Diário De Uma Fênix
3 9 de setembro
Será que as outras pessoas também têm essa sensação às vezes?
Sensação de ter perdido um dia?
Mas não aquela sensação comum, que eu sei que ocasionalmente todo mundo tem.
Todo o mundo já experimentou aquela frustração de não ter conseguido fazer tudo o que gostaria no dia.
Todo o mundo já se chateou por não ter conseguido seguir um planejamento, um cronograma...
Todo o mundo já achou que o dia pareceu pequeno demais para concretizar seus planos. E, por não alcançarem o que queriam, pensam que perderam o dia...
Mas não é dessa sensação que eu estou falando.
Eu me refiro a algo muito mais forte, muito mais desconcertante.
A sensação é menos revoltante e mais nostálgica.
Traz algo de melancólico.
Eu perdi um dia.
E a sensação não é causada por ter deixado de fazer algo.
Esse é o ponto.
Realmente, não fiz nada hoje.
Bom, fiz só pela manhã... Tive que ir trabalhar.
Mas é tão estranho, porque, olhando agora, a manhã de hoje me parece tão distante.
As pessoas se sentem assim também?
Que dia estranho...
De ontem para hoje (ou melhor, da madrugada de hoje para o dia de hoje), eu dormi umas duas horas, talvez duas horas e meia. Mas não passou disso.
Precisava acordar cedo. Uma revista contratou meus serviços para tirar foto do amanhecer para uma matéria sobre como levar uma vida mais saudável, algo assim.
As fotos ficaram excelentes. Até me surpreendi comigo mesmo.
Se bem que eu tenho dessas coisas.
Quando estou no meu limite, quando me encontro mal e sinto que não vou conseguir aguentar...
É sempre nessas horas que eu encontro forças não sei onde e me supero.
Não foi a primeira vez que isso aconteceu... também não deve ser a última.
Considero como algo muito próprio da minha personalidade. Eu detesto falhar. Detesto estar aquém do que sei ser capaz de atingir.
Por isso, quando começo a me sentir fraco, quando começo a sentir que estou caindo... Algo de revoltante vai crescendo em mim, um sentimento de não aceitação; é até mesmo desesperador.
Não gosto de me entregar.
Então, quando atinjo o fundo do poço, quando parece não haver saída a não ser me entregar... é aí que eu pareço renascer.
De algum lugar, surgem forças dentro de mim que ajudam a me reerguer. É impressionante; nessas horas eu pareço até mesmo mais forte e mais vivo que nunca.
Ressurgir das próprias cinzas. Eu realmente tenho o complexo da Fênix.
Hoje de manhã, para conseguir me levantar da cama foi necessário um esforço sobre-humano. Eu estava com o corpo cansado, a mente cansada... Esgotado.
Mas tinha um trabalho a fazer e ainda possuo um senso de responsabilidade muito grande.
Levantei-me sentindo a garganta tão seca que, tropegamente, sem nem me preocupar em acender as luzes pelo apartamento, eu fui até a geladeira e acho que bebi um litro d’água de uma única vez, tamanha a minha sede.
Eu estava mal, muito mal mesmo.
O corpo pedindo com urgência para descansar, implorando por repouso, enquanto meu lado racional me impulsionava para seguir em frente, mesmo que me arrastando.
Acho que fui literalmente me arrastando.
Nem me lembro de ter colocado meu equipamento na mochila. Eu estava ligado no modo automático, só pode...
Dirigindo meu jipe para o local das fotos, eu só me recordo de uma coisa: de tentar me manter desperto e de evitar a direção muito perigosa, afinal meus reflexos estavam péssimos.
Esse trabalho só me tomaria parte da manhã, mas, quando estamos muito cansados, é impressionante como até dez minutos podem parecer mais do que se pode aguentar.
Entretanto, chegando ao local... depois de ouvir o que o cliente queria, enquanto começava a arrumar minha câmera, eu respirei fundo.
E, de repente, eu era eu mesmo.
Era eu de novo.
O eu que conheço, o eu que gosto de ser.
Fiz meu trabalho excepcionalmente bem. Uma energia revitalizante brotava de todo o meu ser. Parecia estar na minha melhor forma.
Mal vi o tempo passar. Não sentia o cansaço. Consegui fotos incríveis, o cliente não poderia ficar mais satisfeito.
Dez horas da manhã eu já tinha terminado o meu trabalho.
Fui embora me sentindo bem. Orgulhoso. Sensação de tarefa cumprida.
Cheguei ao meu apartamento pensando na pilha da coisas a serem feitas.
Passei tão mal essa semana, que deixei acumular muito trabalho.
Como eu ainda estava dentro do prazo, me permiti ir adiando.
O prazo acaba hoje. Tenho que fazer photoshop em um monte de fotos, preciso encaminhar uma série de pedidos e agendamentos e tenho que finalizar uns projetos.
Estava sentindo a adrenalina correr solta pelo meu corpo e parecia que eu funcionaria o restante do dia a todo vapor.
Entrei no apartamento, e aí...
Simplesmente não sei o que aconteceu.
Eu me lembro, vagamente, de ter fechado a porta.
Deixei a mochila sobre a mesa, liguei meu notebook...
Sentei-me no sofá, só para recuperar o fôlego...
E apaguei.
Acordei agora há pouco.
Já estava escuro.
Nem vi como ou quando peguei no sono.
Dormi como uma pedra.
E eu acordei me sentindo mais descansado; é verdade.
Mas me sentindo estranho. Vazio.
Não, eu não estou me sentindo preocupado por causa do prazo estar acabando. Aliás, está quase acabando mesmo. São 22:56 agora.
Eu devia estar preocupado. Tinha tanta coisa para fazer e não fiz nada.
Só que não estou conseguindo me importar agora. Estou em um estado meio letárgico no momento.
Isso acontece comigo às vezes. Eu sei o que aconteceu.
Todas as minhas reservas de energia foram usadas hoje pela manhã. Essa minha mania de descarregar tudo quando estou próximo de pifar um dia ainda vai acabar comigo.
Eu já estava acabado, fui usar forças que praticamente não tinha... eu me esvaziei por completo.
Dormi uma vida.
Por isso, tudo que aconteceu de manhã parece tão distante...
Eu mesmo,pareço tão distinto...
Acho que recuperei as energias.
Mas sempre que passo por um processo desses, eu fico me sentindo tão estranho.
Quando estou no meu limite, sempre me sinto tão vivo. Tudo em mim parece tão desperto, cada um dos meus sentidos fica tão aguçado, que eu mergulho no momento com tudo que sou.
Quando estou no meu limite, é quando sou melhor.
O problema é que, passado o limite, quando mergulho, quando me jogo de cabeça no precipício, é isso que acontece... eu me queimo nesse fogo que me desperta e me faz sentir vivo... mas depois eu descubro que esse mesmo fogo é capaz de extinguir o que eu sou.
Quando regresso das chamas, descubro que virei cinzas e é daí que me vem essa sensação. Sensação de vazio... de um dia não vivido... de uma não existência... de não pertencer... de não estar aqui, de fato.
Eu sei que vou ressurgir. Ressurgir das cinzas. Fênix. É isso que sou.
Mas entre o ápice, que é quando estou no meu limite, e meu ressurgimento das cinzas, fica esse vazio em que eu estou agora.
Não chega nem a ser uma sensação. Estou tão apático que é difícil dizer o que sinto, ou se sinto algo.
O Shun tem razão. Eu vivo extremos demais. Isso pode fazer mal para mim algum dia.
Que seja. Quando esse dia chegar, eu passo a me preocupar.
Desde ontem, não me alimentei. Assim que despertei, pedi um lanche. Acabaram de tocar meu interfone.
Foi só a comida chegar que a fome pareceu acordar de verdade.
E sentir fome me ajuda a sentir que estou vivo.
Estou regressando.
Já começo a sentir que estou de volta.
Ou, ao menos, voltando.
Meia-noite em ponto agora.
Mais um dia.
Menos um dia.
Tudo depende da perspectiva.
Tenho muito trabalho a fazer.
Teoricamente, meu prazo acabou... Mas, como estou sentindo que a vida está voltando para mim, lentamente... vou trabalhar.
Afinal, dormi o bastante. Tenho algumas horas.
Quem é que precisa dormir de meia-noite às seis da manhã, não é mesmo?
Sim; hora de trabalhar. Muita coisa para se fazer.
Vou comendo enquanto trabalho. Assim eu ganho tempo.
E, amanhã... ou melhor; hoje – já é sábado, dia dez – eu tento resolver os problemas que ficaram pendentes com Shun e os outros desde o sábado passado.
Pelo visto, vou adiar esse assunto mais uma vez. Não falei sobre ele ontem, não vou falar a respeito hoje.
Provavelmente, quando eu voltar a escrever aqui, já estará tudo resolvido. Para o bem ou para o mal.
Que fome. Vou devorar esse sanduíche em minutos.
É isso aí. Vamos trabalhar.
A vida não para, Ikki.
Você também não pode parar.
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