Dezesseis

1 Harry Potter e as Tendências Assassinas de Lily


Notas iniciais
Eu estava aqui dando uma olhada na bagunça que é minha pasta de fanfics e descobri umas cinco ones incompletas perdidas. Essa é de 29 de Agosto de 2014 (!) e fala sobre a relação do Harry com a Lily. Achei curioso achar ela justo hoje, então preparei um finalzinho bem meia boca só para poder postar aqui ♥

Harry observou sua filha caçula: a camisa xadrez de flanela, a calça tomboy, as botas vintage e o boné cobrindo boa parte do cabelo ruivo recentemente repicado por ela mesma. Assim, vista de longe, poderia facilmente se passar por um lenhador anão, o que o fez sorrir para si mesmo: se Gina tivesse nascido nos anos 2000, ela seria exatamente como a filha – com roupas de garoto e pose contrariada, um aviso implícito constante de que podia ser tão – ou mais – que os seus irmãos mais velhos.

Havia algo de raivoso que só podia ser hereditário e se salientava especialmente em momentos como aquele em que ela segurava uma arma.

Harry contou até três e tomou um gole de cerveja trouxa. O urro de frustração dela ao errar o tiro na latinha o fez prender uma boa risada; em dias quentes e secos de verão, era maravilhoso estar vivo em cima de uma colina deserta, com uma bebida devidamente gelada e uma filha perigosamente instável ao lado.

— Você é boa, mas precisa de foco, querida! – Gritou, com as mãos em concha em torno da boca. Como resposta, Lily praguejou e atirou sem propósito, só de pirraça. Eles vinham praticando juntos há alguns dias, desde que Harry julgou que talvez fosse mais proveitoso ensiná-la a usar uma arma de verdade do que deixá-la passar vinte horas dentro do quarto descontando a frustração de sabia-se lá o que em Call Of Duty. Gina não havia apreciado por inteiro a psicologia da tarefa, mas cedera na esperança de que Lily se sentisse melhor.

Depois de mais três tiros aleatórios a garota voltou derrotada para perto do pai.

— Eu não tenho foco! Nem nessa porr... – Harry ergueu uma sobrancelha minimamente, fazendo-a enrubescer. — ...coisa, nem em nada! Eu sou uma bagunça!

Dezesseis anos, ele pensou, olhando-a de maneira afetiva.

— Para de me olhar como se eu fosse incrível quando na verdade estou surtando como uma louca!

— Eu acho você incrível. – ele rebateu, sem se abalar. – E gostaria de saber por que você está surtando como uma louca.

— O senhor está me chamando de louca? – Perguntou, furiosa. Harry se considerava um exímio conhecedor de métodos de ataque, uma vez que ele mesmo havia se especializado em vários ao longo da vida.

— Você que sugeriu que era. Eu apenas reproduzi a fala.

— É só que é tudo tão... Argh, entende?! Chega a ser deprimente. Não tão deprimente quanto sua vida difícil e tudo mais... – Harry fez força para não girar os olhos. Aparentemente fazia parte de algum rito de passagem entre todos os seus filhos a fase em que comparavam suas próprias vidas com a dele, numa espécie de autoflagelação. – Também não tão deprimente quanto, sei lá, o grito de uma mãe baleia ao ser separada de sua baleia filhote, mas, ainda assim, é deprimente.

— O que, exatamente? – Inquiriu, repousando uma mão no ombro dela.

— Eu e minha melhor amiga tivemos uma briga. E a culpa é minha. – Suspirou, jogando o boné para o lado e coçando a cabeça. – É só que tem essa coisa que eu estou escondendo de você e de mamãe. E eu estava escondendo de outras pessoas e acabei colocando ela numa situação horrível por causa disso. – Confessou e só percebeu depois de dizer que aquilo poderia deixá-lo mais alarmado. — Não são drogas, nem nada assim. – Apressou-se em explicar. – mas de algum modo, parece pior.

Ela havia conseguido colocar sua melhor amiga numa posição difícil porque vinha beijando seu primo, Hugo, com uma frequência bem maior do que gostaria. E agora, de algum modo, o garoto que ela gostava achava que ela era quem estava saindo com Hugo, ao invés de Lily. E agora o único modo de resolver tudo seria contando a verdade para todo mundo: de que ela estava apaixonada pelo seu primo, o cara com quem ela havia crescido.

— Querida, como Hugo pode ser uma coisa tão ruim assim? – Harry perguntou, encarando-a. Ele estava preparado para aquele momento. Ou, pelo menos, era como gostaria de acreditar que estava.

Lily continuou olhando para o chão por um longo tempo antes de começar a chorar compulsivamente. Harry a abraçou de lado e fez uma careta involuntária ao lembrar a sensação de desconforto, de vulnerabilidade e de pânico que ela possivelmente estava sentindo.

— Quando eu tinha a sua idade eu me apaixonei pela irmã mais nova do meu melhor amigo. Uma garota bem parecida com você, e espero que isso não soe estranho. – Lily riu e ele se sentiu impulsionado a continuar. – Eu sei como é. A sensação de estar cogitando algo que parece extremamente errado, e, ainda assim, continuar cogitando.

— Parece só bobo agora que você tá aqui comigo dizendo essas coisas legais. – Ela concluiu, constrangida.

— Lily, nada do que você sentir ou disser nessa vida vai ser bobo para mim. E eu me sinto bem em ajudar.

— Você definitivamente ajudou. – Ela limpou o rosto e o abraçou forte.

Não era sempre assim.

Na maior parte do tempo, era o inverso.

Havia uma coleção de conversas mal acabadas, farpas compartilhadas e sentimentos difíceis na relação de Harry com Lily, Alvo, James e Ted.

Mas ele vinha tentando o seu melhor e quando menos esperava, eram abraços como esses as suas maiores recompensas.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!