Dhyosis

7 Capítulo 6 - Samuel


Notas iniciais
Eu sei, faz um tempinho, e juro que venho tentando postar semanalmente, mas estou resolvendo algumas coisas antes das aulas voltarem. Não prometo, mas vou tentar ainda mais ser pontual! Sobre esse capítulo, acho que tudo o que tenho a dizer é: aproveitem XD.

Estávamos todos alegres, extasiados pela voz de Alice e durante aquele momento nada existia além de nós mesmos, nada ruim parecia ser capaz de nos alcançar. Mas de repente a voz de Alice cessou, e todo o resto pareceu para com ela, inclusive nossa respiração.

O semblante da garota de cabelos cacheados, antes alegre, agora parecia aterrorizado e ela caiu sobre seus joelhos. Quando olhei para a direção que seu olhar observava, vi a garota com seus longos cabelos negros que caiam abaixo de seus seios. Seu corpo continuava aparentando ser frágil, mas seus olhos possuíam algo a mais, brilhavam de maneira desumana.

Passado o susto, corri para acudir Alice, que já se levantava. Mesmo que ela estivesse tentando parecer forte, eu conseguia lê-la de uma forma que ninguém mais conseguia, eu sabia que ela ainda estava assustada.

“Tudo bem?” perguntei quando cheguei a seu lado.

“Sim, eu… eu não sei o que aconteceu comigo… deve ter sido a surpresa, eu não esperava ver aquela garota agora, muito menos em pé. De qualquer modo, não se preocupe, estou bem.” Ela respondeu, sua voz estava firme, mas seus olhos não diziam o mesmo que sua boca

“Alice, eu sei que você está com medo, eu te conheço suficientemente bem pra isso… não precisa esconder nada para mim.”

“Sam… eu estou mesmo assustada, mas não tenho motivos para isso, ela acordou, ela está bem… eu deveria estar feliz. Aliás, ficar aqui conversando não vai adiantar nada, eu vou ir cuidar dela.”

Assim que fechou a boca, a mais nova saiu correndo em direção a garota misteriosa. Meu olhar se cruzou com a garota de cabelos negros e então entendi o que Alice sentiu. Por um segundo senti meu corpo congelar e todos os pelos do meu corpo se eriçarem, aqueles olhos não pareciam humanos, aquele olhar tinha algo perturbador, era como um grito silencioso, um grito de dor, raiva, confusão, nunca antes havia sentido algo tão terrível e intenso mesmo no dia em que minha mãe morrera.

Quando voltei para o meu normal vi Alice entregando comida para a garota, que estava sentada em uma cadeira. Juan estava ao lado dela, fazendo perguntas que não eram respondidas, e a casa inteira se aglomerava, formando um grande círculo ao redor deles. Se a garota fosse claustrofóbica não ficaria bem por muito tempo.

Depois de várias perguntas não respondidas, um som finalmente saiu de sua boca:

“Kh… Kha… Khalyne.”

Primeiro, o som saiu inaudível, quase um sussurro, e terminou com um pigarro que logo virou um acesso de tosse. Depois de um copo da água dos tambores, ela repetiu, dessa vez com mais firmeza e clareza.

“Khalyne!”

“É seu nome?” Perguntou Juan, mas novamente nada além do silêncio, ela apenas continuou a comer como se não ouvisse nada.

A curiosidade acerca dela só aumentava, sempre que pensávamos que íamos conseguir respostas apenas obtínhamos mais dúvidas. Ela não respondia a nada, nem idade, nem como chegou até o mercado abandonado e muito menos se haviam outros sobreviventes, ela ignorava a tudo e a todos. Até o momento em que Juan tentou colocar um estetoscópio velho nela para averiguar se a garota estava bem.

Antes que o estetoscópio encostasse nela, toda fragilidade havia desaparecido, ela se levantou bruscamente e gritou “NÃO ENCOSTE EM MIM!”. A voz, antes tímida e delicada, agora era grave e atingiu a casa como um trovão. Todos se retraíram e crianças menores choravam, mas a casa parecia mais surpresa do que assustada, ninguém esperava que algo tão frágil pudesse se transformar daquela maneira.

Alice tentou acalmá-la e dizer que ninguém ia fazer mal a ela, mas quando a garota a segurou para que se sentasse, Khalyne a empurrou tão forte que a menor saiu deslizando pelo cômodo apertado. Instintivamente fui ajudar Alice, mas ao me aproximar demais Khalyne ameaçou me atacar também.

“CHEGA!” Bradou Dona Zefa, porém a voz já debilitada da senhora sequer se comparava com o estrondoso grito que a mais nova dera antes. “Samuel, Alice pode cuidar de si mesma, vá dormir, treinar, limpar a casa ou foder alguém, faça qualquer coisa, mas saia daqui.” E então olhou para a multidão que os cercava. “E vocês também, todos fora, não quero ninguém além de mim, Juan, Alice e a garota aqui!”

Em meio a resmungos, todos começaram a ir em direção a porta, inclusive eu, mas antes que o primeiro alcançasse a saída, um som gutural saiu da delicada boca de Khalyne. Com certeza devia ser uma risada, mas era uma risada sombria, um som quase desumano. Como se tudo fosse combinado, todos interromperam seu caminho e viraram em direção ao som. A menina de pele pálida já não parecia com a mesma que estava na cama apenas algumas horas atrás, seu corpo ainda era pequeno e magro, mas ninguém poderia dizer que era frágil, na verdade parecia mais com algo imponente. E sua voz, que mal saia antes, agora era capaz de cobrir o tumulto que fosse. Mas o pior de tudo eram seus olhos, o brilho que saia dele não era normal, era insano… doentio.

Depois de uma risada que pareceu durar horas, ela começou a falar.

“Então essa é a líder de vocês, as ovelhinhas seguem a anciã.” Novamente uma risada. “Achei que fosse mais difícil, mas como vejo que não, digam adeus para a pastorinha de vocês, a partir de agora vocês irão obedecer a mim!”

Ao ouvir isso, Paulo levantou sua bengala ameaçadoramente e, como sempre, não segurou sua língua.

“Ninguém aqui me dá ordens, seu pedaço de palmito ambulante, nem velha nenhuma e nem você! E mesmo que eu odeie essa Zefa ai, ela é dona da casa, quem manda nesse bando de inúteis é ela!”

“Bem… Ela não vai poder mandar se não existir.” Um sorriso malicioso brotou nos lábios da garota, o que a fazia parecer mortalmente perigosa, e então ela olhou para Dona Zefa. Quando os olhares das duas se cruzaram, as palavras saíram novamente. “Por que você não se mata, velha?”

Aquilo provocou um rebuliço, palavras de ódio contra a garota saíam de todas as bocas, mas o inesperado aconteceu: Dona Zefa pegou uma faca e estava prestes a esfaquear a si mesma. Juan tentou segurá-la e Alice também, mas a mais velha se desvencilhava facilmente dos dois, e também tentou cortá-los. Tentei me aproximar para ajudar, mas a casa estava um caos, todos estavam agitados, andando de um lado para o outro, e eu não conseguia atravessar o mar de gente a minha frente. Quando achei que fosse alcançá-los, era tarde demais. A faca saiu ensanguentada do coração de Dona Zefa, Alice chorava e Juan tentava conter o sangramento, mas todos sabíamos que era tarde demais. Quando ela tirou a faca de seu coração pareceu voltar a si. Seus olhos se arregalaram, mas ela sorria enquanto desfalecia no chão. Sussurrou algo no ouvido de Juan e passou a mão ensanguentada pelo seu rosto, e depois de alguns minutos se debatendo no chão, finalmente partira. Não queria chorar, mas senti algumas lágrimas teimosas que rapidamente sequei, não podia ficar ali observando, tinha que fazer algo.

Quando Alice me viu, não disse nada, apenas correu e me abraçou enquanto chorava, e eu não fiz nada além de retribuir o carinho. Eu sentia a respiração dela contra o meu pescoço, as lágrimas caindo em meu ombro, o calor de seu corpo e, estranhamente, também consegui sentir a tristeza, a maneira com que ela se apoiava em mim como se não tivesse forças para se manter. O resto da multidão estava desnorteado, muitos choravam ou gritavam, e alguns até tentaram atacar Khalyne, mas pareciam perder a coragem quando se aproximavam. De qualquer modo, o luto não durara muito tempo, logo a risada ecoou novamente no cômodo.

“Okay ovelinhas, a velha morreu. Faz parte da vida, todos morrem, menos drama. O que importa aqui é que eu matei a líder de vocês, então agora já sabem quem devem obedecer, não é mesmo? Mas não se preocupem, serei uma boa líder, bem melhor que essa aí, vocês só tem que me obedecer.” E então seus olhos voltaram a ser sombrios. “Já sabem o que acontece se não obedecerem, não é mesmo? Agora preciso descansar, o dia foi muito cheio e não quero ninguém perambulando por ai, todos nos dormitórios! Não se preocupem comigo, logo descubro como as coisas funcionam por aqui.”

Ninguém moveu um músculo, estávamos todos assustados, depois da tranquilidade que alcançamos ninguém imaginou que passaríamos por uma turbulência daquela maneira, assim como ninguém compreendia o medo que a garota dos cabelos negros inspirava ou como conseguira fazer aquilo com Dona Zefa, eu quase sentia que era melhor lidar com infectados do que com aquela garota, todos estávamos paralisados, sequer tínhamos alguém para nos dizer o que fazer.

“NÃO ESTÃO ME OUVINDO? DORMITÓRIOS, AGORA!” A garota bradou com a voz estrondosa de um trovão e todos se dispersaram, como baratas. Alice estava imóvel, ainda abalada, e eu a puxei para meu dormitório, tinha sido uma noite difícil e seria bom que ela não passasse a noite sozinha.

No meu dormitório — assim como deveria estar em todos os outros — o burburinho, as especulações, eram constantes. Ninguém conseguia dormir ou pensar em outra coisa que não fosse Khalyne, as crianças choravam e sempre que passos eram ouvidos no corredor, todos se calavam abruptamente imaginando se seriam os próximos a morrerem por influência dela. Alice dormia em meu pequeno colchão de solteiro, devia ter tido uma crise de pânico durante a confusão, por isso não tivera reação, e as crises de pânico sempre a deixavam exausta. Deixei com que dormisse e andei pelo amontoado de gente tentando encontrar João, que normalmente ficava no mesmo dormitório que eu, para descobrir o que ele sabia sobre a condição estranha de Khalyne, como biólogo ele deveria ter uma noção maior do que todos nós.

Felizmente o encontrei isolado na parte de baixo de um beliche, compenetrado em escrever num caderninho velho, de páginas amarelas e anotações que pareciam querer fugir dele. Não quis atrapalhá-lo, o que quer que estivesse fazendo parecia importante, então deixei que notasse minha presença.

“Samuel?” perguntou ele, levantando apenas os olhos do caderno. “O que quer?”

“Queria conversar com você sobre tudo isso, achei que soubesse algo que ainda não sei, mas se estiver muito ocupado podemos conversar depoi” Respondi.

“Não Samuel, sente-se aqui comigo, talvez não tenhamos outro momento, nessa situação nunca se sabe o que pode acontecer. Você provavelmente quer saber qual minha teoria sobre essa garota, não é mesmo?” Balancei a cabeça afirmativamente. “Lembra quando eu te disse sobre evolução? Que essa doença podia ser a chegada de uma nova ‘espécie’ humana? Eu acho que essa garota é a evolução dos infectados que vimos durante todos esses anos, uma forma menos devastadora da doença, mas igualmente letal para os seres humanos saudáveis. Ela possui a capacidade de nos controlar, como infelizmente pudemos constatar, mas diferentemente dos outros, Khalyne ainda tem humanidade dentro de si, talvez não tanto quanto nós, mas ela existe.” Novamente ele falava tão calmamente que não parecia que aquilo poderia significar o fim das nossas vidas, ou pelo menos das nossas vidas da maneira que conhecemos.

“Mas João, o que podemos fazer? O que vamos fazer? Ela é louca, não podemos deixar que nos controle a bel-prazer!” Questionei, quase entrando em desespero. Apesar de ter me segurado para confortar Alice, a verdade era que eu ESTAVA desesperado, não sabia o que fazer e precisava urgentemente tomar alguma ação, não queria ser controlado por uma infectada pensando em quem ela mataria pelo resto da minha vida.

“Calma Samuel, sequer conhecemos ela ainda, concordo que não devemos deixar com que ela nos controle, mas precisamos que ela pense que está no controle antes de fazermos algo, temos de descobrir pontos fracos, como burlá-la, como anular o controle dela. Talvez leve algum tempo antes que saibamos como detê-la, mas se agirmos assim, impulsivamente, nosso final será o mesmo de Dona Zefa, e não podemos deixar que o legado dela seja tão facilmente entregue para outra pessoa. Alguma dúvida mais, Sam?”

“Não João, acho que por enquanto é o suficiente.”

“Então se me permite, vou voltar para minhas anotações, quanto mais informações conseguirmos, melhor vamos combater a garota.”

“Tudo bem, obrigado João.” Eu respondi, enquanto mais uma vez tentava não pisar em um amontoado de gente para voltar ao meu lugar.

Deitei ao lado de Alice e resolvi que tentaria dormir, já era muito tarde e a maior parte do dormitório fora vencida pelo sono, mesmo as crianças com seus pulmões incansáveis pareciam ter dado uma trégua. Deitei virado para Alice, enquanto a via ressonar, seu semblante que pela primeira vez parecia calmo. Gostaria que o semblante pudesse se tornar assim quando ela acordasse também. Queria que o mundo voltasse a ser como antes, que nossas famílias estivessem bem, que tivéssemos uma perspectiva de futuro maior do que fugir para sempre, que pudéssemos ter profissões… Queria pelo menos voltar a ter esperança de que um dia tudo voltaria ao normal.

Alice começou a se agitar enquanto dormia, o que me lembrou abruptamente que por mais profundo que fosse o sono, em algum momento acordaríamos e a realidade voltaria a ser aquela. Quando ela começou a se debater demais, a acordei, se aquilo era um pesadelo era melhor que ela pudesse acordar dele ao meu lado.

“Hey, Alice, tudo bem, eu estou aqui, acorde, era só um pesadelo.” Disse, enquanto a sacudia levemente.

“Sam?” Ela disse, com lágrimas nos olhos. “ Sam, foi horrível! Tudo estava bem, a vida tinha voltado ao normal, não existia infecção, mas aí você morria, e todo mundo morria também, e eu era a última pessoa saudável viva. Sam, não quero perder mais ninguém.” eu a abracei e ela chorava como um bebê, sentia as contrações do seu corpo a cada soluço. “Samuel, é tudo tão horrível e injusto, eu não quero mais viver! Não quero! Isso não é vida! Por que Deus continua fazendo isso conosco? Por que não podemos ter um pouco de sossego? Não quero mais continuar, só quero que tudo isso… acabe.”

“Ally, calma, olha para mim.” eu disse, enquanto segurava seu rosto em frente ao meu. “Se você está viva, é porque tem que estar, se você acredita em Deus, tem que confiar nele! Quão chata seria minha vida sem você?” Aquilo conseguiu arrancar um pequeno sorriso dela. “Eu prometo, Ally, prometo que não vou deixar nada acontecer com você, tudo vai ficar bem enquanto estivermos juntos!” Então ela aproximou o rosto dela, e eu sentia nossa respiração se misturar como se fosse uma coisa só, meu coração batia mais forte do que na minha primeira incursão, parecia que todos no dormitório conseguiriam ouvir ele. E então os lábios se tocaram. E então nos beijamos. E então, nossas lágrimas caíram. Talvez ela soubesse que estava beijando lábios mentirosos que não conseguiriam cumprir aquela promessa.

Notas finais
Então, minhas coisinhas lindas, o que acharam? Sim, fiquei muito tristinha com a morte da Dona Zefa, tadinha, ela pelo menos merecia algo mais digno. E sim, Khalyne é uma pessoa horrível, mas ainda temos muito a descobrir sobre ela.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.