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Dias depois tudo voltou a correr normalmente, se normal quer dizer matar animais e pessoas e se transformar numa estranha criatura terrivelmente cruel.

Nada mais importava, nunca realmente importou, às vezes tenho ódio desta parte tão fraca dentro de mim, que não luta, nada conquista, apenas sobrevive como pode e teme algo, não sabe-se por quê, não sabe-se o quê, apenas teme, pois é débil e medrosa, um ser odioso!

Certas noites quando a lua não surgia, o rosto de Tom vinha assombrar-me a memória, como um espírito inquieto, sentia sua presença rondar meu corpo, cercando-me, tentando invadir meus pensamentos, sempre ao ter esta sensação o vento assoviava, vindo de longe... Um longe que meus olhos não poderiam nunca enxergar, galhos secos se partiam ao redor de meu refúgio e ruídos estranhos aconteciam repetidamente em volta de mim.

Seria ele? Tom... O jovem e estranho camponês, uma alma perdida no abandono, amaldiçoada pelos anjos caídos, condenada a seguir sozinha até encontrar alguém que o ampare e o compreenda, eis que encontrou, e o que este alguém fez? O matou a sangue frio devorando-o sem nem ao menos refletir no ato emocional e equivocado que fizera.

Ele era como eu... Às vezes tenho esta certeza, em outros momentos isto chega a ser uma dúvida, mas uma coisa era mais do que certa, meus guardiões o respeitavam enquanto encontrava-se em sua forma humana, respeitavam ou temiam-no?

Transformou-me, fez-me ser como ele para não ficar sozinho, por mais que entenda sua dor, por mais que sinta seu martírio e carregue pelo resto de minha existência um sentimento equivalente nunca o perdoarei, se estava condenado a vagar só e desesperado pela noite eterna não tinha o direito de passar sua maldição adiante.

Uma bruxa amaldiçoada! Como isto soa ridiculamente irônico, porém é verdade, estou condenada a viver a maldição da noite eterna onde a lua é minha bela algoz, entretanto, nem tudo era dor e sofrimento, na noite eu sou livre, liberto meus mais profundos desejos, fantasias ocultas, a fome sobrenatural na qual julgava ilusória agora é concreta.

Tantas coisas aconteceram-me no decorrer deste diário, pensei que relataria apenas devaneios mórbidos, mas pelo contrário, minha existência fora bem mais agitada, meu caminho fora muito mais tortuoso até aqui, até agora...

Numa manhã, acordo com barulhos de tiros de espingarda, saltei imediatamente da cama e caminhei até a entrada de minha caverna, não ouvi uivos e latidos de meus companheiros prevenindo-me de algum suposto perigo.

Fui tão estúpida e minha curiosidade levara-me diretamente à “cova dos leões”, na entrada havia um grande número de aldeões, todos armados até os dentes, foi apenas o segundo de eu colocar a cabeça para fora de meu esconderijo que logo fui capturada, amarrada e amordaçada, de nada fui capaz de fazer para me livrar deles, eram muitos e eu era apenas uma, uma única bruxa solitária e condenada.

Olhei e espantei-me, estirados ao chão estavam os corpos avermelhados de meus fieis guardiões, não... Não podia ser verdade! Não mais respiravam, estavam hirtos, provavelmente ainda quentes, meus companheiros, anjos protetores de minh’alma, o que foi que fizeram com vocês! O puro e leal sangue de todos eles agora escorria pelo chão também morto da floresta.

Vocês vão pagar por profanar meu santuário... O sangue de todos vocês lavará a honra de meus fieis escudeiros... Isto é uma promessa!

Debatia-me, mas era inútil, até que finalmente me rendi, não iria deixar que minhas forças se esvaíssem em tentativas em vão de fugir de muitos destes seres malditos, deixei que conduzissem-me até a vila e se não estivesse morta até à noite, a lua ajudar-me-ia em minha vingança doce e banhada em sangue.

Ao retornar ao vilarejo, desta vez bem acordada, pois nas outras ocasiões estava inconsciente devido à metamorfose e sempre ao despertar já estava trancafiada naquele quarto mal cheiroso como uma fera ferida e indefesa, desta vez meus olhos estavam bem abertos e estava ciente de tudo que acontecia.

Quando a quantidade de árvores começou a diminuir e já podia-se avistar humildes casebres feitos de madeira senti um aperto no peito, um embrulho em meu estômago, até minhas pernas ficaram bambas, porém tentei ser forte e continuar andando.

A escuridão morrera, a luz do dia a matou, tudo era tão estranho... Nunca havia visto aquela aldeia como naquela vez, sempre espreitando por entre árvores, atenta aos movimentos, naquele momento pude tudo observar não perdendo nenhum detalhe.

As pessoas ao notarem minha presença pararam o que estavam fazendo, tudo e todos silenciaram-se somente para repousarem seus olhos furiosos e assustados sobre meu corpo amarrado, aqueles olhares incomodavam-me, faziam meu sangue ferver de ódio, nunca gostei de ninguém que me encarasse como um estranho animal!

Usei meu cabelo para ocultar minha face irada, ergui os ombros na esperança de manter meu rosto ainda mais escondido destes pérfidos e nefandos olhares. Malditos camponeses, fizeram questão de caminharem bem lentamente, como uma atração turística, todos olhavam para mim, eis que alguém teve coragem de quebrar o silêncio dizendo:

___ Sua bruxa maldita!___ após dizer isto, a pessoa também arremessara-me um ovo.

Este fora o sinal para o início... Depois deste alguém, quase todos ali presentes fizeram o mesmo, atiraram-me alimentos, pedaços de madeira e até pedras, tudo recoberto por olhares raivosos e palavras violentas, suportei estas torturas calada por vários minutos que se seguiram, estavam todos se divertindo com as agressões físicas e morais que estavam causando-me. Tentaram linchar-me, mas os caçadores que capturaram-me impediram dizendo:

___ Controlem-se! À noite esta desgraçada terá o que merece! Vamos vingar a morte de todos e finalmente estaremos livres desta meretriz do diabo!

Jogaram-me novamente no mesmo quarto trancando a porta.Ah minha velha prisão! Confesso que até tive uma certa saudade daqui, um estranho sentimento que não sei ao certo explicar... Observei em silêncio as paredes, o teto, as marcas das lembranças que ficarão na memória... Fora aqui que conheci Tom, fora aqui que matei seu negligente pai, Jimmy.

Sempre o mesmo quarto, o velho quarto, sinto que deixei minha essência aqui das vezes nas quais estive aprisionada, consigo sentir o cheiro da morte ao meu redor, estava em toda a parte, no chão, no teto, nas paredes, nos lençóis, por falar nisso, havia umas leves manchas avermelhadas nos lívidos tecidos delicados.

Sorri, a Morte estava aqui, sua presença estava tão perto, como sinto-me melhor sabendo que minha amada deusa rondava-me em silêncio, certamente fizera isto desde que nasci, assombrando meu sono, fazendo com que me atrevesse, todavia... Seria realmente a Morte que estava ao meu lado?

Em um canto do quarto, o lado mais escuro, onde a luz do sol deixava apenas uma penumbra, eu pude vê-lo... Tom! Sim, ele estava aqui, tão perto, não disse nada, não fez nada, apenas ficou fitando-me com seus inesquecíveis e sublimes olhos azuis, olhos que irão violar meus pensamentos até o fim de meus dias.

Eis que eu o vejo chorar, lágrimas de sangue, finos fios do fluido quente e carmesim escorrendo por seu rosto níveo e delicado, por que estaria chorando? Por mim talvez? Será que esta noite juntar-me-ei a ele na morte? Será por isto que está chorando, por não querer me ver morrer, não querer estar ali quando meu espírito desprender-se desta prisão feita de carne e ossos?

Ele sumiu, desfez-se no ar como a fumaça de um refinado charuto, aquilo foi mesmo real ou apenas um desvario? Não poderia saber, estava confusa e impaciente, porém logo uma incomum tranqüilidade invadiu meu peito inquieto, algo dizia-me que não havia motivos para o desespero, não havia o que temer, ainda não era o fim...

Notei que perto da janela novamente revestida com madeira na esperança de eu não mais fugir, havia um pequeno caco de vidro da vez que a atravessei para fugir de volta ao meu lar, peguei-o, observei durante um tempo sentada naquela macia cama, o leito de minha morada não era assim, feito de cobertores velhos, folhas e pedaços de madeira, não comparava-se a um verdadeiro colchão de espumas, macio, confortável, lençóis limpos e cheirosos, travesseiros fofos, seria ótimo poder arrastar esta cama até minha casa!

Por falar em arrastar, arrastei-a para um canto, em silêncio para que nenhum camponês desgraçado adentrasse o quarto, sentei-me com as pernas cruzadas sobre a madeira que rangia um pouco, fechei meus olhos para reunir toda a calma e concentração que havia em meu âmago, cortei a palma de minha mão, um corte profundo e incômodo.

Fechando meus dedos deixei escorrer até chegar ao chão, esperei até formar-se uma poça pequena, com a ponta do dedo indicador molhada em meu sangue que mais parecia uma tinta vermelha e bem reluzente, comecei a desenhar alguns símbolos antigos, sinais que havia visto em livros de bruxaria usados por meus pais quando ensinaram-me as artes ocultas.

Meus olhos fixos no movimento de meu dedo, nada poderia sair errado, toda a simbologia teria de ser perfeita, iniciei um antigo chamado em latim, sempre sussurrando, almas perdidas e anjos caídos não são surdos, não havia necessidade de alterar a voz para chamar por eles... Meus companheiros.

Cortei a outra palma e deixei o sangue escorrer pelos desenhos, desta vez cerrei meus olhos, porém meus lábios continuavam a se movimentar, senti meu espírito se elevar, podia jurar que estava flutuando, corpo e alma entregues aos demônios que habitavam a floresta.

Venham, queridos, venham por mim! Venham por esta bruxa que vos chama, venham beber meu sangue, venham comer minha carne, venham por mim!

Podia sentir o eco de meu chamado soando por entre os troncos apodrecidos, o som repetitivo de minhas palavras pronunciadas atentamente, via as águas do lago negro vibrando ao som de minha voz, as árvores dançando na melodia de meu apelo, os corpos de meus guerreiros se levantando para mais uma batalha.

Venham, queridos, venham por mim!... ***

Faltavam poucas horas para a noite cair, estava deitada naquela macia cama, iria aproveitar ao máximo este incomum conforto no qual não era abençoada todos os dias, voltei novamente o leito no lugar para que ninguém descobrisse o que havia feito e se algum dia chegar a descobrir, será tarde demais...

Cinco homens adentraram violentamente o quarto, não perderam um só minuto, não falaram, não lançaram olhares, apenas entraram, amarraram e amordaçaram-me, arrastando, literalmente, até o lado de fora, onde havia um grosso e longo tronco apodrecido de árvore, nele que eu fora presa pelas mãos e pelos pés, após isto, alguns aldeões começaram a posicionar muitas lenhas ao redor.

Apenas observava tudo sem perder a calma, tenho certeza que os espíritos aos quais fui devota durante todos estes anos não irão me decepcionar, não, certamente aquele não era o fim... Muita coisa passara-se por minha mente, inclusive tentei imaginar o rosto da Morte ao longe sorrindo para mim, isto acalmava-me.

Enquanto os homens faziam o trabalho de juntar as lenhas à minha volta, aos poucos todos do vilarejo foram se aproximando, encarando a ação dos camponeses e fitando principalmente meu semblante frio e inexpressivo, posso jurar que estavam loucos tentando desvendar meus pensamentos e o que escondia por detrás de meus olhos sem luz.

Não iria chorar, me debater ou gemer, muito menos clamar por misericórdia, estaria traindo meus ensinamentos, minha linhagem, meu profano sangue, meu DNA de fera assassina, iria apenas aguardar, não sei quando e nem pelo que, mas tenho fé, uma cega e poderosa fé de que algo irá acontecer, para o bem ou para o mal, não faço idéia...

Olho para o céu, ah que bom revê-la, amada Lua! Viera contemplar minha morte? Irá assistir calada, porém sorridente as chamas consumirem minha carne amaldiçoada ou irá estender-me a mão para que possa trilhar noites a fio meu caminho de criatura sedenta e caçadora?

Precisava manter a calma, respirar fundo e sentir-me flutuar como quando estava naquele quarto implorando à presença dos anjos negros. O céu estava perdendo sua cor azul, tão azul quanto os fulgores olhos de Tom, que não viria esta noite para me salvar, desta vez estava a mercê do destino.

Nuvens cinzentas encobriram o luar, meu sangue começou a ferver, as batidas do meu coração aceleraram-se assim como minha respiração, a dor já vinha incomodar, agulhadas em meu peito, pedradas em minha cabeça, o fogo ainda não fora ateado fazendo queimar a lenha sob meus pés, mas sentia que as chamas já engoliam meu ser.

Uma mulher gritou do meio da multidão apontando para mim:

___ Ela está se transformando!

Senti que o medo invadira a todos que estavam presentes fazendo-os se afastar para admirarem meu sofrimento, se soubessem o quanto fico fraca e vulnerável quando a metamorfose ocorre poderiam acabar comigo da forma que quisessem, morreria como um mutante horrível e asqueroso, meu cadáver não seria nem humano nem animal, seria algo entre os dois, algo repulsivo e horrendo perdido entre dois mundos.

Logo o brilho do luar voltara a iluminar-me, exalei fortes gritos de agonia, pude observar que isto amedrontou boa parte das pessoas que vieram apreciar esta tortura que estava acabando comigo aos poucos.

Amarrada deste jeito era pior, não podia contorcer-me, rasgar minhas roupas, apertar algo entre meus dedos para tentar suportar a dor, apenas imóvel numa única posição agüentando até o último momento, esperando pela total libertação da selvagem parte de mim que estava somente despertando para mais uma noite.

Um breve alívio, as nuvens voltaram a esconder minha algoz, ah! Percebi que todos ficaram assustados, senti que meus dentes já haviam tornado-se presas, olhei para minhas mãos, garras no lugar de unhas e graças a um garoto assustado que gritou no meio da multidão, pude saber que meus olhos já tinham o brilho dourado da maldição.

Um homem então virou-se para todos e disse em voz alta e imponente:

___ Não há mais tempo para esperar, ou fazemos agora ou esta maldita irá se transformar e acabar com toda a nossa vila!

Com uma tocha em mãos, o aldeão aproximava as violentas chamas da lenha que rodeava o velho tronco onde estava amarrada, quando fogo e madeira iriam se unir numa mistura mortal, um forte vento surge apagando não só esta tocha, mas todas que os desgraçados camponeses traziam em suas mãos.

Assustaram-se ao ouvirem uivos vindos de dentro da mata escura, agora pude ver o quão esta floresta era sombria, olhos humanos não eram capazes de ver através da escuridão, eis que das trevas maternas ouve-se também raivosos rosnados.

Oh, quem diria! São eles... Meus queridos companheiros! Guardiões de meu corpo e minha alma! Eles voltaram... Eles vieram... Vieram por mim...

De dentro da materna escuridão, detrás dos velhos e falecidos troncos, um, dois, três, quatro, cinco, milhares deles! Todos com olhares irados, presas e dentes afiados, sabia que não iriam me abandonar, sabia que se este não fosse meu fim viriam me salvar, sei que posso confiar neles, meus guardiões...

Como ovelhas rodeadas por um cão pastor, as pessoas do vilarejo amontoaram-se, todas bem juntas, os lobos as cercaram, não tinham fogo, não tinham armas, não tinham nem ao menos a preciosa coragem que cegava-os e fazia-os pensar que eram os donos do mundo, acima do bem e do mal, otários!

Com a ajuda das forças sobre-humanas da criatura que reside em meu interior, parti instantaneamente aquelas cordas tão frágeis quanto um único fio de cabelo, cai ao chão e quando levantei-me fiquei entre dois de meus escudeiros encarando todos aqueles mortais.

Pude ver no olhar de cada um deles, o medo... Os humanos temem aquilo que não conhecem, repudiam o que tem beleza natural, odeiam o que não podem amar e destroem aquilo que não podem vencer, tolos seres de mentes unilaterais, só enxergam o que querem ver, falam, mas não querer ouvir, querem o que não podem ter, sentem o que não nunca irão sentir. Ah seres primitivos e odiosos, pensam que de tudo sabem, mas de nada conhecem, o conhecimento é a fonte do saber e se nada conhecem de nada podem alegar que sabem.

Sentia o cheiro do temor exalando por seus poros, seus corações cheios de desejo de vingança e vontade de matar batiam cada vez mais acelerados, agora estão com medo de mim? Agora choram e clamam por suas vidas? Tarde demais, olhares vazios e inescrupulosos de nada valeram, o que tenho guardado para vocês será algo inimaginável e belo, tarde demais...

___ Sem sobreviventes... ___ sussurrei para meus queridos e estiquei meus braços em direção das pessoas, esta foi a deixa para a ceia de meus abençoados anjos caídos.

Os lobos correram em direção a cada um dos humanos que ali estavam presentes, saltaram sobre seus corpos e sem tempo a perder começaram a devorá-los, um a um. Não importava o que fossem, homens, mulheres, crianças, idosos, todos mereciam morrer, o mundo merecia morrer unicamente por minhas mãos, um mundo pérfido e nojento...

Eu venci a guerra, eu estou acima do bem e o mal, do céu e o inferno, eu! Esta guerra cruenta ganha por mim regozijava-me, enquanto ouvia-se apenas gritos, eu ouvia aplausos, reverências... Não queria a morte, pelo contrário, eu sou a Morte e o fim era este, o mesmo fim, a mesma dor, as mesmas lágrimas para todos, sou tão mais justa quanto este deus ilusório que todos temem.

Era realmente uma pena que ninguém pudesse ver o sorriso em meus lábios, aquela visão era mais satisfatória que qualquer coisa que realizara em minha pútrida existência, meu mundo agora estava afogado em refugo e sangue nefando, este era o meu mundo...

A lua novamente aparecera, finalmente banharei minha alma com a vida perdida destes frívolos mortais, isso, Minha Rainha, ilumine meu corpo desfalecido e carente de sua luz, faça com que a transformação aconteça, torne minha vingança contra os camponeses ainda mais concreta, deixe que eu saboreie suas carnes e beba seus sangues, liberte-me desta prisão humana, faça-me tua filha, tua serva, tua...

Veio a dor, o calor, os gritos de agonia, veio a escuridão e o esquecimento de uma noite vitoriosa que guardaria por toda a eternidade dentro de minha mente insana...

***

Na manhã seguinte despertei sobre um colchão, meus companheiros dormiam em volta de meu corpo nu, levantando-me peguei algumas peças de roupa que encontrei pelo vasto caminho repleto de cadáveres frios e ensangüentados, presumo que a noite passada fora mais que satisfatória!

Retornei à minha moradia e remendei meus vestidos rasgados com alguns trapos velhos que ninguém mais daquele vilarejo irá precisar, lavei minhas peças de roupa no lago negro e deixei-as ao sol para secarem, estavam sujas de terra e sangue, posso ser uma fera inconseqüente e sedenta, mas somente durante a noite, durante o dia sou uma mortal civilizada e compreensiva... Hahahaha!

Fiquei mergulhada durante algumas horas nas frias águas negras daquele lago, sentia-me em completa sintonia com a Morte, tudo ao meu redor chamava por Ela, tudo era para Ela, aos poucos todo este mundo estava morrendo e mal podia esperar que minha vez de partir fosse chegada.

Creio que realizei a vontade de minha deusa, queria almas para fazerem-lhe companhia e eu dei à Ela, espero que um dia possa reconhecer minha ação feita com amor e devoção e venha buscar-me levando-me assim para junto de suas asas negras e reconfortantes.

Mais tarde o tempo escureceu, esfriou, trovejou, meus guardiões entraram em meu recanto e ficaram junto à mim neste dia tempestuoso, nada iria nos acontecer, estamos finalmente livres e seguros, meus queridos.

A chuva caía forte e fria, porém não poderia sentir a frialdade de suas gotas, entre muitos casacos de pele protetora estava eu, aninhada entre meus anjos obscuros estava protegida de qualquer coisa que pudesse me ferir, em silêncio, como sempre estive, observei a chuva cair ao longe, sem nada o que pensar, nem o que sentir.

Se algum dia este diário for encontrado e lido por alguém, não importa quem seja, irá pensar que sou má, pelo contrário, sou apenas fria, cresci e aprendi a ser assim, fria como a brisa da noite, fria como uma manhã de inverno, fria como as águas do lago negro, fria... Como a morte.

Finalmente a chuva finda-se depois de algumas horas, estava faminta e precisava me alimentar, por alguns dias, creio eu, não necessitarei de exaurir minhas forças caçando, os poucos animais que restaram por milagre naquela vila serviram-me de refeição. Obrigada, Morte, por poupar-me.

Tudo estava se acabando, não tenho mais a adrenalina de fugir dos predadores humanos, não tenho mais o prazer de enganá-los e por fim fazê-los tornarem-se minhas presas, não tenho mais motivos para esconder-me na escuridão de meu santuário, ninguém mais temia-me, ninguém mais via-me, ninguém mais vivia ao meu redor, tudo estava morto e esquecido, por que eu não?

Uma estranha dor tomou conta de meu peito, o que será de mim agora? Apenas caçar os poucos animais que restam nesta floresta para sobreviver, o que farei quando todos morrerem? Matarei meus guardiões? Não, isto nunca, jamais farei uma coisa destas! Não terei outra alternativa a não ser matar-me...

É assim que queres que eu vá até ti, Morte? Não virás buscar minha alma, mas eu terei de ir até vós? Queres me ver sofrer, queres me ver fenecer, murchando aos poucos como um botão de rosa enfraquecido? Por que, minha querida? Fiz de tudo por ti, matei e morri e agora não virás! Não faça isto comigo, minha deusa, por favor, não me abandone aqui...

Cada vez mais estou afundando, o abismo era ainda mais fundo e escuro do que antes, agora tudo era silêncio, um silêncio mortal e soturno, nada nem ninguém ao meu redor, uma solidão traiçoeira que apenas dava-me uma trégua quando a lua surgia, assim... Em forma de fera nada me lembrava, era um animal irracional, sem destino, sem objetivos, por que não sou assim durante o dia? Por que esta maldição só é real na lua cheia?

Oh, o que estou dizendo? Mas que tipo de pensamentos são estes? Oh céus! Sempre desejei a solidão e a paz que ela proporcionava e agora que tinha somente para mim estava recusando-a, renegando-a como um lixo de que nada serve, não posso estar falando sério... Como posso ser tão ingrata, como posso ser tão tola?!

Desculpe-me, querida Morte, sei que destes minha tão amiga, a solidão, e agora não mais a quero, perdoe-me por minha altivez, prometo que não mais agirei desta forma, minha deusa, preciso aprender a dar valor a tudo que me proporcionas, sou arrogante por não reconhecer tuas ações, perdoe-me...

Ultimamente ando tão confusa, deve ser este maldito tédio, só tende a aumentar no mesmo compasso que minha sanha, sou um ser confuso, entediado e raivoso, depois que todos os camponeses me deixaram agora sinto que sou um deles, vivendo uma existência tão banal a troco de nada, não tenho pelo que lutar.

Sem predadores não preciso fugir, quem irei matar, de quem irei saborear o medo que escorre pelo corpo? Não havia mais ninguém por perto, tudo era frio e vazio, uma infindável solidão taciturna que sussurrava funestas palavras no vento gélido que acompanhava o pôr do sol...

Um certo desespero percorria meu ser, minhas tigelas de sangue estavam ficando vazias, passava horas procurando animais nesta floresta e por vezes, para não ir dormir com fome, fui obrigada a comer larvas que ficavam escondidas nos troncos podres destas árvores mortas.

Uma bruxa sem magias e poções de que valia? Uma criatura carnívora e sanguinária sem sangue e carne de que importava? Era assim que me sentia, uma dúvida pairava no ar, será que fiz a coisa certa?...

Tom podia estar ao meu lado neste momento, mataríamos aquela profana vila aos poucos, se capturassem-me ele viria me salvar, devoraríamos suas almas e a nós mesmos numa fome mais do que apenas uma vontade de comer, mas uma fome de ter, saborear, saciar, uma fome voraz e sem explicação, um almejo, um regozijo, algo que somente ambos juntos poderíamos desfrutar.

O que ele me proporcionara creio que nunca mais terei de volta, se algum dia meu corpo estiver sob o de um homem novamente não será como foi com Tom, ele me abençoara com sua maldição, inebriou-me com teu sangue e sugou todas as minhas forças com sua cálida paixão.

Agora eu vejo, ele era como eu e nós éramos um só, será que fiz certo matando-o daquela maneira, minha deusa? Fizera tua vontade ou contrapus-me à ela? Precisaria de um sinal, minha querida, dê-me apenas um sinal para saber qual direção tomar agora que estou tão sozinha e necessitada de tua luz!

Quase morri de angústia aguardando a lua cheia nesta noite, finalmente ela viera, desta vez o despertar da fria criatura não fora doloroso, pois a dor de estar viva era maior do que qualquer outra, apenas saber que meu coração ainda batia e que em meus pulmões ainda havia ar, nada mais machucava-me, então novamente a escuridão tomou meu olhar e de nada mais me recordo, como nunca lembrei-me.

***

No dia seguinte quando acordei, quase não pude suportar a tremenda dor que sentia em minha cabeça, não somente nela, mas como em todo o meu corpo, estava nua, muito ferida, minha pele estava com marcas de arranhões que ardiam e sangravam, estava zonza e fraca, olhei em volta e não reconheci o lugar onde me encontrava.

Desta vez fora muito longe, onde estavam as árvores, o chão coberto de folhas secas, onde estavam os casebres de madeira, os corpos já destroçados, onde estava meu lar? Devo ter corrido por todo o vale durante a noite, ah às vezes não consigo conter a criatura que vive dentro de mim, de dia sou prisioneira, de noite sou livre para matar e correr.

Notei que havia um pedaço de madeira cravado em meu tornozelo, retirei-o fazendo com que o ferimento começasse a sangrar, tinha de ser forte e por alguns instantes não me importar com a dor, depois de tantos anos mergulhada em martírio, não seria esta ferida que iria me vencer.

Mancando e com passos lentos pus-me a percorrer a planície, parecia que estava andando em círculos, por mais que caminhasse não conseguia avistar árvores de minha amada floresta que ocultavam a humilde e morta vila, certamente devia estar perdida no meio do nada, perdida e ferida, se caso não lavasse e tratasse daquele ferimento poderia morrer de hemorragia ou infecção.

Cambaleei por mais algumas horas, o sol alto e solene no céu dificultava meu trajeto, estava faminta, sequiosa, ferida, não iria agüentar por muito tempo, eis que avisto um chalé ao longe, avistei fumaça saindo pela chaminé, obviamente havia alguém lá, não podia mais esperar, era isto ou morrer ali.

Tentei ser o mais rápida que pude, pois a dor estava chegando em seu ponto mais alto e insuportável, até que minhas forças findam-se no meio do caminho, caio ao chão sem ter como me levantar, estava exaurida e com raiva, não sabia ao certo do que.

Pude ver que da porta da frente do chalé, um alguém sai e vem caminhando em minha direção, minha visão estava um pouco embaçada, pois estava fraca e sentindo muita dor, mal conseguia respirar, vi que era uma senhora aparentando uns 50 anos mais ou menos.

A mulher arriscara alguns passos mais rápidos para chegar até mim e ao observar meu estado, suas palavras explicitando uma certa surpresa foram:

___ Oh meu Deus do céu!Depois disso, apenas via sua boca se mover, mas não ouvia coisa alguma, parecia que estava me transformando, a dor intensa, a cabeça pesada, a visão embaçada e finalmente a escuridão e o esquecimento.

***

Um quarto... A primeira coisa que vejo ao acordar, um humilde e até que pode-se dizer, aconchegante quarto, uma cama macia, lençóis limpos, um travesseiro fofo e... uma camisola, branca como a lua. Lembrou-me aquele velho e abandonado quarto no qual fui prisioneira naquele detestável vilarejo onde todos jaziam em pedaços.

Havia algumas coisas diferentes, alguns traços incomuns, sem marcas de garras pelas paredes de madeira, sem manchas de sangue, sem janelas quebradas ou símbolos estranhos pintados sob a cama, era um novo quarto, um lugar onde não era necessariamente uma prisão, somente até a lua surgir talvez...

Olhava em volta, meus olhos não conseguiam fixar-se em um só ponto, percorriam tudo, cada canto, cada centímetro como se fossem pequenos animaizinhos inquietos correndo pela escuridão da noite, era um local comum, sem muitas regalias, havia um guarda-roupa fechado, uma cômoda com três compridas gavetas, uma penteadeira com uma cadeira recoberta com veludo vermelho, creio que aquilo era o mais especial naquele ambiente, algo que mais chamava atenção, fora isto, nada mais importava, tudo poderia virar cinzas num terrível incêndio que não faria falta, exceto aquela linda cadeira, havia cortinas de seda fina e pálida nas janelas que estavam fechadas, tudo estava em silêncio, sentia-me dentro de um caixão escuro a sete palmos do chão.

Tentei levantar-me, mas uma dor aguda em minhas pernas impediu-me, verifiquei quanto sangue havia perdido por causa do ferimento e para minha surpresa, estava limpo, esterilizado e com um zeloso curativo, aquela mulher deve ter feito isto enquanto estava inconsciente, pelo menos não irei morrer por hemorragia ou infecção, já era uma boa notícia, porém não tão boa assim.

Ouço o som metálico da maçaneta e a vejo se mover, encolhi-me entre os lençóis, todavia com os olhos atentos à porta esperando quem poderia entrar naquele quarto, fiquei aliviada ao ver que não era nada mais que a velha mulher trazendo consigo uma bandeja repleta de comida, ela sorriu ao me ver e disse com uma voz doce e suave:

___ Veja só quem acordou! Trouxe algumas coisinhas para você comer, estava tão ferida e fraca, precisa recuperar as forças, criança!

Nada disse diante daquelas palavras, a humana colocou a bandeja sobre a cômoda, encarou-me e veio andando em minha direção até sentar-se na beirada da cama e me olhar de forma afável como ninguém nunca olhara-me.

___ O que houve com você, meu bem?

Apenas encarava seus olhos em silêncio, aparentemente ela não era uma ameaça, mas em tantos anos sem me comunicar com nenhum mortal, este hábito não irá abandonar-me de uma hora para outra.

___ Consegue se lembrar do que lhe aconteceu? Como veio parar aqui?

A mulher somente me olhando, suplicando por uma resposta, nem que fosse só uma palavra, mas queria ouvir minha voz, queria que provasse que estava bem de algum modo, pude notar isso.

___ Deve estar muito assustada, não se preocupe, não irei te machucar, está segura aqui, nada nem ninguém lhe fará mal.

Ela se levantou e apontou para a bandeja.

___ Coma alguma coisa! ___ dito isto, andou em direção à porta e quando ia sair, lançou-me um olhar e suas últimas palavras foram:

___ Se precisar de alguma coisa chame por mim, meu nome é Carmem ___ sorrindo, ela fechou a porta, pude ouvir seus passos distanciando-se do quarto.

Não ousei tocar na comida, ah... A enjoativa refeição humana, pães, frutas, sucos e outras coisas que não tinham mais valor ou até mesmo sabor para mim. Queria carne, sangue... Ah o quão longe deveria estar de meu lar, de minha floresta, de meus guardiões... Senti cheiro de carne e pelo aroma era carne de galinha que acabara de ser morta.

Abri a porta do quarto, precisava deste tipo de alimento, era esta comida por qual meu corpo gritava, a refeição na qual a criatura dentro de mim clamava desesperadamente. Saindo do recinto, havia um estreito e curto corredor e terminava em uma singela sala de estar com duas pequeninas poltronas viradas diretamente para a lareira que ficava ao meio de duas janelas também cobertas com cortinas de seda nívea.

À direita ficava a cozinha, fui andando até lá seguindo o excitante cheiro de presa morta, ah delicioso e suculento perfume que apenas aumentava minha fome animal. Estava certa, era realmente uma galinha que havia sido morta, seu pescoço estava apertado entre os dedos da mão de um homem e na outra segurava um machado, assustei-me e creio que ele também, apontando o objeto afiado em minha direção, gritou:

___ Quem é você? O que faz aqui?

Veio caminhando em minha direção sem abaixar o gume de ferro, aquilo assustou-me e deixara-me confusa, o instantâneo pavor misturado com o desejo de devorar aquela ave presa entre os dedos daquele humano, fiquei imóvel encarando-o.

___ Adrian, não!___ disse a velha mulher ao adentrar o local.

Andou até perto de mim e me abraçara, aquilo deixou-me um tanto incomodada, odiava contato com os mortais, mas não poderia fazer muita coisa, aquele estranho poderia se exaltar e degolar-me assim como fizera com a galinha.

___ Esta moça estava desmaiada em frente à nossa casa, estava fraca e ferida e parece não se lembrar do que lhe acontecera, não a assuste ainda mais!

Depois de ouvir as palavras de Carmem, o mortal atendido pelo nome de Adrian abaixara o machado e falara:

___ Me desculpe, mamãe, eu não sabia.

___ Está tudo bem, criança, eu vou levá-la até o quarto para descansar.

Nada poderia fazer exceto ir sem praguejar, até quando esperarei para comer algo e recuperar minhas forças para sumir deste lugar? Lancei um último olhar para aquele rapaz, não procurei ameaçá-lo, apenas queria guardar seu rosto em minha memória.

“Em paz” naquele quarto, pude pensar melhor naquele humano, ele era alto, robusto, cabelos negros como a noite que me conforta, olhos castanhos, pele branca, barba mal feita, roupas grosseiras, tinha uma aparência de lenhador, havia conhecido muitos deles quando entravam em meu santuário querendo acabar com aquelas pobres árvores esmorecidas afim de torná-las objetos ou paredes de uma casa. Adrian aparentava ter uns 30 anos.

Estava quase anoitecendo e uma certa preocupação com a vinda da lua cheia invadiu meu peito, tive um certo receio em me transformar naquela noite, poderia matar os dois, Carmem e Adrian, mãe e filho, ou pior, ele poderia me matar, não poderia prever meu destino, era escuro e incerto assim como quando a metamorfose se completava.

Para meu alívio a lua não surgira naquela noite, um estranho alívio, eu queria muito libertar a fera adormecida dentro de mim, mas sabia que ali não era o ideal lugar para isto, precisava fugir o mais rápido possível, mas uma das coisas que me impediam era este maldito ferimento que ainda doía um pouco, porém tenho certeza que na manhã seguinte já estará cicatrizado, assim como o ferimento causado pelo punhal.

Já era tarde da noite, os dois dormiam e ao redor do local, tudo parecia mergulhado em um sono profundo. Abri delicadamente a janela do quarto em que estava e saltei até meus pés tocarem o solo, devo a Tom esta agilidade, até que o que fizera-me não foi tão mal assim, espreitei até os fundos e do lado de trás do chalé havia algumas criações de animais, um galinheiro, um chiqueiro, um estábulo com três cavalos e um celeiro com duas vacas leiteiras.

Entrei cautelosamente no galinheiro deparando com um bom número destas aves, o cheiro e som de seus pequenos corações batendo atiçou minha fome, meus olhos escolheram uma e depois tudo o que fiz foi apenas saciar minha fome... Era noite de lua nova, somente daqui três semanas a criatura voraz e sedenta que habita meu interior voltaria a despertar e a contemplar a noite materna.

Como previsto, na manhã seguinte o ferimento já havia fechado-se restando apenas uma cicatriz, mesmo num profundo sono sei que a fera dentro de mim ainda vive e estas feridas que logo se curam são a prova disto.

Nesta manhã estava muito entediada, apenas trancada neste quarto sem poder sair, fingindo-me de vítima, sem falar, sem beber, sem comer, tão longe de casa, estas paredes pareciam que iam aproximando-se cada vez mais umas das outras, tudo estava ficando menor, mais apertado, mais abafado.

Sabia que era apenas um devaneio desvairado, mas era assustador e deixava-me com raiva, resolvi sair e dar uma volta, ter contato com a grama fresca e verde, olhar para o céu, sou uma fera selvagem, não fui feita para viver numa prisão, estou aos poucos esquecendo minha parte humana, sensata e civilizada, creio que nunca realmente fui assim, apenas me enganei, até a noite de Tom me encontrar e me dar uma nova vida...

Caminhei um pouco e deparei-me com Adrian, como presumi, era um lenhador. Era incrível como partia uma tora ao meio com extrema facilidade, o modo como segurava o machado, o cheiro de seu suor, seu coração batendo um pouco acelerado, pois o que estava fazendo exigia esforço físico, seu corpo forte e ardoroso despertava-me um estranho desejo.

Aquela cena deixava-me hipnotizada, acompanhava atentamente cada movimento que fazia, não conseguia parar de fitar seus olhos, atentos ao trabalho, suas mãos tão grandes e grosseiras, sua aparência de um ser primitivo, porém excitante.

Sentia-me atraída por aquele mortal, o corpo dele me chamava, a cada segundo observando seus movimentos não pude deixar de imaginar como seria passar uma noite ao seu lado ou sob ele, aqueles braços apertando e dominando-me, aquelas mãos percorrendo meu corpo, tocando cada parte de mim fazendo-me gemer e gritar.

Estava faminta, queria sua carne, seu sangue, seu suor, seu corpo sendo somente meu, iria mordê-lo, dominá-lo, assim como fiz com Tom, sangue e prazer, uma deliciosa combinação necessária para um animal como eu sentir-se excitado.

Por um momento, ele parou para descansar e olhou em minha direção, encarei-o friamente e pude perceber que tivera um certo medo de meu olhar, como era adorável um homem como aquele sentir medo de um alguém feito eu, sem dizer nada virei-me e entrei fechando a porta dos fundos.

Estava contando os dias em que residia aqui neste casebre, sei que isto fazia com que meu tédio e minha raiva apenas aumentassem, mas não há outro modo de passar o tempo, quando a lua iria voltar? Não conseguia mais suportar! Por que não vou embora? Estou curada e forte o bastante, pois toda a madrugada alimento-me com carne de galinha, carne crua e manchada de sangue, extremamente suculenta.

Acho que não quero ir embora, pois não estou satisfeita, tenho que ter Adrian pelo menos uma única vez só para mim, ter seu corpo sobre o meu e quem sabe depois deste momento de prazer poderei devorá-lo até os ossos e assim seguir em paz de volta ao meu santuário, porém antes, será bem capaz que acabe com Carmem também, fora tão boa para mim, mas a esta altura de minha vida a bondade de nada vale.

De uns tempos para cá pude notar como aquela velha olhava para mim, estava desconfiada de algo, encarava-me com um certo espanto e curiosidade, pois desde o dia em que acordei nesta humilde casinha não pronunciara uma única palavra sequer, deve achar que sou louca ou ainda estou assustada por “algo terrível que me acontecera”, como pensa ela.

Sem a lua alta e lívida no céu entenebrecido sinto-me desfalecida, presas e garras não são o suficiente, com a criatura dentro de mim adormecida resta apenas a banal e inútil humana na qual sempre fui. Sinto tanta falta da minha outra metade, a parte mais forte e ousada de mim, sem ela nada sou, nada tenho, por nada espero, nada quero, em nada acredito, apenas ela me faz querer continuar a espalhar a imagem de minha deusa por onde passo. Resolvi não levantar suspeita, pelo menos por ora...

Numa manhã ofereci-me para ajudar Carmem nos serviços domésticos, mesmo sem dirigir-me à ela, a mulher aceitava minhas ajudas, a única coisa que fazia para que tentasse compreender-me era sorrir e ter atos gentis e delicados. Era uma mortal ingênua, conseguia perceber que com o passar do tempo aquela nuvem de desconfiança a meu respeito estava desaparecendo, estava ganhando seu afeto e quando a lua retornasse para mais uma vez a criatura sanguinária que vive em mim despertar, ela seria uma presa fácil.

Como os humanos são tolos, não consigo acreditar em como são fáceis de se manipular como peças de um jogo chamado vida, um sorriso era tudo que precisavam para desmancharem-se e transbordarem confiança a desconhecidos, sempre movidos pela aparência e era este o meu grande trunfo, uma garota doce e gentil com um olhar meigo e um pouco amedrontado, a máscara perfeita para esta peça dramática encenada por atores medíocres no palco da vida.

Fazia de tudo um pouco naquele chalé, lavava a louça de todas as refeições, tirava leite das vacas, alimentava as galinhas com espigas de milho colhidas na pequena plantação logo ao lado da moradia, dava lavagem para os porcos e frutas para os cavalos, limpava o estábulo. Adrian ficava com as tarefas mais árduas como cortar lenha, domar os cavalos, trocar as ferraduras, consertar partes da casa, pintar, matar os bichos para cozinhá-los, algumas vezes sabia que ele ficava me observando fazer as tarefas e disfarçava.

Carmem poderia ser idiota, mas Adrian nem tanto, estava sendo doce e meiga, acima de qualquer suspeita, tentando ganhar a confiança de ambos, mas parecia que ele não engolira minha encenação, ainda havia uma gota de receio em seu olhar, os olhos fixos em mim sempre que fazia qualquer coisa, parecia que queria ler minha mente, saber quem era, desvendar meus mais ocultos segredos.

Em uma manhã, o rapaz saíra cedo para vender as frutas e verduras colhidas enquanto fiquei ao lado da velha inútil na pequenina sala de estar, ela estava tricotando enquanto eu picava algumas batatas e cenouras para um cozido que seria o nosso almoço, por mais que sentia repulsa em comer outra coisa que não fosse carne e beber outro líquido a não ser sangue teria de fazer, pois não queria levantar suspeitas.

___ É preciso prestar atenção e ter calma para que nenhum ponto saia errado ___ disse a mulher ___, o inverno está chegando e precisamos de novos agasalhos para não congelarmos aqui no meio do nada.

Carmem tagarelava sem parar, mesmo sabendo que não pronunciaria uma única palavra a respeito de nada que dissesse, adorava ter alguém ao seu lado para ouvir todas as suas bobagens, coisas sobre tricô, sobre o tempo, sua vida que já estava chegando ao fim, seu passado, parentes que já se foram.

Notava no tom de sua voz que sentia-se muito solitária, parecia que Adrian nunca parava para ouvi-la e comigo naquela casa, poderia jurar que a mulher ficara até mais alegre por ter alguém que passasse o dia ao seu lado. Pobrezinha, dentro em pouco esta alegria teria fim...

Já estava acostumando-me com esta rotina, sempre as mesmas coisas, os mesmos atos, creio que sou uma pessoa fácil a se acostumar com rotinas, sempre lutando para sobreviver até o dia de minha partida, o que fizesse para poder ver o sol nascer no dia seguinte já era algo útil e vitorioso.

Depois de algumas longas e entediantes horas Adrian retornou, adentrou o casebre abrindo violentamente a porta de madeira, com um pouco mais de força e aposto que ela se partiria, correu para a salinha onde estava a velha e eu sentadas uma em cada poltrona, Carmem assustou-se parando de tricotar e confesso que também fiquei surpresa com aquilo, ficamos encarando o homem que arfava e trazia o pavor refletido em seus olhos.

___ Adrian, o que houve, meu filho? Por que entrou aqui dessa maneira?!

Aquela pele dourada feito o sol tornara-se lúrida como a lua, o lenhador transpirava, a respiração ofegante e o medo enigmático no olhar sem luz, aproximou-se da anciã dizendo:

___ Mãe, a senhora não vai acreditar, algo terrível, mãe, horrível!

Carmem deixara os objetos de tricô de lado e levantara-se, caminhou até perto do filho e segurou suas mãos na esperança de acalmá-lo, eu somente observava tudo calada, como sempre.

___ Meu Deus, suas mãos estão tão frias, o que houve, querido?!

___ Mãe, o vilarejo...

___ O que houve com o vilarejo? Diga de uma vez, Adrian, você está me assustando!

___ Estão mortos!

___ O quê? Como assim? Quem estão mortos?

___ Todos do vilarejo! Estão dilacerados, os corpos espalhados pelo chão, as casas destruídas, tudo está banhado em sangue!

Ao ouvir aquilo senti um frio por dentro passando por todo o meu corpo, um nó em minha garganta, sem querer cortei a palma de minha mão e derrubei todos os alimentos no chão com o reflexo e a dor repentina, ambos desviaram a atenção para mim.

Corri imediatamente para a cozinha, havia uma tigela com água limpa sobre a pia, usei para lavar o ferimento, eis que noto que já estava cicatrizando, afinal não era tão grave a ponto de demorar algumas horas ou até um dia inteiro para se fechar, ao virar deparei-me com Adrian e Carmem encarando-me com os olhos arregalados.

Cabisbaixa, tentei seguir para a sala para recolher os alimentos que derrubei, mas a velha entrou em meu caminho e olhou profundamente para mim, com uma das mãos segurava um pano enrolado e parcialmente manchado de sangue na mão em que fiz o corte, fiquei nervosa e até comecei a me preparar para correr o mais rápido possível caso desconfiassem de algo.

A mortal segurou delicadamente em meus braços e indagou:

___ Está tudo bem, querida?

Balancei a cabeça indicando que sim e tentei ir para a sala, mas ela me segurara e logo atrás da mulher estava Adrian encarando-me, em seus olhos não havia mais tanto pavor, o medo agora estava dando lugar a uma certa suspeita, não fiz outra coisa a não ser abaixar os olhos e continuar taciturna.

___ Você veio daquele vilarejo? Você morava lá, criança?

Sacudi a cabeça positivamente, eis que lágrimas brotam no canto de meus olhos, as velhas lágrimas de crocodilo, estava pálida com medo que desconfiassem de algo a meu respeito, porém esta palidez viera bem a calhar, ao invés de suspeitarem, julgaram que estava assustada, com lágrimas no olhar e retraída devem ter rotulado-me como vítima.

___ O que aconteceu naquele lugar? Quem fizera uma coisa destas?

Comecei a chorar e a soluçar, Carmem de imediato abraçou e começou a consolar-me, minhas certezas de que era uma velha inútil e ingênua apenas aumentavam com o passar dos dias.

Olhei para Adrian e vi que as suspeitas somente aumentavam em seu interior, mas não me importava, se sentisse-me incomodada poderia dar-lhe motivos para desconfiar de mim, permaneci interpretando o papel da pobre e traumatizada camponesa que sofrera algo terrível e ainda desconhecido por ambos.

No dia seguinte estava limpando o celeiro, logo o forte e robusto homem chegaria com mais feno novo para alimentar os cavalos e espalhar um pouco pelo chão de madeira. O chão estava limpo, havia acabado de colocar os sacos com fenos sujos e velhos do lado de fora, limpei com água e sabão o piso de madeira e esfreguei para que ficasse totalmente limpo, antes de começar meu serviço, levei os cavalos para pastar um pouco ao longe, Carmem disse para não me preocupar, pois eram dóceis e treinados, não iriam fugir nem me atacar.

Não fora o que me pareceu, foi difícil levá-los, pois senti que notaram algo estranho em mim, ficaram agitados e tentaram se afastar, tive que apelar para atos violentos como puxá-los e até espancá-los para que saíssem de lá e eu pudesse continuar com aquela rotina maldita até a noite em que minha algoz surgiria para libertar a parte que tanto sinto falta.

Estava terminando de esfregar o chão, eis que ouço o som da carroça se aproximando, ele havia voltado, adentrou o celeiro e fora falar comigo:

___ Falta muito para terminar? Eu ainda tenho que trocar a ferradura dos cavalos e consertar uma das rodas da carroça que está meio solta.

Sacudi a cabeça indicando que não, ele então ficou observando-me fazer minha tarefa, discretamente pude notar seu olhar curioso, devia estar queimando por dentro, louco para saber quem sou ou devia estar apenas com desejo de ter meu corpo só para ele, creio que a segunda hipótese era a mais provável, pois vivia sozinho com a mãe, não tinha nenhuma mulher para acariciar, apalpar, apertar e satisfazer todos os seus desejos e fantasias sexuais.

___ O que quer que tenha acontecido naquela vila deve ter sido terrível, ninguém sobrevivera exceto você e minha mãe ainda me disse que chegara aqui muito ferida e fraca.

Não me importava com seus comentários opinativos, nunca iria saber o que acontecera àquela nefanda vila de gente desprezível e que acima de tudo, merecia juntar-se à minha querida deusa Morte.

___ Você ainda deve estar muito assustada com tudo que acontecera, pois não dissera uma única palavra desde o dia em que minha mãe a acolhera.

Molhei o esfregão em um balde com água e sabão e continuei a passá-lo pelo chão de madeira, ouvindo em silêncio seu solilóquio.

O homem então deteve-me segurando um de meus braços e lançando-me um olhar curioso, eis que perguntou:

___ Você por acaso é muda, garota?

Meus olhos ficaram fixos nos dele por alguns instantes...

___ Não ___ respondi, finalmente lhe disse algo, afinal, até a lua cheia surgir ebórea e alta num céu enegrecido de nada tenho a perder.

___ Finalmente falara alguma coisa, menina!

Livrei-me de seus dedos apertando meus braços e voltei a esfregar o chão em silêncio.

___ Qual o seu nome?

Não lhe respondi.

___ Não quer me dizer?

Continuei minha tarefa, mas pelo contrário, estava ganhando tempo.

___ Depois de uma mísera palavra após tantos dias calada você vai voltar a ficar quieta?!

___ Não tenho nada para lhe falar.

___ Ah tem sim, quero saber sobre você.

___ Não há nada para saber.

___ Claro que há! Uma garota que surge em minha casa ferida, fraca e calada, a única sobrevivente de um massacre desconhecido num vilarejo, tem muita coisa que preciso saber.

Ele ficou em silêncio, percebi que começou a fitar por dentro do vestido que Carmem me dera, os olhos fixos em meus seios, creio que estava ficando excitado e aquilo seria ótimo.

___ Mas... Deixemos estes diálogos para mais tarde, ainda deve estar muito fragilizada com tudo que lhe acontecera ___ disse o homem com voz trêmula, parecia não poder controlar seus instintos.

Poderia não acreditar se dissesse, mas aquele momento estava sendo mais insuportável para mim quanto para ele, há dias eu o desejo, almejo seu corpo sobre o meu e dentro de mim, anseio por seus beijos, sua carne, sua paixão, quero que me faça delirar, gemer e até gritar de tanto prazer.

Levantei e virei-me de frente para o rapaz, peguei o balde com água limpa que serviria para enxaguar e limpar o sabão do chão e então despejei toda aquela água sobre meu corpo, o vestido era níveo e ficara transparente deixando à mostra o bico de meus seios.

Adrian não parava de me encarar, agora estava surpreso pelo meu ato, pude ver que de nada estava entendendo, caminhei até ficar bem perto de seu corpo que exalava desejo, ele então inquirira:

___ O que está fazendo?

Peguei suas mãos e as levei até meus seios, notei que o lenhador ficara nervoso e excitado ao mesmo tempo, sua respiração começou a ficar ofegante, seu coração batia mais rápido, sentia seus dedos apertando-me.

___ O que você quer?___ perguntou ele lutando para controlar-se.

___ Você... ___ respondi dando-lhe um leve beijo que fora a deixa para que a luxúria o tomasse por completo.

Senti seus braços apertando meu corpo num movimento rápido e por mim já esperado, o homem beijou-me furiosamente, parecia querer devorar e engolir meus lábios enquanto suas mãos passeavam ligeiramente por meu corpo como se aquilo não fosse real e que logo acabaria.

Levantou e encostou-me na parede, sua boca descera até meu pescoço, desta vez não apenas me beijara, mas dera-me leves mordidas o que excitou-me ainda mais. Suas mãos, uma segurando para que não caísse e a outra acariciando minha virilha, tudo dentro de mim parecia que ia explodir.

Subitamente aquele homem se afasta dizendo:

___ Não, não podemos, é errado e...

Calei sua boca com um cálido beijo, lançando-lhe um olhar lascivo, disse:

___ Eu quero você.

Abri violentamente sua camisa deixando à mostra seu peito de pele dourada e tão macia, beijei cada centímetro, aproveitei para dar-lhe leves mordidas, não queria cravar minhas presas em sua carne suculenta, não agora.

Ele retirou sua camisa e a colocou sobre um monte de feno que havia em um canto do celeiro, pegou meu pequeno corpo em seus braços e deitou-me sobre o pano tirando meu vestido que na realidade nem era meu. Abri sua calça, a vestimenta caiu até tocar seus calcanhares, o humano a pegou arremessando-a para uma área um pouco distante de onde estávamos.

Deixei que sua língua e suas mãos passeassem por meu corpo nu, a esta altura estava fervendo, porém não quando a transformação estava prestes a se realizar, parecia ser bem mais intenso, o desejo carnal, o pecado, o prazer, tudo estava queimando como uma intensa chama perigosa dentro de mim e cada vez mais este fogo se alastrava por cada milímetro de meu ser.

Adrian começou a tocar-me na região de minha virilha, de nada faria, fiquei imóvel, extremamente relaxada, estava tão louca de vontade e por tanto tempo havia esperado por este momento que deixei que conduzisse tudo, se caso não tivesse satisfazendo-me mostraria a ele o jeito certo do prazer tomar conta de ambos.

Fora calmo, delicado, não fora com sede ao pote, era um pouco incomum para um homem que notava apenas olhando em seus olhos que fazia séculos que não se deitava com uma mulher. Bom, isto era irrelevante, o melhor ainda não tinha ocorrido, por enquanto estava somente sentindo o gosto de meu corpo.

Podia sentir os movimentos suaves que sua língua fazia em minhas partes íntimas, minha respiração começou a acelerar-se, creio que foi isto que o motivou a intensificar essa dança sensual, sentia suas mãos segurando fortemente minhas pernas abertas, uma deliciosa sensação passando por mim e fazendo-me arquejar.

Fechei meus olhos para que todos os meus sentidos concentrassem-se apenas nesta sensação de extremo prazer, às vezes acariciava as mãos deste bravo lenhador e ele então aumentava ainda mais a intensidade dos movimentos que sua língua fazia, não mais apenas ofegava, porém soltei finos gemidos que começaram baixos e tornaram-se quase gritos quando chegara ao clímax do momento.

Era mais do que óbvio que iria retribuí-lo por este ato no qual senti um imenso regozijo, agora quem iria excitar-se era ele. O mortal ficara parado enquanto minhas mãos pegavam e apalpavam-no vagarosa e delicadamente, também pude ouvir sua respiração aumentando, então comecei a lambê-lo.

O gosto de sua pele, de seu órgão sexual era extremamente suculento, estava com água na boca e quase morta de desejo, nada poderia ser melhor, nada poderia sair errado, tudo era tão propício e perfeito, até sua respiração seguindo o mesmo compasso da minha há alguns minutos, acelerando-se até transformar-se em finos gemidos, entretanto não gritou, seu tom permaneceu o mesmo, mas pude notar que seu corpo, assim como o meu, transbordava de volúpia.

Após deixá-lo ainda mais excitado, deitei-me novamente sobre sua camisa estendida por cima do feno, fechei os olhos e novamente deixei meus sentidos, agora tão aguçados, guiarem-me nesta lasciva dança erótica. Senti suas mãos segurando minha cintura, logo depois ele penetrou em mim, suave e cuidadoso, deslocando-se num vaivém calmo e lento.

De quando em quando abria a boca para soltar finos gemidos, mas quando os movimentos tornaram-se mais intensos era quase impossível controlar minha respiração, minhas ações, meus desejos, tudo transformando-se em altos gemidos que não eram capazes de se ouvir, pois o celeiro ficava um pouco ao longe do casebre e Carmem era uma mulher velha e distraída com seus afazeres domésticos.

Minhas unhas tornaram-se garras e arranhavam fortemente as costas do delicioso humano, ouvia seus gemidos, dor misturada ao prazer, prazer misturado à dor, para ele ambos eram um só, para mim, ah! Eu só queria poder rasgar sua pele, devorar sua carne e por fim beber seu sangue, carne e sangue... Era tudo em que pensava enquanto o ato se consumava, isto excitava-me ainda mais, imaginar-me devorando-o até os ossos.

Cada minuto fora extremamente surreal, indescritíveis sensações de prazer, os movimentos rápidos e gostosos, suas mãos segurando meus seios com força enquanto sentia-o bem dentro de mim, parecia que não era apenas carnal esta ligação. Tudo estava intensamente maravilhoso que pensava que Adrian poderia adentrar meu âmago com a mesma velocidade em que fazia este vaivém, poderia dominar-me inteiramente, corpo e alma, saber de meus segredos e de meu doloroso e irrelevante passado.

Perdoe-me, Morte, novamente cai em tentação, mergulhei no pecado da carne e sem ao menos pensar duas vezes, mas não me julgues, minha deusa, quando trouxeres a lua de volta para mim, quando despertares outra vez a sequiosa criatura então adormecida, matarei a ele e à mãe, ambos não podem saber de minha história, minha outra face, meu outro corpo, minha outra vida, a vida noturna e assassina. Farei isto por mim, farei isto por ti, farei por nós, minha amada!

Juntos atingimos o ponto alto do prazer. Exausto, ele deitou-se sobre mim, começou a beijar meus lábios descendo para meu pescoço, apalpava delicadamente meus seios e até acariciava meus cabelos, não demorou muito para sua respiração voltar ao normal e quando isto aconteceu, notei que estava adormecido.

Pensei em levantar, me vestir e sair daquele celeiro antes que acordasse, todavia, algo me fez desistir destas ações e permanecer deitada ao lado daquele homem, olhei para seu semblante cansado, seus fortes braços entrelaçando meu corpo junto ao dele como se quisesse me proteger, será que era isto que queria realmente, me proteger?

Durante todo o ato há pouco ocorrido ele fora gentil, em nenhum momento fora bruto, pensando apenas no próprio prazer ou forçando-me, pelo contrário, quem o forçou a isto fui eu, pois estava enlouquecida de desejo e precisava satisfazer-me de algum modo, eu apenas o usei.

O que estou fazendo?! Perdoe-me novamente, imaculada deusa, este contato diário com os mortais e seus ridículos sentimentos está deixando-me confusa e enraivecida, o que está acontecendo comigo?

Não, não posso ter compaixão ou outro tipo de sentimento para com uma raça tão pútrida e inferior, almas errantes condenadas a sofrer eternamente por não pensarem em ninguém mais, apenas em si mesmos. Perdoe-me, Morte.

À noite estava no quarto que Carmem cedera para mim desde o dia em que acordei neste lugar, olhava para o céu escuro, as nuvens moviam-se lentas como se não tivessem pressa, como se o universo fosse somente delas. Olha lá minha querida carrasca! Ainda estava pela metade, sinto-me bem assim, como se também faltasse uma parte de mim, uma parte que estava adormecida há semanas e que sem ela sinto-me fraca e inútil.

Não desci para jantar, Adrian certamente iria entregar tudo à sua mãe o que fizemos esta tarde, tenho certeza que não iria parar de encarar meu rosto brando e inescrupuloso durante toda a refeição, Carmem pode ser velha e distraída, entretanto, não era tão idiota quanto muitos poderiam julgar, se caso o rapaz tivesse uma certa descrição ela poderia não notar este nosso segredo, mas como não passava de um xucro que morava no meio do nada, estaria perdida...

Acredito ter mais alguns dias para me satisfazer, logo a lua cheia virá, não irá se demorar, preciso ser rápida e gastar todo este combustível que queima intenso dentro de mim.

Esta noite fui visitá-lo em seu quarto, acordei-o tapando sua boca, seus olhos saltados encarando meu rosto, pus o dedo indicador em meus lábios avisando-lhe para que fizesse silêncio, com um aceno com a cabeça, o mortal concordara em não fazer nenhum barulho, então sussurrou:

___ O que faz aqui?

___ Eu quero você ___ respondi-lhe no mesmo tom.

___ Não, não podemos, fora errado o que fizemos e...

Sentei sobre o lenhador e retirei a camisola nívea e delicada atirando-a em um canto do quarto, inclinei-me dando-lhe um delicado e sensual beijo convencendo-o facilmente a se entregar a mim.

Após fazermos amor, notei que novamente ele adormecera aconchegando meu corpo em seus braços e mais uma vez com extrema destreza livrei-me deles voltando ao quarto, procurei dormir um pouco para que no dia que iria chegar estivesse pronta para mais um momento de intenso prazer.

No dia seguinte estava colocando lenha no forno, precisava ferver água para fazer uma sopa de legumes, Carmem amanhecera um pouco febril e tossindo, não que realmente importasse-me seu estado, mas enquanto era apenas uma bruxa sem força e sem muita agilidade tinha de me importar.

A mulher estava na sala sentada em uma das duas poltronas lendo um livro com as páginas já amareladas, dissera-me que seu pai lhe dera este livro quando era criança e nunca o lera, fora tudo que consegui ouvir, suas histórias banais já estavam cansando-me.

Estava na cozinha, enquanto a água fervia na chaleira de barro, cortava alguns legumes e moía algumas ervas para tempero, eis que o homem entra na casa lançando-me um estranho olhar de vergonha, parecia uma virgem morta de remorso por ter se deitado com um amante qualquer antes do sagrado matrimônio!

Após desejar-me uma boa tarde de maneira pouco íntima, caminhou até a sala para falar com a mãe, ajoelhou-se perto da mulher e disse com uma voz meiga para um homem como ele:

___ Como está, mãe?

___ Estou bem, querido, é só uma gripe, logo vou estar melhor ___ respondeu a velha com dificuldade, como se sua garganta estivesse inflamada e doesse ao falar.

Comecei a ouvir algo no qual o lenhador pôs-se a cochichar, devo minha audição agora tão aguçada ao tolo e falecido Tom!

___ Mãe, algo estranho está acontecendo, notei que há um número bem menor de galinhas do que havia há alguns dias.

___ Impressão sua, querido, o número sempre fora o mesmo.

___ Não, mãe, desta vez há bem menos.

___ Deve estar trabalhando demais, Adrian, precisa descansar um pouco.

___ Não, mãe, não é o trabalho! Acho que há algum animal pelas redondezas que vem à noite se alimentar de nossas galinhas.

Estava extremamente atenta à conversa de ambos que mal percebia o que estava fazendo.

___ Ora essa, meu filho, nunca houve animal algum por aqui, exceto naquela vila, mas como você mesmo disse, tudo e todos estão mortos, só restou nós aqui no meio desse nada.

___ Finalmente a senhora chegara onde eu queria, mãe, estive pensando, refletindo, pode ser que algum animal selvagem tenha atacado e destruído toda a vila, agora ele está rondando nossa casa ou pior, está mais perto do que imaginamos.

Um certo nervosismo tomou conta de mim e acidentalmente cortei minha mão com a faca de cozinha, soltei um fino grito fazendo com que ambos direcionassem sua atenção para mim. Adrian levantou-se e foi até perto de mim.

___ O que houve, querida?___ indaga Carmem com dificuldade e em tom baixo, porém um pouco preocupado.

O filho pegou minha mão e viu o corte que estava sangrando, retirou um lenço do bolso de sua calça e enrolou-o sobre a ferida olhando fixamente para mim, entretanto, não havia espanto ou desconfiança no olhar dele, mas sim, creio eu, um tanto de compaixão.

___ Não foi nada, mãe ___ respondeu por mim ___, a moça apenas fora descuidada com a faca.

___ Ela está bem?

Abri um inocente sorriso que refletiu em seus olhos castanhos fazendo responder:

___ Sim, mãe, não foi nada sério.

___ Quer que eu vá até aí ajudá-la?

Balancei a cabeça negativamente e novamente o humano respondera por mim:

___ Não será necessário, mamãe, ela já está melhor, eu mesmo irei ajudá-la no que precisar.

A anciã nada disse, apenas retornou a leitura de onde interrompera, o rapaz sorria para mim e ainda segurava minha mão entre as suas num gesto delicado e cavalheiro.

___ Deixe que termine isto para você, vá lavar este ferimento para que não infeccione.

Não foi necessário que falasse duas vezes, fui imediatamente para o quarto onde havia uma bacia de porcelana cheia com água limpa e uma toalha ao lado, lavei o corte e quando olhei para ele, já estava cicatrizando. Enrolei novamente o lenço de Adrian agora banhado em sangue para que não suspeitasse e desci para continuar meus afazeres domésticos que daqui algumas noites iria se perfazer.

Naquela noite decidi novamente fazer uma visita ao excitante lenhador, entrei cautelosamente em seu quarto fechando a porta sem fazer nenhum barulho, quando direcionei meu olhar para sua cama não o encontrei ali, os lençóis estavam esticados e parecia que ninguém não havia nem ao menos sentado sobre o colchão, estranhei.

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Um susto repentino fez-me com que encostasse na parede de olhos fechados, senti algo selando meus lábios e quando olhei era ele, assim como eu noite passada, o humano levara o dedo indicador à boca indicando para fazer silêncio e então sussurrou:

___ Sabia que queria mais.

Após tirar a mão de meus lábios, pude dizer a ele:

___ Eu quero você.

Não esperei nem mais um segundo, comecei a beijá-lo ardentemente, estava queimando de desejo por dentro e por fora, eu queria-o só para mim, mais um momento, mais uma noite, até quando a lua voltar a brilhar neste céu obscurecido, antes da criatura voraz e insana voltar a me dominar por completo...

No despontar do dia já estava acordada, havia saído às escondidas vestindo uma capa negra que vira dobrada e empoeirada no celeiro quando limpei-o, pensei que ninguém sentiria falta daquela vestimenta, pois se estava empoeirada obviamente estaria esquecida e coisas esquecidas são irrelevantes.

Fui até o galinheiro para me alimentar, estava com tanta fome que comeria um dos cavalos do estábulo, porém se fizesse isso poderia dar adeus a esta mordomia até o retorno do pálido luar, era difícil, mas tinha de me conformar com apenas uma galinha por dia, esta dieta obrigatória estava pior do que qualquer tortura que já sofri nesta existência.

Teria de ter mais cuidado, faltavam poucas noites para a lua cheia e Adrian já notara que o número de galinhas diminuíra, se caso desconfiasse de mim, ao menos notar que tem uma gota de suspeita não pensarei duas vezes, matarei a ele e à sua mãe, não posso arriscar.

Entrei no galinheiro, todas aquelas aves fugiam de mim, melhor dizendo, desde o dia em que cheguei neste lugar todos os animais temiam minha presença, creio que sentiam e até podiam ver o que sou por dentro, ainda bem que os humanos não tinham este dom, pois penso que ele somente é concedido à criaturas puras e inocentes. Escolhi a primeira que estava ao meu alcance e logo a peguei quebrando seu pescoço, a devorei ali mesmo e sem demora, poderiam acordar a qualquer momento.

Após ter feito minha refeição meu estômago ainda roncava, porém nada poderia fazer, fui então dar uma volta ao redor da propriedade, um vasto campo de relva tão verde e alta, algumas árvores ao redor, entretanto não muitas a ponto de aquilo tornar-se um bosque, precisava ter contato com aquela natureza, mesmo que fosse tão pouca... Fazia-me lembrar de meu lar.

Ah como sinto saudade daquelas esmorecidas árvores, seus troncos ocos e escuros, mas que serviam de moradia aos corvos, seus galhos secos, as folhas quebradiças e fracas, todas cobrindo o chão de terra morta como um manto quando chegava a hora de dormir.

Sinto falta daquele lago de águas entenebrecidas, o fundo jamais poderia ser visto e por todos era desconhecido, até por mim. Certa vez, quando era mais jovem, ouvi uma lenda de que algo aterrador vivia ali dentro, algo oculto e cruel, um ser maligno que puxava todos que ousassem adentrar aquelas águas para o fundo, creio ser apenas uma lenda, pois nada me acontecera e todos os dias ia até lá para banhar-me e até passar o tempo mergulhada até os olhos naquelas álgidas e calmas águas.

Se havia alguma coisa naquele lago certamente não me fará mal algum, sou diferente, estranha, sei que aquelas águas são extremamente venenosas e matam imediatamente quem ingere no mínimo um único gole daquele negro líquido, menos a mim, tantos e tantos anos matando minha sede ali e nada, nem ao menos um vestígio de morte certa... Por quê?

Já tentei algumas vezes tirar minha vida, mas mesmo antes de fazer minhas primeiras tentativas, sem obter sucesso em nenhuma, minha mãe dizia-me que meu destino já estava planejado e minha hora de partir seria bela, o Anjo da Morte viria levar minha alma para voar por entre as estrelas passando pelas nuvens sombrias no meio da solene noite em que meu corpo cairia frio sobre a terra profanada pelos humanos, até finalmente chegar ao lugar mais seguro do mundo onde almas dançam e sorriem.

Às vezes penso que isto seria apenas um delírio de minha falecida mãe, mas com a chegada de meus guardiões passei a suspeitar de que suas palavras eram verdadeiras. Havia noites em que sentia falta dela e podia jurar que quando lembrava de sua linda imagem, eu a sentia bem perto de mim, sussurrando para que tivesse fé nos demônios que me abençoaram, pois nunca iriam me abandonar.

Estava em meu destino tornar-me uma sedenta e assassina criatura que precisa da luz da lua cheia para se libertar? Estaria escrito em meu futuro que iria entregar-me de corpo e alma ao homem que transformou-me neste horrendo monstro enfurecido e que ao saber da verdade matá-lo-ia a sangue frio para me arrepender depois? Estava previsto que acabaria com todos daquela vila sem sentir nem ao menos um pingo de remorso sequer?

Sinto-me tão confusa e perdida de vez em quando, não sei qual caminho seguir, não sei se o que faço estaria certo ou errado, necessito de um sinal, por menor que fosse!

Caminhando e brigando com meus próprios pensamentos, eis que encontro algumas ervas junto ao pé de uma árvore, ajoelho-me para examiná-las melhor, conheci seus aspectos, eram ervas que auxiliavam no sono, peguei algumas e escondi no bolso da enegrecida capa, retornei ao chalé, caso notassem minha ausência durante muito tempo poderiam desconfiar de algo e eu não estava forte o bastante para defender-me, ainda não... ***

Naquela tarde, estava ajudando Carmem com o tricô, eis que me pediu para fazer-lhe um chá para ver se melhorava daquele mal-estar causado pela gripe, olhei pela janela e vi que Adrian estava dando banho nos cavalos, disse que deveriam estar limpos para quando o inverno chegasse.

Quando a noite chegou olhei pela janela, a lua estava quase completa, tinha mais algumas noites como total e banal humana, dentro em pouco retornaria à uma vida de caça convertida numa fera incansável e sequiosa.

Enquanto admirava minha ebúrnea e doce algoz ouço o barulho da porta do quarto se abrindo, o vidro da janela refletia o semblante do lenhador girando a maçaneta e trancando-a logo em seguida. Viro-me, ele caminha rapidamente até perto de meu corpo agarrando fortemente meus braços.

___ Eu quero você ___ sussurrou ele e sem esperar por uma resposta já fora encostando seus lábios sedentos em meu pescoço nu.

Sorrindo, dei ao mortal o que tanto queria e fiquei feliz por, assim como ele, satisfazer meu desejo. Arrisquei dar alguns gemidos um pouco mais altos enquanto fervia de prazer, afinal, Carmem não iria despertar tão cedo...

Na manhã seguinte estava lavando a louça do café da manhã, comi um pouco apesar de não sentir desejo por aquela comida teria de comê-la, após o desjejum ajudei a mulher à deitar-se em seu quarto, pois disse que não estava sentindo-se bem. Adrian adentrou a cozinha, pude ver que olhou para a sala, devia estar procurando por aquela velha inútil, eis que indaga:

___ Minha mãe ainda está deitada?

Acenei com a cabeça indicando que sim, ele então se aproximou dizendo:

___ Por que não fala comigo? Estamos a sós aqui...

Continuei calada, até que sinto suas mãos deslizando por minha cintura, larguei o prato sobre a bacia de porcelana que ainda continha um pouco de louça que não terminara de lavar, ouvi-o sussurrar em meu ouvido:

___ Por que não diz nada? Parece que só sabe usar essa boquinha deliciosa para outros fins que não seja falar ___ ele riu, um riso nojento e zombeteiro.

Suas mãos subiram até meus seios, apalpando-os e sua boca começou a passear por meu pescoço.

___ Eu não consigo suportar, quero você, agora!

Seus beijos e carícias estavam deixando-me excitada. Suas mãos corriam por meu corpo descendo até o meio de minhas pernas, seus dedos movendo-se lentos e delicados, brincando comigo, fazendo-me delirar. Estava de costas para ele, eis que me virei e comecei a beijá-lo, o rapaz retribuía ardentemente cada um de meus beijos.

Fui empurrando-o até encostar em uma parede, abri sua camisa e pus-me a beijá-lo do pescoço ao umbigo, quando toquei seus lábios novamente, coloquei uma de minhas mãos por dentro de sua calça e comecei a brincar com as sensações daquele homem, ouvia seus suspiros, assim como eu, ele estava louco de desejo.

Uma de suas mãos segurava minha nuca enquanto beijava-me e a outra apalpava cada vez mais forte meu seio, chegava a apertá-lo quando as carícias que eu fazia entre suas pernas torturavam-no de prazer, até que retirei minha mão, parei de beijá-lo e passando meus dedos por sua face, sussurrei:

___ Até a noite ___ sorrindo, me afastei até trancar-me no quarto, adoraria tê-lo visto, deve ser doloroso para um homem excitado ser privado do ato sexual, só de pensar isto me faz rir.

Durante o jantar parecia que seu olhar ia atravessar minha cabeça, aquela mulher nem ao menos percebera, comia sem tirar os olhos do prato, eu... Mal tocava na comida, confesso que sentia repulsa até, mas procurava controlar-me para não regurgitar a pouca quantidade que ingeri, uma quantidade que não alimenta a mim, mas a mentira que estava mantendo-me viva e segura pelo menos até a lua cheia surgir.

Enquanto lavava a louça do jantar, podia ouvir atentamente a conversa que Carmem e Adrian estavam tendo.

___ Esta é uma ótima menina ___ disse a anciã.

___ É sim, mamãe ___ respondeu ele e pude notar um duplo sentido em sua resposta ___, vejo que ela a ajuda nas tarefas de casa.

___ Ah sim, ela é como um anjo! Tão gentil e bondosa, meu filho.

Confesso que nesta parte senti nojo ao me comparar a um anjo e uma certa vontade de rir, pois o que sou e o que sempre fui nunca poderá ser comparado a um ser celestial, a não ser que fosse expulso do Paraíso por cometer pecados terrenos.

___ É, ela é sim ___ concordou o lenhador.

___ Mas acho que a pobrezinha é muda, pois nunca a ouvi dizer uma só palavra sequer.

___ Eu também nunca ouvi.

Como ele mente tão mal, Carmem está muito velha e doente para perceber, mas graças a meus sentidos aguçados senti um certo tremor, mesmo que pequenino, em sua voz.

Eis que um estranho silêncio se formou, pude ouvir as batidas nervosas do coração daquele homem, parecia preocupado, pelo menos meus sentidos não voltaram a ser inúteis com o sumiço de minha linda carrasca, continuaram aguçados e ajudando-me sempre que precisei.

___ Mãe, eu voltei a verificar o galinheiro.

___ Ah, meu Deus, Adrian, novamente este assunto de que existe uma criatura rondando nossa casa e que comeu nossas galinhas!

___ Desta vez eu vi!

___ Viu o que? A fera imaginária rondando a casa?

___ Vi muitas penas espalhadas pelo galinheiro.

___ Adrian, ficou burro de repente, meu filho? É mais do que natural ter penas espalhadas pelo chão do galinheiro!

___ Manchadas de sangue e grudadas em pedaços de ossos?

___ O que?

___ Foi isso que vi hoje à tarde, restam apenas oito galinhas de vinte e sete, como o número pode ter diminuído tanto, mamãe, elas não podem simplesmente ter evaporado ou alçado voo!

___ Não é possível, meu filho.

___ Claro que é, mãe, amanhã bem cedinho vou levar a senhora para que veja com seus próprios olhos, enquanto isto, vou até lá fora preparar uma armadilha, se este animal vier esta noite, não irá escapar!

Oh não, não pode ser, se este idiota colocar uma armadilha no galinheiro como irei me alimentar? Já passei alguns dias sem comida, mas a lua cheia estava se aproximando, não poderia estar fraca para quando ela chegasse, a dor da transformação seria agonizante, quase que mortal, teria de fazer algo.

___ Não, querido, não vá!___ a mãe tentou impedi-lo.

___ Quer que este animal acabe com todas as nossas galinhas? Não posso deixar que faça isso, vou até lá armar alguma coisa para que quando ele tentar se alimentar, ficará preso e aí saberemos que bicho nojento é esse.

Quando o rapaz levantara-se e fora andando em direção à porta da frente, propositalmente derrubei todos os pratos e copos no chão fazendo-os com que se quebrassem, vendo isso, o homem correu até a cozinha e inquiriu:

___ O que houve?

Apenas olhei para ele em silêncio, aproximando-se, ele ajudou-me a recolher todos os cacos dizendo:

___ Tenha mais cuidado da próxima vez ou ficaremos sem louça para as refeições.

Depois de termos limpado toda a cozinha, Carmem pediu ao filho para que o ajudasse a levá-la para a cama, ele aceitara sem reclamar demorando-se alguns minutos para sair do quarto. Quando saiu, rapidamente o agarrei e comecei a beijá-lo, enfim consegui entretê-lo levando-o para o quarto, assim que adormecesse iria me alimentar, pois todo este nervosismo e pressão deixaram-me faminta!

Após sair do galinheiro limpando os lábios sujos de sangue, olhei para o céu obscuro, amanhã... Amanhã à noite minha linda algoz voltaria para mim, amanhã e tudo começaria outra vez, amanhã...

Na tarde seguinte estava muito aflita e ansiosa, andava de um lado a outro com um bando de pensamentos confusos pressionando minha cabeça, estava louca para que a lua surgisse, pálida e completamente cheia, eram minhas últimas horas inteiramente humana, não devia ficar fazendo tarefas domésticas.

Devia me despedir de Adrian, este seria nosso último momento juntos como almas luxuriosas e pecadoras, sabe-se lá quando terei a oportunidade de satisfazer meus desejos sexuais novamente, não podia ficar limpando o chão quando um homem sedutor estava do lado de fora cortando lenha somente esperando a noite cair para poder deitar-se comigo.

Corri imediatamente para o meio das árvores que cercavam as terras daquela pequena e humilde família sem ser vista, colhi uma grande quantidade de ervas e voltei tendo o máximo de cautela, os anos espreitando por entre as casas renderam-me esta habilidade e tinha mais, se eu passava despercebida entre tantas pessoas, por que não conseguiria apenas com duas?

Voltei para o chalé, estava esbaforida e Carmem percebera e indagara:

___ O que houve, minha filha?

Encolhi os ombros abaixando minha cabeça.

___ Está tudo bem?

Acenei dizendo que sim, mas ainda havia um pingo de desconfiança no olhar daquela velha mulher.

___ Mesmo?

Novamente balancei a cabeça positivamente, porém sem abrir minha boca para lhe dizer uma só palavra, não seria problema falar algo, mas prometi há muito tempo que usaria minha voz apenas para quando muito necessitasse.

Sei que quebrei este juramento com Tom e depois com Adrian, mas com aquele tolo de olhos azuis fora diferente, sinto que a Morte enviou-o até mim, éramos um, ele compreendia-me e sabia como lidar comigo mesmo relutando e renegando-o, por algum motivo que sempre irei desconhecer ele sabia como ter-me em suas mãos, deu-me uma nova vida e eu retirei a dele sem nenhuma piedade.

Com Adrian apenas usei minha voz para conseguir seu corpo, somente para ter satisfação sexual na qual não mais podia suportar, creio que minha amada deusa não iria punir-me por quebrar minha promessa, foi por uma causa justa.

Nós bruxas somos vistas como seres lascivos e malignos, seres comandados por entidades trevosas a mando do diabo, mas... O que seria o diabo? O que seria o mal? Para ignorantes mortais o mal seria tudo aquilo que não entendem e muito menos conhecem.

As bruxas são abençoadas por seres ocultos, conhecem o poder de ervas medicinais e desvendam artes sobrenaturais e as usam com sabedoria, criaturas primitivas como os seres humanos temem e repudiam estas práticas como sendo satânicas e nos nomearam como seres malditos e condenados a arderem no inferno.

Quem na verdade é o “maldito” nesta história cruenta e misteriosa? As mulheres, a tentação em carne e osso feita pelo diabo e extremamente fácil a ponto de deixar-se seduzir por uma serpente e comer o fruto proibido do jardim do Éden? A Igreja por querer ser o poder supremo e não admitir outros deuses ou rituais que não fossem para e somente voltados a Deus e a Jesus? Quem seria o verdadeiro vilão desta trama?

Estou cansada de viver fugindo e me escondendo, finalmente tive minha vingança e esta noite serei livre para vagar por esta vasta terra que profanei com o sangue destes cristãos surdos e cegos, fanáticos desenfreados dispostos a queimarem quem ou o que não conhecem em nome de um deus que nem ao menos sabem se realmente existe.

Tantos pensamentos exaltados causando-me ainda mais euforia enquanto picava as ervas e colocava no chá que Carmem pedira-me para tentar melhorar desta gripe que havia contraído, coloquei duas colheres de mel após distribuir a grande quantidade de ervas sobre a xícara, mexi bem até dissolver-se e entreguei em suas mãos.

Meus olhos atentos admirando-a beber tudo em rápidos goles até finalmente não deixar uma gota sequer para trás, adoraria rir de fronte à mulher, mas agradeço aos anos que passei fugitiva e escondida nos quais aprendi a controlar meus sentimentos e emoções, estava radiante por dentro, mas por fora, prevalecia a fria estátua de mármore na qual nunca deixarei de ser.

___ Querida, leve-me para meu quarto, preciso descansar.

Concordei com um gesto delicado com a cabeça e a ajudei a levantar-se, calmamente andando até o quarto ela fora apoiada sobre meu corpo, tudo que esta velha pedia eu concedia sem reclamar, afinal, sempre que entrava na vida de alguém não deixava sobreviventes, assim como na vila, este era o meu destino, levar dor e destruição por onde passava.

Após cobri-la com um grosso manto feito de lã das poucas ovelhas que tinham, estava pronta para me retirar de seu pequeno aposento quando sinto que toca meu braço com suas enrugadas mãos e diz-me com uma voz fraca e trêmula, aparentemente cansada:

___ Venha cá, minha querida, ouça uma coisa.

Sentei-me à beira da cama e pus-me a ouvir a senhora em silêncio.

___ Tem sido muito boa para mim durante estes dias em que esteve aqui, não sei como agradecê-la.

Sorri, entretanto sem dizer-lhe nada, deixei-a continuar.

___ Gostaria que pudesse ao menos me dizer alguma coisa, ao menos uma palavra.

Neste instante, Carmem começou a tossir, deixou de segurar minhas mãos para pressionar seu peito, respirava com dificuldade, pus-me de pé e apenas observei aquela cena, ela tossia forte, respirava cada vez mais dificilmente, eis que estendeu-me a mão clamando roucamente:

___ Ajude-me, meu bem, ajude-me, por favor!

Inclinei-me e acariciei seu rosto repleto de rugas e visivelmente desesperado, meu sorriso refletido em seus olhos abatidos, então sussurro em seu ouvido:

___ Boa noite...

Havia espanto em seu olhar, porém o que via era apenas meu satisfatório sorriso ali espelhado, eu a vi aos poucos deixando este mundo, eu vi a luz deixando seus olhos até tornarem-se negros e inexpressivos, eu a vi partir para o encontro de minha justa deusa, o imaculado anjo que a aconchegará eternamente entre suas enegrecidas e seguras asas, adeus, Carmem.

Só peço que, onde estiveres, não tenhas raiva de mim, fiz isto para o teu próprio bem, sim, odeio admitir que reconheço tudo que fizera-me, o quanto me ajudara e... não consigo considerar o fato de que quando a lua cheia surgir irei transformar-me e fazer com que sofra dolorosamente até o último segundo.

Talvez pudesse dar o mesmo destino a Adrian, pois no fundo via que não era uma pessoa má, mas não, depois de tanto tempo preciso sentir o prazer de caçar, ter uma presa viva e implorando entre minhas garras, lamento, querido, mas será este o seu fim, irá gritar, sofrer, agonizar até dar seu último suspiro.

Fechei a porta do quarto de Carmem e fui até os aposentos do lenhador, sabia que estava lá fora fazendo suas tarefas diárias, precisava de um momento sozinha naquele lugar antes de delirar de desejo. Deito-me em sua cama, ah como o cheiro dele me excitava! O cheiro da sua pele impregnado nos lençóis, aquilo fazia meu corpo ferver.

Completamente enlouquecida pelo seu aroma, rolava nua por entre os lençóis, o perfume de sua pele penetrando em meus poros, as lembranças de nossos atos pecaminosos realizados neste quarto, nesta cama, por dentro era como se um vulcão fosse entrar em erupção, comecei então a tocar-me imaginando aquelas grandes e fortes mãos pegando e dominando-me.

Sentia-o apalpando e apertando meus seios, usando seu tato para desvendar os mistérios do meu corpo, lugares e sensações desconhecidos por ambos, o modo como seus dedos passeavam por minha virilha, tocando-me suavemente, brincando com cada parte extremamente delicada, um toque era o bastante para excitar-me.

Como aquilo era delicioso, os dedos de uma das mãos passando por entre minhas pernas enquanto a outra segurava carinhosamente um de meus seios, era estranho e divertido brincar comigo mesma, sentir um prazer que estava proporcionando somente para mim, era um ótimo passatempo enquanto esperava pelo corpo de Adrian sobre o meu num vaivém delirante até chegar finalmente ao momento do regozijo.

Fora inexplicável, as sensações eram as mesmas como quando fazia amor com aquele homem, porém um pouco diferentes, pois era eu e somente eu dando-me prazer, satisfazendo-me, meus olhos reviraram, minha respiração aumentou e soltei alguns finos e baixos gemidos até atingir o ponto alto do prazer, fora algo único e completamente magnífico.

Depois de recuperar meu fôlego, levantei e fiquei observando pela janela aquele rapaz cortando lenha, não demorou muito para que seus olhos encontrassem os meus, pude notar seu espanto ao fitar-me, pois estava nua em seu quarto, ficara alguns longos segundos imóvel creio que tentando repassar o que havia acabado de ver, logo em seguida correra rapidamente para dentro da casa e direto para mim.

Escancarara a porta ao entrar, deparou-se comigo deitada em sua cama, não pensou duas vezes, saltou sobre meu corpo despido e começou sua sessão de beijos e carícias famintas, rapidamente tirou toda a sua roupa e pôs-se a devorar-me enquanto fervilhava de desejo. Nossa última vez juntos teria de ser excelente... Assim como o primeiro momento!

Deixei que fizesse tudo que quisesse comigo, não importei-me quando suas unhas desenhavam linhas avermelhadas em meu corpo traçando o caminho de seu prazer, seus dentes sobre minha carne, até que não fora tão ruim e doloroso, à noite os papeis iriam se inverter. Suas mãos apertando forçosamente meus pulsos como se por um instante fosse fugir deste delicioso ato sem nenhum tipo de emoção ou culpa.

Sua boca passeava por cada pedaço de mim voraz e vagarosamente enchendo-me de beijos e chupões, entretanto, quando chegava perto de minha virilha mudava suas ações, seus movimentos tornavam-se mais delicados, sua língua passando suavemente por minha vagina, suas mãos tocavam-me com suavidade por pequenos períodos de tempo, na maioria das vezes ambas seguravam minhas pernas bem abertas enquanto sua boca fazia todo o excitante trabalho.

De olhos fechados procurava concentrar-me inteiramente nesta sublime sensação de prazer, quando este magnífico deleite aumentava, minha respiração tornava-se mais rápida, tanto que forçava-me a dar alguns finos gemidos e meus dedos apertavam o lençol assim como aquele rapaz quase esmagara meus pulsos.

Meu corpo ardia em chamas, mal conseguia controlar minhas ações, chegava a estremecer, sentia atentamente cada movimento que fazia e ia deixando-me cada vez mais excitada, aquilo era apenas o início, a entrada para o aumento do nosso libido, logo viria o prato principal, eis que finalmente chego ao ponto alto do prazer e sem poder controlar-me dou um grito, um grito de libertação, de regozijo, de alívio após um voluptuoso momento.

Estava ofegante, mas retribuiria o prazer que fizera-me sentir. Invertemos nossas posições, agora ele encontrava-se deitado e completamente relaxado a fim de deixar que minhas mãos e minha boca explorassem seu corpo desvendando cada área secreta e lascívia.

Novamente fechei meus olhos e deixei que meu paladar apurado sentisse o gosto de seu corpo másculo, beijava e mordia-o com delicadeza e sensualidade, a cada toque sentia sua respiração aumentar, estava difícil controlar-se.

Meus dedos apalpavam tão suavemente seu membro viril passando carinhosamente minha língua sobre ele percebi que aquilo o enlouquecia fazendo-o arfar, aumentei um pouco a intensidade de meus toques e carícias podendo ouvir suspiros mais intensos, quase tornando-se leves gemidos.

Você gosta disso, seu libertino?, apenas isto preenchia meus pensamentos, não diria nada, palavras naquele instante eram desnecessárias, precisávamos apenas de sensações, deliciosas e lascivas sensações.

Detive-me para sentar sobre seu corpo, desta vez eu estava no comando, iria fazê-lo gemer, contorcer-se de tanto prazer, pois não iria perdoar-me se soubesse que nosso último ato sexual fora um completo desastre e que jamais teria a oportunidade de reparar meus erros.

Mesmo deitado e hirto, Adrian levantara suas mãos para tocar em meus seios, acariciando-os ternamente enquanto dançava sobre ele, às vezes erguia minha cabeça, respirava fundo, transpirava e ofegava, estas formidáveis sensações tiravam meu fôlego.

Deixei que conduzisse a dança, deitei sob seu corpo apenas sentindo-o entrando e saindo de dentro de mim. Aquilo não podia parar, estava cada vez melhor, não devia parar enquanto não atingíssemos o clímax deste momento.

Parecia que meus gemidos causavam-lhe volúpia fazendo aumentar a intensidade de seus movimentos, assim aumentando meu deleite. Apertava entre meus dedos o fino e delicado lençol, puxava-o, mordia o lábio inferior até que senti-o chegar ao orgasmo, fora ainda mais estupendo, pois atingimos a intensa satisfação juntos.

Permaneci com os olhos fechados enquanto minha respiração voltava ao normal e meu corpo aliviava-se desta sublime sensação, um sono merecido e leve fazia meus olhos arderem clamando para que se fechassem, mas não podia, haveria muito tempo para dormir quando o sol se levantasse na manhã seguinte.

E mais uma vez senti os braços daquele homem levando meu corpo para junto dele, beijava meu pescoço enquanto acarinhava meus seios, não me importava, o que eu queria ele já me dera e logo iria dormir, para sempre.

Enquanto esperava que o sono o dominasse, fiquei pensando em tantas coisas, às vezes nem ao menos pensava, mas lembrava, lembrava-me das tantas e tantas vezes nas quais quase fui levada pela morte, as fugas, meu querido refúgio confortável no qual sinto tanta falta, enfim, tudo que passei até chegar aqui, na cama de um completo desconhecido que logo tiraria sua vida apenas por prazer.

E se tudo fosse diferente? Diferente como? Eu não faço idéia... E se eu não fosse caçada, continuaria vivendo como camponesa naquela vila, e se Tom não cruzasse meu caminho, teria uma vida humana e banal como todos que um dia me cercaram e acima de tudo, e se eu não nascesse uma bruxa... Como tudo seria?

Por que nasci assim? Deve haver um motivo, o Anjo da Morte que tudo sabe e tudo vê manda-nos a este mundo por algum propósito, ele traça nossos destinos para que no dia do julgamento venha levar nossas almas para o descanso eterno ou para o purgatório.

Deve haver uma razão a qual vim para este lugar, para que nascesse assim e tivesse que sobreviver até a chegada do cavaleiro branco, o impiedoso ceifeiro, mas o que tenho que fazer? Qual seria minha missão? Servir a satã fazendo de mim sua escrava, não somente dele como da lívida lua?

Pessoas que viviam à minha volta acreditavam no Deus e no Diabo, eu não creio que possa existir um Deus que pune e julga, que não admite uma mulher deitar-se com um homem apenas por prazer, sem ligamentos emocionais ou matrimoniais, não tenho fé em um Deus que castiga seus filhos apenas por tentarem conhecer um outro mundo, cheio de seres obscuros e sobrenaturais, se eles existem não podem ficar escondidos para sempre.

Os anos de juventude que passei ao lado de minha mãe foram cheios de aprendizado e discernimento, devo toda a minha sabedoria à ela, mostrara-me o domínio das artes ocultas, o conhecimento sobre ervas para encantamentos e medicamentos, ensinara-me que não preciso devotar-me a um Deus surdo e cego, definhar-me na miséria e na pobreza apenas para ganhar o reino dos céus.

Minha mãe ensinara-me que posso ter tudo que quisesse, usando meu corpo ou atos de feitiçaria, não importava, e se em algum momento minha alma ardesse nas chamas do que os mortais chamavam de inferno, ela dissera-me para ser forte e para tudo suportar, pois os fortes sobrevivem a tudo e isto serviria apenas para fortificar meu espírito.

Acredito na senhora, mamãe, pois em todos esses anos eu fui extremamente forte e corajosa, já fugi da morte forçada, já passei fome, frio, mas nunca desisti de meu destino, vou lutar até o fim, seguir o caminho ao qual o sombrio e majestoso Anjo traçou especialmente para mim, eu sei que no fim ele virá resgatar minha alma, eu sei...

Finalmente Adrian adormecera, cautelosamente retirei seu braço estirado sobre meu abdômen e o coloquei perto de seu tronco, levantei da cama vagarosamente, peguei meu vestido amarrotado em um canto do pequeno quarto e sem ser notada saí imediatamente daquele recinto fechando a porta.

Vesti a roupa e logo em seguida a negra capa que deixei no quartinho ao lado o qual Carmem cedera à mim, fui para o lado de fora do chalé e olhei para o céu, o pôr do sol estava próximo, senti uma fria brisa passando por minha face ebúrnea e melancólica, só não entendia a razão para tanta tristeza.

Por mais que diga que sou uma fera assassina e impiedosa, há dentro de mim uma parte humana que grita, que chora, que implora para se libertar, eu então a mantenho trancafiada dentro do que os mortais chamam de coração, para as pessoas este pequeno órgão responsável pelo bombeamento do sangue guarda muitos sentimentos, o amor é o mais precioso deles.

Como são tão tolos, isto é apenas um órgão, e o amor é apenas uma arma que separa e acaba com muitas vidas. Por que ligaram o amor ao coração? Por que pensam que este órgão é responsável por sentimentos e emoções? Se for, logo penso que o amor é nada mais que um funeral de corações, pois engana, consome, destrói, mata!

Esta noite seria álgida, porém isto não seria problema, uma das melhores partes de se tornar esta estranha criatura era não ter qualquer lembrança sobre a noite que se seguira ou seguirá. Ah, chegue logo, minha linda ninfa cruel, bem dizem que as dores interiores doem mais que as exteriores, dores emocionais, que fazem definhar e logo após matam, chegue logo, linda lua, não vejo a hora do animal faminto e sedento voltar a dominar-me matando por um tempo esta terrível e sentimental parte que tanto repudio.

Ouço o cacarejar das galinhas vindo do lado de trás deste casebre, aquilo provocou minha fome, senti minha barriga roncar, lambi os lábios com um desejo voraz, Carmem estava morta em seu quarto e Adrian estava dormindo feito pedra, era hora de um pequeno aperitivo para quando a noite viesse estivesse pronta para o prato principal.

Entrei no galinheiro sorrindo, as aves corriam assustadas para todos os cantos do minúsculo ambiente, fechei a cerca que as impediam de fugir e comecei a rondar o lugar, queria que a adrenalina aumentasse um pouco, estava fácil demais aquele jogo.

Como sinto falta da emoção de correr atrás de um animal indefeso, a fome e a vontade de comer aumentavam o desejo de matar, posso me lembrar de como era divertido correr até alcançar a presa, senti-la debatendo-se em vão desespero e por fim, morrer agonizando lentamente, ah... Esta noite esta maravilhosa sensação voltaria para mim!

A fome fez com que meus dentes virassem presas e minhas unhas virassem garras, peguei a primeira galinha que passou perto de mim, de seu pequeno corpo emplumado o cheiro do medo era exalado, aquilo excitava-me de uma maneira sem igual, agachei segurando a criaturazinha que debatia-se desesperada, imediatamente quebrei seu pescoço torcendo-o com toda a força sobre-humana que restava em mim, minhas garras rasgaram seu peito e quebraram seus ossos podendo assim cravar meus caninos afiados em sua carne macia.

Aquelas malditas penas misturadas ao sangue e à carne davam alergia e até engasgavam-me, porém isto era o menor dos problemas, uma taça de vinho das poucas garrafas que esta humilde família possui era o que bastava para dar um sabor a mais a esta refeição que estava sendo apenas um leve aperitivo, à noite teria meu tão almejado prato principal.

Estava devorando aquele animalzinho com tanto sôfrego que não notei a cerca de madeira se mover lentamente, mal pude ouvir o quase inaudível som de passos aproximando-se de mim, entretanto, quando uma voz familiar entrou pelos meus ouvidos penetrando em minha mente, aquilo fez com que detivesse meus atos primitivos e meu coração batesse disparadamente.

___ Então é você...

A voz de Adrian indicando espanto ao deparar-se com tal situação, sua respiração veloz, porém não tanto quanto a minha por ter sido pega em flagrante, o que poderia fazer, as provas estavam diante de seus olhos arregalados, o sangue daquela ave que não sabia voar em minhas mãos e lábios, uma certa indagação em seu semblante encanecido.

___ Não estou acreditando em que estou vendo...

Apenas o encarava sem dizer uma palavra, queria ouvi-lo atentamente, admirar o modo como sua limitada imaginação iria trabalhar de fronte àquela cena que tanto o assustara.

___ Você é a criatura que tem amedrontado os animais e matado as galinhas... Você!

Soltei a carcaça daquele animal depenado e tentei me levantar, mas apenas um gesto de mão seguido de uma ordem insensata fez-me ficar onde estava.

___ Não se mexa! Fique onde está, não chegue perto de mim!

Obedeci, fitei silenciosamente seu olhar, de súbito ele começou a andar de um lado para o outro tentando encontrar as palavras que com o susto esvaíram-se de seus lábios, em muitos momentos gemia e balbuciava, chegava a dizer algumas palavras, mas creio que estava somente pensando alto. Eis que parara e fixara seus olhos em mim.

___ Como pôde fazer uma coisa destas? Depois de tudo que fizemos por você, co-como pôde? Por quê? Qual a razão disso? E-eu não acredito no que estou vendo... Você... Você... Qual o motivo... O que te levou a fazer algo assim?

Adrian estava confuso, gaguejava, sacudia as mãos, voltou a andar de um lado a outro, percebi que não conseguia mais me encarar, estava abismado, desnorteado até, apenas continuei muda, quis ver até onde ele iria, o que faria.

Olhava para o animal morto em meus pés, minha boca e minhas mãos sujas de sangue, a capa negra coberta de penas brancas, coloca uma das mãos sobre a boca, não sabia ao certo se aquilo era por nojo ou espanto, talvez ambos.

Novamente aquele homem parou de frente para mim, olhou-me nos olhos e perguntou:

___ Por que fez isso?

Levei alguns segundos para responder, quis criar um certo suspense e uma expectativa, eis que disse:

___ Fome.

___ Fome? Fome?!

Aquela resposta o deixara ainda mais intrigado e nervoso, pôs-se mais uma vez a andar de um lado para outro com a mão tapando a boca, olhava para o cadáver do animal e para mim, até voltar a falar:

___ Desde o dia em que chegou aqui nunca a vi passando fome, sendo obrigada a matar animais para se alimentar!

___ Tenho fome.

___ Fome de quê?

___ Carne, sangue.

___ O que? Eu... Eu não posso acreditar no que estou vendo, em que estou ouvindo, isso só pode ser loucura...

Olhei pelas frestas de madeira do galinheiro, vi que a luz do dia estava prestes a se apagar, logo o luar iria me abençoar outra vez, já podia sentir a brisa álgida da noite arrepiar excitantemente minha pele, aquilo encorajou-me a dizer:

___ Tenho fome, tenho sede, quero comer, quero beber, quero sentir a presa indefesa entre meus caninos e minhas garras ___ fui-me aproximando do lenhador, que começou a dar passos para trás.

___ Que loucura é esta que está dizendo? Você nunca passou fome ou sede aqui, minha mãe... ___ ele então calou-se instantaneamente, seu rosto empalidecera e a luz deixara seus olhos ___ ...eu a vi, ela está morta! Saí para procurá-la para perguntar o que houve, eis que a encontro, aqui. O que você fez com minha mãe?

___ Ela agora dorme tranquilamente nos braços do cavaleiro branco.

O crepúsculo seguira tão rapidamente, os primeiros raios de luar já podiam passar pelas frestas do galinheiro, uma leve dor começou a penetrar em meu peito, um aperto suportável, apenas durante alguns minutos, olho para o humano e noto um certo espanto em sua fisionomia, boqueaberto começa a balbuciar:

___ Você... Se-seus olhos... Seus olhos... Estão amarelos!

Sorri tentando esconder a aguda e nefanda dor que só iria aumentar até a mutação concluir-se.

___ O que você é?

Senti uma estranha energia, como se um forte raio acompanhado por uma tempestade atingisse-me e corresse por todo o meu corpo, uma sensação eufórica e estimulante, peguei aquele mortal amedrontado e confuso pelo pescoço, levantei-o até que seus pés não pudessem mais tocar o chão encostando-o contra a parede.

___ Uma bruxa... Uma fera... Uma maldita força da natureza!___ disse a ele abaixando-o de novo até o solo.

___ O que vai fazer comigo?

Lambi seu rosto, o medo dera um sabor à sua pele, o cheiro de sua carne estava enlouquecendo-me, olhei bem no fundo de seu olhar e pela primeira vez, pude ver nitidamente minha face refletida ali, banhada pelo medo que sentia naquele instante, pelo desespero, clamando por sua vida e naquele momento eu soube... Eu era a Morte.

Enterrei meus dentes profundamente em seu pescoço arrancando um pedaço de sua carne, o sangue jorrava banhando-me com sua vida, a dor da metamorfose já não era mais tão intensa, ele estava ali em minhas mãos, meu alimento, meu servo, meu amante, meu... Só meu!

Nem sua macia carne nem seu rúbido sangue... O que mais apreciei fora seus gritos agonizantes, eu saboreei tão delicadamente suas súplicas, o modo como gritava a plenos pulmões, ninguém viria lhe salvar, ninguém podia me deter, uma nova vida vinha com a noite, a vida perfeita, a vida pela qual morro durante o dia e renasço das cinzas quando o sol se põe.

O poder voltara para minhas mãos, eu saboreei tão delicadamente, todo o seu pranto, todo o seu martírio, preces desnecessárias, forças que de nada lhe valeriam, pois a Morte viria, veio por Carmem, viria por Adrian e dentro em breve... Por mim.

Não deixei uma gota de desespero fugir por meus dedos, era preciso que sua passagem fosse lenta, pois morremos apenas uma vez, teria de ser mágico, perfeito, não somente falando de um jeito carnal, porém de um modo espiritual, nossas almas têm de sentir que aos poucos estão desprendendo-se das vestes grosseiras nas quais viveram trancafiadas e entristecidas durante muitos anos.

Uma morte rápida era o pior jeito de partir, algo sem dor, sem sofrimento, isto não vale a pena, esta pútrida existência na qual estamos condenados a vagar a procura de uma felicidade ilusória não vale a pena, entretanto, saber que a vinda do eterno e tranqüilo descanso chegará, os momentos que o antecedem devem ser torturantes para saber que depois da tempestade sempre vem a calmaria...

Este era mais um anjo que dormiria feliz em teus braços, amada Morte, eu o envio e peço que guarde tua alma no aconchego de tuas asas e que espere por mim, pois quando meu momento de ir ao teu encontro chegar, quero abraçar-te, beijar-te, ser totalmente tua, minha rainha e mãe!

Não consegui terminar meu trabalho, a dor lancinava intensa e cruelmente em meu interior mutante, mal tinha forças para levantar, quase me esqueci de que esta fase deixava-me tão fraca e indefesa, pelo menos me livrei deste homem, assustado poderia tentar me matar e sinto que minha hora ainda não era chegada.

Arrastei-me até o lado de fora do galinheiro e olhei para o céu, minha cabeça começou a latejar, no início era leve, mas eu sabia que daqui alguns instantes o tormento seria tão insuportável a ponto de ter que gritar a plenos pulmões na esperança de que possa amenizar meu sofrimento.

Eu a vi... Tão lívida, tão sublime, tão imaculada como um anjo da noite... Olá, linda algoz, não sabes o quanto senti tua falta, quantas noites chorei e esperei por tua chegada, pois tua partida já fora angustiante demais, dou graças por retornares para mim, minha querida! Eu a amo e a odeio, a quero e a evito, sorrio e choro por ti, praguejo e clamo por tua presença, apenas tu, linda lua de inverno, somente tu és minha salvação e ao mesmo tempo minha eterna maldição...

O vento podia soprar frígido e insensível, mas o fervor que percorria meu corpo impedia-me de sentir o frio penetrando em minha pele, com minhas garras rasguei o vestido feito a mão com delicado tecido, contorcia, gemia, apertava a relva tão verde quanto valiosas esmeraldas entre meus dedos, mal podia ouvir-me gritar, odiava quando fazias isto comigo, minha querida, por que desaparecias por tanto tempo e no momento de tua chegava fazia-me sofrer como se fosse vítima de um satânico sacrifício?

A respiração esbaforida, senti como se uma mão apertasse com toda a força meu coração entre os dedos, minha cabeça latejava mais a cada segundo que se passava tão lentamente, meu corpo todo doía, podia sentir e ouvir o som dos ossos modificando-se dentro de mim, era mais do que podia suportar.

Era um momento mágico e belo, o nascimento de uma nova vida, estava chegando, despertando de seu doce sono, espreguiçando-se, bocejando, ainda um pouco sonolenta e enfraquecida ela iria sorrir para as estrelas e dizer: Boa noite, lua, seja bem-vinda!... ***

Despertei à beira de uma deserta estrada de terra, não estava ferida por fora, por dentro parecia que fui atacada por lobos famintos, estava fraca e um pouco zonza, nua como sempre, pus-me de pé e comecei a caminhar numa determinada direção deixando meus instintos guiarem-me de volta para meu lar.

Minha intuição estava certa, ao longe avistei a floresta de árvores mortas e acolhedoras, um sorriso de alívio brotou em meu rosto pálido e cansado, arrisquei alguns passos mais rápidos, a dor de voltar a ser humana não mais incomodava, meu santuário estava ali, nada mais importava.

Estava de volta, ah que saudade destas árvores desfalecidas, pútridas e esquecidas, solo profanado pelo sangue que um dia eu mesma derramei sobre ele, um pouco mais a frente... Minha caverna, lar doce lar! Meus lobos uivaram ao notarem minha presença, receberam-me alegremente, eu voltei, meus companheiros, voltei para meu tétrico recanto.

O cheiro da morte rondava todo o lugar e agora penetrava em meu corpo, corria por minhas veias, agarrava-se ao meu âmago e espero que nunca mais desprenda-se de mim, jamais quero ficar longe de minha morada outra vez porque aqui, somente aqui, eu tenho forças para esperar até o momento de meu último suspiro.

Corri em disparada e mergulhei naquelas águas sombrias do álgido e sublime lago localizado bem no centro de meu santuário, aquela frigidez entrando por meus poros, a doçura, a melancolia, o silêncio que ecoava por entre as mortas árvores, tudo era perfeito, o universo conspirava a meu favor.

Era indescritível a sensação que me invadia, somente quem retorna ao seu verdadeiro lar sabe o que estou sentindo, tem consciência do que se passa em minha mente, aqui era o meu lugar, sempre será, nada nem ninguém pode me afastar deste refúgio seguro e sólido onde estou escondida, guardada por anjos caídos esperando pela chegada de minha magnífica deusa!

As horas passaram lentas e deleitosas, percorri cada pedaço de natureza morta na qual estava localizada, o cheiro da relva entrando por minhas narinas, os galhos e folhas secas partindo-se sob meus pés, podia-se ouvir finos choros vindos do meio da mata, uma recepção de boas-vindas presumo eu, uma ode à saudade que agora se findara.

Voltei para onde nunca deveria ter saído, aqui estou sozinha, mas estou segura, não que me preocupe com a solidão, acostumei-me com ela desde a juventude, não tendo com quem conversar, pedir conselhos, ajuda, sempre vivendo por mim mesma, sobrevivendo a tudo e todos, suportando dores inimagináveis, esta sou eu... Fria, vazia e forte.

Mais adiante a luz do sol ia tornando-se invasiva, pois era onde as árvores terminavam, podia avistar-se a falecida vila que para sempre carregarei na memória, tudo estava em seu devido lugar, os corpos, os destroços, o silêncio fúnebre, todos ali dormindo tranquilamente como se a noite nunca fosse ter fim.

Caminho por entre os cadáveres observando cada detalhe, a morte rondava suas carcaças pútridas e fétidas, seus rostos não eram mais os mesmos, a carne decompondo-se servindo de alimento para meus guardiões e para larvas que magicamente brotavam da terra, uma terra que vocês profanaram, invadiram sem permissão e agora o sangue de todos lavará todas as obscenidades que aqui semearam.

Era um pouco difícil ter em quê pensar ao admirar aquela mórbida paisagem, deixava apenas meus olhos guiarem minha mente e minha alma, a quietude trazia uma sensação de harmonia para o meu corpo agitado, agora posso saber o real significado de paz, pousar delicadamente minha cabeça sobre o travesseiro e não me preocupar se morrerei enquanto durmo, se estou sendo caçada e minha cabeça desputada como um valioso troféu.

Sinto-me conectada com outros mundos, distantes e desconhecidos, eu lhes dei estas pobres almas errantes e eles presentearam-me com sossego e segurança, era uma troca mais do que justa. Passaria o resto de meus dias a caminhar sem temer minha própria sombra, caçar sem ser caçada e adorar quem eu quiser sem ser acusada ou discriminada. Eu fiz desta floresta meu santuário, tudo isso pertence somente a mim e quem um dia ousar manchar este solo com a nefanda presença humana levará o mesmo fim. Eu sou a Morte, um trevoso e justo Anjo que decide quem tende partir e o escolhido fará esta maravilhosa passagem para o outro mundo através de minhas mãos, pois eu tenho o poder!

Aquilo parecia uma pintura, antes uma tela esquecida e sem graça, agora uma obra de arte repleta de detalhes, banhada em suaves tons de vermelho, um quadro que valeria uma fortuna nas cidades grandes, a libertação, o pranto dos arcanjos, o desespero, a glorificação.

Não necessito mais de um sinal dos céus ou de qualquer outro lugar, sei qual é o meu destino, minha missão, devo exterminar todos que não sabem viver, não sabem respeitar as regras que este mundo nos impõe, sou uma mensageira da Morte, decido quem vai ao seu encontro e estou condenada a vagar por toda esta terra à procura de mais vítimas para o seu regozijo.

Um eco soou dentro de mim, tinha mais do que certeza de que era esta minha missão, minha mãe obviamente sabia, porém eu teria de descobrir sozinha, levei tanto tempo me escondendo de almas fracas nas quais podiam servir-me até o fim de seus dias, sou uma deusa, uma imagem sagrada e preciso ser adorada, sou a Morte e estou bem no centro de meu reino onde governo solene e sabiamente.

Meus guardiões eram meus soldados, demônios encarnados em lobos para proteger-me, pois sou vossa rainha, sim... Tudo faz sentido, um passado tão obscuro e misterioso quanto as águas do lago negro agora tão límpidos e claros quanto a chuva... Tinha certeza que não estava neste mundo somente para cumprir um determinado tempo de agonia entre corpos frios sem objetivos, eu vim para reinar.

O deus dessa gente de nada ajudou quando emanaram gritos de martírio, quando clamaram por misericórdia, por graça, Ele não lhes estendera a mão para livrá-los dos caninos afiados de meus súditos fieis, não, sabe por quê? Porque este deus não existe, era apenas um folclore, uma lenda criada pela Igreja para cegar os de espíritos fracos e susceptíveis. Os fortes que se negam a seguir uma fantasia, um conto de fadas e acreditar em seus feitos nunca realmente provados são condenados, acusados de bruxaria, até mesmo os que não tem coragem de matar um inseto são condenados a queimar na fogueira, pois são enviados do diabo para levarem os mortais para o caminho da perdição.

Como são tolos, julgam sem saber, matam por desobediência, querem todos comendo na palma da mão, mas não, eu não me rendi às suas mentiras, às suas tolices humanas, sei que há outros mundos e que os anjos caídos estão ao nosso redor, porém não ficam nos espiando o tempo todo certificando que tudo que fazemos é um pecado contra Deus ou à Igreja.

Estou farta de ouvir tais estórias, lendas de que se todos não forem fieis ao Espírito Santo queimarão nas profanas chamas do inferno. Aqui é o verdadeiro purgatório, onde estupram, roubam, matam e ainda se dizem cristãos, aqui é o real templo do pecado, aqui, na Terra!

Era tempo de mudança, não poderia continuar como estava, isto teria que parar, esta fé cega teria de morrer e ser levado com ela todo o preconceito e a discriminação. Um novo começo, uma nova vida era tudo na qual sonhava e meu desejo se realizara, todos que um dia praguejaram, direcionaram-me pedras e ofensas agora estão sob meus pés, todos que um dia quiseram-me morta, morreram por minhas mãos.

Agora eu sei...

Retornei ao meu abrigo, queria estar em casa quando a transformação viesse assim que a lua cheia apontasse no céu cinzento, ah como senti falta de toda aquela decadência e melancolia, a luz das velas tremeluzindo mortiças, desenhando estranhas figuras por todos os cantos das paredes de pedra.

Toda a minha existência estava agarrada à estas paredes, a este chão, às árvores, ao lago, a tudo que estava em minha volta, cada pedaço de meu ser pertence a este lugar, quem um dia adentrar este santuário sentirá minha presença vagando por cada perímetro desta área, pois meu corpo pode desvanecer-se, entretanto minha alma continuará aqui, para todo o sempre.

Se fecho meus olhos ainda ouço os gritos dos camponeses, a lembrança da morte passando por seus olhos suplicantes, quando deito em minha cama, a sensação de que Tom cavalga sobre meu corpo enchendo-me de volúpia antes por mim desconhecida ainda vive intensa, o cheiro de sangue fresco rodeando minhas narinas, o sangue de quem passou por mim e não sobreviveu para contar a história.

Todos os dias, desde o primeiro em que pisei neste solo até o presente momento estão afligindo-me, todas estas memórias pressionando minha cabeça, porém não doem como antes, são só lembranças de um tempo remoto e doloroso que morreu com meus algozes e perseguidores, o passado está morto e não seria bom revivê-lo.

Deitei sobre meu leito mórbido e procurei dormir um pouco, a noite anterior fora muito dolorosa e despertei extremamente ferida por dentro, queria poder fechar os olhos e saber o que era uma boa noite de sono onde sonhos infantis embalavam-me sem culpa e sem medo pelo menos até quando a lua cheia voltar a surgir...

Sonhei com uma estranha cerimônia junto à uma fogueira no meio desta mesma floresta, pessoas riam e cantavam uma canção numa língua desconhecida por mim, rodeavam o fogo quente e cada vez que cantavam mais alto as chamas rúbidas ascendiam, todos saudavam a lua cheia que surgia detrás de negras e pesadas nuvens.

As pessoas usavam máscaras, não sabia o real motivo para isto, mas nada disse, apenas estava lá imóvel, apreciando a melodia desta estranha canção, ninguém tinha medo de mim, pelo contrário, parecia que adoravam-me como uma deusa.

Estava ali junto ao fogo, nua e dançando sensualmente enquanto todos rodeavam meu corpo, a lua surgindo e seus pálidos raios banhando meu corpo, eis que param e ajoelham-se, avisto um homem despido e mascarado aproximando-se desta incomum cerimônia.

Ao chegar tão perto de mim tirou sua máscara, era Tom, o fogo avermelhado reluzia em seus sublimes olhos azuis, estava intacto, sem ferimentos ou sangue, como quando sem pensar retirei sua vida, agarrou-me dando um cálido beijo que fez com que as chamas queimassem mais intensas.

Deitados sobre a areia bem ao lado da ardente fogueira, nós fizemos amor, enquanto todos andavam em círculos rodeando-nos, éramos abençoados pela noite, pelas estrelas, pela lua alta e nívea admirando nosso ato apaixonado em sufocante silêncio.

Tambores soavam ao longe e o cântico parecia não ter fim, nossos prazeres a flor da pele, toques e carícias levando-me ao delírio e uma estranha brisa beijando meu brando semblante como o beijo de uma mãe para com sua filha.

Senti meu corpo flutuar, viajar por outras dimensões, passando por lugares além deste mundo, sensações e prazeres desconhecidos dos mortais, pois não vinham da carne. Tudo era mais que um toque de magia, era sentimento, pensamento, doces devaneios que libertam-se assim que entregamo-nos ao sono. ***

Acordei subitamente com um toque frio como o gelo em meu rosto ainda com vestígios do sonho que tivera, abri meus olhos e tive uma surpresa...

Estava diante de mim, a imagem da perfeição, tão fria e doce quanto uma manhã de primavera que ainda trazia consigo traços delicados de um inverno rigoroso, um olhar de esperança e salvação, nada pude dizer, o domínio de meus atos não mais possuía, estava entregue aos seus comandos.

Lágrimas escorreram de meus olhos mesmo sem vontade, sua beleza imaculada, seu rosto angelical, suas mãos acolhedoras tocavam meu rosto, um sorriso ardoroso abriu-se em minha face enquanto ajoelhava-me diante de sua majestade.

Meus guardiões bem atrás desta divindade, não a temiam, muito menos em momento algum tentaram atacá-la, estavam dóceis como se não houvesse razão para ter medo e dentro de mim uma certeza de que realmente não havia nada para temer crecia mais forte a cada segundo.

A doce canção que ouvi em meu sonho agora soava ao redor da caverna, o som das pessoas, pude ver o prateado luar invadindo meu lar, porém só conseguia admirar aquele rosto níveo como a lua, havia graça, luz, uma beleza sobrenatural...

Então, aproximando-se de meu semblante e tocando gentilmente minha cabeça como se estivesse abençoando e absolvendo-me de todos os pecados que pude um dia cometer, disse-me com uma voz terna e musical:


Eu sou Azrael, o Anjo da Morte, venha comigo, minha criança!



Notas finais
Bem, este é o último capítulo, um pouco mais longo que os outros, mas espero que tenham gostado... =)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!