Diário de 83

14 O Que Será Que Ele Sente Por Mim?


Notas iniciais
Capítulo 2 do dia liberado ♥ O que vcs acham que vai acontecer? Morten vai conseguir falar o que sente pro MJ? Semana que vem a gente descobre u3u só digo que tá perto de pegar fooogo Boa leitura e até a semana que vem o/

Encino, Califórnia – 10:26 hrs

2 de abril, 1983

— Sai da frente!!

A tampinha da Janet se lançou no azul daquela piscina, sem dó nem piedade, esguichando água pra tudo quanto é canto. La Toya estava descansando no ladrilho da borda, em uma daquelas cadeiras longas e retráteis, quando viu um jato de água e cloro em sua direção. Rapidamente se protegeu no guarda-sol que havia por perto, mas nem pensar que ela conseguiria se safar por completo.

— Ahr!! E é por isso que eu não tenho bebês — até parece, quem é o doido que vai querer socar numa louca daquela?

— Deixa de ser chata! Vem, a água tá muito boa!

— Na-não, eu dispenso, vai estragar o meu cabelo.

— Opa, tem mais espaço pra a gente! — Marlon, um dos irmãos do Michael, chegou logo em seguida, acompanhado de uma criança de mais ou menos 6 anos de idade.

— Ah, você trouxe a Valencia! Vem, Vivi!

Eu ri o mais baixo que pude, enquanto observava de longe a interação entre eles. Estávamos no The Lindbrook, o condomínio do Michael, em Encino. Ele havia me prometido um fim de semana livre pra conhecer a sua outra casa, era um sábado e pouco menos da metade dos irmãos dele puderam comparecer ao encontro. Eu ainda não havia visto o moreno desde que ele me pediu pra ir na frente enquanto buscava algo pra vestir, e eu fui sem reclamar, mas pensei sobre o quão chata era a sua situação atual. Eu pensei nesse momento pra que ele ficasse bem e se divertisse, porém, no fim, só o fiz relembrar do estado de sua pele. A cada minuto que passava, mais e mais eu me sentia culpado.

Contudo, ver a interação dos irmãos dele era muito divertida! Me lembrava um pouco de casa, dos meus irmãos, da minha mãe toda "coruja", mandando a gente se agasalhar pra não pegar um resfriado. Eu estava longe do grupo, somente observando, quando resolvi me aproximar e mostrar um pouco das minhas habilidades.

— "Fiu fiu"…

Janet brincou, e eu vi a Toya abaixar os óculos escuros e exibir o seu olhar predador. Eu estava só com uma bermuda curta de banho na cor azul e uma toalha de rosto sobre os ombros; deixei ela na beira da piscina, passei a mão nos cabelos e vi o Marlon revirar os olhos de tédio com a minha cafonice. Ri e me preparei pra mergulhar.

— E-espera, espera aí, aqui nã…!

Eu mergulhei bem próximo à Janet (sim, foi de propósito, eu adoro zoar aquela baixinha). Mergulhei até onde foi possível, vi quando o corpo dela quase desceu comigo. Eu a segurei pelos quadris e dei o impulso que ela precisava para voltar à superfície antes que algo grave ocorresse.

— S-seu…!

Emergi logo em seguida, com um suspiro forte. Não consegui falar nada em minha defesa, ela acabou chegando com um tapa no meu braço.

— Ai!

Marlon e Toya começaram a rir.

— Você mereceu, cara!

— O bonitinho que não sabe mergulhar sem levar o mundo inteiro com ele.

— Aê, "bonitinho" nada! "Bonitinho" é um feio arrumado.

— E você quer que eu te chame de quê? Nem pense que eu vou encher sua bola.

Eu ri com aquele comentário e balancei a cabeça negativamente. Ia revidar, mas, antes que eu pensasse em alguma coisa, o anfitrião chegou.

— Ei! Já estão se divertindo sem mim?

Quando Michael surgiu, literalmente todos nós calamos a boca. Ele usava uma bermuda de banho um pouco mais comprida que a minha e uma camisa sem mangas. De todos nós, a primeira pessoa que chamou sua atenção foi a garotinha chamada Valencia, acho que era a sobrinha dele.

— Mike!!

— Vivi!

Ele foi até a menina e a abraçou com todo aquele aprochego que, sendo bem sincero, nem eu tinha com a minha mãe. Os americanos pareciam bem amorosos nesse quesito comparado aos europeus (ou Michael era um caso extraordinário), mas, de qualquer forma, foi uma cena agradável.

— Ei, rapaz, nem pense que você vai fugir de ficar molhado, hein?

Provoquei. Michael gargalhou e levou a sua sobrinha até a borda da piscina.

— Você não me atacaria com a minha sobrinha linda por perto, não é?

— Ei! É covardia usar ela de escudo humano, você sabe que eu jamais teria coragem.

— É bom mesmo, porque o pai dela tá olhando a gente.

Michael fez um sinal com a cabeça, apontando pro Marlon que, a essa altura, fingia uma cara de "homem mau" enquanto cruzava os braços. Caímos na gargalhada, ele era um dos irmãos mais engraçados do moreno, e era divertido ver os dois disputando um "mano a mano" — mesmo ele sendo o mais velho, ainda era mais baixo que o Michael, o que deixava as piadas ainda mais divertidas.

Michael cochichou alguma coisa próximo do ouvido da menina. Ela riu baixinho.

— Vamo brincar de guerra d'água?

— Eu sei que isso foi ideia sua, Michael… — disse Marlon.

— Eu juro que não vou ser competitivo! — ele se virou pra mim — Vamos, Morten?

E quem sou eu pra negar?

Michael declarou guerra de água, então ele, Janet, a pequena Valencia e eu fomos pra piscina, que seria o nosso campo de batalha. Só os "adultos" ficaram de fora (mas a gente armou um plano pra molhar eles também!). Michael ficou no raso com a menina, enquanto Janet e eu aproveitamos pra marcar ele como alvo.

— E-ei! Se eu não tivesse com a Vivi, vocês iam ver só!

— Bela desculpa!

A manhã perdurou nessa algazarra na água. Todos nós saímos molhados, inclusive a escova da Toya (que somente não nos matou porque havia testemunhas ali). Valencia estava com fome, então o Marlon aposentou a brincadeira e entrou com ela para o almoço que os empregados estavam servindo. La Toya cansou da nossa criancice e os acompanhou na mesma hora.

— Morten, no dia que você souber valorizar uma mulher bonita quando olhar pra ela, me avise.

Afe, como ela é chata.

Janet a acompanhou instantes depois.

— Tchau, gente, foi divertido! Mas acho que vou beber alguma coisa.

E, novamente, ficamos sozinhos.

Michael soltou um suspiro e seguiu para fora da piscina. Ele se sentou à beira, onde tinha sombra, e deixou que a água tocasse apenas até um pouco acima dos seus calcanhares. Eu o acompanhei.

— Tá com fome?

— Não, ainda não… E você?

Ele balançou a cabeça negativamente, nenhum de nós queria entrar agora. Ficamos em silêncio e passamos a olhar a paisagem que havia ali. Sendo bem sincero… a visão de Hayvenhurst era bem melhor. Condomínios têm a tendência de se fechar pro mundo, o que os torna muito iguais entre si. São imagens fabricadas, plantas planejadas, ornamentos falsos. O nosso redor não era interessante, mas o momento em que estávamos passando juntos havia se tornado.

— Putz, já é abril…

— Sim… o tempo passa rápido, não é?

Michael indagou. Senti quando ele olhou pra mim, buscando uma confirmação para suas palavras. Meu olhar continuou no horizonte.

— Amanhã é páscoa — iniciei, mas ele não se sentiu instigado a continuar o assunto. Depois de um tempo, prossegui. — A essa hora, eu estaria em casa, ajudando minha mãe com a decoração de pintinhos e… colando algumas penas no rosto do meu irmão enquanto ele dorme.

Soltei um riso curto e me virei para vê-lo. Ele sorriu de canto.

— Pintinhos? Não são coelhos?

— Lá, são pintinhos. Eles vêm de ovos, né?

Michael riu e assentiu.

— Sim… A gente não comemora esse feriado. Na verdade… a gente não comemora nenhuma dessas coisas.

— Ah, sim. Mas a páscoa não é feriado cristão?

— A tradição feita hoje em dia leva características de comemorações e rituais pagãos de culto e fertilidade — ele comentou enquanto olhava o horizonte, de forma tão automática, como se estivesse lendo isso de um pedaço de papel. Em seguida, suspirou. — Mas… parece divertido.

Ele sussurrou essa última parte, como se estivesse revelando algo proibido. Eu pensei sobre aquilo… pensei se por acaso ele realmente acreditava nessas coisas, ou se estava sendo induzido. De qualquer forma, não quis provocar uma discussão sobre o certo e o errado.

— No meu país, a gente compra tudo na cor amarela e laranja. As frutas dessas cores somem do estoque na hora — ele arqueou a sobrancelha e me olhou com curiosidade. Prossegui. — Comemos chocolates, decoramos ovos de papel, fazemos um super banquete, reunimos a família, é legal… Mas aqui tem a caça aos ovos, né? Nunca joguei isso… deve ser divertido.

Michael sorriu fraco.

— Nem eu… — ele ficou em silêncio. Parecia relutante, porém queria falar mais — eu também… nunca fiz um boneco de neve.

— Ah, eu também. Se eu pegasse o meu cachecol e uma cenoura da dispensa pra montar esses bonequinhos, minha mãe me matava.

Eu ri em seguida, e o Michael me acompanhou, um pouco mais tímido.

— Tem muita coisa de criança que eu ainda não fiz.

— Hum… conhece algum parque de diversões por perto? — ele negou com um movimento de cabeça — É que eu acho que é um dos poucos lugares que a gente pode voltar a ser criança sem ser julgado — ri novamente. — O que me diz? Vou andar por aí, outro dia, e procurar um pra nós irmos.

Vi o sorriso dele acentuar, e vi quando ele tentou disfarçar, virando o rosto para o nada mais uma vez. Seus pés discretamente agitaram a água com mais ânimo, ele parecia ansioso.

— Feito. Vou te cobrar!

— Eu não vou esquecer. Mas, se eu esquecer, pode puxar minha orelha.

Eu ri, novamente perdemos o ritmo do assunto. Olhei pra ele por alguns segundos e isso fez o meu coração acelerar, a mesma sensação do proibido me consumiu, temi que pudesse estar sendo observado por alguns dos seus irmãos ou funcionários, mas meu olhar contornou a nossa volta e pude ver que eles estavam longe do nosso alcance. Depois desse pequeno susto, consegui respirar e desviar o olhar para a paisagem que ele tanto admirava. Me lembrei do ocorrido de dias atrás que quase atrapalhou nossa amizade, e me perguntei se ele não comentou nada até agora por estar tentando esquecer o que houve.

— Michael…

Iniciei o assunto. Minha mão repousou próxima à sua, tentei sutilmente iniciar uma aproximação. Ele nem se mexeu.

— Hum…?

— Sobre o que houve naquele dia…

Não consegui terminar a frase, travei quando senti a palma de sua mão envolver o dorso da minha, que repousava no ladrilho da área da piscina. Olhei rapidamente para o gesto numa atitude automática, eu realmente não esperava aquela reação.

— Ei… — ele olhou para os meus lábios, em seguida para os meus olhos, o dorso da sua mão livre acariciou o meu maxilar, mas aquele carinho foi cessado quase imediatamente — vamos entrar? Remy fez um almoço caprichado, é até pecado fazê-la esperar tanto.

Dito isso, ele lentamente se afastou e começou a se preparar pra sair. Eu estagnei por alguns instantes antes de entender o que havia acabado de acontecer.

— Er… s-sim. Sua cozinheira fez uns negócios que tão cheirando muito bem daqui!

— Ela é brasileira. Você precisa provar as coisas que ela faz! Tem um prato chamado… hum… feijo… feijoada, acho que é assim. Vem, vou te mostrar!

Nos levantamos e fomos pra dentro do prédio. Michael parecia mais animado e até se alimentou melhor comparado aos dias anteriores. Eu, por outro lado, mais brincava com a comida do que qualquer outra coisa. Dona Remy que me perdoe, os pratos eram coloridos e muito saborosos, mas um nó se formou no meu estômago, meu apetite foi pro ralo, minha mente foi inundada por feixes de memórias da minha última conversa com ele, toda essa situação estava me fazendo questionar pontos antes incontestáveis na minha vida e isso também já estava começando a me dar medo.

Quer dizer… se eu estiver mesmo gostando dele, o que será que ele sente por mim…? E até que ponto eu realmente quero saber disso?

Eu quase não engolia a comida, eram perguntas que me deixavam recluso em meus pensamentos por vários minutos, mas então resolvi olhar pra ele, do outro lado da mesa, e nossos olhares se cruzaram novamente. Aqueles olhos pretos fitaram os meus, ele sorriu pra mim. Naquele instante, eu suspirei e tentei me acalmar, algo me dizia que tudo ia acabar bem.

Notas finais
Próximo capítulo: — Eu só queria te dar um presente por você ter aturado as minhas… "peculiaridades"... até aqui. Arqueei a sobrancelha. Acho que eu estava fazendo alguma cara engraçada, porque ele segurou uma risada e puxou um banco pra se sentar perto de mim. — Sabe… esses meses foram mais divertidos que o meu ensino médio inteiro, eu que devia agradecer. — Nesse caso… de nada. Ele sorriu e me cedeu um pacote vermelho amarrado com um barbante fino e dourado. [...] — Eu tenho meus contatos. Mas ainda não terminou… — Não? Ele balançou a cabeça negativamente e se levantou. — Você tem me levado pra sair quando mais ninguém fez isso. Você me leva pra lugares comuns, que eu também adoro, e faz das minhas folgas divertidas. Eu acho que isso merece uma retribuição. — Opa, espera aí… Também vai me levar pra sair? Ele sorriu e não respondeu mais. Entendi imediatamente. — Fica pronto às oito. Dito isso, ele se retirou da sala, me deixando sozinho. Confesso que não consegui mais ensaiar, passei o dia todo pensando em onde o Michael me levaria.