Diário De Um Sobrevivente
3 Sair
Nós fomos levados até uma caminhonete com a carroceria coberta por uma lona com camuflagem de floresta, meu tio entrou e colocou minha mãe deitada sobre um largo banco, em seguida me ordenou e aos outros que entrássemos, exceto ao negro tatuado que seguiu para outro carro, um Audi de passeio, uma mulher o seguiu, uma dos três que seguiam meu tio quando saía da casa. Até agora eu ainda não havia notado nela, era ruiva e esguia, muito bonita e fez uma expressão estranha quando entrou no carro do Audi.
O resto do pessoal se acomodou nos bancos da caminhonete e meu tio seguiu para a direção. Eu entrei e pus delicadamente a cabeça da minha mãe sobre o colo, ninguém sentou ao meu lado, todos sentaram do lado oposto, por um momento me senti como se tivesse uma doença contagiosa.
— Podem se apresentar para o meu sobrinho pessoal! Ele é gente boa — meu tio falou quando arrancou com o carro para a estrada, eu me senti como um garoto excluído que era levado para ser apresentado à galera por um garoto mais popular.
— Sou Bernard — um homem gordo e barbudo, com um facão na cintura que era do tamanho do meu braço, no qual eu ainda não havia notado se apresentou sem cerimônia.
— Sou Mirelly e essa é minha filha Indy — Mirelly falou como se precisasse se esforçar e a garota sorriu para ele.
— Meu nome é Kátia! — a garota gordinha deu um aceno e sorriu como algo que eu na consigo pensar em nada para exemplificar. — Tenho certeza que logo você vai conversar com a gente naturalmente, basta se expressar quando precisar e sentir-se a vontade! A galera é legal e alegre.
Quando a garota empolgada silenciou assim eles permaneceram ao longo do percurso. Em algumas horas eles pararam, todos desceram e George ficou sozinho com a mãe ainda desacordada na carroceria.
— George! — Johan apareceu na entrada da carroceria. — Sua mãe ainda não acordou?
Eu não aguentei mais e voei com um soco no rosto do meu tio. Ele abatera minha mãe e agora fingia estar preocupado com ela?
Saiu mais forte do que eu pensava e meu tio recuou pondo a mão sobre o nariz estancando o sangramento. Eu fiquei horrorizado, mas fingi cara de mal.
— George eu sei que você está triste por ter perdido seu pai! — meu tio tentava manter a calma, mas já alteava a voz. — Mas você precisa encarar os fatos! Se eu não tivesse feito aquilo com sua mãe ninguém sabe o que poderia acontecer! Agora o que temos de fazer é levar sua mãe para dentro e cuidar dela, e você trate de aceitar a vida como um homem que seu pai iria querer que você fosse!
Encarei o chão por algum tempo, que me pareceram horas em silêncio.
— Me perdoe tio! Não sei o que aconteceu comigo — pedi com a cabeça ainda baixa, envergonhado.
— Tudo bem, me ajude a levar sua mãe para dentro.
Enquanto carregávamos minha mãe para fora da caminhonete eu observei o espaço ao redor. Estávamos em algum interior e a levamos para dentro de um edifício que parecia um grande armazém. Lá no alto eu pude ver através de uma janela um homem que vigiava a área com um rifle sniper, parecia um velho, era encorpado e tinha barba e cabelos grisalhos.
Nós colocamos minha mãe que agora roncava no segundo andar, em uma cama pequena e não muito limpa.
— Fique com ela, vou tratar de uns assuntos pendentes com o pessoal aqui — meu tio me anunciou quando deitamos minha mãe naquela cama.
— Tudo bem — eu acenei suavemente.
Ao me deitar na cama ao lado dela percebi que estava exausto, dormi quase que instantaneamente.
Mais tarde acordou com o som de conversa rompendo o silencio esmagador.
— Não se preocupe com isso, ele está apenas alterado por que perdeu seu pai e...
— Não se iluda Johan! Aquele garoto é pirado! Olha o que ele fez com seu rosto! — uma voz mais grave interrompeu a voz do meu tio.
Aproximei-me da sacada, procurei o velho vigia, constatei que ele ainda estava no mesmo lugar, do lado oposto do andar superior, e olhei para baixo, era o homem negro tatuado que falava de pé.
— Por que eu agredi a mãe dele! Essa é a reação natural de qualquer filho! — fiquei feliz por meu tio ter intervido em minha defesa, ao menos alguém em quem confiar, em seguida senti remorso.
— Ainda acho que isso não é desculpa — o homem retorquiu, já menos convicto, procurando com os olhos alguém que intercedesse, mas todos que estavam participando daquela reunião permaneceram sentados e calados.
— Tudo bem, guarde essas opiniões para si! Mais alguém tem alguma coisa a falar? — meu tio perguntou com autoridade, em seguida vendo que ninguém se impôs dispensou-os.
Ao perceber que a reunião havia acabado e recuperar-me do choque, voltei até minha mãe. Ela acordava agora e começou a falar, inicialmente não entendi o que ela disse, ela falava baixo e enrolado, até que ela alteou a voz e pude entendê-la.
— Filho, me desculpe! Poderia ter nos machucado naquela hora — seu olhar era suplicante e eu sentei na cama dela para poder abraçá-la.
— Tudo bem mãe, volte a dormir! E saiba que tio Johan é alguém em quem podemos confiar.
Duas semanas depois de eu ter conhecido aquele esconderijo, eu já havia treinado bastante luta corpo a corpo com zumbis e já conseguia derrubá-los com um facão que meu tio me deu.
Mesmo eu conseguindo matar zumbis meu tio não permitia que eu saísse à frente nas expedições. Nós saíamos em trios frequentemente em busca de comida, água e outros mantimentos que estivéssemos precisando ou que conseguíssemos encontrar.
Este era um dia ensolarado, nós andávamos em meio a uma plantação de uma fazenda. Os milhos estavam secos, mas meu tio fez questão de pegar algumas espigas. Havia alguns zumbis na fazenda que pareciam ser os próprios moradores, depois de derrotá-los nós procuramos suprimentos dentro da casa e encontramos alguns enlatados e um poço ao fundo da fazenda.
— Podemos vir aqui quando precisarmos de água, isso é ótimo! — meu tio enxugou a testa enquanto falava, mas parecia alegre.
O grupo era formado por mim, meu tio e a garota ruiva que vim a descobrir que se chamava Bruna.
— Então já é hora de voltar? — Bruna perguntou, estava claramente exausta de tanto andar e matar zumbis e vendo o cansaço dela descobri que também estava acabado.
— Sim, vamos marcar esse lugar — Johan respondeu apanhando um mapa — caminhos dois quilômetros desde... e então fomos até... — meu tio murmurava para ele mesmo enquanto rabiscava o mapa.
Então ele guardou o mapa e voltou até o poço, parou de frente para ele, parecia procurar algo.
— George pode me ajudar a fechar o poço? — ele me chamou depois de alguns momentos de impaciência.
— Claro, mas para quê?
— Venha, vou te explicando enquanto trabalhamos — ele foi até uma grande tábua encostada na parede do celeiro e eu o segui. Juntos nós carregamos e arrastamos a tábua até o poço. — Veja bem, não vai ser nada legal se um zumbi cair no poço e poluir nossa água não é mesmo? — ele me perguntou com meio sorriso, estava cansado demais até pra fazer gracinhas.
— Tem razão, você é muito esperto tio — eu falei pensando que todo mundo precisa bajular um pouco de vez em quando.
— Ele tem razão, você é muito esperto — Bruna falou sem muito entusiasmo, não entendi o se ela estava debochando ou bajulando e resolvi não me importar.
Meu tio também não se importou, seu rosto enrugado de soldado aposentado estava radiante.
— Bruna vá à frente, você será nossa guia, confio meus olhos a você — meu tio era um homem meio exagerado às vezes.
Nós andamos entre pela floresta por que segundo meu tio era mais fácil dos bichos nos encontrarem se estivéssemos à vista na estrada.
— George, preciso te contar uma coisa — ele anunciou baixinho quando se convenceu de que Bruna não poderia ouvir, pelo peso com que ele colocou a mão no meu ombro senti que era algo muito sério.
—O que é tio?
— É algo muito sério, espere até chegarmos ao esconderijo.
Se era algo sério e ele só poderia me dizer no esconderijo, por que ele não esperou até chegarmos lá para me informar isso?
Quando chegamos ao armazém meu tio pôs a mochila com os enlatados em uma mesa e as mulheres vieram com olhares desejosos e fizeram a mesma coisa de sempre. Retiraram a comida da mochila e arrumaram nas prateleiras, eu não sabia por que faziam isso sempre, mas como não pediam minha ajuda e ficava tudo organizado eu nunca reclamei.
Meu tio me puxou para um lado e me fez entrar em uma sala. Era a sala de administração, ninguém nunca entrava lá, estava bastante empoeirada. O assunto do meu tio deveria ser muito sério mesmo e minhas especulações foram confirmadas quando ouvi a porta o som da tranca da porta.
—George, o que eu vou falar a você é algo bastante complicado, você pode não entender muito bem, mas não se altere — ele falava calmamente, mas eu conseguia sentir seu nervosismo.
— Por que não vai direto ao ponto? — perguntei friamente, me culpei por ser tão ríspido, mas depois deixei de lado.
— É difícil, mas vou tentar — ele suspirou e sentou-se atrás de uma escrivaninha. — Sente-se! — Ele indicou uma cadeira a sua frente.
— Tio não gosto de ser enrolado.
— Tudo bem, sua mão tem um probleminha.
— Que tipo de problema? — estávamos voltando àquele assunto que havia tirado meu sono no meu primeiro dia naquele lugar.
— Mental e seu pai já devia ter lhe contado, mas achou que você ainda não conseguisse entender.
— É mentira — eu baixei a cabeça, não poderia acreditar nessas palavras horríveis — É tudo mentira!
— George, por favor, entenda...
— Entender o quê? O que o senhor quer que eu entenda exatamente? Que minha mãe é uma doida? — eu gritei, gritei sem pensar, por que meu próprio tio estava fazendo isso comigo depois de tudo?
— George seu pai...
— Não vou ouvir o que o senhor tem a dizer! Abra a porta! — talvez ele imaginasse que eu estava seguindo pelo mesmo caminho da minha mãe, mas eu não me importava. Lágrimas encharcaram meus olhos, mas eu as ignorei, as evitei.
— George sente-se e vamos conversar.
— Não quero sentar! Abra a porta!
— Não enquanto você não se acalmar — ele falava calmamente e confesso que sentia raiva por uma pessoa que me deixava enfurecido conseguir se manter tão sereno e impassível.
— Tudo bem.
— Sente-se e ouça o que tenho a falar, por favor — ele acrescentou antes que eu pudesse objetar. — É difícil para mim te contar isso, mas eu vou de qualquer maneira, então apenas ouça. Se quiser pode não acreditar ou se deixar esquecer logo depois que sair dessa sala, eu só peço que ouça, assim terei cumprido meu papel.
— Tudo bem — repeti —, pode falar a vontade.
Quando eu sentei em frente a ele, ele começou a falar.
— Sua avó, mãe de sua mãe, teve um problema no parto e quando sua mãe nasceu ela teve um pequeno problema com falta de ar. Isso deve ter mexido com o cérebro dela, por favor não interrompa! — ele falou antes que eu abrisse a boca. — a questão é que quando seu pai pediu-a em casamento seu sogro lhe avisou que Amélia era uma mulher instável, alegre em um momento, triste em outro, receptiva uma hora, ignorante em outra, mas seu pai só via o lado sensível e gentil dela e ninguém da família dela via um problema realmente preocupante.
“Mas sua mãe sabia o que se passava em sua cabeça, eles brigavam muito e sempre ela acabava se afogando em lágrimas. Jayden começou a se culpar, pensando que talvez fosse um mau marido, ele amava muito ela. Depois de um tempo de casados Amélia descobriu que estava grávida e a situação saiu de controle. Sua começou a se martirizar e pensar que talvez seu filho ficasse igual a ela e pensando que não queria colocar uma criança neste mundo dessa maneira ela se trancou no quarto.
“Jayden muito lutou e implorou para que ela não tomasse nenhuma atitude insensata e quando ela parou de responder ele arrombou a porta do quarto. Ele encontrou Amélia sangrando com os pulsos cortados e levou-a para o hospital, depois Amélia fez um tratamento psicológico e nada parecido aconteceu novamente.
Eu não queria acreditar naquilo, sentia enjoo só de pensar que minha mãe fosse lunática.
— Por que você me contou isso?
— Por que você é o único que pode ajudá-la, permaneça ao seu lado sempre — o sorriso dele era bondoso e era difícil não acreditar no que ele falava, porém era muito mais difícil aceitar o que ele falava.
— Eu já faço isso.
— E agora você está ciente de mais um por quê.
— Abra a porta! Deixe-me sair — pedi calmamente.
— Você vai ficar bem?
— Não totalmente, mas no limite do choque que essa história me causou.
— Desculpe George, achei que você deveria saber.
— Achou certo, com licença.
A maioria dos presentes me observou sair da sala com olhares de curiosidade quando meu tio destrancou a porta, talvez por causa dos meus gritos. Eu não importei, apenas subi, não sabia se queria dormir, apenas deitar, fugir ou simplesmente sair.
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