Dezembros Marcantes
2 Dezembro, 2017
Notas iniciais
Festas, 2017
Dezembro
Os primeiros dias de dezembro despontavam, quando resolveram montar a árvore. A vista da janela dava para um céu cinza e diversas cores de gorros se movimentando pela avenida. Shikamaru separava as bolas coloridas, enquanto Temari organizava os fios do pisca-pisca.
O celular dele tocou, ao lado das bebidas de líquido fumegante.
— Ué! Quem é?
— Shika, não me force a responder com deboche.
Shikamaru riu, levantando para visualizar a tela e atender, em seguida.
— Oi, Naruto, tudo bem?
— Mais ou menos, parça.
— Ih… desembucha, vai.
— Estou com um imprevisto natalino.
Shikamaru jogou a cabeça para trás.
— Ah, não!
— Shikamaru, pensei em você na hora!
— O que aconteceu?
Do outro lado, Temari tentava adivinhar o que era, negando com o dedo indicador, sem nem mesmo saber do assunto.
— A lista de duendes já estava toda acertada, aí o cara veio duas vezes e deu para trás. Estava pensando… você está num momento em que todo dinheiro é bem-vindo e tem um amigo precisando de ajuda, entãão…
Shikamaru olhou para Temari, que o olhava de volta com expectativa. Correu a mão da testa à nuca, pensativo. Realmente, o dinheiro ajudaria bastante, além do que, trabalhar com seus amigos era até divertido. Suspirou pesadamente, desviando do olhar de Temari.
— Certo, conte comigo.
— Esse é o meu garoto! Eu te amo, cara!
— Menos, por favor.
— Ah, que ótimo! Pode começar hoje?
— Certo, até logo.
Shikamaru desligou, coçando a nuca, pensativo.
— Tema?
— Ah! Não me diga que…
— Sim. Mais um ano como duende.
Temari bufou.
— Ótimo! — ironizou, irritada.
— Estava pensando aqui. Não é um trabalho tão insuportável a ponto de eu dispensar o dinheiro. Lembro que, no ano passado, ganhei bem por isso.
— Estou achando que isso foi um truque seu, para que eu arrume a árvore de Natal sozinha.
Shikamaru riu.
— Marrenta. Bem que eu queria ficar aqui, beber chocolate e assistir a um filme depois da arrumação da árvore. — Aproximou-se de Temari e a abraçou por trás. — Namorar você…
Diante do abraço acolhedor, Temari não conseguia dar suas respostas malcriadas. De certa forma, seria ótimo se conseguissem um extra para as despesas que vinham crescendo consideravelmente; além de um tempo sozinha para cumprir algumas atividades pendentes, como colocar séries em dia, ler alguns livros e ouvir histórias de mães que compartilhavam de seus impulsos ranzinzas durante a gravidez. Foi quando o bebê chutou com força a mão de Shikamaru. Riram.
— Nossa, acho que temos uma réplica sua aqui dentro — brincou ele.
— Acho ótimo. Se for preguiçoso como você, teremos problemas. Além do que, se Shikadai realmente se sair a você, não vai saber se defender de crianças sem noção.
Shikamaru alisou a barriga de Temari, esperando por um novo movimento.
— Aí é que você se engana. Sou calmo, detesto confusão e se ele sair a mim, vai saber fugir de encrencas como ninguém. Não quero duas panelas de pressão aqui dentro.
Temari se ajeitou em uma almofada, pois a posição romântica estava fazendo as costas doerem.
— Me parece que não fugiu dessa encrenca aqui, como você mesmo me chamou há um ano — provocou, apontando para si mesma.
Shikamaru deixou a risada correr farta, pendendo a cabeça para trás.
— Todo mundo tem suas fraquezas.
Temari desferiu tapas leves no braço do outro, segurando o riso.
— Idiota! Vai logo se arrumar vai, se chegar atrasado o Naruto te mata!
Contrariando a preguiça que estava começando a acumular no corpo, Shikamaru resistiu e levantou em direção ao banheiro, não sem antes desferir beijos sensuais pelo pescoço de Temari, abaixando a gola alta da blusa.
Temari soltou pequenos suspiros, cerrando os olhos e arqueando o pescoço para trás.
— Saia logo daqui, antes que eu não deixe mais você ir.
❄
A sala silenciosa a fez lembrar de como chegaram ali, enquanto enfeitava a árvore. Havia certa dificuldade em sua movimentação, algo previsível para oito meses de gestação e uma barriga de tamanho considerável.
E pensar que havia ido de má vontade para a reunião de Hinata. Às vezes, era difícil acreditar que, atualmente, estava morando junto e esperando um filho do homem mais irritante daquela virada de ano.
Encaixou em um dos galhos, um urso marrom que segurava uma pequena caixa vermelha de presente, deixando a memória fluir.
A quantidade de coincidências que os rondou desde aquele dia foi o que facilitou sua aproximação. A bem verdade, as coisas já haviam mudado um pouco na casa de Hinata, mesmo. Tudo começou com aquele bendito vídeo.
❄
Naruto apertou o play, empolgado.
— Foi a nossa fera Sakura quem fez as filmagens! — bradou, apontando para a amiga, sentada no meio de diversas almofadas e dividindo um drinque com o Uchiha ao seu lado.
Sakura desferiu um tapa leve no ar, como quem recusa o elogio.
— Nem se animem, tem zero edição aí ainda, apenas fui filmando.
— Ela é fera, ainda assim — antecipou Naruto.
Temari olhou para a televisão, exausta. Já havia bebido um pouco e estavam ali há pelo menos uma hora, tempo suficiente para que se sentisse levemente tonta, pelo álcool e pelo sono. Costumava ser uma mulher noturna, mas especificamente naquele dia, seu gato havia aprontado em plena manhã, derrubando potes de vidro e a acordando bruscamente para lidar com a bagunça. Após o ocorrido, não conseguiu dormir mais. Era por isso que, naquele momento, estava praticamente igual a Tenji, que dormia tranquilo no quarto de Hinata, com a diferença de que ela continuava acordada e na sala.
Foi quando várias crianças surgiram na tela, todas sorrindo, acanhadas, porém muito alegres, ao lado de seus pais e de monitores da ONG. Um Papai Noel muito simpático leu as cartas delas, uma a uma, auxiliado por seus duendes, que lhe entregavam as próximas cartas e chamavam a respectiva criança, além de identificarem o presente de cada uma no saco vermelho. Sakura sorria, radiante por poder assistir às imagens que havia visto apenas do outro lado da filmadora. Abraçou Sasuke, emocionada, ganhando de seu namorado um beijo demorado na testa.
Temari gostaria muito de ainda odiar o tal Shikamaru, no entanto, aquele vídeo estava enfraquecendo tal sentimento. Houve um momento em que Sakura focou apenas nele, agachado, ouvindo uma criança rir freneticamente, tão feliz que mal podia pronunciar as palavras em ordem. Olhou de soslaio para o canto da sala, onde ele assistia à cena, apoiado no parapeito da janela, de braços cruzados. Quando a criança o abraçou no vídeo, Temari voltou a olhá-lo e detestou ter presenciado aquilo. Ele estava emocionado e fungava, secando o nariz com a manga da blusa.
Mesmo ela havia se percebido tocada e, inclusive, notou o mesmo efeito em Tenten. O estopim das duas foi quando Naruto e Sasuke apareceram no vídeo distribuindo os lanches e ganhando sorrisos verdadeiros e radiantes em troca. As crianças estavam eufóricas por ver duendes em todo lugar, e brincavam com os pompons das fantasias sempre que podiam. Hinata também apareceu em diversos momentos, sorteando as cartas de papéis coloridos, desenhados e repletos de pedidos. O Papai Noel também era muito carinhoso com as crianças e suas respectivas famílias, sendo captado por diversas vezes na filmagem.
Quando o vídeo terminou, com todos reunidos acenando para a câmera — inclusive Sakura, que havia corrido para se juntar a eles —, todos na sala aplaudiram, felizes e emocionados. Os envolvidos no projeto se abraçaram, orgulhosos pelo sucesso do planejamento. Os demais presentes foram se aproximando aos poucos, interessados em detalhes como arrecadações, informações a respeito da ONG contemplada e a experiência de cada um diante daquele evento.
Tenten olhou para o marido e a amiga com as bochechas vermelhas, pois era uma “manteiga derretida”, como Temari adorava se referir a ela.
— Nossa, que vídeo lindo. Vou pedir mesmo uma cópia ao namorado da sua prima, Nê. O Tenji vai adorar!
— Também pensei naquele sapeca — concordou Neji, bebericando uma taça de gim.
— Temari, viu a boca do bem que você beijou nessa virada? Está mais tranquila, agora?
Temari — que já se encontrava levemente tonta e duas vezes mais sincera — se limitou a dar de ombros, antes de qualquer opinião.
— Certamente, mais aliviada. Se querem saber, até relevei a patifaria que ele causou nos últimos dias. — Coçou a nuca, bocejando em seguida. — Aliás, estou com tanto sono que poderia relevar qualquer coisa. Vamos embora?
— Ah, não! Vamos ficar só mais meia horinha, quero saber um pouco mais sobre o projeto e sobre esse dia na ONG — insistiu Tenten, ostentando o semblante mais convincente que pôde.
Temari revirou os olhos.
— O que aconteceu com o “só um pouquinho” de vocês? — questionou, debochada.
Neji riu.
— Mas é rabugenta, viu.
— Nunca vi essa mulher começar um ano com tanto baixo astral — reclamou Tenten.
Temari se lembrou da superstição a respeito do primeiro dia do ano e se preparou para levantar.
— Tem razão, credo. Vou ali fazer um drinque e comer algo.
Tenten sorriu, vitoriosa.
— Essa, sim, é a minha amiga!
Temari se dirigiu à mesa de comidas e se serviu de um pedaço de torta. Logo notou que não estava mais sozinha. Shikamaru havia se aproximado também, montando um prato, próximo a ela. Preferiu ignorar sua existência, até o momento em que ambos posicionaram as mãos para pegar o último bolinho de queijo. Antes que se chocassem, Temari tomou um susto, recolhendo a mão dela.
— Pode pegar.
Shikamaru olhou para ela e recolheu a mão, também.
— Por favor. — Abriu espaço para que ela pudesse tomar a frente.
— Não, obrigada.
— Considere isso como a sorte que você estava pedindo hoje, à meia-noite. — Shikamaru deu de ombros, fazendo menção de se afastar.
Temari voltou a olhá-lo, indignada e surpresa, simultaneamente. Como ele tinha a audácia de querer sujar novamente a própria imagem, após um vídeo tão repleto de significados? Pior, lembrando do que ela havia dito e a obrigando assim a se lembrar do beijo útil que trocaram. Se ele iria jogar baixo, quem seria ela para não devolver?
— Ei, duende! — chamou ela, afrontosa.
Shikamaru a olhou, contrariado. Não vestia mais a roupa natalina naquele momento.
— Para quem não esperava me ver nunca mais e falhou miseravelmente, pode ficar com o bolinho como prêmio de consolação — retrucou Temari, pousando o prato na mesa para preparar um drinque.
Shikamaru havia realmente sido rude ao dizer aquilo, reconhecia. Porém, sentiu-se acuado no momento em que o beijo acabou e ela despejou uma série de impropérios sobre ele.
O sono e a alteração do álcool dificultavam qualquer “bate-boca” — como ele gostava de dizer —, o que não significava que, quando sóbrio, gostasse de encrencas. Olhou na direção dela, sem focar nos olhos verdes, visivelmente entediado.
— Tá bom…
Ignorando o semblante fechado da mulher ao seu lado, colocou o bolinho no prato e o apoiou na mesa. Em seguida, pegou o vinho para preencher sua taça.
Temari estava possessa. Odiava se sentir daquela maneira, “despeitada”. Despejou o conteúdo de seu drinque na coqueteleira e descontou no utensílio toda a irritação que sentia. Nem notou quando ele se afastou.
Ao voltar, juntou-se a Tenten e a Hinata, que conversavam animadas. Infelizmente, o lugar em que estava sentada ficava de frente para Sakura, Sasuke e ele. Parecia um encosto.
— Quando vi, já estávamos namorando — contou Hinata, sorridente. — Dali pra cá, viajamos bastante, e eu também dei uma sumida das reuniões familiares.
— Nossa, que mundo maluco, né? E pensar que, dias antes, estávamos levando o nosso filho para ver o Papai Noel da empresa do seu namorado. E pior! — Tenten elevou a voz, tampando a boca em seguida. Tocou no braço de Temari, que mastigava. — A Tema também teve que reanimar o duende desmaiado ali. — Apontou para Shikamaru.
Hinata desatou a rir e na opinião de Temari, ela havia certamente ligado a palavra “reanimar” tanto ao incidente do shopping, quanto ao beijo da meia-noite. Podia sentir a algazarra no ar.
Estava exausta de encontrá-lo em todos os lugares, fosse em presença, fosse em assunto. Exausta.
— Infelizmente, essa parte da coincidência foi meio trash, né? — Deu de ombros, sem poder conter a sinceridade.
Hinata se surpreendeu com a franqueza de Temari, mas concordou que aquela situação era mesmo peculiar. Riu mais.
— Concordo com você, foi uma situação, no mínimo, bem fora do normal. — Passou a mão nos cabelos, trazendo-os para um lado só do pescoço. — Mas aquele cara ali é muito coração.
Temari terminou de mastigar mais um pedaço de torta, pensativa. Olhou para as duas mulheres à sua frente, ostentando um semblante blasé.
— Hm.
Tenten, Temari, Tenji e Neji realmente ficaram por volta de mais quarenta minutos, desde que Temari havia pedido para irem embora. Durante esse tempo, ela tentou não mais cruzar com o tal duende, o que foi deveras fácil, considerando que, pouco depois de comer, Shikamaru pediu para dar um cochilo no outro quarto. Foi quando ela pôde relaxar mais e conversar naturalmente com os presentes. Ao fim da noite, dividiu um táxi com o casal de amigos e a criança, pois moravam no mesmo prédio.
❄
Temari não ouviu mais nada a respeito do tal Shikamaru, para a sua sorte. Nem ao menos lembrava da existência do outro, duas semanas após todos aqueles acontecimentos.
A seção para animais domésticos estava lotada, com direito a pessoas enfileiradas, por conta de uma promoção valiosíssima nas rações úmidas. Seu gato era peculiarmente um “fresco”, como ela o denominava, pois só consumia determinados produtos. Curiosamente, o sachê favorito de Aligor — o gato — estava acabando em questão de segundos, bem à sua frente. Foi então que ela o viu. Bem agasalhado, um tanto debruçado sobre o carrinho, aguardando sua vez na fila. Era o próximo.
Naquele momento, Temari poderia fazer duas coisas: simplesmente fingir que nada havia acontecido e inventar um artifício para que seu gato comesse alguma outra entre as quinhentas e dezessete rações da prateleira; ou se humilhar e pedir que Shikamaru pegasse três sachês a mais, pois ela tinha certeza de que, na vez dela, não sobraria nenhum.
Na dúvida, quase decidiu por continuar ali e arranjar uma saída para o problema sozinha, não fosse o grito seguinte.
— Temari!
Olhou para trás, avistando Kankuro.
— Fala! — Tentou responder, discreta, na medida do possível.
— Nada, ainda? — Gesticulou ele, apontando para a prateleira de rações.
Temari abriu os braços em confirmação óbvia, pois estava a três pessoas de distância. Sua intenção não era ser vista por Shikamaru. Não mesmo. No entanto, a “discrição” de seu irmão não lhe deu opções.
Shikamaru olhou para trás, avistando Temari. Não era possível ter que encontrá-la ali, também. Qual a chance de encontrar uma pessoa desagradável em uma fila de promoção de ração para gatos? De porcentagem, pouco entendia. O mesmo não poderia dizer de sua certeza quanto a atrair o azar, diretamente para si mesmo.
Virou-se novamente, de ouvidos atentos na conversa à distância dos dois.
— Vem aqui! — Chamou ela, agoniada pela conversa indiscretamente alta.
Kankuro apontou para o carrinho que conduzia.
— Está muito cheio aí.
— Está acabando a ração Fishell. — Tentou dizer mais baixo, articulando mais os lábios.
— O quê? Não entendi.
Temari bufou e aumentou o tom de voz.
— Está acabando a única ração que aquele gato safado come!
Desta vez, não só Shikamaru, mas todas as pessoas na fila olharam na direção dela, que sentiu as bochechas avermelharem. Para piorar, Kankuro bateu na testa.
— O Aligor vai dar trabalho!
“Talvez seja implicância do gato, por ter este nome”, pensou Shikamaru, mordendo os lábios.
— Ah, pode esperar! — disse ela, novamente.
Embora Shikamaru não estivesse interessado em se meter nos problemas da mulher, sentiu pena pelo gato. Não custava nada ajudar o bichano a comer bem, ele não tinha culpa pelo temperamento da dona. Pegou quatro sachês a mais, escolheu também mais alguns outros produtos e saiu da fila.
Ao dar a meia volta com o carrinho de compras, passou por ela e estendeu os sachês. Temari arregalou os olhos.
— Desculpe por ouvir a conversa, é que estava bem alta.
Temari bufou, ele não perdia a chance de ser desnecessário. Entretanto, estava aliviada e grata pela ação do outro.
— Não vai pegar? — Shikamaru chacoalhou levemente os pacotes.
Sem jeito, ela aceitou.
— Obrigada. Vou aceitar, por meu gato ser bem difícil de lidar. — Coçou a nuca, constrangida.
Shikamaru abriu um micro sorriso.
— Assim como a dona — provocou. — Bom, vou indo.
— Espera — chamou Temari, debochada. — Isso era pra ser uma piada de mau gosto ou…
— Considere sorte. — Cortou Shikamaru. — A sorte do beijo de Ano-Novo.
Saiu, deixando Temari sozinha. Ela voltou, sem graça, para a fila. Na sua vez, pegou um pacote de ração seca e constatou que estava certa. Acabaram-se os sachês de Fishell.
No caixa, Kankuro olhou para as rações.
— Vem cá, você conhecia aquele cara?
— Infelizmente, sim — retrucou ela.
— Ou felizmente. Ele nos salvou.
Temari lembrou da conversa que teve com as meninas, na reunião pós-virada do ano, assim como das palavras de Hinata sobre a bondade do tal Shikamaru. Certo, ele até podia ter um coração ok.
❄
Voltaram a se encontrar no meio de fevereiro. Tenten e Neji fizeram um churrasco de aniversário de casamento no terraço do prédio e acabaram por convidar Hinata e seus amigos. Inclusive, Sakura levou o vídeo do evento na ONG — editado — de presente para Tenji.
Temari realmente esperava que Shikamaru tivesse modos e não aparecesse, pelo bem-estar dos dois. O que não ocorreu.
Ela tinha se permitido beber consideravelmente, para comemorar a união dos dois — a qual ela havia sido quase um cupido — e horas depois, percebeu o quanto a ideia havia sido péssima.
Debruçada sobre o parapeito, sentia o mundo girar, as vozes pareciam distantes e a bile queria subir o estômago, acompanhada de tudo o que lhe fazia mal.
Quando ele apareceu, ela estava engolindo saliva constantemente.
— Oi… só pra checar se está tudo bem… não estou te perseguindo. — Shikamaru levantou as mãos em oposição. — É só que você parecia meio estranha, olhando dali de trás.
A vontade de Temari foi de o mandar embora dali, ele e seu jeito idiota de a tirar do sério, mas o mal-estar crescia a cada segundo. Tudo o que pôde fazer foi agarrar no braço dele.
— Me ajuda a chegar no quinto andar.
Ela morava no mesmo prédio, o que facilitou muito naquele momento. Cambaleando, mal podia abrir a porta, confiando a chave a Shikamaru.
Após abrir a porta, ele a apoiou com cuidado, mas ela tinha muita pressa, pressa essa que não foi contemplada pelo êxito. Vomitou ali mesmo. Foi quando ela percebeu — dentro de suas possibilidades — que mesmo Shikamaru esboçando uma série de ânsias, acompanhou-a até o banheiro, firme em seu apoio.
Temari lavou o rosto, mas logo precisou correr até o vaso sanitário. O excesso de bebida havia caído mal.
Shikamaru estava ao lado dela, sem saber muito bem o que fazer, a não ser segurar os fios loiros. Quando Temari finalmente sentiu que não iria morrer, pediu para se deitar.
— Hum… você tem chá aí? Posso fazer um.
— Sim.
Duas horas depois, ela não sabia o que Shikamaru ainda fazia ali, mesmo após fazer um chá, prender seus cabelos e a cobrir. Foi a vez dela de ver dois dele. Conversaram sobre Aligor, o famoso gato que mais parecia uma bola alaranjada de pelos, que embora fosse bem antissocial, aproximou-se da dona, entendendo que ela não se encontrava em seu estado normal. Temari passou um bom tempo encarando o balde sobre a cama, também.
Ela havia “queimado a língua”, por agir da pior maneira com relação ao duende que agora a socorria. Talvez não estivesse ainda totalmente sóbria, desse modo, não tinha papas na língua ou vontade de ficar quieta.
— Olha eu aqui. Com você. De novo. Não sei porque, mas a vida tenta jogar na minha cara que você é legal. Droga.
Shikamaru riu, cansado.
— Pelo menos, estou retribuindo o favor do shopping e garantindo a sorte que você pediu.
Temari sorriu como pôde.
— Deve ser essa bendita sorte que pedi.
Em um rompante, enfiou o rosto no balde e passou mal. Shikamaru se contorcia ao lado dela, lutando com todas as forças para não sucumbir ao nojo e vomitar também, ali mesmo. Seria cômico, se não fosse tão trágico.
— Cadê a Tenten? — Chorou Temari, aceitando os lenços de papel que Shikamaru oferecia.
— Han… quer que eu a chame aqui? Acho que ela não viu quando descemos.
— Na certa, acha que viemos transar. Palhaça! — Limpou a boca.
Shikamaru abafou um riso. Antes fosse.
— Com certeza, seria um cenário mais agradável.
Ele não soube como tudo ocorreu dali por diante. Lembrava apenas que Temari o olhou, serena e interessada, aproximando-se lentamente até juntar os lábios aos dele. Sim, ela o havia beijado após uma série de acontecimentos fisiológicos de natureza horrenda, os quais ele não queria nem lembrar. Foi um beijo breve, Temari havia capturado seu lábio inferior e soltado, fazendo-o sorrir, confuso, reprimindo uma nova ânsia.
— Tenho para mim que não estamos no melhor cenário, por mais que eu pareça ser irresistível — brincou, após perceber que já conseguia falar, sem ter uma nova ânsia.
Riram. Temari o empurrou de leve.
— Desculpa… maluquice minha.
O resto foi muito rápido. Passaram a simpatizar um com o outro e conversavam mais durante as reuniões de amigos, que haviam se tornado mais frequentes. Cada vez mais atraídos um pelo outro, resolveram marcar um sexo casual.
Temari riu ao lembrar que, depois do primeiro encontro, tentavam achar desculpas para se encontrarem novamente. Semana a semana, foi ficando complicado inventar, até porque ambos sabiam que queriam desfrutar de mais momentos e não precisavam de um motivo.
O namoro foi consequência. Ocorreu naturalmente, porém rápido. Até o dia em que, no fim de abril, sentados na cama dela, viram o maldito teste acusar o positivo. Tratava-se de um deslize problemático — um preservativo estourado — e uma confusão de cálculos no ciclo de Temari.
A saída foi Shikamaru deixar de morar sozinho e mudar com sua gata para o apartamento em que ela residia com Kankuro e Aligor, pois isso possibilitou o corte de custos desnecessários e a união das despesas. A aproximação dos animais gerou problemas relacionados ao território felino no início, mas após algum tempo se resolveu.
❄
Parecia loucura para Temari se lembrar que tudo aquilo acarretou naquele exato momento, em que ela sentia a barriga chutar, enquanto Aligor e Hermione assumiam o modo defensivo, olhando fixamente para o movimento estranho. Às vezes, pensava que tudo precisava ter sido daquela forma, pois as coisas foram orquestradas de tal maneira, que nem mesmo eles acreditavam.
Ela sabia que o sentimento entre os dois era recíproco, parecia que se conheciam havia anos, de uma forma tão íntima e tão bonita, que o medo da gravidez durou poucas semanas.
Logo, estavam animados e felizes com toda aquela história insana. Tinham lá suas diferenças e discussões, Temari não era fácil e Shikamaru tinha a preguiça como parceira permanente em sua existência. No entanto, havia amor. Bastante.
❄
31 de dezembro
A tradição do beijo da meia-noite na Times Square era muito importante para Shikamaru e Temari, que tinham aquele acontecimento como um ponto de partida em sua peculiar relação, mas que animava também a todos os outros amigos que estavam presentes na virada do ano anterior. Desse modo, decidiram comemorar no mesmo local.
O grupo havia chegado mais cedo e jantado em um bar confortável, por conta de Tenji e da barriga pesada de Temari, mas foram para a avenida quando o horário se aproximava da meia-noite. A roupa de duende também havia entrado para a tradição, já que Naruto havia repetido o projeto social naquele mesmo dia. Tenten se virou para Temari.
— Quem diria, hein Temari. As voltas que o mundo dá.
— Nem me fale. É assustador.
Tenten riu, lembrando-se de algo.
— E pensar que há apenas um ano, você e Shikamaru estavam se matando de brigar aqui.
Temari esfregou os próprios braços, estava muito frio. Sorriu, saudosa.
— Parece que já faz tanto tempo. É engraçado lembrar de como odiei, quando descobri que vocês conheciam a Hinata e ele teria que passar a virada toda aqui perto de nós.
Neji se aproximou, para participar da conversa.
— E hoje está com esse barrigão, praticamente casada.
Tenji bateu palmas, agitando-se sobre os ombros de Neji.
— Já quero brincar com o Shikadai!
— Calma, garoto, assim você cai — advertiu Neji, tentando equilibrá-lo.
— Cuidado, criança. — Tenten pediu, preocupada, preparando-se para ampará-lo, se fosse preciso.
Temari suspirou, pensando no que estava por vir. Tenten percebeu o semblante estranho da amiga e gritou para Shikamaru, que se encontrava ao lado de Temari, porém conversando com Sakura, Sasuke, Naruto e Hinata.
— Aliás, esqueci de contar uma coisa — anunciou, aguçando a curiosidade de todos eles.
— Ah, não Tenten. Não preciso dessa humilhação.
— Para de ser boba, nem sabe o que vou falar.
— Coisa boa não é! — Temari bufou.
Shikamaru riu, apertando a bochecha de Temari.
— Agora eu quero saber. Me conta, Tenten.
Os outros voltaram a atenção ao diálogo. Tenten abraçou Temari, risonha.
— Nossa, não sabia que todo mundo ia querer saber.
Temari revirou os olhos.
— Do jeito que gritou, até a banda quer ouvir.
O riso foi unânime. Shikamaru adorava como Temari tinha seu humor próprio.
— É que, no ano passado, aquela confusão toda do Natal fez a Tema declarar que não seria mãe tão cedo. Parece que algo não deu certo com esse plano. — Tenten gargalhou, olhando para o volume protuberante debaixo de todos aqueles casacos.
— É isso o que eu chamo de expectativa versus realidade — brincou Sasuke, sério.
Shikamaru gargalhou, segurando a mão de Temari e a olhando como se pedisse desculpas por rir tanto.
— Até você, Sasuke! — reclamou Temari.
— Ele está todo engraçadinho hoje! — Sakura riu, bagunçando os cabelos do namorado.
— É muito engraçado ver que vocês estão juntos, esperando um bebê, enquanto a Temari tentava fugir da minha festa no ano passado por causa de você, Shika! — acrescentou Hinata, brincalhona.
Temari riu. No fundo, estava se divertindo bastante com as brincadeiras.
— E o melhor de tudo, eu e a Hina fomos os cupidos desses dois. Eu contribuí com o bico de fim de ano, que o Shika também não queria! — completou Naruto, zombeteiro.
Shikamaru beijou a mão de Temari e resolveu gracejar, também.
— Ela pediu sorte no Ano-Novo. — Apontou para si mesmo, sugestivo. — Aí o destino se encarregou do resto.
Temari bateu de leve no ombro bem agasalhado de Shikamaru.
— Convencido! — Sorriu, aceitando o selinho dele. — Pior que ele me trouxe sorte, mesmo.
A conversa estava muito animada, tanto é que foi Tenji quem os lembrou da contagem no telão.
— Mamãe, o telão!
— Pessoal, nos distraímos demais! — bradou Naruto, risonho. — Foi nessas daí que o Shika e a Tema começaram a história deles. — Riu audivelmente, puxando Hinata para perto dele.
Aos poucos, os casais foram se posicionando ali perto.
— Vamos celebrar o amor e todas as coincidências! — gritou Sakura, abraçando Sasuke. — Aliás, mais um ano juntos, hein baby.
Sasuke sorriu de canto, mas mantendo sua seriedade.
— E se… esse ano ficássemos juntos, mesmo?
Sakura sorriu, confusa.
— Juntos como…
— Como eu e você, morando juntos — murmurou, tímido. — Pensei bastante e…
— Aceito! — alegrou-se Sakura, sem poder conter a emoção. — Por mim, quanto antes! — Sentiu os olhos arderem e algumas lágrimas escaparem. — Droga, Uchiha! Está me fazendo chorar quase na virada!
Antes que Sasuke pudesse dizer qualquer coisa, Naruto foi mais rápido:
— O Uchiha está chorando?
Todas as atenções se voltaram ao casal, que tremeu só em ouvir a voz de Naruto.
— Naruto, não enche — ralhou Sasuke, fungando.
Naruto não obedeceu, puxando uma salva de palmas para os dois. Os amigos vibraram, provocando a maior algazarra. Sasuke bufou, enquanto Sakura gargalhava, adorando a bagunça.
Temari aproveitou o momento para torcer bastante, gritando, vibrando e dando pequenos pulinhos. Estava cansada de ser o centro das atenções ali. Ademais, adorava o casal e imaginava que logo os dois tomariam a decisão de juntar as escovas de dentes, assim como ela e Shikamaru haviam feito. Foi quando sentiu um leve desconforto, nada muito pontual, o que inclusive foi ignorado prontamente quando a contagem regressiva chegou aos dez segundos.
Juntos, contavam em voz alta e acompanhavam a bola descer, maravilhados. À meia-noite, os casais iniciaram os beijos da virada, trocando votos e carinhos.
Temari e Shikamaru se beijaram apaixonadamente. Ela pensou no quanto aquele beijo se assemelhava ao outro, sem toda a intimidade atual, mas sim de como havia sido bom e ela não quis admitir, nem por um decreto.
Enquanto a embalava em seus braços e beijava com gosto os lábios avermelhados pelo frio, aproveitando cada momento daquela união tão significativa, Shikamaru também refletia a respeito de tudo o que havia mudado em apenas um ano. Era tão maluco pensar que, na sua cabeça, nunca mais a veria. Havia gostado do beijo desde o início, mas não pôde externar isso, já que na época Temari estava disposta a insultá-lo. Agora, dividiam o mesmo calor, os mesmos momentos, dois gatos, o mesmo teto e uma cópia dos dois por vir, em pouco tempo.
Largaram-se apenas porque precisavam de ar, desta vez sorrindo e trocando votos, juras e só depois foram cumprimentar os outros. Era engraçado pensar que no outro ano Temari havia saído, deixando Shikamaru sozinho. Naruto aproveitou para relembrar a situação, zombando dele.
— E pensar que ano passado a Temari te deixou aí sozinho, no maior vácuo.
Tenten gargalhou, lembrando do acontecimento e levando todos a rirem também.
— A Temari chegou possessa aqui e zoamos muito da cara dela.
— Aqui o negócio também foi parecido — brincou Sasuke, distribuindo batidinhas no ombro de Shikamaru.
Shikamaru riu, lembrando do momento infeliz. Resolveu provocar Temari.
— Ela não resistiu ao meu beijo de Ano-Novo, foi tudo encenação. Naquela noite, quando ela me encontrou, suspirou de surpresa, que eu sei.
— Oh! — exclamou Temari.
— Assim mesmo! — Divertiu-se com a demonstração dela. — Só que foi um pouco menos que isso — brincou Shikamaru. — Aí…
A brincadeira foi interrompida por Temari, que arregalou os olhos, temendo se mexer.
— Shikamaru, acho que a bolsa estourou.
— O quê? Já?! — perguntou ele, sentindo o desespero percorrer todo o seu corpo.
— Sim, ou eu fiz xixi na calça! — Temari deu de ombros, apalpando as pernas, em seguida.
Sentia o líquido morno escorrer pelas pernas, amparando-se nas meias grossas e molhando suas botas. Por sorte, havia tido a intuição de vestir saias grossas e meias, ao invés de calças.
— Amiga, calma! — Tenten se aproximou, cuidadosa. — Vamos dar um jeito de sair dessa confusão. Neji, meninos, ajudem a liberar espaço.
Confusos, Naruto, Sasuke e Neji tomaram a frente, pedindo licença na multidão.
— Liga pro médico, Shikamaru! — gritou Temari, em desespero. — Estou com medo desse neném querer sair aqui!
— Calma, Temari! A bolsa acabou de estourar, respira!
Hinata e Sakura se aproximaram, tentando manter a maior distância possível entre ela e as pessoas. Por mais que Temari fosse enfermeira, naquele momento, a ansiedade e a pequena dor que surgia não a ajudavam a raciocinar. Para a sua sorte, tinha amigos muito prestativos e ótimos reagentes a emergências.
— Papai, o que aconteceu? — indagou Tenji, confuso, tentando encontrar Temari na multidão, por sobre os ombros de Neji.
— O bebê da tia vai nascer — afirmou Neji, enquanto pedia licença às pessoas.
— Licença, grávida em trabalho de parto! — pediu Sasuke, firmemente às pessoas que encontrava.
— LICENÇA, TEM UMA GRÁVIDA AQUI ATRÁS PARINDO! — berrava Naruto, assustando quem estivesse por perto.
Temari estava desesperada. Seria cômico se não fosse tão trágico. Seu bebê nasceria prematuro, ainda que um prematuro tardio, o que não apresentava tantos riscos — estava na trigésima quinta semana de gestação —, mas isso a deixava ainda mais aflita. Olhou para o lado e viu Shikamaru xingar, retirando o celular da orelha e verificando a tela, antes de retornar ao mesmo local.
— Droga, ele não atende!
— É Ano-Novo, Shika. Mas continue tentando — orientou Sakura, tentando apaziguar.
No meio do trajeto, Temari sentiu a primeira contração, recusando-se a prosseguir. A dor era tão forte que sua vontade era a de bater em um saco de pancadas até cair em posição fetal.
— AAAAAAGH! — vociferou, segurando-se firmemente em Hinata, que quase caiu para o lado.
Tenten pegou a garrafa de água que segurava e molhou a testa de Temari.
— Calma, amor! — pediu Shikamaru, sentindo as próprias pernas enfraquecidas.
— Calma, como? — Grunhiu ela, sentindo a pior dor de sua vida. Sabia que estava sendo rude, mas Shikamaru tinha um verdadeiro talento para tirá-la do sério no Ano-Novo.
— Naruto, não quero alarmar, mas isso está muito rápido — considerou Sasuke, olhando para trás. — Precisamos correr.
— Que bebê apressado, né? Puxou a Tema.
Com a confusão, mais pessoas fizeram o possível para se afastar de Temari. Aqueles pareciam os vinte segundos mais longos de sua vida. Quando a contração passou, ela sentiu vontade de vomitar, mas segurou a ânsia, ou aquele se tornaria o pior parto da história.
O suor frio descia pela testa com frequência. Amparada por Shikamaru e Tenten, fez o possível para se afastar dali, antes que a próxima contração começasse.
— Estamos perto da caminhonete! — gritou Naruto, desesperado. — Shikamaru, segura as pontas.
— Estou achando que o Shikamaru vai ter um colapso — sugeriu Sasuke, preocupado. — Olha a cara dele, branca.
Sasuke tinha razão, Shikamaru sentia que a qualquer momento perderia o pouco que lhe restava de força nas pernas. Com o telefone colado à orelha, gemeu de alívio quando ouviu a voz do médico, que inclusive nada entendeu ao ouvir o seu ruído.
— Doutor Oliver, que bom que atendeu!
O médico, que tinha o número dele salvo, respondeu prontamente:
— Shikamaru, tudo bem com a Temari?
— Parece que o bebê vai nascer antes da hora. Estamos indo para o hospital — gritou, devido ao barulho.
— Segurem as pontas, estou saindo daqui!
Temari ouviu o médico pelo viva-voz.
— Tentar segurar as pontas, ele quis dizer! Quem manda agora é o bebê! — exaltou-se, desesperada.
Shikamaru desligou o telefone, procurando a caminhonete de Naruto com os olhos. Tenten deixou escapar uma risada.
— Temari, desculpa! Mas você está muito engraçada, amiga!
Ao se aproximarem — finalmente — do veículo, Temari foi pega de surpresa com mais uma contração e como o local tinha menos transeuntes, ela agachou no asfalto.
Shikamaru lambia os lábios secos constantemente, pedindo aos céus para não desmaiar ali. Entretanto, era tarde demais. Começou a enxergar duas de sua namorada, em seguida o equilíbrio ficou complicado de controlar.
— Sasuke… — Aproximou-se do amigo, cambaleando.
— Eu falei! — Sasuke bateu na testa, correndo para amparar Shikamaru.
Naruto procurava a chave da caminhonete, tentando encontrá-la no meio de um molho repleto delas.
— O SHIKAMARU ESTÁ DE BRINCADEIRA! — vociferou, sentindo as mãos tremerem violentamente, a ponto de derrubar as chaves.
Temari sentiu ainda mais medo ao ver Shikamaru desmaiado na sua frente. Agachada, sentiu muita raiva. Por que aquele homem precisava desmaiar nos piores momentos? A dor era tanta que ela queria acordar o namorado aos tapas.
— Eu não acredito! — esbravejou, furiosa.
Tenten lhe ofereceu água, ao que ela aceitou prontamente. Bebeu com tanta sede, que o líquido escorreu pela boca.
— Temari, estou contando aqui, já são quinze segundos — afirmou Sakura, olhando o relógio e tentando distrair a amiga. — Se for como a outra, já está passando.
— Respire fundo! — Acalmou Hinata.
— Neji, leva o Tenji para dentro da caminhonete! — ordenou Tenten. — Fique lá dentro com ele.
— Já estamos entrando! — gritou ele de volta, abrindo a porta após Naruto lhe entregar as chaves, pois estava tão nervoso que quase as derrubou novamente.
Sakura tinha razão, a segunda contração durou pouco mais de trinta segundos. Temari se jogou para trás, amparada por Sakura e Hinata.
— Esse bebê vai me matar! — gemeu, aliviada com a pausa na dor. Olhou para o parceiro, que naquele instante era reanimado pelos amigos. — Acorda, Shikamaru!
Novamente o cheiro do álcool o despertou. Confuso, foi amparado por Sasuke e Naruto, até conseguir se manter de pé, sozinho.
Devagar, entraram todos na caminhonete, acomodando Temari da melhor maneira possível, abaixando alguns bancos para que ganhassem mais espaço. Tenten se posicionou atrás da amiga, cobrindo-a com o cobertor de Tenji. Sakura e Hinata a abanavam com algumas revistas. Naruto assumiu a direção, a caminho do hospital, enquanto Sasuke vigiava Shikamaru. Neji tentava fazer Tenji dormir, colocando fones de ouvido e um desenho para assistir pelo celular. Não foi muito difícil, pois o menino já estava com sono.
Shikamaru se aproximou de Temari, um tanto zonzo ainda.
— Tema, me desculpe.
Temari já estava mais calma, então o olhou, preocupada.
— Sempre desmaiando, Nara. — Soprava o ar, sentindo a dor voltar aos poucos.
A próxima contração veio pior do que as outras, Temari sentiu o útero empurrar com um pouco mais de pressão. Entrou em pânico.
— AAAAAARGH! — Jogou a cabeça para trás, encaixando-a no pescoço de Tenten, que a amparava.
Em uma troca de olhares com Tenten, Sakura achou melhor pedir licença e abaixar a calcinha e as meias de Temari, que entendeu a necessidade e assentiu com a cabeça, concedendo a permissão. Como suas saias eram longas, não houve preocupação com as presenças masculinas ali.
Apesar da concessão, o medo de Temari — de o bebê nascer naquele carro — era imenso. Dentre os maiores estava o fato dele nascer antes do tempo e a possibilidade de ficar preso no meio do caminho, além do pavor de sua pressão subir demais. Preferia nem pensar, ou ficaria mais exaltada e propensa a problemas.
— Vocês acham que… — murmurou Shikamaru, ainda grogue.
— Não faça perguntas difíceis! — gritou Temari, entredentes.
Sem querer, ela empurrou Shikamaru ao esticar o pé, fazendo-o se segurar nos bancos.
— Calma, Temari! Não fica brava! — pediu, contendo a irritação por tudo estar caótico.
Aquele não era o melhor dia para Temari ouvir sobre calma. No auge da dor, sentiu uma raiva inexplicável de seu namorado. “Afinal, quem colocou esse bebê aqui dentro?”, pensou, em seu delírio.
— Não… repita… isso. — clamou, duramente, “fuzilando” Shikamaru com os olhos.
— Ok, vou ficar quieto! — Rendeu-se, erguendo as mãos.
Temari se contorceu de dor, fazendo Sasuke presumir o que aconteceria em seguida. Ela olhou visceralmente para Shikamaru.
— Aah, agora vai ficar quieto! AAAAAARGH! O seu filho parece tão preguiçoso quanto você, não sai logo! — acusou, esquecendo-se de que queria que o bebê esperasse. A dor, aliada ao ódio que estava sentindo do namorado, deixavam-na sem qualquer capacidade de raciocínio.
Shikamaru até tentou se conter, mas no calor do momento era humanamente impossível.
— Quem nasceu de oito meses foi você! Se tem uma coisa que ele não é, é preguiçoso! — acusou, arrependendo-se do que disse em seguida.
Também estava preocupado com o nascimento precoce e sabia que esse pensamento também rondava a cabeça dela. Não precisava ter dito aquilo.
— AAAAAAAAARGH! TENTEN! — Apertou as mãos da amiga, sentindo o suor escorrer por todo o corpo. — Eu vou matar esse homem!
— Shikamaru, cala a boca! — ordenou Sasuke, irritado.
— Empurra, Temari! — pediu Sakura, olhando debaixo das saias. — Estou conseguindo ver a cabeça.
— Naru, vai demorar? — gritou Hinata, que molhava a testa de Temari com um pano umedecido em água gelada.
Naruto também suava no banco dianteiro. A afirmação de Sakura o deixou ainda mais nervoso. O trânsito estava terrível, pois havia muitas pessoas seguindo por aquele fluxo. Por falta de outras opções — por conta da avenida fechada —, a única rota possível era aquela. Só não sabia como falar aquilo sem deixar Temari mais nervosa. Por sorte, estava perto da primeira bifurcação e o trânsito parecia melhorar dali em diante. O hospital não ficava tão longe.
Shikamaru se sentiu o homem mais patético do universo. Em toda aquela confusão, não havia feito quase nada além de atrapalhar, desmaiar e estressar Temari. Quando ouviu de Sakura que a cabeça da criança despontou, sentiu a tontura voltar. Sasuke percebeu e murmurou:
— Respira, ela precisa de você, forte.
Shikamaru respirou fundo, soltando o ar pela boca, calmamente. Contrariando todo o desespero que sentia, apoiou a mão sobre um dos joelhos de Temari e a olhou fixamente.
No momento em que ela o percebeu ali, inteiro, os olhos se encheram de água. Aquilo parecia um pesadelo, mas desta vez ele estava ali, acordado e muito presente.
Mesmo inseguro se devia ou não falar, Shikamaru resolveu arriscar.
— Amor, força! Mais um pouco e vamos conhecer o Shikadai! — Ao pronunciar o nome do filho, sentiu os próprios olhos marejarem, também.
Temari gritou. A cada força que fazia, sentia que seria a última que conseguiria. Entretanto, surpreendia-se ao puxar o ar novamente e conseguir aplicar um pouco mais de força.
— Está dando certo, Temari! — bradou Shikamaru, em lágrimas.
— Vamos, Tema, só mais um pouco! — gritou Sakura, emocionada.
Tenten chorava atrás de Temari, pedindo aos céus que sua amiga e o bebê ficassem bem. Como o nascimento seria um pouco antes da hora, ela só ficaria tranquila quando chegassem ao hospital e fossem atendidos. Paralelo a tudo aquilo, nem em cem anos imaginaria aquela situação de participar ativamente do parto de sua melhor amiga.
A buzina que Naruto apertou para um carro na frente, camuflou sem querer o grito estridente de Temari.
Ao ouvir o pequeno choro, jogou-se no colo de Tenten, exausta e em prantos. Shikadai havia saído, sem a necessidade de incisões ou qualquer outra grande dificuldade dentro daquela caminhonete. Ao menos, o fato de o bebê ter nascido menor lhe concedia essa vantagem.
Sakura amparou o pequeno bebê com muito cuidado, mostrando-o a Shikamaru, que se segurou nos bancos com um braço, secando os olhos com as costas da mão livre. Sasuke continuou atrás dele, abanando-o com uma revista. Shikadai agora chorava alto e esgoelado, aliviando um pouco mais Shikamaru, que receava pelo nascimento prematuro por conta da formação dos pulmões.
Lá atrás, Neji via tudo com alegria, pois estava com Tenji dormindo em seu colo e não tinha como se aproximar.
Sakura tomou o devido cuidado com o cordão umbilical e entregou o bebê embrulhado em um cobertor, para Temari.
No momento em que viu o rostinho “de joelho” — como ela denominou no momento —, chorou ainda mais, procurando Shikamaru, que cambaleava até lá.
— Olha aqui, Shikamaru. O joelho mais lindo que eu já vi.
Todos na caminhonete riram, aliviados e felizes pelo senso de humor, mesmo com todos os percalços da noite.
— Tão pequeno… — Shikamaru soluçou. Não era de chorar daquela forma patética, mas nunca havia tido um filho para saber como reagiria.
Olharam-se, emocionados. Ao som do choro vibrante do bebê, num impulso urgente, juntaram os lábios e trocaram um beijo aliviado, apaixonado e muito ansioso. O beijo tinha gosto salgado, evidenciando todos os fluidos do suor, das lágrimas e até dos narizes que escorriam. Não havia pudores naquele momento, nem tinha como haver.
Sakura chorou, sentindo a descarga de adrenalina descer. Foi abraçada por Sasuke, ainda que estivesse com as mãos sujas. Ele não queria saber.
— Estou orgulhoso de você.
— Não acredito que fiz um parto, Sasuke. — Sakura apertou o abraço, permitindo que mais lágrimas corressem.
Tenten ria e chorava atrás de Temari, sentindo-se a “vela” mais feliz do mundo.
Hinata também chorava, enquanto registrava o momento com a câmera. Temari e Shikamaru gostariam de rever aquela loucura mais tarde.
Foi Naruto quem quebrou o silêncio.
— Eu tô muito feliz! — bradou, buzinando avidamente.
Todos os amigos aplaudiram o casal, ansiosos por ver melhor o rostinho de Shikadai. Tenji acabou acordando com o barulho e dizendo palavras desconexas, ao que Neji contou a novidade, mas o menino adormeceu novamente. Sentia por não ter podido ajudar muito, mas estava aliviado pelo fato de ter vários amigos ali, prontos para cuidar de Temari.
Conseguiram chegar ao hospital somente por volta de dez minutos depois. Acionaram os enfermeiros, que correram com a maca até a caminhonete. Temari foi bem instalada, com o bebê no colo e amparada por uma enfermeira que a acompanhou lado a lado. Shikamaru e os demais a seguiram, mas somente ele pôde entrar para a sala de parto, onde poderiam cortar o cordão umbilical, limpar e examinar o bebê, além de realizar todo o processo padrão pós-parto, com Temari. Dali, Shikadai seria levado para a UTI, apenas para um período de observação de vinte e quatro horas. O médico precisava ter certeza de que o desenvolvimento estava completo.
Shikamaru tentou mentalizar todas as informações recebidas para avisar a todos, depois. Shikadai havia nascido com 44,63 centímetros e pesava 2,330 quilos. Apesar da alegria por dar tudo certo, tanto ele quanto Temari estavam angustiados, ainda que o filho dos dois estivesse bem. Naquele momento, entravam na misteriosa dimensão, onde qualquer coisa direcionada àquele “pingo de gente” era como se incidisse neles, também. Perceberam ali, mais forte do que quando estavam grávidos, de que por aquela pequena vida, dariam tudo no mundo.
Abraçaram-se, um abraço significativo e repleto de sentimentos que explodiam dentro deles. Após avisar que já havia comunicado devidamente as duas famílias e seus melhores amigos, Ino — que apesar de estar namorando Gaara, era sua melhor amiga e precisava saber em primeira mão — e Choji sobre o nascimento, Shikamaru fitou Temari, incerto.
— Tema… me desculpe por ter sido um babaca.
Temari riu, levemente.
— E foi mesmo. Mas, me diz uma coisa… — Acariciou o rosto do namorado, brincalhona. — Em que fim de ano você não foi um mala? Num total de dois, você foi duas vezes.
Shikamaru riu gostosamente.
— Não sei se posso concordar inteiramente, mas você tem razão em grande parte.
— Obrigada por ter ficado ao meu lado, mesmo que tardiamente. Como poderíamos prever toda essa avalanche de problemas e soluções, ao mesmo tempo?
Shikamaru passou o dedo levemente sobre o lábio de Temari, pensativo.
— Prometo ser menos cagão, daqui pra frente.
— Seja como for, amo você. E o nosso bebê. E os nossos gatos. Feliz Ano-Novo.
— Para nós! Também amo você e o Shikadai, a Hermione e o Aligor, mais do que tudo.
Então ela o puxou para um beijo. Um beijo quente, intenso, de quem compartilhava muitas coisas, dentre elas uma cópia autenticada de suas aparências, qualidades e defeitos. E aquele era apenas o começo de uma jornada única e repleta de desafios e momentos a serem compartilhados.
❄
Por um vidro, podiam ver Shikadai na incubadora. O que não tinha em tamanho, tinha em cabelo, o que divertiu a todos.
— Mamãe, quero ir lá.
— Não podemos, Tenji. Mas essa semana mesmo, ele vai pro quarto da tia Tema e vamos poder ver o Shika de pertinho. — Sorriu Tenten, carinhosa, beijando estalado a bochecha do filho.
Neji se aproximou dos dois, abraçando-os.
— É, Shikamaru. Aproveite cada segundo, pois num piscar de olhos eles tomam o chá do crescimento e nem percebemos. Parabéns.
Shikamaru esboçou um sorriso bobo.
— Estou nas nuvens.
— Novidade! — ironizou Naruto, zombeteiro. — E quando não está?
Todos riram, efusivamente.
— Nisso eu preciso concordar com o imbecil do Naruto — acrescentou Sasuke, que levou um leve tapa do amigo.
Sakura suspirou, feliz.
— E pensar que nós fizemos esse parto. Até agora não acredito. — Vislumbrou a própria roupa, que continha algumas marcas das mãos, outrora manchadas de sangue.
Hinata a abraçou.
— Formamos uma ótima equipe, né? Estou muito orgulhosa de todo esse esforço.
Tenten sorriu, emocionada.
— E valeu a pena todo esse trabalho em equipe. — O olhar se perdeu no filho de sua melhor amiga. Depois, num ímpeto, olhou para Shikamaru. — A Tema conseguiu descansar?
Shikamaru assentiu com a cabeça.
— Jantou e caiu no sono.
Num acordo silencioso, voltaram a olhar para o fruto de toda aquela correria que varou a madrugada. Ali se encontrava um bebê, um presente e um símbolo da união daquele casal, que se parecia tão diferente e tão igual, ao mesmo tempo. Remetia também ao sucesso da noite, uma união insana para que o trouxessem ao mundo. De uma coisa, tinham certeza. Tudo na história daqueles dois parecia tomar proporções gigantes e memoráveis.
Eram como yin e yang, mas Shikadai estava ali para provar o desenlace da união de opostos.
x-x-x-x
Continua…
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