Diário De Cassie
5 25-Agosto-2014 - segunda-feira
Notas iniciais
25-Agosto-2014 — segunda-feira
13:21
Ok, eu sei que segunda-feira não é lá um dia de comemorações, mas baby, eu tirei um dez em física! Haha agora sim estou feliz, minha mãe não pode falar nada de notas pelo menos essa semana. Ah, finalmente sem discurso na hora do jantar!
Ah, e o melhor de tudo? O gêniozinho tirou zero em um trabalho que não fez. Essa semana podia ficar melhor?
A escola foi normal. Duas aulas de matemática, uma de filosofia, uma de português e duas de física (onde recebi a grande notícia). Ah é, nem tudo foi perfeito. Um garoto da minha sala, Guilherme Bério disse que me viu na White Zombie, falou que eu estava vestida como uma gótica, o que só melhorou minha fama de “a estranha”. Sério, aquelas pessoas só dirigem a palavra a mim porque eu ando com a Ana. Já vão tarde, não fariam a menor falta à humanidade.
Meu pai está falando que o almoço está quase pronto. Acho que não falei muito dele né? É que simplesmente não há muito que falar. Totalmente conservador, uma dona de casa perfeita que não é capaz de manter uma conversa civilizada com a filha mais velha por mais de quinze minutos.
Nossas opiniões simplesmente diferem. Eu sou de esquerda, liberalista, ele é de direita, conservador. Houve uma discussão sobre política em que, sem argumentos para me rebater, ele me colocou de castigo dizendo que devia “respeitar os mais velhos”. Tive que esperar minha mãe chegar e falar para ele que cada um pode muito bem ter sua opinião nessa casa. Pois é, de dez em dez anos ela se importa comigo.
Não posso deixar de dizer que admiro minha mãe com seu trabalho, mas dentro de casa é como se ela continuasse a policial e eu odeio isso. Ela nos analisa, nos interroga, e às vezes sequer se troca e fica andando de uniforme e armada dentro de casa. Isso me incomoda muito. Ah, eu disse nos analisa? Desculpe, quis dizer os analisa. Quando ela descobriu que eu era uma roqueira anarquista, que nunca seria uma garota que pediria por um baile de debutante ou coisas do tipo, ela simplesmente perdeu o interesse. Eu sou basicamente invisível.
Não, para Carlos eu não sou invisível. Carlos me vê como uma empregada de primeira mão, que não pode reclamar. Desde que viu alguns filmes com chantagistas, aprendeu o conceito bem demais. Começou uma investigação sobre todos os meus podres e, como na época eu não os escondia bem, descobriu muitos. Quando eu percebi ele me tinha na mão. Hoje melhorou um pouco, mas nossas conversas se resumem a negociações, nada além.
Bem, é por isso que prefiro meus amigos. Eles têm sinceridade o bastante para assumir que minha família é uma pequena representação do inferno.
O almoço está pronto, já volto!
-//-
19:36
Droga, Droga! O que está acontecendo? Não acredito, não pode ser, é um pesadelo!
Quando eu vi minha mãe sentada à mesa do almoço vi que tinha algo errado. Ela só vem almoçar em casa quando tem algum “grande comunicado” para fazer. O último foi, por exemplo, o corte absoluto da minha mesada porque eu arranjei um namorado sem pedir permissão.
Mas isso é muito pior.
Aqueles olhos azuis frios me analisavam enquanto eu descia a escada. Sério, a fome sumiu instantaneamente. Tudo que eu queria era voltar para o meu quarto.
-Ouvi dizer que minha princesa tirou um dez?
Ouvir aquilo, com aquela voz adocicada... Seria interessante viver em uma família assim, seria interessante existir dentro dessa casa.
Só que esse não é o caso.
O almoço era uma deliciosa macarronada ao sugo. Posso falar o que quiser de meu pai, mas todo esse tempo de “dona de casa” deu a ele ótimos dons culinários. Mesmo assim a comida não tinha sabor algum em minha boca. Quando esvaziei o prato, tentei levantar, mas naturalmente que fui impedida.
-Espera filha, eu preciso contar uma coisa. Fique mais um pouco e espere todos acabarem de comer.
Eu sentei e esperei. Pensa em uma pessoa tensa. A notícia naturalmente não parecia agradável. Até Carlos comia com cara de que seria sua última refeição. Meu pai parecia... Triste.
Quando finalmente todos acabaram, olhamos para minha mãe. Pela primeira vez em vários anos ela retirou a máscara de frieza que sempre usava, e em seus olhos vi medo. Foi estranho, mas o que fez menos sentido ainda foi o que ela disse depois:
-Acho que vocês viram a notícia a dois dias, de que três mortos acordaram em seus respectivos funerais aqui na cidade. E perceberam que depois a transmissão da Globo foi cortada por um certo tempo. Eu... Não sei bem como explicar o que está acontecendo, sinceramente, acho que nem quero saber. Mas uma coisa eu sei, os mortos...Estão voltando.
Olhei para a cara dela deixando transparecer todos os meus pensamentos: “Você está completamente louca?”.
Ela olhou para mim e fez um sinal com o dedo antes que eu pudesse dizer algo, continuando seu discurso:
-Eu não sei como acontece, não sei onde começou e não sei por que tudo isso esta acontecendo, mas está. Hoje todas as viaturas da cidade foram chamadas para conter um grupo dessas...Coisas. Eles estavam vindo dos caixões, dos necrotérios dos hospitais, cenas de acidentes, de...Praticamente todo lugar...
Ela apoiou o rosto na mão, como se tapando a vista das memórias. Depois de um longo suspiro, ela continuou:
-Eu e meu parceiro fomos designados para o hospital grande do centro. Eles nos avisaram para atirar na cabeça, mas no momento eu me assustei e atirei no peito. Eles não paravam! Sequer pareciam ter sentido algum impacto. Eu fiquei absolutamente paralisada, Thomas salvou minha vida.
Ela parou por outro momento. Eu queria apressa-la, mas mal me movia. Enfim ela continuou:
-As autoridades proibiram à mídia falar sobre o assunto. Quando eles quiseram falar mesmo assim, nós cortamos a transmissão, porque sabemos o que vai acontecer: Caos. O medo vai mudar as pessoas, mais mortes ocorrerão, mais pessoas se tornarão... Aquilo, exatamente como está acontecendo nas cidades da região. Por isso nossa casa não é mais segura. Estão preparando um forte que agüente a população da cidade perto da fronteira, na cadeia abandonada. Deve demorar alguns meses, mas a polícia e seus familiares podem ir para as acomodações provisórias. John, Carlos, Cassandra... Nos mudamos sexta-feira.
Não preciso dizer que me desesperei. Não acreditava que aquelas coisas podiam ser tão ruins. Ela não tinha dito? Era só acertar na cabeça, que eles parariam... Eu não tinha idéia como estava errada.
Na verdade estou em choque até agora.
A tarde se passou com discussões entre nós duas. Apesar de apavorada eu não queria ir, falei que podia ficar um tempo na casa do Bruno, mas ela me queria “em segurança” e não com um cara que supostamente acabei de conhecer. Não acho que seja isso. Ela só não quer ter a culpa de ter abandonado um civil em uma situação dessas. Seu tom de voz novamente frio e controlado denunciava isso.
E foi o que eu disse. Ela me olhou com certo desgosto, e depois me mandou ligar a tv novamente. Disse que agora não dava mais para segurar as emissoras, que pareciam querer instalar o caos. A notícia era... Horrível. Eu não tenho palavras. Aqueles mortos tem olhos opacos, e uma expressão assustadora. Eles andam meio que cambaleando, e não quero imaginar como seria ver um na minha frente, sabendo que seria minha última visão. Como será que a repórter não saiu correndo?
Mas eu não quero ir para um forte que sequer estar pronto, longe da cidade! Aquele lugar vai estar cheio de armas, eu não agüento mais armas! E Dani, Mayara, Lucas e Ana? E Bruno? O que eu vou fazer sem ele?
Além disso, os policiais vão continuar nas ruas, e nós, os familiares, ficaremos lá indefesos com provavelmente meia dúzia para nos proteger de qualquer “eventualidade”.
Ficar na cidade é melhor. Bruno mora longe de hospitais e cemitérios. Ele pode me proteger. Eu posso... Parar de ir à escola, posso até agüentar a presença de armas em casa com ele, parar de beber, de fumar...Ela não pode me obrigar a isso.
Não sei, estou assustada, preciso sair e conversar com Bruno. Será que é seguro sair na rua a essa hora? Parece que eles ficam mais ativos à noite.
Ah, ótimo, é ele me ligando. Vou parar de escrever por hoje, pelo jeito preciso decidir algumas coisas. Deseje-me sorte.
Fale com o autor