Diário De Um Sobrevivente
12 A melodia da vida e da morte
Notas iniciais
A música dos créditos me inspirou mais do que a história do final do jogo..
Enquanto o caminhão sacolejava descendo rapidamente a 285, Indy me contava sua história. Bernard e minha mãe permaneciam calados, cada uma olhando para um lado, absortos em seus próprios pensamentos monótonos e temerosos. Aninhada em meus braços a garotinha que eu achava bonita falava lentamente.
— Eu estava com aquela arma, revólver ou o nome que tivesse. Estava me sentindo protegida e a avenida estava calma, não havia nem sombras de zumbis. Afastei-me um pouco e sentei em uma pedra, debaixo da sombra de uma placa, em frente à floresta. Sentia um vazio, ouvia a voz da minha mãe me chamando no meio das árvores. Eu sabia que era mentira, sabia que havia alguém me enganando, minha mãe tinha morrido por minha culpa. Mas eu estava tão triste e sentindo tanta falta dela.
“Eu fui até a floresta, caminhei devagar, mas logo cheguei ao quintal de uma casa. Tinha uma piscina cheia de lodo e um garoto que brincava em um balanço. Ele gritava ‘eu achei, eu achei’ e subia muito alto, mas então ele caiu, quebrou a cabeça, eu acho e antes de eu correr até um bicho daqueles veio até mim por trás. Ele me agarrou e eu consegui chutá-lo. Eu corri de volta para a floresta.
Ela parou de falar às lágrimas. Os soluços fortes a impediram de prosseguir.
— Tudo bem, não precisa me contar se não conseguir — eu afaguei os cabelos dela e apertei sua cabeça contra meu peito como se pudesse sugar a dor.
Era uma sensação estranhamente boa fazer aquilo, eu poderia me sentir feliz se o mundo não tivesse acabado ou pelo menos se a garota que eu consolava não tivesse uma dor que se tivesse massa seria mais pesada que ela própria.
— Ela tropeçou e caiu — minha mãe falou de repente —, quando a alcancei o zumbi a puxava, ela chutava-o, mas essas criaturas são muito fortes. Então eu atirei quando pude fazer uma pontaria limpa. Ela se correu até mim chorando, e quando eu vi seu tornozelo eu...
— Mãe, não me diga que você pensou em matá-la — eu falei quase entojado.
— Bom... ela foi mordida, eu achei que...
— Achou errado — eu gritei para ela e virei as costas.
— Eu a carreguei de volta a avenida. Perdi a coragem quando olhei nesses olhos tão meigos — por algum motivo, desconhecido por mim, cada palavra que saía da boca dela me enojava mais. — Os zumbis começaram a sair dentre as árvores quando ainda estávamos na floresta, quando chegamos aqui dezenas deles saíram de todos os lados e ficamos encurralados. Então vocês chegaram e...
— Agora estamos aqui — falei sombriamente.
— Sim, agora estamos aqui — minha mãe repetiu, porém com mais delicadeza do que eu.
Em pouco menos de uma hora paramos no estacionamento de um condomínio, de casas com telhados claros, na Avenida Martin Luther King Jr. Ao longe nas ruas do condomínio víamos zumbis perambulando solitários, espalhados. Devia haver dezenas deles, mas estava cada um cuidando de sua “vida”.
— Hoje foi um dia muito difícil — meu tio falou para nós quando todos estavam fora do carro —, portanto acho que merecemos camas e talvez um banho, não estou prometendo nada. Mas vamos limpar uma dessas casas e dormir nela, se ficarmos alertas e com as portas fechadas poderemos ficar livres de zumbis e dormir calmamente, o que acham?
— Seria ótimo — minha mãe falou com um sorriso alegre.
— Minhas costas precisam mesmo de algo mais relaxante do que acampamentos — Eagle disse esticando-se.
— Ótimo — Bernard deu sua opinião.
— E você querida? — Johan perguntou a Indy. — também precisa dizer o que quer.
— Tanto faz, eu vou morrer — ela falou, virando as costas para ele.
— Seria muito bom tio — eu falei tentando abafar o choque dele.
— E que casa vamos usar? Vamos tirar na sorte? — Eagle perguntou, talvez tentando ser engraçado.
— Aquela ali parece ótima — apontei para a mais próxima da avenida, havia apenas uma árvore entre a casa e a mesma.
— Certo, vamos! — meu tio saiu à frente como sempre, carregando uma mochila de armas e com seu tão útil machado na outra.
Bernard ia logo em seguida levando a saca de alimentos, que ainda não tínhamos aberto, no ombro direito e segurando seu grande facão com a mão esquerda.
Eu segui no meio apoiando Indy no ombro esquerdo e erguendo meu facãozinho com direita.
Eagle trazia a outra mochila de armas e levava sua faquinha de cortar carne junto ao peito.
Minha mãe mirava para todos os lados e protegia nossos flancos.
Aproximamo-nos da casa-alvo em formação e meu tio encostou-se do lado da porta como um agente de operações especiais invadindo uma casa de traficantes. Ele deu sinal para minha mãe ficar alerta e abriu a porta, ela visando o interior da casa lhe informou que tinha um zumbi lá dentro e que não iria atirar.
Meu tio jogou a mochila sobre o bicho e esse caiu sobre o peso do metal das armas. Ele entrou e dividiu o cérebro do zumbi em dois, era um homem com a enorme testa agora rachada bem no meio. Nós entramos, deixamos nossas coisas no hall e trancamos a porta.
— Certo, temos que ser rápidos e silenciosos — eu ouvi pacientemente meu tio falar —, Amélia cuide da Indy, quero vocês duas aqui e seguras, e nada de balas — ele acrescentou rapidamente. — George suba com o Mark e limpe todo o andar superior, inclusive o sótão, tenham cuidado. Vamos Bernard!
No andar de cima estava tudo calmo, havia quatro quartos e um escritório. Fiquei meio horrorizado quando encontramos o corpo de um homem de aparentemente meia-idade vestido de paletó sentado na cadeira de acolchoado de couro com um revólver pendendo na mão e um enorme buraco na cabeça.
Quase vomitei no chão do escritório. Logo eu e Eagle encontramos o motivo do suicídio do homem. No quarto menor de paredes rosa cheias de prateleiras abarrotadas de ursos de pelúcia e bonecas de plástico havia um banheiro com a porta trancada, ao nos aproximarmos ouvimos batidas na porta. Olhando pela fechadura descobrimos uma garotinha que tinha o rosto deformado os olhos leitosos e totalmente negros, a pele cinzenta e os dentes todos pretos e podres.
— O que fazemos Eagle? — perguntei sentindo mais náuseas.
— Vamos terminar de vasculhar o andar, depois vamos falar com os outros e resolver.
Terminamos rápido sem encontrar mais nada, não nos perguntamos sobre a mãe da garota. O banheiro do quarto do casal, o próprio quarto e os dois quartos de hóspedes estavam limpos. Subimos ao porão e também não havia nada.
Bernard e Johan trouxeram nossas coisas e deixaram no quarto do casal e depois vieram ver a garota. Nós seis formamos um semicírculo em frente à porta e ficamos avaliando, alguns de nós parecia esperar que a situação se resolvesse sozinha, meu tio tremia o cenho aparentemente num conflito interno sobre o que fazer. Indy chorava disfarçadamente, mas tremia muito, logo perdeu o controle e começou a soluçar.
Eu corri até ela e a abracei.
— Eu vou ficar igual a ela — ela falou entre os soluços.
— Você não sabe disso — falei firmemente.
— Vou sim. É melhor vocês me matarem logo, não quero voltar como isso.
— Não, vai ficar tudo bem! — eu gritei ciente de que era uma esperança infundada.
— Não vai! Eu vou morrer, aceite George! — eu notei que fora a primeira vez que ela disse meu nome, mas isso só me deixou mais triste.
Ela desvencilhou-se do meu aperto e saiu correndo de lá. Eu dei um passo em direção a ela, mas uma mão segurou meu braço.
— Me solte!
— Você precisa deixá-la sozinha! — meu tio aconselhou. — Ela tem razão, você precisa aceitar.
Eu parei de lutar, contra o meu tio e contra a realidade. Ela ia se tornar um zumbi, essa era a dura realidade irrefutável.
— Você precisa ver isso — ele falou e virou-se para a porta do banheiro.
Todos olhavam para o meu tio, apreensivos. Minha mãe saiu do quarto horrorizada, talvez indo procurar Indy, talvez tentando se abrigar do medo.
Meu tio quebrou a maçaneta da porta com um golpe do machado. Depois se afastou um pouco, a porta abriu-se lentamente. Nós aguardamos ansiosos, alguns segundos se passaram até que a garotinha de pernas tortas saísse devagar de lá. Ela esticou o braço e começou a gemer faminta.
Ela trajava um vestidinho rosa com babados fartos na gola e nas mangas. Deveria ter sido uma garotinha bonita de cabelos castanhos, agora era uma tempestade de horror ao olhar.
Esticou o braço para o meu tio estagnado, estava apenas a alguns centímetros, pouco menos de meio metro, apenas mais um passo e seus bracinhos pequenos e frágeis o puxariam para uma morte dolorosa. Mas ele continuou imóvel, de boca aberta admirando a garota morto-vivo que certamente o morderia impiedosamente.
A magra mão direita dela agarrou o peito do meu tio e o puxou para perto de si, mas um segundo depois essa mesma mão caiu no assoalho. Minha lâmina cortou o ar mais uma vez e junto com ele a parte superior da cabeça da garota.
— Entendi. Não vou deixar Indy virar um zumbi, ela pode nos matar — falei para o meu tio, mas ele manteve a expressão abobalhada. Minha teoria de que ele estava tentando me dar uma lição era errada, ou talvez não.
Eu e meu tio carregamos o corpo leve da garota para fora e cavamos um buraco no quintal com duas pás que achamos na garagem para ela. Acabamos decidindo em seguida que o pai dela também merecia ser enterrado, então colocamos os dois corpos juntos na cova toscamente cavada. Colocamos os braços do pai como se protegesse a garota, afinal parecia-nos que a causa da morte dele tinha sido o fato de a garota se transformar em zumbi. Fizemos uma pilha de terra sobre o corpo deles e colocamos uma pedra sobre ela, com uma picareta meu tio desenhou uma cruz na pedra.
Passamos dez minutos a fio, apenas admirando o túmulo rudimentar que fizemos. Parecia algo ridículo, mas era melhor do que ter seus corpos apodrecendo na casa e nos parecia de muito mais respeito.
Eram estranhos os arrepios que perpassavam meu corpo nesse momento, eu não deixava cair uma lágrima, sentia uma dor que tentava mentir para mim mesmo afirmando em pensamento ser desconhecida. Pela primeira vez eu me sentia um ser frio, nenhum sentimento ocupava minha alma nesse momento, eu era como uma pedra de mármore, fria e caiada, admirando a morte como que de cima, como algo asqueroso e ridículo, algo que eu tentava vencer.
Depois de voltar para dentro de casa procuramos algum sinal de que aquele zumbi que meu tio matou ao entrarmos na casa teria pertencido à família. Não encontramos nada, não havia nenhum sinal dele nas fotos nem nada que nos provasse que ele pertencia àquela casa.
Convencidos de que era apenas um jovem qualquer que entrou na casa de alguma maneira nós o jogamos para a rua por cima do muro.
Mais tarde nós comemos na sala de jantar arruinada, quando o sol se escondeu e a lua subiu. Apenas a mesa estava de pé, para nossa alegria. Os armários haviam sido quebrados, a pia estava rachada e estilhaços de porcelana e vidro cobriam o chão. Nós racionamos a comida para cada um e comemos devagar saboreando cada mastigada. Era estranho lembrar que antigamente comer era algo tão comum que às vezes até adiávamos por estarmos fazendo outra coisa, um dever de casa, um trabalho inacabado ou algo divertido que nos fazia deixar a vontade de comer de lado por um tempo.
Mas o que sentíamos agora era fome e a comida que descia esôfago abaixo doía no momento em que chegava ao estômago.
Dividimos-nos entre os quatro quartos. Minha mãe chamou Indy para ficar conosco, meu tio pediu que dormíssemos no quarto de casal e Eagle e Bernard concordaram, eles dois dormiram em um dos quartos de hóspedes e Johan dormiu sozinho no outro.
Fazia tempo que eu não sonhava, por estresse demasiado e por ter que dormir encostado ou deitado no chão tendo apenas um fino colchonete para separar-nos. Minha mãe esqueceu-se do meu aniversário, não a culpava, afinal estávamos lutando para sobreviver todos os dias. Mas sempre é bom receber um...
— Feliz aniversário filho! — ela falou baixinho do meu lado, ouvi Indy se mexer um pouco do lado esquerdo dela. — Desculpe não poder te dar nada.
— Não seja boba mãe, você estar viva já é um presente maravilhoso — falei para ela fazendo lágrimas encharcarem seus doces olhos.
Ela me abraçou. Eu fazia treze anos, mas meu espírito já era muito mais velho do que isso.
— Parabéns George, queria poder estar viva para também ser seu presente — eu ouvi Indy falar do outro lado, com a voz tremida.
Minha mãe a abraçou. Fiquei alguns minutos refletindo sobre Indy, pensando no que ela estaria sentindo, falando meu nome, dizendo que queria ser meu presente, o que será que ela estaria querendo dizer com isso?
O vento passava zumbindo pelos meus ouvidos, eu corria rápido demais para estar usando minhas pernas. Era quase como estar voando, mas se estivesse voando não estaria tão perto do chão.
Cheguei ao topo da montanha. O som da brisa batendo de leve na grama e sacudindo a folha das árvores era uma linda melodia. Eu nunca fui tão inteligente, nem criativo, nem forte e era uma caca no futebol. Mas eu tinha algo para me orgulhar de mim mesmo, era minha capacidade de ouvir os sons, diferenciá-los e saber transformar qualquer coisa em música.
Com a bela melodia que a natureza compôs, uma garota de vestido branco dançava, rodando com os braços esticados. Ela parecia uma noiva, sua pele morena contrastava com o vestido e as rendas circulavam seu corpo, o véu dançava leve sobre o vento.
Seu rosto não podia ser visto, ela girava muito, mas o véu sempre cobria sua face. Porém eu sabia quem era, pela forma do corpo, pela maneira de dançar. Então me aproximei e pude ouvir sua voz, era uma canção de letra triste, ela pedia a todo o momento algo como “leve-nos embora”. Naquele instante tive certeza de quem era, logo corri até ela, queria abraçá-la, dizer-lhe que logo estaríamos longe, logo iríamos embora para um lugar bom.
Ela virou-se para mim quando me aproximei, era linda como eu lembrava, ela sorria escondendo os dentes. Eu achei isso estranho, mas não me importe, me aproximei devagar e a abracei, mas quando seu corpo tocou o meu percebi que era frio, como um morto. Seu sorriso se apagou e quando tentei me afastar ela me puxou para perto, tentei me soltar, mas seus braços eram muito fortes. Gritei e minha voz não saiu, quando meu grito silencioso terminou ela abriu a boca, mais do que qualquer ser humano normal conseguiria abrir.
Seus dentes eram podres e sua garganta era uma escuridão interminável, ela enfiou seus dentes na minha garganta.
Eu acordei com o coração pulando, ao levar a mão ao peito percebi que estava sentado. Olhei ao redor, minha mãe dormia com um braço sobre Indy, a garota tremia enquanto dormia. A RT 838 calibre 38 que minha mãe usava estava sobre a mesa de cabeceira.
Em pânico procurei minha Glock. Lembrei que estava embaixo da cama, com o susto eu caí no chão. Peguei a arma e me levantei rapidamente apontando a arma para a garota. As duas continuaram dormindo.
— Droga — levantei me sentindo um idiota e caminhei lentamente para fora do quarto.
Coloquei a pistola no coldre e caminhei pelo corredor sem destino até ouvir algo inquietante. Entrei correndo no quarto rosa e fui até a janela. Colocando a cabeça para fora procurei a origem do som, que poderia ser estranho de ser ouvido naquela época, mas ainda assim era inconfundível para mim.
Era o som de um violão, era tocado em ritmo de country e vinha de alguma outra casa do condomínio.
“Zumbis não sabem tocar violão” pensei inteligentemente, “então deve ser algum sobrevivente”. Mas que ideia de retardado era aquela de tocar violão em um lugar infestado por zumbis?
Olhei para baixo, os zumbis pareciam nem ligar para o som, eles andavam de um lado para o outro apaticamente, como sempre. Ouvi então alguém cantar sem medo de ser feliz e com um susto eu percebi que era a música que Indy cantava em meu sonho.
I've a friend who lives out by the rivers mouth
He knows the fiddle's cry is an old sound
A lonesome bow, the creaks and moans of empty houses
Are songs like falling rain
Wind blown buildings, muddy ground
The strength of water can sink a man
Take us back, Oh! take us back, Oh! take us: Take us back!
Take us back, Oh! take us back, Oh! take us: Take us back!
Notas finais
Quanto ao cantor, quem será? muhahahaha, não direi xamais (até o próximo capítulo)
Quanto a música, quem zerou o jogo reconhecerá..
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