Chamo-me Micaele Differ, ou era assim que todos me chamavam. Queria ter uma vida normal, como qualquer garota da minha idade: colégio, amigas, festas, garotos. Mas tudo isso não passa de ilusões de um passado que luto para esquecer.



A cada dia que passa, minha vida vem se tornando uma luta incansável. A minha arma de sobrevivência é o silêncio. Existem seres lá fora que desejam desesperadamente pela minha morte, e farão isso de qualquer forma para poderem saciar uma fome que nunca tem fim.



Encontrei esse diário em uma mercearia qualquer, em busca de comida, jogado ao chão próximo a uma pilha de cartões desejando feliz aniversário. Surgindo a ideia de usa-lo como desabafo, perante a toda essa turbulência que venho passando.



Pode parecer uma maneira idiota de agir: um diário para escrever todos os meus sentimentos, como aquelas garotas que se imaginam com seupríncipeencantado montado num cavalo branco. No entanto foi a melhor maneira de não tentar umsuicídio e acabar com tudo em poucos segundos. Não sei explicar como tudo começou, a única coisa que posso afirmar é que estou sozinha nisso tudo. Vi minha mãe ser devorada pelo meu pai e tive que enfiar uma faca de churrasco na cabeça de minha irmã. Foi tão rápido e cruel que cheguei a pensar que tudo não passava de um tremendo pesadelo.



Pessoas correndo desesperadas pelas ruas; carros desgovernados tentavam fugir; policiais descarregavam suas armas para todos os lados; os noticiários não paravam de falar sobre o mesmo assunto — "O mundo está chegando ao fim?” ““ Ficção tornando-se realidade” “Mortos-vivos atacam".



Corri desesperada por ajuda, mas todos estavam preocupados em si salvar em meio aquela destruição. Chorava feito uma criancinha de 5 anos que se perdeu da mãe no meio do Shopping. O cheiro de morte impregnava todos os lugares e as poças de sangue eram enormes dominando os asfaltos.



Os tais zumbis espalhavam-se em cada canto que se olhava, podia sentir em seus olhos frios a necessidade de matar e fugia deles a todo o momento. Foi quando encontrei um pequeno armazém abandonado, a uns 4 km da minha casa, tranquei a porta e me abriguei naquela escuridão por algumas horas. A sede e a fome apertavam, mas tive que ser mais forte. Ouvia os gritos lá fora e nada podia fazer só me silenciar e esperar o tempo se transcorrer, acabei pegando em um pesado sono apagando-me de um mundo em meio ao terror.



Acordei assustada de um sonho que não me recordo, mas que causou calafrios em minha nuca. Parei por alguns segundos tentando processar tudo que já aconteceu, fazendo recordar de toda crueldade que presenciei lá fora, vindo aos olhos lágrimas que não pude segurar. Chorei, deixei o meu espirito se acalmar, tomei coragem para levantar e fui à busca de alguma maneira para iluminar o meu esconderijo temporário, encontrando uma pequena lanterna dentro de uma pilha de caixas. Quando a liguei deparei-me com várias ferramentas de construção, possivelmente da construtora que está erguendo um estádio logo á frente. Foi quando tive a ideia de sair e procurar algum alimento, estava muito fraca, pegando um pedaço de ferro de mais ou menos um metro e meio de comprimento como arma de defesa.



Respirei fundo, sentia todo o meu corpo tremer de nervosismo. Sabia que a morte me esperava no outro lado da porta, no entanto tinha que enfrentar. Se um dia eu já tive medo, nada se comparava a esse momento e nunca vai se comparar, com certeza. Conseguia ouvir as batidas do meu coração, batidas rápidas e descontroladas, mas continuava a avançar. Foi quando coloquei a mão na maçaneta e senti o frio do metal em contanto com minha mão que fervia feito um caldeirão, girando devagar com o máximo de cautela que poderia ter.



****



Já era noite, e a tranquilidade deixava transparecer uma perfeita normalidade. O inverno está chegando, a temperatura diminui cada vez mais e especialmente naquele dia o vento estava congelando os meus ossos. A lua estava escondida atrás das nuvens, as estrelas devem ter fugido. Precisava fazer o mesmo. Avancei pela rua, temia encontra-losnovamente, contudo só a destruição estava presente naquele cenário. Caminhava devagar evitando emitir qualquer barulho e sempre acompanhada da minha barra de ferro, segurando com as duas mãos, gastando o resto das minhas energias. Foi quando me deparei com um carro capotado e totalmente destruído emitindo uma voz quase inaudível pedindo por ajuda, surgindo uma pequena chance de encontrar algum sobrevivente. Formando em meu rosto um sorriso de esperança.



Ela estava muito ferida, tinha por volta de seus 70 anos ou mais. O fio da sua vida estava esvaecendo, mas precisa dela ao meu lado. Apoiei a sua cabeça no meu colo, seus olhos focavam em mim e tentei ouvir as suas últimas palavras:



-Fuja... Corra da... Corra daqui, procure ajude...



Não deu mais tempo de poder perguntar o motivo disso tudo estar acontecendo ou ao menos de saber o seu nome, somente a deixei seu corpo inerte ao lado do seu carro e desejei que sua alma descansasse em paz, num lugar muito melhor ao que estou presenciando ultimamente. No entanto, o pior que se podia esperar estava para acontecer: logo à frente dezenas, ou melhor, centenas de zumbis surgiram. Reconheci vários rostos, nas quais convivi por longos anos e que agora tentavam tirar um pedaço da minha carne. O desespero veio à tona e sair correndo em busca de proteção, mas eles eram muitos e cheguei acreditar que não sairia viva depois daquela emboscada que acabei caindo. O caminho de volta para o armazém estava bloqueado por eles e a única saída foi uma pequena estrada para o parque florestal que tantas vezes passeei com minha família.



Parque Sol Nascente, o melhor lugar para se passar uma maravilhosa tarde com seus amigos e agora parecia uma tenebrosa cena de filme de terror em que o vilão poderia aparecer com uma serra-elétrica a qualquer momento. Avancei mata à dentro desviando de árvores de diversos tamanhos; meus sentidos já estavam atordoados pelo cansaço, porém precisava me despistar desses idiotas que não saiam da minha cola. Como acontece com todos os mortos, o corpo acaba se enrijecendo com decorrer do tempo o que não seria diferente para eles, dando-me uma vantagem. Porém, eles tinham uma vantagem: poderiam andar naquela velocidade por horas e horas; quanto a mim, uma hora iria desmaiar.



Por sorte, deparei-me com um rio que corta o parque com suas águas escuras e profundas, mas calmas. Saltando sem pensar duas vezes, nadando de forma brusca e com a maior velocidade que pude fazer, enquanto os zumbis tentavam me seguir, ficando para trás submergindo para nunca mais voltarem.



Depois de tanto nadar, com os braços doloridos e com as pernas em cãibra, decidi subir à margem e repousar um pouco. Dormindo por horas e horas sem cessar em cima de uma árvore...



A partir de agora começa uma nova vida que não desejaria para o meu pior inimigo. Sujarei minhas mãos de sangue para me salvar, a felicidade não faz parte do meu cotidiano e a solidão tornará a minha única parceira nisso tudo. Só desejo encontrar alguém para poder conversar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.