Dezesseis

1 One-Shot


Notas iniciais
Músicas da banda Legião Urbana citadas nessa one, caso queiram ouvir:
Dezesseis:
http://www.youtube.com/watch?v=fyCs1LJCjFo
Mariane:
http://www.youtube.com/watch?v=oiYb31IEv_s
Espero que gostem.

A partir de agora, você está morto. Precisamos te cadastrar. Diga seu nome, sua idade, como morreu e sua história, se achar necessário.

Chamo-me John Roberto. Mas as pessoas me chamam de Johnny.

Chamavam. É tão estranho mudar o tempo verbal.

Tenho/tinha dezesseis anos quando morri. Morri num acidente de carro. Acidente, ou suicídio, como preferir chamar.

Eu tinha um Opala metálico azul que era meu orgulho. Eu amava andar de carro e ouvir rock. Eu era apaixonado pela Janis Joplin, Led Zeppelin, The Beatles e Rolling Stones.

Tocava violão, e isso me ajudava a pegar as garotas que eu quisesse.

Às vezes, nem precisava ser garota, pra eu pegar.

Mas havia uma. Uma que não me queria.

E eu queria aquela. Mas aquela nem se importava comigo.

O nome dela era Mariane.

Com o tempo fui entrando em depressão, mas ninguém reparou. Eu me fechei como uma concha, de modo protetor comigo mesmo.

Mas isso não garantia que eu não gostasse mais dos meus pegas.

Você pode me chamar de louco, se quiser. Mas a ideia de me humilhar para a garota, ou de desistir dela nunca passou pela minha cabeça.

Eu queria o fim do meu sofrimento, não importava como eu ia conseguir.

Ah droga, não consigo continuar!

John Roberto. É importante que continue. Agora que começou, não tem volta.

Tudo bem, eu vou continuar.

Foi então que chegou o fim de semana fatídico.

Marquei um pega na curva do Diabo, no Sobradinho. Todo mundo me seguia, para onde eu ia.

Era uma das coisas que acontecem se você é um cara popular. Um maioral, como todos diziam.

Todos ligaram seus carros, e era a hora de eu descontar meu sofrimento.

Ah, como me arrependo. Eu queria ter ficado, poderia sim ter conquistado a Mariane, agora que penso melhor.

E de qualquer modo, meu bebê amassado acabou comigo, quando eu vi, aqui de cima, o resultado do “acidente”.

Acidente proposital, como isso me soa errado.

De qualquer modo, aquele lugar era conhecido como a estrada da Morte, pelas curvas fechadas. Era muitíssimo perigoso fazer um pega lá, mas eu só queria o perigo.

Eu estava virando a curva e vi um caminhão. Tudo o que pensei foi “que se dane!”.

Deixei, como um idiota, o caminhão bater no meu Opala. Deixei o motor explodir.

Deixei meu corpo ser arremessado, triturado, e senti a morte instantânea.

Senti um alívio pra lá de estranho.

O mais estranho foi que eu vi que estava flutuando acima da cena, via tudo lá de cima.

Todos ouviram a explosão e correram pra ver.

Viram os pedaços do meu Opala metálico azul.

Ninguém mais além de mim tinha um Opala daquela cor. Era o Opala do Johnny, patenteado.

Só queria saber o que Mariane, que olhou aquilo, pensou.

Ela parecia chocada. Como se eu não fosse bom o suficiente pra fazer aquilo, ou egocêntrico demais pra imaginar um mundo sem mim.

Acho que ela deve ter pensado que eu esperaria o caminhão parar por mim.

Ela me esnobava desde sempre.

John Roberto, nós queremos te mostrar algumas cenas:

O diretor da escola estava falando com os alunos:

- O aluno John Roberto não está mais entre nós. Ele só tinha dezesseis: Que isso sirva de aviso prá vocês.

Era saída de aula, e todos os alunos cantando “Strawberry Fields Forever’.

Estranho e bonito. É, são dois bons adjetivos.

Ah cara, que ouçam o diretor.

Que ninguém mais seja tão idiota quanto eu fui.

Quero que um dia, quando alguém se lembrar disso, pense que não foi o caminhão, não foi a explosão, que não foi a curva fatal.

Que pense não morri naquela hora. Porque eu não morri na explosão. Não, não foi aquilo que me matou.

Suicídio só é suicídio quando o finado já está morto há muito tempo.

Eu já estava morto, desde a primeira rejeição de Mariane.

Morri de coração partido.

Queira acompanhar-nos, vamos lhe mostrar onde morarás a partir de agora, Johnny.

Bem vindo à pós vida. Aqui serás lembrado eternamente.

Porém antes devemos lhe mostrar algo que Mariane, sua morte, lhe escreveu:

Eu tenho trabalhado todos os dias

Eu tenho pensado muito em você

Eu estive perdido pela manhã

Eu não sei o que fazer sem você.

Mariane me esnobou. Matou-me, embora não saiba.

E agora eu estou a matando. Isso não é legal, cara. Achei que eu teria descanso aqui.

Cada qual é responsável pelas suas ações. Cada um escreve seu destino.

E você escolheu seu caminho. Agora, arque com as consequências, John Roberto.

Cada qual arca com as suas consequências.

Notas finais
Espero que tenham gostado, embora tenha ficado um pouco pequeno.
Comentem, para falar o que gostaram, o que não gostaram, sugestões, talvez?
Talvez apenas feedback. De qualquer modo, obrigado por ler ^^'
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!