Diário de 83

31 Eu Mereço o Mundo


Notas iniciais
Ooi gente esse é o penúltimo capítulo da longfic. Finalmente, né? Parece que eu to postando essa história tem uma eternidade, e olha que eram 2 caps por semana, imagina se fosse 1 só... Esse é o primeiro cap do dia, já já posto o cap final. Espero que vcs fiquem até o final :3

Encino, Califórnia – 08:17 hrs

20 de setembro, 1983

Dois dias após o show, Michael resolveu me chamar pra sair.

Achei estranho o Branca não ter entrado em contato comigo sobre os resultados daquelas reuniões que ele teve nos bastidores, mas Michael me disse que ele mesmo me falaria sobre essas coisas, somente torci para que o teor da nossa conversa fosse positivo. Perguntei se os caras poderiam estar juntos, mas o moreno preferiu apenas nós dois. Não reclamei.

Me levantei cedo, coloquei uma roupa de frio e fiz uma refeição leve. Levei as mãos aos bolsos e saí ao lado do Michael, ele estava vestindo um casaco com capuz, luvas e botas de frio. Evitou os mocassins, o Ray-ban, as meias altas, as calças curtas, tentou ao máximo não parecer consigo. Eu ri disfarçadamente, era engraçado o jeito inocente como ele fazia isso, como se os fãs malucos dele pudessem reconhecê-lo apenas por essas coisas. Caminhamos pelas avenidas até chegarmos em um parque aberto, cheio de árvores altas com folhagens laranjas que exalavam um cheiro particular de cedro e madeira e espalhavam suas folhas secas pelos quatro cantos. Arqueei a sobrancelha e olhei para aquela paisagem por alguns segundos.

— A gente já veio aqui?

Ele sorriu.

— Tomamos sorvete aqui, não lembra? Você me fez limpar as mãos na neve, nunca vou me esquecer desse dia.

— Ah, sim! Tinham uns moleques brincando aqui perto… Lembro sim. Vamos tomar outro sorvete?

Ele riu.

— O que me diz?

— Sei que você não gosta de chocolate, então vamos ter que pedir outro sabor — eu ri. — Baunilha, talvez?

— Legal. Vamos…

Fomos à mesma sorveteria, o mesmo homem estava lá para nos atender. Quando ele terminou de me servir, notei que ele parecia confuso ao me ver.

— Você é o… — ele olhou pra outro funcionário ao lado — como é o nome dele?

— Morton.

— Isso! Morton, Morty…

Revirei os olhos e sorri.

— Sou eu.

— A minha filha é sua fã! Pode deixar um autógrafo pra ela?

Ouvir aquela pergunta me deixou embasbacado, mas eu consegui disfarçar com um sorriso. Assenti e esperei um pedaço de folha qualquer pra que eu pudesse deixar uma mensagem bonita para a minha fãzinha. Aquilo era o início da minha carreira, eu já estava sentindo os primeiros resultados e era uma sensação revigorante de trabalho bem feito.

Assinei e entreguei a ele.

— Vá, não precisa pagar. Meus parabéns pelo seu trabalho!

— Não, não se preocupe, eu faço questão — tirei o dinheiro do bolso e o deixei na bancada. — Bom trabalho a vocês!

Assim que saí, vi que o Michael estava me esperando do lado de fora.

— Por que não ficou lá dentro?

Ele deu ombros e começou a caminhar.

— Não queria atrapalhar o momento. Sua banda está se disseminando, isso é muito bom!

Eu sorri. Michael detestava falar essas coisas, mas eu sei que ele tinha medo de que sua presença atrapalhasse o meu holofote. Michael não gosta de admitir que é mais famoso que eu, porém eu sou bem ciente disso. Eu gosto de ver como ele gosta de me ajudar.

— Aos poucos as coisas vão acontecendo. É o que eu mais quero, espero estar pronto pra isso.

— Depois dessa faculdade toda, você está, com certeza.

Seguimos até o gramado baixo, onde as famílias faziam piquenique e as crianças brincavam de correr. Me sentei nas folhagens com o Michael, no morrinho mais alto, e tomamos o sorvete em paz.

— O Branca te disse por que ele não entrou em contato comigo ainda?

— Ele queria te dar um tempo de descanso. Ele me passou todo o conteúdo das reuniões que teve, eu mesmo pedi pra te contar no lugar dele.

— Oh… — terminei o meu sorvete em poucos instantes, em seguida prestei atenção em suas palavras — Então… o que houve? Conseguimos algum acordo?

Michael suspirou e finalizou o seu doce antes de continuar.

— Tem dois caras que querem trabalhar com vocês em Londres: John Ratcliff e Terry Slater — quando ele disse esse último nome, meus olhos se acentuaram. Eu já tinha o ouvido antes, em uma conversa com o Paul meses atrás. — Slater é um empresário, ele ficaria responsável pelos seus acordos, e Ratcliff adorou as produções de vocês, ele quer entrar no projeto com o alojamento, com os espaços para os ensaios, para as gravações…

— Uau…

— Isso não é tudo — ele olhou para mim —, vocês precisam de uma gravadora. Sem uma gravadora para injetar dinheiro, as coisas não saem do lugar. Vocês precisam lançar o álbum de estreia.

— Esse tal de Slater vai ajudar, não vai? Já estamos a meio caminho adiantados.

Michael novamente desviou o olhar para o horizonte e assentiu em silêncio. Eu mordi os lábios, me perguntei o que diabos ele tanto estava custando a me dizer.

— Morten… — ele levou uma mão à minha, esquentou o meu dorso com a sua palma. Eu olhei em seus olhos, mas ele não olhou nos meus, ainda observava o horizonte — Você está mais próximo do que pensa — ele enfim olhou pra mim e sorriu um sorriso tímido. — Tem uma gravadora que quer trabalhar com vocês.

Eu custei a entender, mas, quando a ficha caiu, o olhei espantado.

— Espera… Vamos fechar acordo?

Michael aquiesceu em silêncio, seu sorriso evoluiu para um ainda mais alegre, sua palma apertou a minha mão com carinho. Eu suspirei, a adrenalina subiu pelo meu corpo, porém me esforcei para não pirar naquele momento!

Drittsekk, drittsekk…

Michael riu.

— Parabéns! É melhor você ficar feliz, eu não tentei simular uma expressão séria a toa!

Eu me levantei na hora, ainda atordoado. Michael me acompanhou e me cumprimentou com um abraço. Eu queria beijá-lo, jogar ele na árvore mais próxima e arrancar todo o seu fôlego! Eu estava feliz demais! Por que droga ele escolheu me contar aquilo em praça pública?!

— Michael, você não faz ideia do quanto eu quero te beijar agora…

— Tanto quanto eu? Acho que eu sei sim… — ele riu — Vem cá…

Michael segurou minha mão e me puxou lentamente para o pequeno bosque que havia ali perto. As copas das árvores obstruíam a visão do céu, o caminho era limpo, extenso e linear, e de ambos os lados só havia folhas no chão. Eu o segui sem medo, estávamos sozinhos, no máximo um guardinha florestal nos pegaria. Michael perambulou por mais alguns instantes até escolher um ponto para parar. Quando ele virou para mim, meu sorriso lentamente se desfez.

— O que foi…?

Sua expressão era serena, mas havia lágrimas nos olhos. Ainda disfarçando com um sorriso, ele rapidamente tratou de limpá-las, porém eu já havia visto tudo.

— “O que foi” o quê?

— Não sei… Você está chorando.

— Estou bem. Vai passar, só não me acostumei ainda…

— Não se acostumou com o quê?

— Morten… — ele suspirou, parecia cansado — você vai embora. Você não entendeu? Você vai voltar pra Londres, uma gravadora quer trabalhar contigo. Não tem… não tem mais nada pra fazer aqui.

Ouvir aquelas palavras fez a minha ficha cair pela segunda vez. Eu fiquei em silêncio, mas Michael tratou de quebrá-lo.

— Eu quero que você cresça e que ganhe o mundo. Você merece, você se esforçou muito. A gente vai se ver outras vezes… em outros momentos. Eu sei que vai.

Uma lágrima desceu pelo seu rosto, mas ele a limpou rapidamente mais uma vez. Eu olhei para aquela situação, meu coração se fechou. Eu estava feliz pelas minhas conquistas, mas as consequências me desanimaram.

— Espera… espera, espera aí, já vamos nos mudar??

Ele lentamente fechou os olhos e assentiu em silêncio.

— Mas o contrato é de um ano. O meu contrato com o Branca não é de um ano??

— Morten, o contrato pode ser encerrado se você iniciar com uma gravadora. Esse não era o objetivo de vocês? É uma coisa boa…

— Mas eu… eu não estava pronto pra isso — suspirei, eu precisava manter a calma, nada de explodir agora. — Quando nós vamos embora?

— Assim que você assinar. E você precisa assinar logo, você não pode perder essa oportunidade — ele levou a mão ao meu rosto, seu dorso acariciou a minha bochecha como sempre gostava de fazer. Michael sussurrou: — É uma coisa boa…

— Eu sei, eu sei… — sussurrei, mais numa tentativa de me convencer do que respondê-lo — Eu não queria ir embora, Michael. Não agora…

— Mas você tem que ir. Não perca essa oportunidade. Teremos muitas chances de nos ver novamente…

— Mas não vai ser a mesma coisa, não vai… — eu olhei em seus olhos — Lembra da nossa conversa no rancho? Do seu medo? Eu sei que era inevitável, mas… eu não queria… não deveria ser agora…

Eu não terminei os meus pensamentos. Michael lentamente me puxou e me conduziu a um beijo, e eu não quis negá-lo. Entrelacei os braços em sua cintura e o apertei, eu não queria soltá-lo em momento algum. Senti suas mãos aquecerem o meu rosto, ele me beijou até conseguir arrancar o meu fôlego, o que não era uma tarefa muito fácil. Soltei um suspiro entre aquele carinho, retribuí o seu beijo molhado e só desfiz quando ele mesmo quis.

— Morten… — ele murmurou — seja homem, porra.

Eu arregalei os olhos. Não queria, não era o momento, mas deixei uma risada espontânea escapar, não deu mesmo pra segurar.

— M-Michael…

Ele também riu, porém tentou se segurar mordendo os lábios.

— Eu não quero te ver triste, já falei. Você realizou o seu sonho, cara! Você merece o mundo! Agora para de chorar, vamos aproveitar o tempo que ainda temos. Vamos a um cinema, vamos jogar videogame…

Eu suspirei e assenti. Ele tinha razão… eu estava me lamentando que nem um coitado, eu precisava manter minha cabeça erguida. Eu merecia, eu fiz por onde. Eu mereço o mundo.

— E por que a gente não faz isso agora? Vamos ver todos os filmes em cartaz, e depois sair pra dançar… eu nem curto dançar, mas por você eu faço.

Ele riu e segurou minha mão, em seguida me puxou novamente e voltou a caminhar.

— Feito! Mas, se a gente tumultuar a discoteca, a culpa é sua! Você vai me tirar de lá de um jeito ou de outro, você já fez isso uma vez e vai fazer de novo!

— Pode deixar, chefe!

— Hum… só me faz um favor? Não conta pra minha mãe que eu falei aquele palavrão, okay?

— Ah, é? Vou pensar…

— Morten!

Nós saímos do bosque, aos risos. Precisávamos, estávamos nos apegando a esses momentos. Não é como se não fôssemos nos ver nunca mais, mas nós dois sabíamos o quão incerto era o futuro e como as coisas poderiam se desfazer na distância. A realidade é que eu vou embora… em um dia ou dois… e eu precisava aceitar isso. Eu vou embora.

Notas finais
Próximo capítulo: Diário… Há tempos não escrevo nesse bloco de notas idiota, mas senti saudade. Detesto admitir, mas é terapêutico. Desde que voltei à Londres, não senti mais falta de escrever sobre os meus dias, os meus pensamentos, porém eu refiz meu caminho de volta aos Estados Unidos por causa do recesso de fim de ano, e eu acho que vai ser interessante escrever sobre o que aconteceu nessa aventura.