Dezesseis

1 Pedido idiota


Dezesseis parecia um número mágico para Lloyd. Chegava a ser engraçado ver seus olhos brilharem infantilmente todas as vezes que o pegava olhando para mim. E eu era só alguns meses mais velho que ele... Não havia real motivo para me tratar daquela forma. Mas ele estava mesmo era impressionado por agora eu poder tirar a carteira de motorista. E poder comprar bebidas. E poder ir preso. Lloyd era um cara engraçado.

— Parabéns para você...

Erin surgiu da cozinha trazendo um bolo pequeno de chocolate. Boon vinha atrás com as cervejas.

— Não precisava... Mãe — quase três anos e eu ainda não me acostumara a chama-la assim. Mas Lloyd disse não se importar e Boon parecia satisfeito quando eu fazia.

Desmentindo minha afirmação, um grande sorriso brincava em meu rosto. Eu adorava chocolate. E adorava aquelas pessoas. A minha família.

— São dezesseis anos, querido. Vamos comemorar! — disse deixando o bolo sobre a mesa e vindo me dar um beijo no rosto.

— É isso aí, daqui para frente você pode ser um delinquente — Boon bagunçou meus cabelos. —E pode oficialmente beber.

Com o último comentário peguei uma garrafa das mãos dele e a abri com prática.

— Oficialmente — brindei.

— Nem pense nisso Lloyd — repreendeu Erin tirando a garrafa das mãos do loiro.

— Ele faz isso desde... Sei lá, dos doze! — defendeu-se apontando para mim. — Por que eu...

Boon não o deixou terminar.

— Por que ele é ele e você é você, mas só por hoje... — ele olhou pidão para a loira contrariada. — Acho que uma não faz mal.

— Só uma — decretou Erin.

Festejamos com cervejas geladas e conversas amenas. Um clima legal para início de uma noite milagrosamente quente. As férias escolares estavam chegando ao fim o que era uma pena por que eu realmente não estava bem em Inglês e aquela matéria parecia impossível para o meu cérebro de gênio. Além de que isso significava que meu trabalho na oficina do velho Jimmy Riley estava chegando ao fim também. E eu gostava de cuidar de carros; monta-los só não era tão legal quanto dirigi-los, mas quase.

Boon estava trabalhando com a polícia local, o que não o deixava muito satisfeito, mas ainda era chamado para realizar alguns trabalhos para o Estado e isso o distraía do tédio da cidade pequena. Não entendo isso, mas acho que ele estaria feliz fazendo qualquer coisa desde que estivesse com Erin. A mulher mexia mesmo com ele.

Ela trabalhava no ateliê de costura do centro. Tornara-se sócia do negócio e estava empolgada.

Lloyd estava estranho ultimamente. Estava fissurado em garotas. Queria saber o que elas pensavam dele, se ele era atraente. Deus, ele me diverte. Acho que ele gosta de Pauline Smith, mas sempre que pergunto ele diz: “e quem não gosta dela?”. Hum, eu não gosto. Não assim. Mas ela parece se interessar por caras mais velhos, tipo o Dennis e o Clay que tem quase dezenove... Enfim.

— Ei cara, abre o meu presente.

— Ele nem soprou as velas ainda, Lloyd.

— Então vamos logo com isso garoto — sorriu Boon.

Erin acendeu as velas e então meu cérebro parou. Eu não sabia o que pediria. O que poderia querer se já tinha, bom, mais do que sempre desejei? Poderia pedir que aquele clima agradável nunca acabasse, ou que as coisas continuassem bem, mas isso parecia muito pouco específico. Eu poderia pedir um carro, mas isso já seria delírio. Acabei fechando os olhos e soprando as velas, deixando minha mente se encarregar de fazer o pedido por si só.

— Ah não, droga! — exclamei abrindo os olhos.

— O que foi?

— Fiz um pedido idiota.

Boon riu.

— O que você pediu? — perguntou Lloyd.

— Pedi para...

— Não conte, senão não acontece — interrompeu Erin, me advertindo.

Dei de ombros, era só uma superstição afinal... Mas ainda não acreditava que perdera uma oportunidade daquelas com um pedido tão idiota.

— Abre o meu presente — voltou Lloyd a insistir.

Eu sorri e peguei a pequena caixinha quadrada embrulhada em papel azul escuro. Olhei para eles em suspense e abri o presente. Dentro estava uma bola suja de baseball.

— Essa é... — comecei a perguntar surpreso.

— Encontrei ela esses dias atrás e achei que seria uma boa recordação. Quando nos conhecemos, a primeira vez que você jogou baseball e Boon te ensinou a bater... — ele parecia sem jeito. — Achei que iria gostar.

— É claro que eu gostei, maninho — lhe sorri antes de ir abraça-lo.

Eu lhe dei uma chave de pescoço enquanto riamos.

— O meu presente é simples, mas é de coração. Ah, ele está junto com o da Sra. Ross.

A caixa era maior, retangular, e estava embrulhada de branco com um bonito laço dourado por cima (coisa de mulher). A primeira coisa que vi foi um suéter de lã, azul e branco bordado com as letras de meu nome. Era o presente da Sra. Ross. Depois havia um par de tênis de corrida preto; eu o havia visto numa loja há um tempo e sabia que ele não havia custado exatamente barato. Isso me deixou desconcertado.

— Uau... Sabe que agora que tem dezesseis vai lava-los, não é? — Boon brincou.

— Obrigado, Erin — agradeci meio tímido.

— De nada, filho.

Nós comemos o bolo e depois pedimos pizza — o que foi engraçado. A noite estava quente, mas o clima era agradável. Quando Erin e Lloyd foram lavar os pratos, Boon tocou em meu ombro.

— Filho, pode vir comigo um instante? Ainda não te dei meu presente.

— Hum, não precisa pai. Nada poderia me fazer mais feliz.

Trocamos um olhar que me deu vergonha. Eu estava ficando velho e demonstrações de carinho começavam a me deixar encabulado.

Saímos de casa e a brisa era boa, o céu limpo, a lua cheia.

— Não tive tempo de embrulhar — ele tirou a mão do bolso e me entregou as chaves do carro.

Fiquei em silêncio por um tempo tentando entender.

— É... Seu carro — sussurrei.

— É seu presente de aniversário, vou ficar com o antigo. Não se preocupe; a belezinha azul sempre foi dona do meu coração.

— Boon... Você está me dando um GTO, Judge, 69, conversível?

— Na verdade eu o comprei para esse fim, mas precisava saber se até aqui você teria juízo suficiente para não enfiar a cabeça num poste, por isso comprei antes. Acredito que você não fará besteiras... Até que se prove o contrário.

Aquilo era o peso da confiança e ele estava o jogando em cima de mim, mas não me importei; eu tinha um GTO, Judge, 69, conversível!

— Pode continuar me adorando o quanto quiser, mas não quer ir lá? Ele é seu — ele continuava brincando.

— É meu mesmo? — olhei emocionado para a lataria vermelha.

— Sim.

Meio embriagado, eu caminhei para o banco do motorista. As pontas dos meus dedos que tocavam o couro do volante estavam formigando. Meu coração estava aquecido e meu cérebro parecia ter derretido.

— Obrigado pai.

— Ah, tem mais um presente que eu queria te dar.

Ele parecia sem jeito, meio constrangido e isso me tirou do momento “meu primeiro carro é um conversível”.

— O que é?

Sem olhar para mim ele jogou uma caixinha no meu colo. Por um instante fiquei sem reação, depois ri de nervoso pela situação.

— Hum, eu sou seu pai. Isso é algo que os pais fazem... Acho que você é novo para fazer essas coisas, mas... Isso é tão difícil com você quanto foi com Lloyd.

Eu me segurava para não rir do embaraço dele. Eu mesmo estava meio constrangido pela conversa.

— Lloyd me contou Boon. E... Eu sei colocar uma camisinha. Não se preocupe.

— Você... Ainda não faz essas coisas, não é? Quer dizer, você é um carinha bacana, as garotas gostam disso e seu passado é meio... Mas...

Eu ri balançando a cabeça. Estava tendo uma conversa sobre sexo com meu pai.

— Não, nunca trepei com ninguém por vontade própria. Mas agora que tenho camisinhas posso pensar no assunto — brinquei ao que ele relaxou e sorriu para mim.

— Você é um bom garoto — disse bagunçando meu cabelo.

Ficamos um tempo em silêncio.

— Lloyd vai enlouquecer quando eu contar...

— Sobre o carro ou sobre as camisinhas?

Nós dois nos encaramos e caímos na gargalhada.

*.*.*.*

"Desejo ir bem em Inglês esse ano."

Notas finais
O filme não é uma grande produção, rs, mas a história do Nate ficou comigo após muitos anos depois de eu tê-la assistido. Por isso, quis expressar meus votos de felicidade para o personagem — pois é, eles também merecem ser felizes.
A todos que chegaram até aqui, espero ter proporcionado uma boa leitura. E como pedidos idiotas está em moda: desejo que todos que leiam comentem também 'p
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!