Diário da Insônia
1 CAPÍTULO UM
Notas iniciais
Eu estava atrasado. Corri o máximo que pude. Iria ser meu primeiro dia de aula. Quando atravessava o terceiro quarteirão para chegar a minha escola esbarrei em uma coisa, ou melhor, em alguém. Ele caiu no chão, tinha um cabelo cheio de estilo, tinha olhos castanhos que por acaso fitavam os meus com raiva. Sua pele branca e seu casaco branco ficaram empoeirados. Olhei para o chão nervoso, pensei que o cara iria me bater, mas não, ele apenas se levantou e continuou seu caminho sem dizer nada. Na rapidez de tudo não percebeu que tinha ralado o braço. Fiquei apavorado com aquela situação, não era o tipo de coisa que gostaria de lembrar no meu primeiro dia no novo colégio.
Quando cheguei à portaria, perguntei timidamente onde ficava minha sala, umas pessoas olharam para mim, o que era normal, vendo aluno novo no pedaço. Depois de me informar onde ficava minha sala subi, com a garganta seca, as pernas trêmulas, coisas de primeiro dia. Eu vi uma sala com uma placa que dizia: 1ª ano. Me aproximei da porta e entrei, como estava muito cedo, não havia muita gente na sala. Sentei na última cadeira da última fileira. Detestava sentar na frente, principalmente sendo novato. Quando estava sentado me distraí com uma janela de vidro que se encontrava do meu lado. E ao olhar para porta novamente o vi entrar, para minha surpresa.
O mesmo cara que eu tinha esbarrado na rua. Não sei por que, mas ele me dava muito medo. Sempre me disseram que nesses colégios tem sempre alguém querendo arranjar briga. Ele sentou-se uma cadeira depois da minha, na fila do lado. Fiquei olhando de lado para constatar se realmente era ele. Com toda certeza baixei a cabeça. Uma garota loira de olhos verdes me cumprimentou. Eu na minha timidez calçuda retribui com um sorriso, quase que derretendo. O rapaz não parecia me reconhecer, o que era ótimo naquelas circunstâncias.
A aula parecia que iria começar. Ninguém mais falou comigo, mas sabia que quando entrasse algum professor teria aquele discurso de bem vindo alunos novatos e perguntas. Quando o professor de matemática perguntou meu nome, eu gelei, não só por a classe toda ter se voltado a mim, mas também porque ele olhou finalmente e depois conversou baixinho no ouvido da colega do lado. O que me intrigou.
A aula passava, eu ficava quieto no meu lugar, de vez em quando olhava para ele, ele estava conversando demais na aula, percebi que ele era muito conversador. A colega dele era amiga dele pelo que pude notar, porque depois da aula havia um intervalo pequeno e nesse intervalo pude vê quem saia com quem, conversava e lanchava junto. Eu fiquei na biblioteca, nunca gostei de ler, mas como não conhecia ninguém ainda, peguei um livro sobre a guerra do Iraque e outros que nem ouso dizer o nome, de tão entediantes e com palavras dificílimas. Tudo bem que eu havia repetido dois anos e provavelmente era o mais velho daquela turma, mas não conhecia tais palavras de dicionário de historiador.
O intervalo era curto, mas deu para da uma relaxada. Voltei a sala muito mais calmo e meu nervosismo a cada aula ia diminuindo. Um garoto baixinho que sentava um pouco a frente do rapaz que eu esbarrara começou a puxar conversa comigo. Perguntava meu nome, idade, onde morava, o que faço de bom, se eu era CDF e outras coisas. Eu como não tinha outra saída quis ser gentil e respondi a todas. O que pesava era minha cabeça imaginando o que aquele rapaz, o de cabelo maneiro, estava pensando de mim. De um jeito ou de outro certamente eu descobriria.
O primeiro passo foi tentar saber como ele se chamava. Fiquei com o ouvido atento, esperando alguém chamá-lo na chamada ou algum amigo dele. Por sorte consegui ouvir quando a amiga dele o chamou. Kall. Nome interessante, nome de atitude, nome... Não havia muito que pensar. Eu estava concentrado em chegar em casa e contar como foi o meu dia.
No meu dia incluía aulas boas, professores bons e um garoto interessante. Almocei rápido. Entrei no meu quarto e fui dormir um pouco. Acabei sonhando coisas, acordei em seguida. Ele aparecia no sonho, não era muito nítido, também nunca acreditei nisso. Olhei para o relógio e já era bem tarde, levantei da cama e fui assistir TV e comer um lanche. Depois fui dormir.
O dia seguinte foi pontual. Acordei cedo, fiz o que tinha que fazer e fui embora. Cheguei ao colégio cedo e por alguma brincadeira do destino pisei em fezes de cachorro. Um baita azar! Pensei. Como se não bastasse o vi atravessando a rua e me distrai, escapando por um triz de um atropelamento. Ele olhou de lado e deu para perceber que ele tinha visto tudo. Eu ajeitei minha farda amassada e entrei no colégio. Fui no banheiro para tentar tirar o cheiro ruim da sola do meu sapato, fiquei um bom tempo lá, foi quando escutei duas pessoas entrando. Era ele e mais um amigo, um alto como ele, com cabelos castanhos e olhos castanhos escuro, moreno. Eles falavam sobre música e sobre uma loja também, depois que perceberam que havia alguém no banheiro pararam de falar e saíram.
Na sala, eu tinha chiclete na bolsa e ofereci para algumas pessoas, mas quando fui pensar em oferecer para ele, não tive coragem, não sabia por que, nem como, nem que explicação, mas um simples chiclete eu não consegui oferecer, então discretamente guardei de volta na mochila.Quando deu o toque para o sinal mais uma vez fui para biblioteca e fiquei lá refletindo. Não entendi nada. O meu medo por esse rapaz, a falta de coragem que me dava quando eu pensava em ter algum tipo de comunicação com ele.
No final do intervalo todos foram embora rapidamente, a garota que antes havia falado comigo me deu um tchau, significativo, porque eu precisava me socializar logo, e ocupar minha cabeça. Eu não sabia, mas isso mais tarde seria necessário. Muito necessário.
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