceu em silêncio.

— Ei… se ele te incomoda tanto, eu sou a primeira pessoa a concordar que você vá para o The Lindbrook. Se é companhia que você quer, eu… eu posso te acompanhar… — pigarreei — ao menos enquanto eu estiver aqui.

Após alguns instantes, pensativo, ele olhou pra mim e esboçou um sorriso fraco.

— Obrigado, mas… não é só isso. Eu gosto de ficar por perto, de cuidar da minha mãe. Eu não gosto da ideia de deixar ela sozinha com ele.

Aquiesci em silêncio. Putz, que situação… Eu sabia que esse cara não era flor que se cheire, mas esse ponto nunca me passou pela cabeça. Tudo o que eu pensava era apenas que ele era caretão demais ou algo do tipo, coisas normais que causam atritos normais entre pais e filhos.

— Mas… talvez… eu reconsidere. Eu preciso falar com a minha mãe.

— Fica tranquilo. Faz o que for melhor pra você.

Inconscientemente segurei o seu queixo e me aproximei. Ele virou o rosto, os meus lábios acabaram tocando sua bochecha. Não era sua boca, mas foi ali mesmo, foi ali que depositei o meu melhor beijo. Ele fechou os olhos e deixou o toque perdurar por longos segundos até se desfazer lentamente.

— Me deixa te beijar de novo…

— Morten, não…

— Por favor… sério, me deixa beijar sua boca — confessei, e ele me olhou com surpresa, como se pudesse me enganar com aquele olhar. — Michael, não finja que não sabia…

— Você tá maluco?! A gente não pode! — ele fez o impossível pra falar aquilo o mais baixo que conseguia, porém eu vi a sua indignação com as minhas palavras. Imaginei que ele reagiria assim, mas me surpreendeu saber que não era raiva por eu ter cogitado algo entre a gente, era frustração por se sentir impedido. Ele não podia, e eu sei bem o motivo — Se alguém pega a gente... se o meu pai descobre, se a mídia fica sabendo disso…!

— Você gosta de mim, não gosta?

— E o que isso importa?

Suspirei. Nunca pensei que palavras de uma pessoa que conheci há poucos meses me machucariam em algum momento, mas eu era persistente.

— Importa pra mim.

— Morten, você não veio aqui pra isso…

— Eu sei! Eu não pedi pra gostar de você! Mas eu queria tentar… Sério, eu sei que sou meio indisciplinado, eu sei que você não é adepto a coisas novas, eu respeito isso. Mas eu sei, Michael, que você se reprime…

Ele revirou os olhos.

— Não fala besteira. Eu não sou gay.

— E você acha que eu tive muitos namorados nessa vida? Eu estou passando pela mesma coisa que você, eu tô contigo nessa. Eu não sei que nome essa merda tem, eu só sei que eu não consigo mais fingir que nunca tentei te beijar, que nunca passamos todos aqueles momentos juntos, não consigo fingir que todas essas coisas não importaram pra mim…

Enquanto eu falava, via lágrimas silenciosas descerem por seus olhos. Ele segurou os suspiros, os soluços, sofreu em completo silêncio. Aquilo me machucava, eu não conseguia saber exatamente se eu estava piorando as coisas ou não, mas eu precisava fazê-lo ouvir o meu coração.

— E-eu não posso… me desculpe…

— Não peça desculpas. Não é sua culpa — levei a mão ao seu rosto e passei o polegar por suas lágrimas. Ele mordeu os lábios, como se estivesse segurando o choro. — Eu não quero piorar as coisas pra você e sua família. Eu sei que sua mãe é religiosa e tudo, eu sei de tudo isso, minha situação não é diferente. Só estou dizendo que… — suspirei — ninguém precisa saber das nossas vidas. O que quer que venha acontecer entre a gente, eu vou levar comigo pro caixão. Eu dou minha palavra.

Depois de dizer essas coisas, nós dois ficamos em silêncio. Ele já não chorava mais, eu havia secado algumas de suas lágrimas, mas outras, já frias, ainda repousavam em suas bochechas.

Eu já não sabia mais o que falar, já tinha dito tudo. Assim que percebi que ele não mudaria de ideia, aceitei e resolvi esquecer aquela bobagem. Eu realmente não sei como acreditei que aquele lance daria certo.

— Se você estiver sentindo o mesmo que eu, eu espero que um dia você me deixe saber disso.

Dito isso, me afastei e o deixei descansando. Aquele havia sido o pior momento pra se ter aquela conversa, pois teríamos que nos ver em um evento naquela noite: ele, Branca e eu. Saí dali com dor de cabeça (e torcendo pra que ninguém enchesse o meu saco).

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Los Angeles, Califórnia – 22:00 hrs

Naquela noite fui a uma apresentação da “apenas” filha de Judy Garland, uma atriz da era de ouro de Hollywood: Liza Minnelli, a atriz principal de musicais como Cabaret e New York, New York. Eu não conhecia muito da mulher além disso, mas música é música, eu não podia me dedicar a isso sem estudar um pouco dos grandes nomes, e eu assino embaixo quando digo que só fui pra esse evento por essa razão (e porque tava na minha agenda de "lugares pra ir com o John Branca"). De qualquer forma, foi interessante conhecer mais pessoas e anotar mais contatos na minha lista de “posso precisar um dia”.

Eu me isolei em uma mesa longe dos Jacksons, preferi tomar essa decisão pra evitar qualquer encrenca. Eles me deixaram um pouco mais livre pra escolher o meu visual, então apostei nos meus tênis brancos preferidos de cano longo, calças jeans azul claro com alguns rasgos, camisa branca de gola alta, casaco azul com as mangas arrebitadas até os cotovelos e as minhas clássicas pulseiras de cordas e gargantilha (somente). Consegui tomar um vinhozinho antes do Branca mandar o garçom parar de passar na minha mesa com bebidas alcoólicas (bah, como se eu fosse um viciado de botequim).

— Morton… como está? Preparando-se para o show de maio?

Ele se aproximou e puxou uma cadeira para se sentar.

— Sim. Pode me dar dez dólares pra eu preparar minha voz?

Usei de sarcasmo, mas ele puxou o cartão do bolso e me cedeu. Okay, isso me surpreendeu.

— Use isso. É para coisas importantes, está bem?

— Ahm… claro.

Peguei sem pensar duas vezes.

— Então…. Como estão as coisas com o Michael? Vocês não ficaram na mesma mesa hoje…

— Eu tô morando com ele, é normal que uma hora ele enjoe de mim.

Eu meio brinquei, meio desabafei, mas ele parecia ter levado a sério.

— Estão brigados?

— Não, não, só… ele tá conhecendo outras pessoas, estou deixando ele respirar um pouco antes de ir fazer minhas obrigações.

— Hum… não fique muito tempo longe, pode estar perdendo um contato valioso.

— Eu sei… — suspirei, já estava cansado de tudo aquilo — posso me divertir hoje? Eu queria pegar um autógrafo da senhora Minnelli e depois comer alguma coisa.

— Vá, mas me procure em uma hora, eu quero te apresentar formalmente ao Quincy.

Assenti sem falar nada e me levantei, a última coisa que eu queria agora era falar com o Quincy. Caminhei um pouco pelo salão, sem rumo específico, buscando algum garçom somente pra roubar um salgado (Branca espantou os caras, ele me paga…).

Não demorou muito pra eu sentir uma mão tocar o meu ombro.

— Harket?

Era o Steve Barron. Putz… não o via há um tempo. O que diabos ele estava fazendo ali?

— O senhor veio pra América a trabalho, não é?

— Sim, você não viu? Te dou uma dica… meias e luva brilhantes…

— Billie Jean.

Nós rimos com casualidade.

— Trabalhou no clipe?

— Sim, e em breve quero trabalhar no seu — quando ele me disse isso, me senti de certa forma reconfortado. — E como está seu início de carreira?

— Antes, quero dizer que me sinto lisonjeado pelas suas palavras, senhor Barron. Estou pra fazer uma apresentação em maio. Eu poderia contar com sua presença?

Um garçom passou pela gente, oferecendo bebidas. Barron pegou duas taças de champanhe pra nós, mas eu não quis beber, aceitei por educação.

— Não prometo nada, mas vou ver a minha agenda — ele sorriu. — E como estão os seus amigos?

— Ainda estão em Londres, mas estão bem.

— Admiro a persistência de vocês — ele deu um gole na própria bebida. — Já que eles ainda estão em Londres, tenho um amigo por lá. Vou telefonar para ele, quem sabe isso acelere as coisas.

Eu quase perdi a voz, não sabia nem o que responder.

— E-eu…

— Tome — ele tirou um cartão do bolso interno do casaco. — Fique com o meu número. Nada de passar trote, hum? Ligue pra mim daqui a algumas semanas, falaremos mais sobre isso, e é mais fácil que você se lembre da nossa conversa, ultimamente estou com a cabeça nas nuvens.

— S-sim! Digo… está bem.

Peguei aquele cartão e coloquei no bolso sem nem desviar o olhar do dele. Tentei manter meu coração dentro do peito (vai, Morten, entre em modo "pedra de gelo"!), me contive o máximo possível. Ele tomou o resto da bebida e voltou a pôr a taça vazia na bandeja do primeiro garçom que passou por nós.

— Lhe desejo sucesso. Eu sei o que eu vi naquele pub, vocês têm potencial. Além disso… eu não concordo com as ideias do John… mas isso fica entre nós. Boa sorte, garoto.

Barron se afastou, me deixando com aquela incógnita. As suas palavras me deixaram intrigado, mas elas também me fizeram lembrar que eu tinha coisas a resolver com o Branca.

Levei a minha taça comigo e fui ao encontro dele.

Mas, antes, eu precisava falar com alguém.

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22:45 hrs

Busquei um telefone público do outro lado da rua, eu precisava deixar os caras avisados da minha conversa com o Barron, e não havia horário melhor pra falar sobre essas coisas que a chegada da madrugada onde lá em Londres o sol estava aparecendo. Digitei o número e esperei a ligação completar, Magne me atendeu.

— Oi… quem é?

— Sou eu, cabelo de miojo.

— Morten! Cara, tá muito cedo aqui, Paul ainda tá dormindo. Quais são as novidades?

— Guarda esse nome: Steve Barron. Ele tem uns contatos em Londres e talvez mande uns caras atrás de vocês.

— Boa. Esse foi o cara que abordou a gente, não foi?

— Sim. Olha, não vou poder ficar muito, o babaca do Branca quer que eu vá encontrar ele pra fazer alguma merda… A essa hora ainda tá cedo, mas quero ir logo pra isso não demorar muito.

— Pega leve com ele, ele ainda tá pagando suas despesas.

— Eu desconfio que ele tá me enrolando, Mags, o Barron me di… olha, melhor eu te contar mais tarde. Te ligo de novo daqui a algumas horas.

— Tá certo, boa sorte.

Desliguei e corri de volta pro evento.

Eu rodei aquele salão todo, e, acredite, pra mim foi muito difícil ignorar o Michael nas diversas vezes que passei por ele, mas eu o fiz pra que isso não demorasse mais tempo do que deveria, porém não vi o Branca em lugar algum. Pensei que eu teria que sair perguntando por aí, o que seria uma grande merda, ricos detestam dar informação e falar sobre coisas que não sejam eles mesmos, mas uma ideia melhor veio à minha mente: nos cantos do salão sempre têm uns "bastidores" onde esses homens engravatados se enfurnam pra se reunir, é óbvio que o Branca estaria em uma dessas salas.

Segui pelos corredores estreitos desses lugares. Eu não deveria sequer estar ali, era um espaço restrito, mas, àquela altura, depois de já ter saído em um monte de fotos ao lado do Michael, os funcionários já sabiam do meu envolvimento com os Jacksons e com o John Branca. Segui por um espaço ermo, a maioria dos velhos estavam no salão principal com a senhora Minnelli, não tinha nada o que fazer ali, e até mesmo eu já estava pra meter o pé pra fora daquele lugar…

… porém eu ouvi a voz dele.

Estava em uma daquelas salas. Eu quase bati à porta, no automático, mas minhas desconfianças falaram mais alto. Eu não quero nem saber se é errado, me aproximei e ouvi pelo outro lado.

— E por que você fez isso?

Tinha uma segunda pessoa lá dentro. Não reconheci a voz, mas pareciam calmos, como se estivessem jogando conversa fora. Pelos ruídos baixos, Branca mudou de lugar, caminhou pela sala e parou em outro canto. Ele suspirou.

— Morton é muito talentoso. A voz dele é bonita, mas já vi coroinhas que fazem igual, não há nada de realmente extraordinário.

— E está valendo a pena custeá-lo pra ficar aqui?

— Ele fará alguns shows e me dará o retorno por isso. Ninguém sairá perdendo.

— E qual o sentido de fazer isso? É pelo Michael?

Engolir aquela conversa estava difícil. Eu não sei se queria ouvir o resto, mas percebi a pausa em suas palavras, os sinais diziam que daqui pra frente só pioraria. Ainda sim, fiquei, eu precisava saber.

— Michael havia me confidenciado sobre como se sentia sozinho. O semblante dele mudou nesses meses, ele ficou diferente. Eu sei que parece loucura, mas esse menino salvou o Michael e pode continuar o salvando no futuro — após uma pausa, ele prosseguiu. — O que eu vou falar aqui não pode sair dessas quatro paredes.

— Não vou dizer nada. O que houve?

— O que Michael viveu naquela família foi um verdadeiro inferno. Ultimamente ele tem falado comigo sobre deixar a casa para os pais, isso é uma grande evolução. Eu nunca consegui convencê-lo totalmente, e Morton o fez em poucos meses de convívio. Tem ideia desse feito?

— John, eu ainda não entendi o que você vai ganhar com isso…

— Eu não estou fazendo isso por mim, estou fazendo por ele. Michael foi abusado, assediado, machucado… estou falando sério, ele fazia coisas que não queria, ele ia pra lugares que não gostava. Ele foi solitário a vida toda, mesmo rodeado de pessoas. Comecei apresentando algumas garotas pra ele, mas descobri que elas, de alguma forma, faziam parte dos seus traumas. Então busquei algum garoto da mesma idade, que não tivesse o perfil vadio dos irmãos dele, que pudesse aceitar o jeito excêntrico do Michael…

— Ou seja, você agiu como a "mãe" do menino.

— Não exagere, não foi isso… Michael é um adulto. O que eu fiz foi ajudá-lo com uma coisa que ele não sabia lidar… a solidão.

Chega.

Já não queria mais ouvir aquela voz. Não importa quantas vezes ele se explicasse, todas as máscaras caíram naquela hora, e, quando as máscaras caem, o teatrinho perde a graça.

Lentamente me afastei da porta, ainda com um ar perplexo. Eu estava estranho, eu não sabia como reagir a aquilo, mesmo desconfiando de todo aquele circo desde o começo. Até o Barron, a essa altura, não saía das minhas acusações… No fim das contas, o único que eu tinha certeza que acreditava no meu potencial e que me incentivou e ajudou de verdade foi a motivação de toda aquela brincadeira cruel: Michael.

Assim que saí do corredor deserto, dei uma última olhada no salão cheio. Busquei o moreno com o olhar, mas não o encontrei. Minha mente voltou a pressionar os meus sentimentos, e uma coisa saiu de toda essa loucura: um plano.

Tomei todo o conteúdo da taça que eu ainda segurava. Tirei o cartão do Branca do bolso e coloquei na primeira mesa vaga que encontrei, juntamente com o copo vazio. Mantive os meus sentimentos dentro de mim, minha expressão era de absoluta indiferença.

Por fim, saí do salão. Não contei a ninguém, não falei com ninguém. Voltei para Hayvenhurst sem a ajuda da limusine.

Eu vou dar o troco em cada um daqueles filhos de uma puta.

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Encino, Califórnia – 01:30 hrs

Ouvi os passos apressados dele invadindo o meu quarto. Deixei a porta aberta de propósito, não queria trocar muitas palavras, mas sabia que haveria a possibilidade de ele não colaborar com aquilo.

A porta se abriu. Eu estava na cama, me virei no mesmo instante e o encontrei irritado. As roupas amassadas, o brilho do suor na fronte e a expressão de desapontamento.

— Por que você sumiu da festa?!

Embora tentasse não falar alto, eu já havia aceitado que ele estava muito puto. Suspirei e me sentei na beira da cama.

— Não quero mais falar contigo — dizer aquilo doeu muito em mim, mas o pior foi ver o seu olhar arregalado em uma expressão de confusão. Eu tive que continuar. — Eu não vou mais sair contigo. Eu vou fazer o meu show no mês que vem e vou voltar pra Londres, de onde eu nunca devia ter saído.

— O que… Qual o seu problema? O-o que aconteceu?!

— Nada, Michael. Se você quiser que eu volte pro hotel, melhor ainda. Eu pego minhas coisas, ligo pro Branca e saio de manhã…

— Mas eu não quero que você vá! De onde você tirou essa ideia?!

— Eu não quero ficar aqui, Michael! Eu não quero!

Eu vi o momento em que aqueles olhos grandes e escuros cintilaram com as minhas palavras. Segurei as minhas próprias lágrimas, esperei que ele entendesse que eu não queria continuar aquele assunto, mas Michael estagnou em seu lugar como se não acreditasse no que estava ouvindo. Nem eu mesmo acreditava… eu estava machucando a pessoa que eu mais gostava naquele país inteiro, porém o meu plano envolvia isso, envolvia não se apegar. Michael e eu jamais daríamos certo, nós estávamos nos iludindo, o quanto antes nós matássemos aquela ideia, melhor seria.

Ele não deixou as lágrimas rolarem, saiu em silêncio, antes que elas caíssem. Eu me levantei e enfim tranquei a porta para só assim me encostar nela e chorar longe do olhar dele.uue

Notas finais
Próximo capítulo: — Michael… eu vou embora. De verdade. O que eu tinha pra fazer aqui, já fiz. Mas tem uma coisa que eu ainda não consegui… — tentei levar minha mão ao seu rosto. A princípio ele não repeliu, seus olhos escuros desceram até minha boca e eu repeti o gesto — eu não quero deixar de falar com você, de sair com você, de ficar ao seu lado… Mas eu vou embora, então isso não importa mais. Porém… se eu puder fazer um último desejo… peço que não faça eu me arrepender do que irei tentar agora.