Dez Chamas

7 Capítulo 007 - Um motivo para viver que brota da copa de uma árvore


Notas iniciais
Capítulo com nome grande, hein? Deixei esse nome por realmente ter gostado dele. E este saiu rápido! Então, boa leitura a todos!

O dia nem havia amanhecido, e Rot estava se levantando, uma vez que não estava conseguindo dormir direito. Acordara diversas vezes durante a noite, e sempre uma enxurrada de pensamentos impediam que voltasse a dormir rapidamente. Logo se levanta e, após colocar uma roupa para sair, se dirige à sala, e se surpreende que seu pai já esteja sentado a mesa. Mais precisamente, dormindo sentado, apoiando sua cabeça e braços sobre a mesma.

– Pai... pai... — chama Rot, com uma voz calma e baixa, enquanto bate de leve sua mão no ombro de Vermillion.

– Hã? O que? Rojo? — diz o pai, ainda desnorteado, finalmente fixando seus olhos em seu primogênito.

– Sou eu pai, o senhor dormiu na mesa, não prefere ir dormir no quarto? — indaga o filho.

– Droga, já está para amanhecer... gostaria de dormir mais um pouco – reclama o patriarca.

– Precisa fazer algo? Se for algo que eu possa fazer por você, eu faço, preciso ocupar a cabeça – oferece Rot.

– Sério? Ótimo! Eu pediria mesmo, no fim das contas – diz Vermillion, se levantando – preciso que você entregue o pagamento e faça mais uma encomenda para o Desma. Vou escrever aqui que tipos de madeira precisarei da próxima vez, e a quantidade.

– Tudo bem, a essa hora, ele já deve ter saído de casa, certo? — diz, enquanto comia um pequeno pedaço de pão do dia anterior que encontrara na cesta.

– Isso mesmo, já deve estar lá dentro da floresta – concorda o pai.

– Não é muito longe, não tem problema. E parece que a água acabou – completa Rot, ao olhar dentro do balde de madeira, vazio no chão.

– Droga, vou pegar mais água antes que sua mãe acorde e os garotos voltem – diz Vermillion num tom de tristeza.

– Eu levo o balde, trago água na volta – afirma o mais novo do recinto.

– Mas... — começa a retrucar o mais velho, olhando para o braço do filho, que está coberto pela capa velha e suja, mas logo percebendo o olhar de que precisava fazer isso do filho – ok, ok, entendi, vou me deitar por alguns minutos então – termina o pai, se despedindo e entregando o bilhete e dinheiro a seu filho.

Após pegar o balde, o dinheiro, e o bilhete, Rot sai da sua casa, e anda em direção ao lado do rio, para atravessar a ponte, e seguir até o final da rua principal, e então, adentrar um pouco na floresta. Nesse momento, quando vai cruzar a ponte, para e se vira para trás. De longe, vê a casa da xamã, e se pergunta como seus irmãos devem estar. Esperava que tudo tivesse corrido bem. Se ele fosse rápido, provavelmente voltaria para casa antes que seus irmãos retornassem.

Diversos minutos se passam enquanto Rot alcança e adentra a trilha de fora do vilarejo. Rot usou este tempo de caminhada para refletir um pouco sobre sua vida, sobre sua condição, qual o significado de sua vida, coisas que pessoas normais pensam, mas a deficiência dele as vezes fazia-o pensar que não conseguiria se manter quando seu pai se fosse, ou arranjar uma família, por exemplo. As dificuldades da vida da família, e da vida em si no vilarejo também se embaralhavam em sua mente, distraindo-o, até encontrar uma carroça vazia, sendo puxada por um homem, indo na mesma direção.

– Desma! Desma, espere! — pede Rot, com voz alta. O homem para e se vira, e abre um sorriso ao ver o jovem, indo em sua direção, largando sua carroça onde estava.

– Rot! O que lhe traz aqui? Seria o meu pagamento? — brinca o homem. Ele era jovem, devia ter uns seis anos a mais que Rot, que tinha 19. Forte, com barba e bigode, mas uma aparência um pouco cansada, e alguns cabelos brancos entre seus cabelos majoritariamente pretos. Sua pele era morena, e seus olhos castanho-claros. Utilizava uma calça escura e uma camisa clara sem mangas, além de uma bota. Olhando mais atentamente, Rot percebe que a carroça não está totalmente vazia, possuía um velho e gasto machado. Desma nota que o homem a sua frente forçava um sorriso leve, mas parecia estar incomodado por dentro.

– Na verdade, é sim – ri o rapaz, pegando o dinheiro no bolso, e entregando-o ao mais velho, que não esconde a felicidade.

– Oras, se não era o pagamento mesmo! — ri ao receber o dinheiro.

– E tem mais, meu pai lhe mandou isto, um novo pedido – diz Rot, estendendo o papel com o recado de seu pai.

– Opa, pode deixar, patrão – responde Desma ao abrir o recado – humn... entendido, obrigado por entregar o recado.

– Que isso, tenho que ser útil em alguma coisa né? — responde sorrindo de leve o mais novo, desfazendo-o logo em seguida – Inclusive, me tire uma dúvida. Este tipo de madeira aqui que meu pai pediu mais, eu sei como trabalhar com a madeira, mas não com as árvores. Pode me dizer o motivo de tantas dessa em detrimento das outras, que ele diminui a quantidade?

– Olha... venha cá, mais uns 5 minutos e chegamos onde tem algumas dela...- diz diminuindo o sorriso – Você sabe que a situação no vilarejo está ruim, certo? Então, está piorando, para nós que moramos aqui longe, os custos aumentam. Você é um rapaz inteligente, então já vai entender mesmo que eu não diga, mas extrair esse tipo de árvore, por ser mais fácil, sai mais barato para seu pai.

– Entendo – responde apenas isso, o jovem.

– Veja – aponta para uma árvore. Embora ela tivesse bastante folhas em seus inúmeros galhos, formando uma volumosa copa, sua aparência era frágil, lascada, e de uma cor pálida. Havia um bom espaço entre as árvores, que eram desse mesmo tipo no local. O sol estava no horizonte, mais que sua metade já passara da linha do horizonte na verdade, ofuscando a visão – Essas árvores sempre foram frágeis, mas estão cada vez mais fracas – explica Desma, enquanto pegava seu machado, colocava o lado sem corte virado para a árvore, e bate com força na mesma, esperando vários galhos e pedaços da árvore racharem e caírem, para demonstrar o que dizia.

– N-Não! — um grito em tom de reclamação e susto ecoa, seguido do som de galhos se quebrando. Desma dá um salto para trás, mas Rot continua próximo da árvore, notando uma movimentação em sua copa, e para sua surpresa, uma pessoa, uma mulher, estava caindo da árvore. Rapidamente Rot se posiciona instintivamente para pegá-la. Desma se posiciona com seu machado se preparando para atacar, caso houvesse algum perigo.

Com apenas uma mão, pode ser difícil – pensa rapidamente o rapaz, que logo ao ter seu braço e mão tocados pelo corpo em queda da mulher, gira para trás, tentando dissipar as energias pelo movimento rotacional, ao passo que abaixava gradativamente enquanto mantinha o giro. Ao mesmo tempo, seu braço direito se estendia para tentar evitar que galhos caíssem sobre eles. Após uma volta e meia, ele já havia impedido uma queda séria da jovem, deitando-a no chão, mas apoiando seus ombros em seu braço e mão. A mulher usava um capuz e capa, não dava para ver muito de seu corpo, apenas o rosto, que era lindo. Ela mantinha seus olhos cerrados, preparada para receber um forte impacto, que não foi tão forte quanto o esperado, e por isso, abre os olhos. Ela encara o rosto de Rot por alguns segundos. Seus olhos possuíam um tom de castanho jamais visto antes por seu salvador, um castanho que se assemelhava ao vermelho. Seus cabelos em sua franja possuíam uma cor vermelho-alaranjada, que lembrava a cor de ferrugem. Seu tom de pele, por sua vez era bem moreno, o que não era tão comum para as pessoas daquele vilarejo, ou vilarejos próximos. De repente sua expressão fecha, parecendo irritada, ela bate na cara dele e arrasta para trás, até encostar suas costas na árvore.

– Qual era a necessidade de tentar matar essa árvoreeee? — grita irritada.

– Mas nós não... – tenta explicar Rot, ele percebeu que a mulher estava descalça, mas nada mais que seus pés dava para ser visto, além do rosto.

– Só sabem fazer isso? Matar, matar e matar? Destruir? E pensar que eu pensava...- continua ela, chorando – Eu devia... — continua com a voz de choro, enquanto parecia procurar algo abaixo de sua capa, e finalmente achando – Eu... — começa, porém, desmaia caindo para a frente, depois de ter se levantado rápido.

Uns segundos de silêncio se passaram, até Rot se dirigir a mulher, verificando se ela estava bem. Ele nota que em sua mão, existia apenas uma pedra.

– Mas o que... foi isso? — pergunta Desma – C-como ela está? Ela está viva?

– Ela só está dormindo, parece cansada – diz Rot, pensativo – Vou levá-la para casa, ela deve estar cansada e com fome. Não temos muita comida, mas serve de alguma coisa.

– I-isso, com certeza, é o certo a se fazer, ótimo, me ajude a colocá-la na carroça, ajudarei a levá-la. Ainda está cedo, nem todos saíram de casa ainda, devemos passar quase despercebidos – afirma Desma.

Os dois seguem o caminho de volta ao vilarejo, com Rot andando, Desma puxando a carroça, que só tinha o machado, o balde de Vermillion, e a garota deitada. Rot andou quase o caminho todo olhando para a mulher.

– Mas que estranho, se eu contasse para alguém que uma mulher caiu do céu, ninguém acreditaria. Eu ainda estou em choque, não sei como agir – diz Desma, tentando puxar assunto, para tentar dar algum clima amais ameno àquela situação estranha.

– Ela deve ter os motivos dela para estar em cima da árvore...- responde Rot, mas com sua atenção desviada entre vários pensamentos. Desma percebeu que seu amigo estava pensativo e apreensivo, então continuou andando em silêncio. Rot não podia deixar de pensar que algo sobre aquela mulher estava errado, e não parecia ser sobre ela cair da árvore. Seu tom, seu ar, seu rosto, algo era enigmático demais para ele, e ele não sabia o que. Enquanto estava mergulhado em diversos pensamentos, se viu em frente a sua casa.

– Aqui estamos, patrão, poucas pessoas estão andando pelo vilarejo, mas em alguns minutos todos já devem estar do lado de fora – diz enquanto ajuda Rot a retirar a moça da carroça, e levá-la para dentro da casa – com licença – pede ao entrar. Só a matriarca da família estava arrumando a mesa na sala.

– Ora, Rot, e Desma? O que faz aqui a essa hor... mas o que é isso? O que ela tem? Quem é ela? — Rubia se atropela nas perguntas, enquanto andava rapidamente em direção aos rapazes.

– Calma, calma, a encontramos desmaiada na floresta mãe, acredito que esteja cansada e com fome, então resolvemos trazê-la para cá, não podíamos deixá-la caída na floresta – explica Rot.

– Mas que horror! Caída na floresta? O que deve ter acontecido? — se surpreende a mãe.

– Não sabemos de nada ainda, mãe, teremos que esperar ela acordar para perguntar – diz Rot.

– Bem, eu tenho que ir, tenho trabalho a fazer, e estou atrasado, desculpe por isso, Rot, mas pretendo voltar aqui de noite para saber se ela acordou, estou curioso! — afirma Desma, que ajudava a colocar a jovem num monte de palha, a cama de Rot.

– Ok, desculpe, e obrigado pela ajuda, Desma – agradece o mais jovem.

– Não precisa agradecer, era o certo a se fazer, você me mostrou isso agindo de forma mais calma que eu, eu que agradeço – diz, enquanto tirava o balde da carroça e colocava dentro da casa sem que Rot visse, por não tirar os olhos da mulher.

– Sabe, Desma – diz Rot correndo atrás deste que já estava começando a andar – por favor, não conte a ninguém, não sabemos os motivos dela, ou se ela estava fugindo, melhor não espalhar, posso contar com você?

– Boa ideia! Eu não tinha pensado nisso, você realmente é esperto, Rot, pode confiar em mim, não contarei! Até mais tarde! — diz, finalmente, continuando seu caminho, após fazer um gesto de despedida com a mão.

Rot então volta para dentro de casa, para ver como estava a jovem. Sua mãe procurava restos de comida, ainda nervosa, quando Vermillion sai de seu cômodo, sonolento e esfregando os olhos. Logo, ele olha para o balde no chão, vazio.

– Rot, cadê a água? – pergunta o patriarca.

Notas finais
E este capítulo tira um pouco o foco da xamã! Como sempre, qualquer tipo de crítica, sugestão, ou elogio são bem-vindos! Agradeço por acompanharem esta história, e até a próxima!