Diário de 83

6 Licor de Cereja


Notas iniciais
Ooi, gente, mais um capitulo pra vcs ♥ Lancei mais uma história nova do MJ! Se for do seu interesse, dá uma olhadinha na minha lista de histórias recentes, vou gostar muito de te ver por lá ♥ Boa leitura!

Los Angeles, Califórnia – 13:22 hrs

8 de janeiro, 1983

— Eu apenas projeto na arte como me sinto, não há realmente um segredo. Os meus sentimentos, as minhas vivências, o que eu sou, eu uso como ferramenta e assim faço as minhas criações. É um pouco mágico, um pouco divino e muito trabalho duro.

Enquanto Michael dizia aquelas palavras, eu assistia a tudo de longe, junto da equipe técnica dele.

Não era um canto ruim. Eu fiquei no escuro, sentado em uma daquelas cadeiras horríveis de diretor, junto do Branca e de outras pessoas que não conhecia. Todas as luzes se direcionaram a ele, no meio do salão, sendo entrevistado por aquele repórter; ele tinha uma autoconfiança impressionante. Branca dizia que muito em breve seria a minha vez, e eu não estava realmente nervoso, mas não sou de falar muito (me pergunto se alguma coisa de interessante sairia da minha boca em um momento como esse).

A entrevista acabou depois de alguns instantes. Eu estava com a minha Canon, então fiz alguns registros (embora a iluminação do local fosse péssima). Quando as luzes se acenderam, todos se levantaram e os mais importantes foram até o Michael. Eu fiquei os observando de longe antes de tomar alguma decisão. Não sei se o Branca percebeu, mas naquele dia eu me mantive distante. Eu estava a pouco de perder a noção, absorto em uma pressão mental que eu mesmo havia criado pra mim, e conversar com algumas pessoas me ajudou a ficar de boa (isso sem falar na música. Treinar violão foi uma excelente terapia). Depois disso, parei de me preocupar, e uma coisa que eu aprendi matutando menos e observando mais foi: se você quer que pensem em você, não pense neles.

Assim que Branca me chamou, me levantei e ajeitei o meu casaco no corpo. Não desviei o olhar, segui em frente.

— Morton, o que achou?

O que tem pra achar disso?

— Bom.

— Excelente. Treine em cima disso, tudo o que você falar vai influenciar milhares de pessoas e fazê-las ter concepções das mais diversas sobre o seu caráter. Um artista bem estimado é um artista com uma carreira brilhante.

Olhei para Michael, que parecia segurar um riso por detrás daqueles Ray-ban modernos.

— John, pare de dar uma de treinador.

— Michael, garoto!

Outro homem surgiu do meio deles. Eu o conhecia apenas por nome, sabia o que ele fazia, mas era a primeira vez que nos víamos de fato.

Branca tomou as rédeas.

— Quincy, esse é o Morton. Um astro em construção, um rapaz de excelentes vocais.

— Vocês vão trabalhar juntos?

Michael ia dizer alguma coisa, mas me senti impulsionado a falar por ele. Essa era a deixa perfeita pra consertar as coisas.

— Na verdade, eu devo ficar ao lado do Michael o tempo todo, eu sou o aprendiz dele — era tudo o que eu precisava dizer, foda-se. Branca não o queria como meu professor? Tá na hora das coisas serem como tal. Eu sinto que podia estar fazendo muito mais do que mofar no hotel. — E o meu nome é Morten. Mor-ten. Pode pronunciar "Morrrten", eu não me importo, mas se quiser saber a pronúncia nativa, é Mottūn. Eu sou norueguês. Ah, e, por favor, não me chame de Morton, vou pensar que o Branca está falando comigo.

Depois daquele momento, um clima parecia ter pintado no ar e estava longe de ser dos melhores. Senti dois dedos tocarem o meu pulso e percebi que era o Michael tentando chamar minha atenção de forma sutil.

— Er… Morten tem razão, Quincy, ele chegou há um tempo e ainda não viu nada. Estou ansioso pra mostrar a ele o nosso estúdio, o lugar onde gravamos a maioria das músicas de Thriller.

— Mas agora, Michael? Você está cheio de compromissos…

Ouvi ele sussurrar em resposta, e Branca parecia concordar com aquelas coisas. Segurei um suspiro irritado e levei uma mão ao ombro do Michael, ele que me perdoe depois.

— Michael disse que ia me mostrar essas coisas hoje, eu acho que vocês conseguem um espaço na agenda dele.

Acho que nenhum de nós havia falado sobre isso com os velhos, porque eu vi, de longe, os ombros dele enrijecerem. Michael umedeceu os lábios e tornou a falar.

— Eu prometi e eu irei cumprir. São só três horas, talvez duas e meia, não iremos ficar muito.

— Pode ser quatro horas também, eu sou um pouco lerdo pra pegar as coisas.

Provoquei. Ah, hoje eu quero dormir na rua, só pode…

Quincy puxou Branca pra longe e conversou com ele sobre alguma coisa. Eu aproveitei pra fazer o mesmo com o Michael, só que de forma um pouco mais discreta.

— Acha que eles vão aceitar?

— Não sei… mas preciso confessar que você é… bom…

— Louco? Doido? Pode falar…

— bom com as palavras — ele disse, em seguida riu baixinho. — Você não é louco, só é… cirúrgico.

Ri de volta.

— Vou anotar: então é assim que se diz "louco" na América. Hum… interessante.

Eu brinquei, e terminamos tentando disfarçar nossos sorrisos pros velhos vindo em nossa direção.

— Morton, vamos almoçar. Depois, vou te levar ao estúdio. Está bom assim?

— Três horas no máximo, Michael — disse Quincy, que recebeu um aceno de cabeça do moreno.

Depois daquele diálogo, fui em direção ao carro. Eu fui almoçar sozinho, Branca ficou pra cuidar de algumas coisas burocráticas do cliente dele, então apenas um funcionário me acompanhou. Não tava com fome, quase não belisquei a comida, minha mente não conseguia parar de pensar no que viria a seguir: eu finalmente ia ver uma sala de gravação de verdade, sem a pressa do meu assessor e ainda (quem sabe) eu poderia gravar alguma coisa. Esperei o relógio dar suas horas e não falei com mais ninguém, peguei minha câmera, minha guitarra e parti.

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Estúdio em West Hollywood – 15:20 hrs

Quando Michael chegou na sala, eu já estava lá.

Me virei em sua direção. Eu estava sentado em uma cadeira giratória, mexendo naqueles botões do painel de controle, tentando entender o que cada coisa fazia. Parei quando o vi se aproximar.

— Atrasado. Coisa de celebridade?

— Acredite em mim, um dia você irá entender — ele riu em tom baixo mais uma vez. — Já está se familiarizando com os botões?

— Acho que já entendi como as coisas funcionam. Se importa se eu tirar algumas fotos?

— Dos… botões?

Ele arqueou a sobrancelha, e eu já fui levantando a câmera que estava suspensa no meu pescoço.

— É. Assim eu estudo no hotel, quando não tiver fazendo nada.

Michael custou a responder, mas me deixou fazer. Tirei poucas fotos, nada demais, não queria gastar espaço de armazenamento com esse tipo de fotografia.

— O ideal seria você ter contato com isso diariamente.

— Eu sou vocalista, não que eu precise muito — tirei a última foto e suspirei. Relaxei os ombros, deixei a câmera repousar fora do meu campo de visão e pensei por alguns segundos no que havia dito. — Tipo… eu não preciso mesmo, mas eu gosto. Eu gosto de música, de entender as origens, de ver os outros trabalhando e aprender o processo com eles.

Não vi, mas tive a impressão de que ele sorriu.

— Quer dizer que alguma coisa está nascendo em você.

— Tipo…?

— Tipo… — ele passou a remover as luvas. Quando terminou, puxou uma cadeira pra se sentar próximo a mim e enfim removeu aqueles óculos — não acho que você ficará somente no posto de vocalista. Quem sabe, um dia, você escreva suas próprias composições, seus arranjos…

Refleti sobre aquilo. Quer dizer… não que eu tivesse muito tempo pra isso naquele momento, mas as palavras dele me deixaram um pouco atordoado. Compor? Eu mal estava dando conta do meu posto, que dirá outros futuros? Eu não podia me encantar facilmente, um degrau de cada vez era o ideal.

— Eu tenho… eu tenho uma banda que faz isso por mim. O Paul é um excelente compositor.

— Uma banda? Que legal — ele manteve o sorriso no rosto. — Eles também estão no hotel?

— Não, e se eu não der ao Branca bons motivos pra trazê-los, não sei se vou dar conta de tudo isso sozinho — mordi os lábios, o fiz involuntariamente, mas vi que ele percebeu minha inquietação. — Já se sentiu muito pressionado?

— O tempo todo…

— Não, mas… digo… você tem um ótimo autocontrole, uma ótima autoconfiança, e você já deve estar acostumado com essa vida agitada. Como você consegue lidar com essa pressão?

Michael ficou em silêncio e eu até cheguei a pensar que pudesse ter falado alguma besteira. Pensei no que tinha dito, mas, antes de chegar em qualquer conclusão, ele continuou.

— Sabe… Eu tinha fé em Thriller. Eu sabia que era um álbum promissor… que alcançaria as estrelas… mas mesmo eu não pude prever o nível do sucesso que foi. Thriller ultrapassou as expectativas de todos, até mesmo as minhas. E, por causa disso, as pessoas passaram a me olhar diferente. Eu não sou mais um cantor, eu sou O cantor. Eu não sou mais um artista, eu sou O artista. Não há mais espaço para falhar… ninguém espera o meu fracasso. Tem ideia de que tipo de pressão é essa? — ele me encarou, e eu apenas movi negativamente a cabeça, em profundo silêncio — A pressão que as pessoas fazem é terrível. Elas esquecem o seu lado humano, vêem apenas os seus números, mas a pior pressão é aquela que você mesmo cria para si, pois não dá pra escapar de si mesmo.

Suspirei.

— E o que você faz?

— Eu busco pensar em coisas que gosto, coisas que me deixam feliz. Eu tento não me perder. Às vezes você precisa olhar o próprio passado e relembrar quem você é, por que motivo está aqui. Depois disso, aí sim, deve se concentrar no seu trabalho e seguir em frente.

— É difícil passar por essas coisas sozinho, não acha?

— Mas você não precisa estar sozinho. Seus amigos logo estarão com você… — ele sorriu, mas era inegável a melancolia naquele gesto. Ele estava sozinho.

Eu mordi os lábios.

— Obrigado. Você é legal, sabe? Você não devia… er… passar por essas coisas sozinho.

— Eu não estou sozinho, tenho os meus irmãos, a minha mãe… os meus fãs também. Eu vou ficar bem.

Ele era otimista demais… isso era impressionante. De qualquer forma, não fiquei muito convencido, tentei pensar em outro assunto pra cortar aquele clima pesado.

— Então… o Quincy… ele faz o quê?

— Ele é o produtor de Thriller e nós ainda vamos trabalhar juntos em outros projetos.

— Hum… não me leve a mal, mas ele parecia ser seu secretário com aquela neura de mandar nos seus horários.

Ele riu com o comentário.

— É que eu realmente estou cheio de compromissos, e muitos são com ele. Quincy sabe que eu não faltaria, às vezes parece que ele não confia em mim.

— Então quer dizer que você vai ficar ocupado pelo resto do dia?

— Por quê? Quer me convidar pra sair de novo?

Quando ele disse aquilo, eu finalmente entendi pra onde essa conversa tava caminhando. Mordi os lábios, sem saber o que responder; tudo o que eu via era o sorriso de canto dele, tomando suas próprias conclusões.

— Dessa vez eu não vou poder aceitar, mas quem sabe numa próxima? — ele inclinou o corpo para o painel e voltou a mexer naqueles botões. Eu fiquei ali, travado, ainda tentando entender como a gente havia chegado naquele assunto. — Vem. Tá na hora de usar essa belezinha, não acha? Vamos gravar alguma coisa.

Assenti e segui sem dar nenhum pio. Nós não gravamos realmente alguma coisa, mas foi divertido fazer alguns testes com ele. Enquanto eu descobria as funções de cada comando, um pouco daquela conversa inundava as minhas memórias. Michael era um cara legal… ele me lembrava os meus amigos em Kongsberg (só que rico e inteligente). Hoje estava fora de cogitação fazermos alguma coisa, eu não ia furar o meu encontro com a Judy, mas a ideia dele não era nada ruim.

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Danceteria em Los Angeles – 20:13 hrs

Lá fora nevava como se o fim do mundo fosse feito de gelo, mas dentro daquele salão era quente como o inferno.

As luzes estouravam em rosa e azul num ambiente totalmente escuro, a música era alta o bastante para não se ouvir mais nada além do DJ e as pessoas se juntavam como se estivessem prestes a criar uma orgia a céu aberto. O calor tomou conta de mim, removi o casaco e o amarrei na cintura, agora estava apenas de camisa sem mangas e com as minhas pulseiras e gargantilha.

— Hoje tá muito cheio!

Judy gritou, e eu acho que eram essas as palavras, eu não pude ouvir muito bem. Ela me guiou pelo pulso, me levou até o open bar e parou em um daqueles banquinhos. Somente naquele momento a gente pôde dar uma olhada um no outro.

— Uau… Judy, você está…

— Como é “você está muito gata” no seu país? — ela brincou, e eu gargalhei em seguida.

— Du er veldig vakker — eu respondi e mordi os lábios logo em seguida. A saia curta daquela garota… a meia-calça... drittsekk, que pernas! — Esse lugar é enorme, é muito maior que as danceterias de Oslo.

— É lindo, não é? O vitral do topo é incrível!

Ela olhou para cima por alguns instantes e eu a acompanhei no ato. Na verdade, o “vitral” era uma vidraçaria que ia da altura da janela alta até o teto, tudo de vidro para deixar o céu cintilante da noite bem evidente. Era a coisa mais linda que eu havia visto, mas aquele troço deve virar uma estufa nos dias de calor.

— E você? Pintou o cabelo?

Eu dei ombros.

— É uma coisinha que eu costumava fazer pra me apresentar. Platina, baby.

— Você fica gato até pintado de ouro. Sabe disso, né?

Comentário bem oportuno, esse, e era só o que eu precisava.

Puxei a Judy discretamente pra mais perto, porém o DJ iniciou uma nova música e uma galera louca se reuniu pra pista.

“Continue…

Com força, não…

Não pare até ficar satisfeita…”

Era pop, era R&B, era diferente das coisas que eu já havia ouvido. Ia perguntar à Judy se era outro lançamento, mas ela simplesmente me puxou e começou a dançar. Uoah! A alegria dela era tão contagiante…

— Rebola esse corpo, Morten!

Eu gargalhei com o comentário dela. Dançamos por um bom tempo, minhas pernas já estavam doendo! Puxei a Judy pela cintura e levei os lábios ao ouvido dela.

— Não quer beber alguma coisa comigo?

Sussurrei. Senti os dedos dela pressionarem minha nuca, empurrando minha cabeça para perto. Meus lábios tocaram o seu pescoço e eu segui o comando que ela me permitiu. Apertei sua cintura, mordisquei a sua pele e senti sua respiração perder o controle. Ela sorriu, eu vi o momento em que aquele sorriso lindo apareceu, em seguida me puxou para fora da multidão e eu a acompanhei sem rodeios.

— Eu vou pegar as bebidas. Vodka com algum licor bem docinho?

— O quê? — eu olhei pros lados como se estivesse escondendo um produto de roubo. — Você… você quer beber álcool?

— E daí? Não vamos beber muito e, que eu saiba, você não tem nada pra fazer no dia seguinte.

— Não, mas… tem certeza que não vamos? Porque eu tô achando que você não vai nem se lembrar que disse isso, um dia…

Ela gargalhou e levou a mão ao meu queixo, me puxou pra dar um selinho daqueles molhados que me deixa arrepiado. Tentei morder aquela boquinha, mas ela conseguiu fugir.

— Eu vou pegar, vai… Me espera aqui, hoje o bar tá cheio.

Quando a Judy saiu, levei as mãos aos bolsos e aguardei próximo do bartender. Um lugar ficou vago depois de alguns instantes, uma menina de vestidinho vermelho saiu. O lugar estava realmente cheio, então ocupei antes mesmo de pensar, e vi que ela havia deixado um documento na mesa.

— Ei! Menina…! Janet… Parkinson…

Ela arrancou o documento das minhas mãos na mesma hora que eu pronunciei seu nome. Aê, menina doida!

— V-valeu…

Ela sumiu na velocidade da luz. Não era difícil pensar que esse brotinho era menor de idade (dou 5 dólares se não for). Pelo menos ela foi criativa: "Parkinson"? Ela fez aquela carteira onde? Num hospital pra velhos?

— Que legal! Já conseguiu um lugar…

Assim que a Judy chegou, dei o meu lugar a ela e nós nos servimos com aquele líquido colorido. Diferentemente da vodka, o licor era avermelhado e tinha gosto de cereja. Fizemos uma pequena mistura e tomamos um gole ao mesmo tempo.

— E então… está gostando da noite? — eu perguntei.

— Ela não podia ficar melhor…

Judy sorriu e levantou a taça. Eu mordi os lábios.

Eu acho que pode.

Notas finais
Curiosidades: — A fala do Michael logo no início do capítulo remete a uma entrevista real que ele deu sobre as suas inspirações e o seu processo criativo logo após o sucesso de Thriller. — Quando Michael diz a Morten que talvez em breve ele faria as próprias composições, isso é uma alusão ao futuro, onde, na vida real, Morten realmente se separou da banda pra criar suas próprias músicas. x ----- x Próximo capítulo: Branca me acordou com uma mensagem no telefone do hotel, dizendo para me arrumar depressa. Eu fiz uma mochila sem saber muito o que colocar, já que a única dica dele foi: “você vai passar um dia em outro lugar”. Coloquei tudo o que eu achava importante e segui pra fora do hotel. Ele já estava me esperando no carro. Adentrei e seguimos para Encino. — O que vamos fazer lá? Ele mal olhou pra mim. Parecia eufórico, embora tentasse disfarçar. — Você vai passar um dia com o Michael. — Ah, er… só isso? — Ele me pediu isso. Sabe-se lá para o que é, mas eu, como seu assessor, garanto que você só tem a ganhar. Assenti, ainda pouco convencido por aquelas palavras. Se ele diz…