Dez Mil Metros
1 Nada está tão ruim que não possa melhorar
Notas iniciais
PUTA QUE ME PARIU!
Que minha querida mãe, Molly Weasley, jamais escutasse essas palavras saindo da minha boca, mas foi a porra da primeira coisa que eu pensei quando Remus Lupin, meu chefe, disse que eu precisava viajar a trabalho.
Não que eu não goste de viajar, eu só odeio viagens de avião.
Sou mais o cara que gosta de pegar a estrada, que adora parar em postos de combustível e ama sentir o cheirinho da gasolina enquanto abastece, que compra todas as guloseimas disponíveis nas lojinhas de conveniência, que coloca as minhas músicas preferidas e as mais bregas pra tocar no último volume possível e, a parte mais importante, observa a coisa mais maravilhosa que ser humano nenhum poderia ter criado: a porra da paisagem! Tem coisa mais perfeita que dirigir em companhia das montanhas, das árvores e, de vez em quando, de alguns animaizinhos que aparecem pra completar a vista?
Olha só que beleza! – literalmente.
Só que não tem nada de interessante acontecendo pela janela do avião, a não ser as nuvens... e a probabilidade de uma crise de ansiedade, porque tudo tá lá no chão enquanto eu tô nos céus e é tudo pequeno pra caralho e a Terra não é nada comparada ao resto do universo e meu Deus tá começando a ficar abafado aqui, a gente não é nada... Literalmente as formigas das galáxias...
É, parece que a crise de ansiedade tá garantida, pelo menos...
Infelizmente, para mim, ainda não descobriram um jeito de viajar de Londres até Chicago de carro.
Sentado em meu escritório, suspiro. Bom, não é como se eu não soubesse que isso poderia acontecer, há cinco anos eu assinei um contrato concordando com possíveis viagens aéreas.
E o dia tão temido chega em um piscar de olhos. Parece que quanto mais ansiosos estamos – de um jeito ruim – para algo acontecer, mais rápido essa coisa acontece.
Eu mal consegui dormir na noite passada, pensando nas chances de o avião cair. Dizem que elas são menores que as de um acidente de carro, mas se a porra do avião cai todo mundo morre. Não é medo de altura, é apenas a iminência da existência humana, somos tão descartáveis...
Minha mãe diz que tomar suco de limão ajuda a acalmar os nervos antes de uma viagem. Não sei a veracidade desse fato só sei que ela costuma estar certa e é claro que eu enchi meu cu de suco, o que foi a maior besteira que eu podia ter feito, já que é certeza que vou levantar umas quinhentas vezes pra usar o banheiro. E eu odeio ter que levantar do meu assento, pra qualquer coisa, parabéns Ronald!
Então, já começou mal porque após esperar duas horas para o início do embarque – entre idas e vindas ao banheiro – fomos avisados de que o voo atrasaria pelo menos uma hora e meia. Eu baixei as três primeiras temporadas inteiras de This Is Us no meu notebook justamente para passar o tempo e, ali mesmo, na sala de embarque já assisti um quarto da primeira temporada.
Mas até aí tudo bem.
Alguns minutos depois, uma família ruiva chega ao saguão de embarque, eram os pais e, acreditem se quiserem, sete filhos. Imediatamente me lembrei de minha própria família, seis meninos e uma menina. Quais são as chances?
Acontece que as semelhanças param por aí. Nas duas horas que se seguiram, as crianças pareciam possuídas pelo próprio capeta e os pais não pareciam se importar muito com o tumulto causado.
Na verdade, não, eles não se importavam mesmo com o tumulto das pestinhas.
Não me levem a mal, eu adoro crianças e Fred e George são meus irmãos, mas você precisa entender que essas crianças estavam a ponto de levar o aeroporto abaixo!!! Um dos meninos arrancou a peruca de um homem, me senti mal por ele.
Nós aprontávamos muito, – e quando eu digo muito é muito – mas bastava um olhar severo de mamãe para entendermos que existia um limite e o limite era aquele.
Finalmente o embarque começa e, para o meu desespero, a família confusão foi a primeira a se dirigir para o portão 18 A, o mesmo que o meu.
Será que foi por causa deles que o voo atrasou? Não quero nem imaginar o escarcéu que teria sido se o avião partisse sem eles. Em contra partida, seria muito bom se o avião partisse sem eles.
Eu deveria ter me levantado primeiro e entrado no avião primeiro, porque se tem uma coisa que eu odeio – mais do que viajar de avião – é ter que entrar enquanto todo mundo se aperta nos corredores para guardar as malas no bagageiro – e procurar seus assentos corretos. Mas eu resolvi deixar todo mundo entrar primeiro, inclusive a grande família, dando tempo para que todos se encontrassem e foi a melhor decisão que tomei na minha vida.
Sou quase o último a embarcar.
Ainda haviam alguns retardatários se localizando, nenhum sinal dos meus primos, eu me arrastei com minha mala de mão, desviando de algumas pessoas e havia ela.
Na verdade, por alguns segundos só houve ela: a pele escura reluzia sob a luz, o cabelo castanho cacheado mais bonito que eu já tinha visto, em uma calça moletom cinza e uma camiseta azul que eu não consegui decifrar o que tinha escrito, se apoiando nas pontas dos pés para guardar a mala no compartimento de bagagem. Não sei se ninguém mais reparou – provavelmente eu era o único vidrado – ou estavam todos muito ocupados com suas próprias coisas, meus pés me levaram diretamente a ela. Ok, talvez um pouco de exagero meu, eu já ia passar por ali, afinal, ela estava no meio do avião obstruindo o caminho.
Parei há mais ou menos cinquenta centímetros de distância e disse:
— Precisa de ajuda? – essa cena foi patética. Eu, com meus quase um metro e noventa, quase gaguejei na frente de uma mulher que nunca vi na vida e que não devia ter mais do que um e setenta e cinco.
Em minha defesa, além do cabelo castanho cacheado mais bonitos que eu já tinha visto, me deparei com os olhos cor de mel mais encantadores que alguém poderia ter e finalmente consegui ler o que havia em sua camiseta: The Killers e sim, meus amigos, é a porra da minha banda favorita! Ao constatar isso, percebi que passei muito tempo olhando para baixo e rapidamente voltei meu olhar para seu rosto, encontrando uma de suas sobrancelhas levantadas. Espero que ela não ache que eu estava olhando para seus seios, – não que eu não quisesse. Anda Ron, diz alguma coisa para amenizar a situação:
— The Killers é uma ótima banda! – senti minhas bochechas esquentarem, o que só podia significar que também estavam da cor de meu cabelo.
— Aceito sua ajuda. – prontamente deixei minha própria mala cair ao chão e peguei a dela. Sem querer – e realmente foi sem querer – li o nome etiquetado na bagagem: Hermione. Era o nome dela? — Obrigada. – ela sorriu minimamente e só isso foi o suficiente para me aquecer por dentro.
Que droga era essa?
— Não foi nada. – eu consegui a proeza de gaguejar nessas três palavras também.
Ótimo!
Hermione (?) se sentou na cadeira do corredor, deixando os outros dois assentos vazios. Não dei cinco passos e senti algo cutucar as minhas costas. Desejei ardentemente que fosse ela me chamando, mas para o que diabos ela me chamaria?
Me virei, sendo recebido por uma senhorinha de curtos cabelos grisalhos.
— Rapazinho, – começou com sua voz de senhora, atraindo a atenção de quem estava por perto, inclusive dela — será que você também pode me ajudar com a bagagem?
— Claro! – ela me lembrava minha vozinha, não podia negar um pedido desses. Pelo canto do olho percebi Hermione dar uma risadinha e se virar em seu assento.
Por um momento duvidei que sua mala pesasse apenas dez quilos e me controlei para não dizer nada, às vezes eu conseguia ser bastante inconveniente.
Deixei a senhora para trás e voltei a procurar minha fileira.
30 B
30 B
30 B
Dali eu tinha uma boa visão de Hermione, mas as vantagens acabavam ali.
Vocês sabem como as cadeiras de avião funcionam, certo? Uma fileira, três cadeiras, uma na janela, outra no meio e a do corredor.
Bom, pelo visto eu não sei como funciona, já que escolhi o lugar menos escolhível do mundo. Primeiro que os assentos normais são pequenos, eu e minhas pernas compridas vamos sofrer pelas próximas quase dez horas de voo. Mas isso é normal de aviões. Segundo que B significa que sua cadeira é a do meio, entre duas pessoas, nesse caso entre os gêmeos da família ruiva bagunceira.
De novo, quais eram as chances?
Contive um suspiro alto com a minha burrice e me resignei a colocar minha mala, enfim, no bagageiro.
As crianças não fizeram questão de facilitar para mim, claro. O menino sentado no corredor travou as pernas no assento da frente, me obrigando a pula-lo. Foi uma cena vergonhosa que me fez repensar a vontade de ter filhos no futuro. Espero que não tenhamos dado tanto trabalho assim a minha mãe...
O que estou falando? É claro que demos trabalho a ela.
Sentei na cadeira do meio, fechei os olhos e consegui relaxar por exatos trinta segundos. Os irmãos se curvaram e sussurraram sobre mim, em ambos sentidos da frase:
— Esse é o babaca que mamãe acusou de comprar a cadeira do meio? – um deles falou, o outro olhou para mim de esguelha e assentiu.
Eles acham que eu não estava escutando? Bebês são mais discretos que eles.
Nos próximos minutos, as comissárias e os comissários de bordo iniciaram os procedimentos pré-decolagem. Apontaram as saídas de emergência, falaram das máscaras de oxigênio e o que fazer caso o avião resolvesse cair – o que eu rezei para não acontecer.
Decolamos.
Decolamos e foi como se uma torneirinha se abrisse dentro de mim.
E como se o próprio capeta sentasse nos ombros daquelas crianças para atiça-las, igual nos desenhos animados.
Foram os minutos mais longos da minha vida enquanto eu esperava a luzinha do cinto de segurança apagar, cogitei até pegar uma garrafinha e fazer xixi ali mesmo, parecia que minha bexiga ia explodir e as pestinhas não ajudavam. Com certeza foi de propósito. De repente, minha cabeça se tornou o brinquedo preferido deles.
Nada disso aconteceria em uma viagem de carro, mas pelo menos de onde eu estava conseguia ver a tal Hermione envolvida em uma leitura em seu kindle. Sortuda era ela que não dividia a fileira com mais ninguém e estranhamente se sentava no corredor quando a maioria das pessoas brigam para se sentar na janela.
Demorou quase uma hora, mas finalmente nos liberaram para levantar e soltar o cinto. Eu disfarcei bem o quanto estava apertado e me dirigi ao banheiro, aproveitando o xixi mais prazeroso da minha vida.
Essa frase saiu um pouco estranha, mas eu realmente nunca fiquei tão aliviado em me aliviar... Banheiro de avião é um cubículo, mas tudo bem, eu estou acostumado: banheiro de estrada também não é nenhum hotel cinco estrelas.
Levantei minha calça, dei descarga e lavei minhas mãos. Ao abrir a porta me deparei com ninguém mais, ninguém menos do que Hermione, a própria.
Ela pareceu tão surpresa quanto eu ao vê-la parada ali, do lado de fora.
— Parece que todo mundo resolveu ir ao banheiro ao mesmo tempo. – ela apontou para o segundo banheiro do avião: Ocupado.
— É. – é claro que eu parecia um idiota falando, mas até que era melhor não falar muito, com certeza a espantaria com tamanha burrice.
— Já terminou? – ela apontou novamente para o banheiro, dessa vez o que eu acabara de desocupar, após quase um minuto de silêncio e eu bloquear a passagem.
— Ah, claro, claro, perdão. – enquanto eu desviava olhei de soslaio para o banheiro me assegurando de que nada estava fora do lugar. Sou homem, conheço minha laia, banheiros masculinos podem ser lugares nojentos.
— A propósito, muita coincidência todos da sua família serem ruivos.
Levei um tempo para perceber sobre o que ela estava falando. Como raios ela saberia que todos da minha família são ruivos? Poucas exceções, claro, mas meus irmãos, meus pais e avós são todos ruivos. A não ser pelo filho de minha irmã. James é a cópia de Harry, meu melhor amigo, exceto pelos olhos, ele tem os olhos azuis de Ginny. Nós apostamos sobre a cor de seus cabelos, é claro e eu... bem, eu perdi a aposta. Mas ele só tem um ano e meio, pode ser que daqui alguns anos fique ruivo...
Então a ficha caiu: óbvio que ela não estava falando da minha família de verdade e sim da família que imaginou ser a minha.
— Ah, não, não, não. – enfatizei negando com a cabeça e pra falar a verdade fiquei até um pouco ofendido. Quaisquer duas pessoas ruivas no mesmo lugar são parentes agora? Ok, eu realmente estava sentando entre pessoas ruivas, mas era uma baita de uma coincidência. — Eles definitivamente não são meus parentes, não passa de coincidência. Além do mais, Molly Weasley jamais permitiria que meus irmãos e eu nos comportássemos como babuínos bobocas balbuciando em bando.
Quando ela ri seus olhos quase se fecham completamente, os dois dentes da frente aparecem e eu a acompanho.
As piadas de Fred sempre funcionavam.
Além do cabelo cacheado mais bonito que eu já vira, dos olhos castanhos mais encantadores e fã de uma das minhas bandas favoritas, ela ainda era dona do sorriso mais contagiante do planeta Terra inteirinho.
— Certo, presumi errado, então. Bom, se me der licença. – e finalmente entra no banheiro.
Saí dali rapidamente, a possibilidade de ela sair do banheiro e me encontrar à porta era alta. Um sorriso bobo ainda brincava em meus lábios e poderia ter sido assim pelas próximas horas de viagem, mas assim que visualizei meu assento uma careta substituiu qualquer bom sentimento em mim.
Não tem outro jeito de dizer: eu odeio viagens de avião.
Peguei meu notebook e fones de ouvido de dentro da bagagem de mão e tentei assistir mais alguns episódios de This Is Us.
Em algum momento, Hermione voltou do banheiro e já se encontrava em seu assento, algumas fileiras à frente da minha.
A ideia era me distrair com a série, mas me distraí observando-a. Ela não estava sentada de forma convencional: a perna direita estava dobrada embaixo de seu corpo enquanto a esquerda estava levantada sobre o assento, apoiando seu queixo no joelho; seus ombros estavam um pouco curvados para a frente e nas mãos trazia seu kindle em uma capinha amarela. Eu não sou muito fã de leitura, prova disso é meu diploma em Engenharia de Software, mas quis saber o que ela estava lendo.
E compraria o mesmo livro só para lê-lo e podermos conversar sobre.
Tão absorto em minha contemplação, demorei alguns segundos para perceber que algo me cutucava. Algo não, alguém:
— Que foi, porra? – soltei, não me importando com as crianças.
Eu tinha um sério problema com xingamentos, minha mãe não cansava de me dizer.
Levantei os olhos em direção a mão que me apunhalava e dei de cara com o meu algoz: um homem que com certeza pesava o dobro do meu peso e não estava para brincadeira, seus bíceps definidos não deixavam dúvidas daquilo.
— Que tal controlar as suas pestinhas? – ele falou de uma forma condescendente. Seria melhor se tivesse gritado.
Por que assumir que pessoas ruivas sentadas juntas são da mesma família? Encarei os dois garotos e por um momento pensei: e se realmente formos família? Uma família distante, décima geração ou algo do gênero? Tenho alguns primos, primos dos primos de meus pais que não conheço...
— Estou tentando dormir e eles não param de chutar minha cadeira! – as veias nos cantos de seus olhos saltaram, não tão condescendente assim.
Não mexa com o sono de uma pessoa.
— Não são minhas crianças. – respondi. — Não conheço nenhum deles.
— Como assim papai? – o garoto à minha esquerda falou.
— Mamãe não vai ficar muito feliz se te ouvir falando isso. – o outro menino soou tão convincente que eu quase acreditei que fosse seu pai.
Disney, pode entrar, você está perdendo esses dois atores mirins.
Fiquei tão embasbacado que não consegui dizer nada, apenas olhar de um para o outro. Esse é, definitivamente, o tipo de coisa que Fred e George fariam.
Onde estão os pais desses meninos?
— Algum problema? – uma comissária surge ao nosso lado.
— Sim, esse homem não consegue controlar os filhos e eles estão me incomodando.
— Senhor, pode por favor pedir que seus filhos se comportem? – pediu educadamente, mas dava para ver em sua expressão que ela estava de saco cheio.
— Não são meus filhos, parentes nem nada disso. Não os conheço. – me levantei e sondei o avião à procura da mulher que eu vira no saguão de embarque com eles. — Ali, aquela parece ser a mãe deles! – apontei.
Por um momento me senti mal de recorrer à mãe quando o problema também podia ser resolvido pelo pai, afinal os dois têm responsabilidades, mas a culpa acabou em poucos segundos.
— Senhora, recebemos reclamações a respeito de seus filhos, pode por favor pedir que se comportem? – a aeromoça se dirigiu a ela.
— Quem está reclamando dos meus anjinhos? – seu grito chamou a atenção de todos os passageiros, até quem sabe, do piloto e copiloto. Me sentei apressado, não queria ser alvo de sua indignação.
Enfim, o pandemônio foi instaurado.
O moço maromba da fileira da frente e a senhora Mãe das pestinhas começaram a travar uma disputa amigável de quem falava mais alto. Tanto a esposa quanto o pai também resolveram participar.
E eu só queria sumir ali do meio. Fui afundando mais e mais no meu assento, rezando para que a almofada da cadeira me engolisse. Molly sabe muito bem os filhos que criou, o alvo de seus gritos seriam outros.
Em um dado momento as crianças também começaram a gritar. A comissária de bordo tentava acalmá-los, mas todos ignoraram sua presença.
Nada disso estaria acontecendo em uma viagem terrestre, seria apenas eu e o volante.
Afundado no assento, tentei fingir que nada de mais estava acontecendo, desligar qualquer percepção do ambiente e de sons. Quando estava quase atingindo meu objetivo senti outro cutucão no ombro.
Dessa vez não foi das crianças, ou do moço da fileira da frente, ou mesmo da mãe das crianças e sim dela.
Não parecia muito segura, mas me perguntou mesmo assim:
— Tá tudo bem? – balancei a cabeça em negativa e mesmo que eu mentisse tenho certeza de que minha expressão mostrava um pouco de desespero. — Quer trocar de lugar? Tem cadeiras disponíveis lá na frente.
Não pensei duas vezes ou esperei um segundo convite. Catei meu notebook, a bagagem de mão e casquei fora dali.
Por um instante duvidei que houvessem cadeiras disponíveis, o avião estava lotado, era um voo que saia muito daquele aeroporto.
E realmente não haviam cadeiras disponíveis, a não ser na fileira em que Hermione estava sentada. Ela indicou que eu passasse primeiro, me sentei no assento da janela e ela no do corredor, como durante toda a viagem.
— Obrigada, você acabou de salvar minha vida. – ela riu de um jeito contido, sem mostrar os dentes.
— Você pareceu alguém que precisava de ajuda. – e era verdade.
— Acho que é seu dia de sorte hoje, né? – ela me encarou confusa. — Digo, não dividir a fileira com mais ninguém. Quantas pessoas têm essa sorte? – explico.
— Ah, realmente. Na verdade, esse é um luxo que me dou quando viajo de avião, para evitar dores de cabeça. – agora eu a encaro confusa. — Sempre compro os três assentos, assim não corro o risco de me sentar com alguém babaca. Ou ser obrigada a assumir parentes que não são meus. – ela aponta para mim.
— Brilhante! – digo, porque realmente é. Uma ótima forma de deixar viagens de avião menos odiosas. — Sou Ron, a propósito. – estendo minha mão em sua direção.
— Hermione. – ela responde e o calor de sua mão me envolve.
— Eu sei. – digo antes de controlar minha língua. Ela me olha intrigada.
Pronto, vai achar que eu sou um babaca.
— Li na etiqueta da sua mala, sem querer. – me apresso a responder, sinto meu rosto esquentar mais uma vez, é inevitável e acontece sempre que sou pego em algo que não deveria estar fazendo. — O que está lendo? – pergunto em uma tentativa de mudar de assunto e, claro, saciar minha curiosidade.
— Nada de importante. – ela bloqueia a tela do kindle e o deixa virado. — O que você estava assistindo?
— Ah não, eu perguntei primeiro. Se me disser o que estava lendo te mostro o que estava assistindo.
Ela sustenta meu olhar em desafio e eu vejo uma batalha interna sendo travada em sua cabeça. Eu só teria essa reação se estivesse lendo 50 Tons de Cinza, qualquer outra coisa tem passe livre.
— É justo. – responde, não sem antes rolar os olhos.
Ela me entrega o pequeno objeto.
— A Virgem e o Cafajeste.— leio em voz alta.
— Shiu. – Hermione arranca o kindle das minhas mãos, apesar da sua pele negra consigo perceber que suas bochechas ficaram vermelhas.
— Uma leitura bastante interessante. – não escondo o riso que vem da minha garganta porque não esperava por isso. Vou retirar o que disse: talvez existam algumas leituras piores que 50 Tons de Cinza.
— Ora, cale a boca! Não é o tipo de leitura que eu costumo fazer. – ela encara o assento da frente enquanto fala. – Mas uma amiga sugeriu que eu... tentasse algo diferente.
— Não estou julgando. – levanto as mãos em rendição, embora o fantasma do riso ainda esteja em meu rosto. É fácil sorrir em sua presença, preciso me policiar para não parecer um bobo.
— Sua vez! – quando ela se inclina sobre mim para abrir meu notebook sinto seu perfume e ela cheira muito bem, algo entre canela e frutas vermelhas.
Àquela altura do campeonato não estou prestando atenção em mais nada que não sejam suas palavras e movimentos. Os gritos da briga ficaram para trás, nem tenho certeza de que ainda esteja acontecendo e tampouco me importo.
Eu odeio viagens de avião, mas naquele momento odeio um pouco menos. Não quero estar em nenhum outro lugar.
Coloco a senha e instantaneamente surge a tela pausada da série:
— This Is Us! – Hermione exclama.
— Minha irmã diz que é incrível. – Ginny diz que muitas coisas são incríveis, não dá pra confiar muito nessa categoria.
— Tá brincando? É simplesmente o melhor seriado da vida. – ela muda de assento, ficando mais perto de mim. — Você tá em qual episódio?
Compartilhando o fone de ouvido, – felizmente nunca fui fã de headphones – damos play no episódio sete.
Nós assistimos, rimos, – quase – choramos e na troca entre um episódio e outro conversamos, além de Hermione tentar me explicar todos os aspectos possíveis sobre os personagens e detalhes das cenas.
Confesso que em um primeiro momento não gostei tanto da série, é legal e tal, mas minha irmã tem o hábito de aumentar por 300% as coisas que gosta. Só que Hermione gosta, aparentemente é uma de suas séries preferidas, então me sinto na obrigação de gostar de verdade.
E acabo gostando. Dá para ver em todos os poros de seu corpo a animação que ela tem pela história, desde a ponta dos pés sobre o assento até os cachos de seu cabelo. Entendo, é a mesma animação que eu tinha por Games Of Thrones.
Descubro que ela também está viajando a trabalho, – uma conferência sobre comunicação e mídias sociais – que também não gosta de aviões, mas por medo de altura, – e é por isso que ela não usa o assento da janela – que os pais se separaram quando ela fez dezoito anos e a mãe mudou para Chicago, que o primeiro namorado a apresentou ao The Killers, – o namoro acabou e felizmente o amor pela banda persistiu – e que, um fato muito importante, ela não está comprometida.
Além de tantas outras coisas, como seu apelido de sabe-tudo durante a escola e outros fatos que faço questão de saber.
E eu também falo, conto tudo o que ela pergunta, sem nenhum filtro. Os assuntos nascem naturalmente entre nós.
Em algum momento trazem um lanche. Ela tem intolerância à lactose então pede a opção sem leite, queijo e derivados. Eu recuso qualquer líquido, para evitar visitas ao banheiro.
Lá pelas 22 horas, horário de Londres, o piloto anuncia que devido ao mau tempo precisamos pousar em Filadélfia. Uma hora depois, às 18:15 no horário da Pensilvânia, pousamos. Hermione fecha os olhos com força e eu ofereço minha mão para que ela aperte. Seus dedos apertam minha mão, é a primeira vez que nos tocamos e isso envia calafrios por todo o meu corpo – em lugares que prefiro não mencionar.
Ajudo-a a pegar a bagagem no compartimento superior, assim como a senhora que me lembra minha avó. Somos quase os últimos a descer.
No aeroporto somos informados de que a companhia aérea reservou quartos em um hotel próximo para que os passageiros aguardem a melhora do tempo.
É novembro, já começou a nevar, mas ninguém esperava que a neve prejudicasse viagens nessa época. Nevascas são mais comuns no final de dezembro, em janeiro e fevereiro.
Sinceramente? Eu não estava nem um pouco incomodado. Sem o mau tempo chegaria com antecedência para meu compromisso, o mau tempo não me afeta nesse sentido. Além do mais, isso significa mais horas com Hermione.
É, eu sei. Eu estou caidinho por ela. Como alguns dos meus amigos costumam dizer: emocionado. E não me sentia assim há... acho que nunca me senti assim. Tive algumas paixões durante a vida, mas nada tão intenso. O que realmente me espantava era a minha calma diante dessa situação. Eu costumava estragar tudo durante a primeira conversa e incrivelmente sobrevivi ao primeiro contato com Hermione. Deve ser porque não estava procurando, ninguém planeja se apaixonar a dez mil metros de altura.
O hotel fica a quarenta e cinco minutos do aeroporto e a companhia aérea está de parabéns, um puta hotel.
Hermione fala o caminho todo e eu só espero não estar babando. Apenas quando paramos em frente aos nossos quartos – 312 e 412, um de frente para o outro – eu percebo que ainda estamos de mãos dadas.
— Não vá assistir aos próximos episódios sem mim. – ela brinca ao abrir sua porta.
— Você já assistiu a série toda, 4 vezes! – eu retruco.
— Mesmo assim, não é desculpa. – seu riso me contagia. – Boa noite, Ron.
No meu quarto tomo banho e troco de roupa, algo mais confortável, mas são apenas 19:57 da noite e minha mente me obriga a pensar em Hermione.
Na última vez que pensei tanto assim em alguém levei um chifre do tamanho de Júpiter. Pego meu celular para tentar me distrair, respondo algumas mensagens e isso funciona por alguns minutos, até que seu rosto envergonhado volta a minha mente e decido pesquisar pelo livro que ela estava lendo.
Apesar do título, o enredo parece ser ok, mais uma história de romance clichê para atrair as mulheres. Nada contra clichês, ou romances, eu amo assistir filmes duvidosos com minha irmã.
Durante 15 minutos tento dormir e falho, pois nunca me senti tão acordado. No peito uma batalha é travada e concluo: que se dane!
Pego o notebook, o fone de ouvido e bato na porta dela. Hermione veste o roupão branco do hotel, deve ter acabado de sair do banho.
— Oi, vim saber se você quer continuar assistindo. – mostro o notebook em minhas mãos.
— Só um minuto. – ela pede, fecha a porta e uns três minutos depois reaparece vestindo uma camiseta larga e shorts. O cabelo cacheado preso em um coque alto. — Continuar assistindo a série, né?
Assinto – enquanto uma contração no meu baixo ventre me trai. É só nervosismo, digo – e ela abre espaço para que eu entre. Seu cheiro, o que eu senti mais cedo, já está impregnado por todo o quarto.
Ela tem uma ideia melhor: projetar a tela do notebook na tevê do quarto, assim a imagem fica maior.
Ela se senta de um lado da cama e eu do outro.
Nas três primeiras horas, durante os episódios finais da primeira temporada, Hermione se mantém afastada, eu não a culpo e não é algo que me incomoda. Somos completos estranhos um ao outro.
Mas logo nas primeiras cenas da segunda temporada ela se escora em mim.
— Agora é só ladeira abaixo, prepare os lencinhos.
E ela está completamente certa. A primeira temporada é muito intensa e emocionante, estive a ponto de chorar em diversas cenas. Agora estamos para descobrir alguns segredos que a série tem mantido dos espectadores e eu não sei se vou aguentar muito. Não tenho vergonha de chorar, só que se eu chorar não vai ser algo bonito de se ver.
Pedimos algo para comer. Apesar de ser intolerante à lactose, ela se arrisca a pedir um mousse de chocolate de sobremesa. Eu fico no sanduíche e suco de laranja.
O serviço de quarto é rápido e logo o que pedimos também desaparece para dentro de nossos estômagos.
Em um dado momento, Hermione apoia a cabeça sobre o meu ombro, seu perfume mais forte do que nunca.
De repente, foi uma má ideia ir até lá. Nunca estive tão certo sobre meus sentimentos e me ocorre que provavelmente não estamos na mesma sintonia. Tenho vontade de abraçá-la, beijá-la, tocá-la e minhas mãos tremem de ansiedade.
Pauso o episódio em uma cena crítica, chamando sua atenção.
— Melhor voltar para o meu quarto. – digo em um sussurro.
— Tá tudo bem? – ela me pergunta pela segunda vez no mesmo dia, imitando meu tom de voz. Estamos tão próximos que nossos narizes quase roçam, não sei bem quando isso aconteceu.
— Sim. – nos encaramos, se eu ficar aqui por muito mais tempo acho que vou beijá-la. — Podemos continuar assistindo amanhã no avião.
— Claro. – mas nenhum de nós se afasta, então eu tento.
Minha mão direita sobe acariciando seu braço, traça a linha de seu pescoço e pousa em sua nuca. Sua pele é macia, como imaginei que seria. Desço o rosto até a curva de seu pescoço e aspiro seu perfume, é muito viciante e delicioso.
Seus dedos sobem pela minha camiseta, pescoço, nuca e se enterram em meu cabelo. Eu esperava um desincentivo, talvez um tapa de reprovação ou ouvir gritos me expulsando, mas recebo justamente o que queria: reciprocidade.
Encaro Hermione, ela morde o lábio e finalmente a beijo. Sinto o gosto do chocolate, o beijo é inebriante.
Quanto mais beijo mais quero beijar.
Nossas mãos passeiam pelos pedaços de pele que encontramos pelo caminho, meus dedos brincam com a barra de sua camiseta, mas me contenho mesmo quando ela passa uma perna pelo meu colo. É um caminho restrito por enquanto.
Só Deus sabe o quanto eu me contenho.
Mas ninguém é de ferro. Ela morde meu queixo e meu pescoço roubando o pouco de sanidade que ainda me resta. Não controlo meus gemidos, agora sou guiado apenas pelo desejo e é tudo tão natural.
Meu coração bate a mil e minha pele queima de calor.
E é isso. Não passamos dos beijos, o que me deixa feliz igual pinto no lixo, pois jamais pensei que essa viagem me proporcionaria um momento desses.
Pela manhã acordo sorrindo de orelha a orelha, Hermione também sorri, de uma forma mais acanhada, mas sorri.
Não quero levantar dos seus braços macios, seu corpo cria um ambiente confortavelmente perfeito e não quero acabar com esse sonho. Contudo, somos avisados de que o transporte para o aeroporto sairá dentro de uma hora e meia, então corremos para nos arrumar e tomar café da manhã, um momento muito sagrado para mim.
A viagem de Filadélfia até Chicago dura menos de 3 horas e dessa vez eu me aconchego em seu ombro para sentir seu perfume. Tem algum momento em que ela não esteja cheirosa assim? Gente cheirosa é meu ponto fraco, as memórias vão e o cheiro fica.
Não presto tanta atenção assim na série porque começo a pensar que a viagem está acabando e eu não quero que isso seja algo passageiro, só não sei como dizer a ela. Quero ter a oportunidade de vê-la outras vezes, faria questão de comprar esse perfume, creme ou sei lá o que que ela usa só pra sentir esse aroma para sempre.
Quando o avião pousa eu estou carrancudo, de longe lembro o cara de horas atrás. Mais uma vez ajudo-a com a bagagem, a senhorinha que lembra minha vó não está por perto.
Pegamos nossas malas que foram despachadas. Vamos para lugares completamente opostos, então espero Hermione chamar um carro de aplicativo primeiro.
Está frio, mas esperamos o carro do lado de fora do aeroporto.
— Tá tudo bem? – ela me pergunta pela terceira vez em menos de vinte e quatro horas. Tá tudo bem? Não tá, e incrivelmente não estava nas outras duas vezes, mas assinto e coloco as mãos nos bolsos da calça. — Quando você volta para Londres?
Não consigo esconder o sorriso, ela quer me ver?
— Em duas semanas. E você?
— Em poucos dias.
O carro chega, o motorista coloca sua bagagem no porta-malas.
— Acho que isso é um adeus, então... – não consigo decifrar sua expressão, só sei que é minha última chance de fazer algo, então digo:
— Dia três de dezembro estou de volta a Londres, – adoraria dar um jeito de encontra-la aqui mesmo em Chicago, mas será quase impossível. – seria legal se você me ligasse. Podemos sair para... – Hermione não espera que eu conclua a frase, me oferece seu celular e eu adiciono meu número. — Salvei como Ron do avião, assim você não confunde com outro.
— Esperto, odiaria te confundir com o Ron do trem, ou do ônibus!
Nós rimos e eu a abraço, acho que passamos desse estágio onde toques são estranhos.
— Tchau, Hermione. – beijo sua bochecha.
— Tchau, Ron. – ela me beija levemente nos lábios.
Instantaneamente me sinto vazio.
Observo seu carro indo embora antes de chamar meu próprio transporte.
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Os dias se passam e eu duvido da minha própria mente. Tudo o que aconteceu foi real ou eu inventei? Não tenho tanta criatividade assim, então provavelmente aconteceu.
Disse que voltava dia 3, mas não imaginei que Hermione fosse esperar até dezembro para me ligar ou mandar uma mensagem. Deveria ter pego seu número, se eu tivesse pego teria enviado uma mensagem assim que ela foi embora. Emocionado, eu sei.
Só que ela não esperou até dezembro.
Chega o dia 3, 4, 5 e o mês inteiro corre sem nenhum sinal seu.
Achei que nós tivemos uma conexão, mas aparentemente foi algo unilateral.
Me resta me conformar e seguir a vida. Esse foi um daqueles casos que acontecem por acaso, como nos filmes. E é isso, só acontecem nos filmes, o que não quer dizer que eu não posso sentir.
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