Dezembro

1 Capítulo único


Noites longas, dias curtos. São tantos olhares, tantos comentários. Neste momento muitas pessoas estão a desaparecer deste lugar onde não há pena, não há paz. Nesta tarde de dezembro, eu podia sentir que também sumiria, nem sentia mais vontade de permanecer, mas não desejava desaparecer. Não daquela maneira.

Após a aula acabar, volto para casa caminhando, mas neste exato dia o tráfego da rua na qual sempre ando estava péssimo e eu resolvo ir por outro caminho, porém perco o senso ao fazer essa decisão, aquele atalho não era seguro, a rua era vazia. Ao perceber este fato, ratifico que não há ninguém me espiando e continuo o caminho, tal que me sinto caçada mesmo que a rua estivesse deserta e aperto o passo. Ao caminhar um pouco mais, me aproximo da minha casa e começo a correr, eu estava tão nervosa, eu já tinha sido roubada uma vez, não gostaria que houvesse uma segunda. Adentro na casa e abraço forte meu gato, mas solto-o de leve quando ouço o som de notificação do meu celular, uma amiga me convidando para ir no cinema na sessão das nove horas da noite, animada pelo convite, aceito. Preocupada com o horário, escolho o primeiro vestido que encontro no meu armário, me visto após o banho. Organizo o necessário na minha bolsa para sair e antes de ir, ouço uma notícia na TV que eu acidentalmente iria deixar ligada sobre o tráfico de drogas próximo à minha casa e os jornalistas aconselham que os habitantes tenham cuidado ao sair. Sabendo de tal aviso, não vou a pé para o cinema e peço para minha amiga vir me buscar, felizmente, ela aceita.

Já tinha passado dois minutos do horário do filme e nós estávamos atrasadas. Minha amiga, que estava se sentindo culpada por ter feito a gente se atrasar pede perdão e eu absolvo. Entramos na sala do cinema em cima da hora e demoramos um pouco para entender o que estava acontecendo no filme, porém precisava ir ao banheiro, peço licença à ela e me dirijo ao local, mas nunca chego, meus olhos são cobertos por algum pano e não avisto mais nada. Sinto a fragrância de um perfume masculino e começo a transpirar, os toques maliciosos do tal homem me causam arrepios e vontade de gritar. Por um momento não sinto mais as mãos dele e agora é possível ver o que tinha ao meu redor, eu estava em uma cela e ele estava próximo a mim, me fitando com seu olhar de causar medo.

O corpo dele era quente, árduo e duro. Meus braços estavam presos nas minhas costas, cordas amarradas nas mãos. Chorava desesperada, rezando por ajuda. Naquele momento, eu senti minha alma me abandonar, meu corpo enfraquecer e eu ficar vulnerável às estocadas dele. Eu era tão covarde e inútil. Por que estar viva se nasci para ter este destino? Eu era apenas um objeto para ser usado em um único momento de excitação e depois ser descartado, eu não era nada. No outro dia, eu me sentia destruída. Eu senti toda a culpa como se fosse um martelo chocando com a minha cabeça. O homem tinha ido embora com todo seu egoísmo. Eu fui uma experiência de seus jogos abusivos. Eu me recordava do dia anterior quando ele tinha infringido as regras do meu corpo e eu sentia desgosto de mim por não ter conseguido fazê-lo parar. Eu sentia nojo de tocar em meu corpo que estava repleto do final do seu jogo, nem mesmo eu entendia porque ele tinha me deixado viva, eu preferia morrer do que viver desta maneira.

A minha volta a cidade a pé, depois de dias desaparecida fez com que a polícia fizesse um mandato a procura do homem. Os dias se passavam e ele poderia estar abusando de outras garotas e elas teriam o mesmo destino que eu, uma vida onde não se quer viver. Felizmente, após algumas semanas ele é encontrado e eu participo de um tribunal onde o criminoso seria julgado por seus crimes, além de estupro, também tráfico de drogas, o mesmo de que estava sendo noticiado no dia em que eu fui sequestrada. Após dias de idas e vindas daquela sala repleta de cadeiras, o caso é finalizado e ele é descriminado. O homem que além de me sequestrar, abusou de mim e cometeu outros crimes não foi preso. Neste exato momento ele estava livre, não haveria anos de prisão, de pensamentos, de culpa porque ele poderia cometer o mesmo erro ao sair daquela sala. Novamente, a injustiça permanece e a paz se vai. Nesta extraordinária tarde de dezembro.

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