Dezessete e... Grávida?
10 Capítulo Dez
Notas iniciais
"Você é fofa se concentrando." Christian murmurou do meu lado.
"O que você falou?" eu perguntei baixo, parando no meio do caminho de responder a questão da prova e ainda de cabeça baixa para que não fossemos chamados atenção.
"Você é esperta, Ana. Só precisa pensar um pouco mais."
Eu inclinei a minha cabeça para ao seu lado e o analisei, olho a olho, processando o que ele havia acabado de me responder. Não fora uma simples resposta, eu já o conhecia o suficiente para perceber que ali tinha mais de um sentido. Christian levantou suas sobrancelhas para mim, acho que esperando que eu rebatesse de volta com alguma resposta afiada, mas eu só virei o meu rosto de volta, fitando a folha.
"Eu não vou cair nas suas gracinhas, Christian. Desista."
Ele soltou um daqueles sorrisinhos dele, disfarçadamente, e depois disso não trocamos nenhuma outra palavra. Ou pelo menos eu tentei, ignorando-o até a aula terminar. Quando o ponteiro do relógio marcou nove e meia, o sinal tocou e nossas provas foram recolhidas. Mais uma vez eu não tinha certeza se tinha ido bem, mas era como aquele ditado: a esperança é a última que morre.
Quando eu estava indo para sair da aula, a minha visão escureceu e tudo pareceu girar ao meu redor. Eu dei um passo para trás e segurei na porta para apoio. Christian veio por trás de mim e me segurou, percebi que era ele porque logo em seguida me perguntou se eu estava bem.
Não, eu não estava. E a culpa era do seu bebê fazendo essas coisas comigo.
Ele me sentou numa cadeira próxima e então, alguns segundos depois, assim que tudo voltou a ficar claro e nítido de novo, o seu rosto entrou no meu campo de visão.
"Ei, o que foi isso? Por que você não falou que estava passando mal?" ele me atacou com uma enxurrada de perguntas. "Meu Deus, você está mais branca do que um pedaço de papel!"
"Que exagero, Christian!" bufei e levantei minha cabeça, dando-se conta de que tinha mais pares de olhos além o dele, em cima de mim, curiosos. "Vocês podem ir gente, não foi nada demais. Já estou bem!" balancei minha cabeça para tranquilizá-los e ai cada um começou a sair um atrás do outro, sobrando no final, só Christian e eu sozinhos. Isso já estava ficando repetitivo demais.
"Você comeu hoje, Ana?" perguntou, com o cenho franzido.
"Todo mundo já foi, não precisa continuar bancando o preocupado comigo. Não preciso disso, Christian." eu segurei minha mochila de volta e levantei para sair dali. Porém, novamente, quando eu estava passando pela porta, voltei no meio do caminho, mas dessa vez não era por outra tontura e sim pelo o que escutei de sua boca.
"Qual é a sua, Ana? Nem quando não está bem, não consegue me dar uma pausa?"
"Te dar uma pausa?" eu me virei de volta, sentindo cada parte do meu corpo ferver de raiva. "Você realmente faz alguma ideia de como me fez me sentir no outro dia, depois daquela noite, Christian?"
"Então todo o problema é isso? Olha, se você quer saber, nunca foi a minha intenção te machucar, Ana." ele respirou pesado, como se tivesse arrependido. "Mas se tudo que você quer é um pedido de desculpas, então tudo bem, me desculpa! Sinto muito ok?"
Sorri fraco, sem humor e balancei a minha cabeça.
"É um tarde demais pra se desculpar." eu me virei pra ir embora, mas parei de novo.
"Por que você sempre acha que eu nunca estou sendo sincero com você? Eu não preciso fingir a porra de um teatrinho na sua frente e na frente de ninguém!" Christian falou, exaltando o seu tom comigo, pela primeira vez desde que nos conhecemos. Eu tentei abrir minha boca pra falar que ele não tinha o direito de usar aquele tom comigo, mas Christian continuou falando, colocando pra fora cada palavra sem arrependimento depois."Eu fiquei preocupado com você como ficaria com qualquer uma outra pessoa que passasse mal na minha frente, você não é exclusividade, então para de agir como idiota mal agradecida, garota! Quer saber? eu juro que tentei começar uma boa relação com você, porque eu não aguento mais essa merda de mal estar ficou entre a gente, não aguento mais fingir que não nos conhecemos." ele fechou os seus olhos e abaixou sua voz. "E muito menos fingir que como se não tivéssemos feito sexo e gostado. Mas eu não sou saco de pancada, Ana. Cansei e saiba que foi porque você preferiu assim." Christian respirou fundo, jogou sua mochila atrás das costas e parou de andar na minha frente. "Quando foi que você mudou tão de repente da Ana que eu conheci naquela festa?" ele perguntou, sua voz visivelmente desapontado comigo. Eu mordi o meu lábio inferior e abaixei minha cabeça, sem saber o que responder, me sentindo muito mal. "Quando você deixar de ser cega com essa sua ignorância, perceberá que está nos matando aos poucos."
Ao terminar de falar isso, ele passou por mim se esquivando para não encostar um dedinho que fosse do seu corpo no meu. E de alguma forma, talvez eu tivesse esperando que ele esbarrasse em mim, mesmo que fosse para me deixar ciente do quanto ele estava bravo comigo, porque isso me matou por dentro mais do que as suas palavras.
Antes que eu me desse conta, comecei a chorar copiosamente. Naquele momento, eu só me sentia como a pior pessoa do mundo e queria ir embora para chorar sozinha em meu quarto sem que ninguém me visse tão vulnerável.
"Droga de hormônios!" murmurei, passando minhas mãos em meu rosto para secar minhas lágrimas teimosas que insistiam em vir. "Tudo bem, já passou." falei, repetindo por várias vezes depois e respirando fundo, tentando me acalmar.
Quando me sentir segura de conseguiria controlar a minha crise de choro, sair daquela sala, logo menos de dez passos andados, encontrando com Christian de costas em frente para o seu armário e conversando com uma garota do primeiro ano.
O meu estômago embrulhou com a cena e eu só não vomitei ali mesmo porque o meu celular vibrou no meu bolso e minha atenção desviou deles dois.
"Alô?"
"Ana, sou eu, Matteo. Eu não vou levar muito tempo porque tenho treino com a banda, então só quero me desculpar por ontem, você sabe, não é da minha conta com quem você já se relacionou ou não... Você é linda, solteira e pode ficar com quem quiser. Sinto muito se pareci um tanto entrometido na sua vida..."
"Está tudo bem, Matteo. Só vamos esquecer isso." eu falei, cortando-o. Duas mãos seguraram na minha cintura e me girou. Dei de cara com Matteo, muito próximo do meu rosto, sorrindo para mim e seus olhos encarando a minha boca. Ele me puxou para mais perto e me roubou um selinho demorado.
"Matteo!" chamei a sua atenção, colocando minhas mãos em seus ombros e afastando o meu do dele para olhar pro seu rosto. "Você não ia treinar com a banda?"
"Uma escapadinha de vez em quando, não faz mal." ele piscou e me soltou do aperto de seus braços.
Eu balancei a minha cabeça repreendendo a sua travessura, mas sem deixar de sorri e caminhei até ao meu armário para trocar os meus livros.
"Matteo, você não pode ficar me beijando desprevenida quando bem quer..."
"Shiiiu, está tudo bem, Ana." ele me cortou. "Eu sei onde estou pisando e você não precisa se sentir obrigada a reciprocidade, ok?"
Eu fechei o meu armário e virei de frente para ele, concordando. Ele ter falado aquilo me deixou um pouco aliviada, porque eu gostava muito dele e de sua companhia, mas não sabia ainda se chegava ao ponto de termos algo a mais que amizade. Tudo estava muito confuso em minha cabeça. Tinha essa gravidez indesejada, tinha minha mãe para contar e tinha o principal responsável por tudo isso: Christian.
"Hey Christian." Matteo falou, olhando por cima de mim, sorrindo. "Foi uma bela jogada ontem, cara. Vocês arrasaram!"
Eu abaixei o meu rosto e engoli seco, encarando os meus pés, completamente desconfortável com toda aquela situação.
"É, foi. Valeu." Christian agradeceu e passou no nosso lado, indo embora.
"Tenho que ir agora. Nos vemos depois?" Matteo perguntou, voltando a me olhar. Eu concordei que sim e então ele foi embora também.
...
Eu joguei minha mochila em cima da mesa do refeitório onde Kate estava e ocupei o lugar vago de frente para ela. Kate levantou a sua cabeça e me olhou.
"O que é isso que você está comendo?" eu perguntei, olhando para o seu prato.
"Não sei, eu só fui passando e aceitando o que as tias da comida iam me oferecendo." ela balançou os seus ombros, rindo. "Quer um pouco?"
"Ah, não." dispensei, disfarçando uma careta. "Eu não acho que consigo comer nada hoje..."
Kate largou o seu garfo e revirou os seus olhos, torcendo os seus lábios.
"Ana, você está seguindo a alimentação e tomando as vitaminas que o doutor Adam passou?"
"Estou fazendo o que eu posso pra conseguir manter qualquer comida no meu estômago." respondi, suspirando.
"Que saber? eu desisto de tentar colocar algum juízo dentro dessa sua cabeça!" ela levantou suas mãos. "Não quer ser responsável? Então ok! Não seja, Ana! Mas se lembre de que agora, querendo ou não, você não está mais sozinha e nem lidando com um boneco! Se trata de uma vida que nem pediu pra estar aí crescendo dentro de você!" Eu abrir a minha boca mas não conseguir emitir nenhum som. Kate se levantou da mesa e puxou sua mochila, deixando a sua bandeja para trás e saiu, fazendo barulho com o seu sapato no chão.
Ótimo! Eu pensei com ironia. Eu podia lidar com o fato de Christian estar puto comigo, mas agora a minha melhor amiga também, era demais para mim. A vontade de chorar sozinha em meu quarto se multiplicou e fez o restante do meu dia ser mais para um pesadelo.
...
Já a noite, em meu quarto. Eu não conseguia parar de pensar nem por um momento nas coisas que Kate tinha me falado. Ela tinha sido um tanto dura comigo, mas talvez era só o que eu precisava afinal para finalmente cair na realidade e perceber que eu não podia mais esconder aquela gravidez. Eu precisava contar pra minha mãe e ia ser ainda hoje, na hora do jantar. Eu me levantei da cama e atravessei o meu quarto, para pegar na gaveta da minha cômoda a foto impressa da minha ultrassom guardada em baixo de alguns cadernos antigos de escola.
Tirei a foto de dentro do envelope e segurei no alto, fixando os meus olhos na palavra "embrião" e na seta apontada para um borrãozinho muito pequeno de sete milímetros como estava detalhado.
"Ana, o jantar está pronto!" escutei minha mãe me chamando e escondi a foto dentro do meu bolso. Fechei minha gaveta e já de frente para a porta, respirei fundo e logo depois desci.
A minha boca salivou com o cheiro da comida preparada, mas assim que eu coloquei o meu prato e me sentei na mesa, perdi a fome. Eu fingia mexer na comida como se tivesse comendo e ao mesmo tempo, estar interessada no que quer que fosse o que minha mãe estava falando.
"Ana?" eu olhei para ela. "Você não gostou da comida?"
"Ah, não. Está ótima, eu só estou com pouca fome."
"Hum, então tá." ela falou, me olhando de lado. "Você escutou o que eu falei? José conseguiu passar na faculdade de engenharia! A mãe dele fez questão de me ligar pra contar a novidade. Fiquei feliz por ele. José é um rapaz muito bom."
"É, é sim." concordei e voltei a olhar para a minha comida.
José e eu meio que crescemos juntos na infância e nos tornamos amigos, porque coincidentemente, os nossos pais trabalharam juntos na unidade do exército e sua casa era vizinha da minha. Mas quando ele tinha por volta de uns doze anos, sua mãe o levou embora da cidade junto com ela depois de pedir o divórcio do casamento e nós dois não nos vimos mais. Acabou que crescemos e cada um seguiu o seu próprio caminho, o contato foi se perdendo nesse meio e hoje não nos falamos mais apenas por causa disso. Mas José era bastante legal, divertido e muito inteligente, por isso não me impressionava que ele tinha conseguido passar na faculdade de engenharia, apesar de que ele sempre teve uma paixão por fotografia e demonstrava já desde pequeno, que tanto o seu presente de aniversário de dez anos, foi uma máquina de tirar fotos.
"Daqui a pouco é você entrando pra uma faculdade também, Ana." mamãe falou, me fazendo sair dos pensamentos. "Aliais, você já tem alguns planos?"
Eu quase me engasguei com a minha própria saliva.
"E-eu, hum, não tenho certeza mais se vou fazer..." encolhi os meus ombros, sem ter coragem de olhá-la nos olhos.
"Como assim? O que você quer dizer com isso?"
"Mãe..." eu a chamei, mas ela não me escutou.
"Não, Ana! Até ontem você praticamente sonhava acordada com isso de faculdade, o que aconteceu agora?"
"Mãe, por favor?!" pedi mais uma vez, aumentando o meu tom de voz.
"Chega de segredos, Ana! Eu sou sua mãe e exijo que você me conte agora o que diabos está acontecendo com você!"
"Estou grávida, mãe! É isso que está acontecendo comigo, você está feliz agora em saber?" perguntei. "Eu vou ter um bebê!"
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