Dez Chamas
5 Capítulo 005 - Liberação de Portais
Notas iniciais
– D-digo, me ajude com diversas tarefas para compensar o pagamento e... – Kaila tenta se explicar.
– Aceitamos! – grita o pai entusiasmado.
– É claro que ele aceitaria... – diz Rot.
– Não sei se concordo com isso – diz a mãe.
– E a minha opinião? – Pergunta Aka.
– Que legal, Aka! – comemoram Rojo e Aiyra ao mesmo tempo, que por isso se olham. Aiyra sorri para Rojo por achar aquilo engraçado, e Rojo, envergonhado, desvia o olhar.
– Preciso avisar que, há relatos de pessoas que, após o procedimento, sofreram mudanças físicas, tais como alteração da cor dos olhos ou cabelos, além de mudanças psicológicas – explica Aiyra, de forma calma – e como devem saber, houveram casos de pessoas que, mesmo com seus portais liberados, não conseguiram utilizar chamas, então, pode acontecer... embora isso ocorra com mais frequência com pessoas acima dos 21 anos de idade.
Após um pequeno momento, com todos se entre olhando naquela sala, Vermillion termina calmamente de tomar sua água, se levantando em seguida.
– Xamã, temos um acordo! – conclui o patriarca, estendendo a mão na direção da linda mulher, que a aperta, um sinal de que houve consenso. A jovem mulher parecia bastante feliz com isso.
– Faça isso pelo Rojo também, assim você tira o peso da consciência dele de ser o maior investimento da família e mesmo assim fracassar – murmura Rot para Aka, que compreende o que o irmão quis dizer.
– Pois bem, dito isto, pode deixar o dinheiro, e eu educadamente peço que todos menos meus dois clientes se retirem. Precisamos de concentração e de um certo tempo, sugiro que voltem para sua casa. Geralmente a noite o jovem volta para casa, mas farei dois procedimentos aqui, eles podem ter que dormir aqui, e voltarão para a casa de manhã, podem ficar tranquilos.
– Dormirem aqui? – pergunta a mãe preocupada.
– Está tudo bem, confio na xamã, ela não é uma pessoa qualquer, amor – diz Vermillion – deixo meus filhos sob seus cuidados por hoje – diz o pai, dirigindo suas palavras a Kaila, mas se dirigindo aos seus filhos, ajoelhando e abraçando-os – confio em vocês, são meu orgulho – termina.
– A mãe ama vocês – diz Rubia, abraçando os dois em seguida.
– Não deixem oportunidades como essa passar nunca – diz o irmão mais velho sorrindo para os mais jovens.
Os três que não são clientes se dirigem para casa após se despedirem.
– Vai ficar tudo bem mesmo? – se questiona a mulher no caminho.
– Vamos confiar que sim. A xamã provavelmente é a pessoa mais forte do vilarejo, pelo menos desde que ela chegou aqui, não vejo alguém que possa bater de frente com ela – diz o patriarca – vamos nos focar no trabalho lá em casa por hoje, amanhã, nossos filhos serão controladores, e das chamas da família!
– O pai não consegue esconder sua ansiedade mesmo – diz Rot rindo.
– Primeiro de tudo, se banhem no lago atrás da casa. Tentem meditar um pouco e relaxem. Só vamos começar o procedimento de verdade ao cair da noite – Afirma a Xamã.
– Mas nós acabamos de tomar banho antes de vir pra cá – avisa Aka.
– M-mas é importante que tomem banho no meu lago, eu o trato com certas ervas especiais e tudo mais – responde a mais velha.
– Só a noite? Algum motivo para isso? – Indaga Rojo.
– Eu acho um horário mais calmo e mais propício a se trabalhar com energia – responde Kaila.
– Devíamos ir logo, Rojo, sem retrucar, a senhorita Kaila está sendo bem gentil conosco já, vamos? – Diz o caçula, enquanto o mais velho concorda.
Enquanto os dois iam em direção aos fundos da casa, percebem que de fato havia um lago e se surpreendem com a beleza do loca, que nada se assemelha ao que veem em sua vila. Logo se apressam para se jogarem sem roupas no lago.
– O que quis dizer que é importante eles tomarem banho no lago? Não tem anda disso – diz Aiyra.
– Eu só estou tentando ganhar um tempo para pensar. Você também sentiu, não? Sobre aquele garoto Aka — Diz a bela mulher
– Sim, é uma sensação diferente que emana dele, mas você pareceu mais afetada, pode dizer o motivo?
– Ele só me lembrou de uma pessoa que conheci há muito tempo.
– Pessoa? – Pergunta a jovem.
– Um dia eu explico direito – Finaliza a xamã.
Após alguns minutos de silêncio, Aiyra se pergunta o que sua mestra está fazendo, quando se depara com a mesma olhando por uma pequena janela que da para a vista do lago.
– Você está espionando eles?!
– E-Eu não! Eu só... eu só...! – Tenta se explicar Kaila.
– Isso parece tão errado, mas... d-deixa eu dar uma olhada também! – diz a mais jovem. As duas ficam observando-os.
Após os jovens terminarem de se banhar, eles vestiram suas roupas, e foram chamados para dentro. Eles foram instruídos a deitarem, e tomar um elixir que os faria dormir e relaxar por algumas horas. A xamã explicou que isso ajuda a harmonizar a energia deles antes do início do procedimento. Rojo não estava muito a vontade para dormir naquela casa de duas mulheres, mas o elixir estava fazendo efeito e o mesmo acabou dormindo.
Enquanto os mesmos dormiam, as duas mulheres ficaram observando-os, de longe e de perto também, as vezes tocando-os, enquanto estes dormiam sobre o monte de palha, que era a cama das mesmas, e conversaram sobre o que acharam de ambos. Depois de um tempo foram preparar uma comida, para que todos pudessem comer antes do procedimento.
No fim da tarde eles foram chamados para comer. Ambos estavam muito sonolentos, mas morriam de fome, então se dirigiram quietos à mesa. Era uma comida simples composta por vegetais, mas parecia melhor do que todas comidas que tinham visto nos últimos anos.
– Parece ótimo – Afirma Rojo.
– Sirvam-se – diz Aiyra sorrindo, que faz com que Rojo sorria de volta avermelhado levemente.
– Contem-me mais sobre vocês, sua família, estou interessada no que fazem, no que planejam, para saber que tipo de pessoa são vocês, a quem concederei o poder de usar chamas – pede a xamã, enquanto comiam.
O fim da tarde e início da noite se deu com o contar de histórias dos dois irmãos, sobre passado, presente e futuro. Rojo estava meio relutante de falar sobre a família no início, mas não sabe se foi o forte cheiro dos incensos, ou a pró-atividade de seu irmão em falar tudo com empolgação, mas acabou se empolgando também. Pouco depois de ouvir o que queria, a Xamã avisa que iriam começar o que ela fora paga para fazer.
– Vamos começar então – diz Kaila, feliz – retirem suas camisas e deitem naquele monte de palha ali – aponta a xamã. O monte de palha estava arrumado em um formato oval, com diversos incensos acesos a sua volta. Dava para que duas pessoas deitassem lado a lado com relativo conforto – inclusive, essa é nossa cama, onde dormimos juntas – completa sorrindo. Os dois garotos seguem a ordem, Aka mais inocentemente, e Rojo mais envergonhado. Enquanto o faziam, o diálogo prosseguia.
– Não é comum vê-la tão entusiasmada assim para um procedimento de liberação de portais de energia – diz Aiyra.
– Não temos tantos procedimentos de liberação neste vilarejo, parece que cobro muito caro para os padrões da sociedade local – diz a xamã de forma pensativa.
– O procedimento é assim tão complexo para ser tão caro? – pergunta Rojo.
– Na verdade, não muito – responde Aiyra – mas por motivos pessoais, precisamos de dinheiro, ao mesmo tempo, não podemos fazer com que todos os cidadãos do vilarejo tenham acesso a esse benefício, já que implicaria em mudanças radicais na sociedade.
– É só esse, o motivo? – pergunta Aka com um tom de decepção.
– Aka, elas têm o motivos delas, assim como possuem um motivo para não nos contar – aponta Rojo para seu irmão. O jovem não pode deixar de notar que Aiyra sorriu ao ouvir este seu comentário, o que o deixou feliz.
– Pois bem, bebam este chá – estende dois pequenos copos com a bebida em direção aos garotos, que se sentam para conseguirem beber, devolvendo o copo em seguida e voltando a deitar – este chá é feito de ervas naturais, que vão deixar-lhes sonolentos, um estado que otimizará o processo – termina, enquanto dava os copos para sua ajudante, que os colocou seguramente na mesa. A xamã começa a observar os garotos, e ao olhar para Aka, primeiramente fica vermelha de leve, mas em seguida muda sua expressão para uma séria, do mesmo modo que fez ao encarar o jovem nos olhos pela primeira vez – Aiyra, você pode cuidar do processo todo em Rojo, eu cuido deste aqui – sua voz séria contrastava com sua voz feliz de momentos atrás.
– M-mas eu nunca cuidei de um cliente sozinha, sempre fui assistente! – reclama Aiyra, porém mesmo sonolento, Rojo esboça um sorriso.
– Sim, mas acredito que você já possui o conhecimento para realizar o procedimento sozinha, além disso, estou aqui, qualquer problema, eu resolvo – garante Kaila, com confiança.
– Se faremos os procedimentos paralelamente, por que disse que eles só devem voltar para casa pela manhã? – pergunta a jovem, confusa.
– Acredito que preciso observar os clientes dessa vez por mais tempo. Só por precaução... – explica a mais experiente, enquanto colocava um pote cheio de finíssimas agulhas feitas de metal, com uma das extremidades pontudas e a outra em forma de esfera, entre as duas mulheres, para que ambas pudessem pegá-las. Outro pote, desta vez contendo um líquido verde-transparente viscoso, foi posto ao lado do outro – estamos começando agora, por favor, não se movam – pede a xamã.
Em seguida, ambas ajoelhadas lado a lado, porém viradas para direções opostas, começam o processo nos jovens que, mesmo que estivessem quase dormindo, notavam o que acontecia. As mulheres mergulharam as palmas de suas mãos no líquido viscoso, e calmamente descansaram suas mãos sobre os peitos dos jovens. Rojo sentia uma sensação boa, não era frio, nem quente. Logo, as jovens começam a mover suas mãos. Resumidamente o que ambas faziam ali se assemelhava a uma simples massagem. Com isto, elas objetivavam estimular a movimentação de energia no corpo pelo caminho natural e correto. Após diversos minutos, ambas acabam esta etapa, e começam rapidamente a próxima: Aiyra e Kaila mudam suas posições de modo que cada joelho seu se posicione em um lado de seus respectivos clientes, dando a impressão de que estivessem na verdade sentadas sobre seus troncos.
Aiyra parecia um pouco hesitante, pois sabia que este processo necessita uma precisão muito afiada, e não estava totalmente confiante em sua habilidade. Mesmo assim, a jovem prossegue com seu trabalho, passando lentamente as pontas de seus dedos sobre uma região do corpo de Rojo por vez, e ao encontrar o que procurava, um ponto de acúmulo de energia, ou seja, portais de energia, a ajudante de xamã pega uma das agulhas no pote ao seu lado, e insere-a devagar no ponto, visando que sua extremidade atinja o centro deste acumulo, incluindo a noção de profundidade. Diversos minutos depois, após terminar de encontrar os portais na parte frontal do tronco de Rojo, Aiyra anda lentamente de joelhos para trás, até parar a frente dos pés de Rojo, e então continua se trabalho na metade de baixo do rapaz, mas não se limitando a frente, mas também a parte de trás das pernas. Ao acabar, esta volta a sua posição anterior, mas desta vez, se inclina em direção ao jovem, passando sua mão por trás da nuca do rapaz, e a outra, por suas costas, levantando-o, fazendo com que pare sentado, com seu torso apoiado sobre o corpo de Aiyra, que parecia abraçá-lo, e dessa forma, continua o processo da procura de portais nas costas do rapaz. Kaila fazia o mesmo com Aka.
Finalmente, quando o trabalho parecia concluído, as mulheres colocam seu indicador sobre a agulha mais próxima ao coração de seu respectivo cliente, Aiyra olha para Kaila, que no mesmo momento virou-se para a menor, e ambas disseram ao mesmo tempo:
– Precisarei de ajuda agora – enquanto uma olhava para a outra, e depois para o cliente tratado pela outra, e notavam o motivo da parceira pedir ajuda. Enquanto em Rojo as agulhas estivessem espalhadas de forma totalmente sem padrão, Aka possuía mais agulha do que o normal. Para que o processo fosse bem feito, as mulheres precisavam estar em contato com todas as agulhas ao mesmo tempo, mas o fato de estarem espalhadas de forma não uniforme, ou haver muitas agulhas atrapalha esse processo, por isso as duas seriam necessárias.
– Vamos realizar o de Rojo primeiro, são menos agulhas – diz Kaila, enquanto repousa Aka de modo que poucas agulhas fiquem entre seu corpo e a palha, para evitar que estas fossem pressionadas pelo peso do corpo. Logo, ambas mulheres levantam Rojo, e abraçam-no devagar para não pressionar e com isso afundar mais as agulhas. Com Kaila atrás, e Aiyra pela frente, todas as agulhas estão em contato com uma das mulheres – agora! — expressa Kaila, e de repente todas as agulhas pegam fogo, um fogo verde, fino e fraco, que veio de dentro do corpo do jovem, até as extremidades esféricas das agulhas, que estavam em contato com as jovens. O fogo de cor verde continuou saindo por alguns segundos, e Rojo pareceu finalmente perder a consciência completamente. Quando o fogo começou a ganhar certa velocidade para fora, a xamã então sinaliza para que parassem, e assim foi feito.
Após retirarem todas as agulhas de Rojo e deitá-lo, as duas se dirigem a Aka para realizarem o mesmo procedimento. Enquanto a mais jovem apoiava Aka sobre seu corpo, Kaila se certificava de que as agulhas que estiveram pressionadas pelo peso do rapaz estivessem no nível de profundidade correto, e logo a xamã faz sinal de que tudo está certo, e podem começar. Enquanto literalmente abraçava o jovem, a xamã se sentia bem, feliz e quente, enquanto sorria, mas continuava focada em seu trabalho. Em seguida, o fogo verde fino e fraco começa a sair do cliente, assim como em seu irmão. Assim como no processo anterior, o fogo verde começa a ganhar velocidade para fora, porém este aumento de velocidade e potência foi muito grande, e ao Kaila perceber que algo estava errado, empurrou Aiyra como pôde para o lado, fazendo-a cair sobre Rojo, enquanto soltava um pequeno grito de susto. Rapidamente, Kaila começou a correr em direção a porta de trás da casa, que levava ao pequeno lago, enquanto envolvia firmemente Aka com um dos braços. O fogo verde continuava a sair em todas agulhas, cada vez mais forte, e rapidamente, percebendo que estava sem tempo, chamas verdes começam a se formar na mão direita de Kaila. Na verdade, parecia que Kaila segurava o fogo, que começava a tomar a forma de uma marreta, que rapidamente atingiu a porta, arrombando-a, enquanto a xamã pulava com Aka no lago. Nesse momento, enquanto ambos estavam no meio do ar, as chamas que saiam do jovem deixaram de ser verdes, e passaram a ser douradas, e começaram a se intensificar exponencialmente, expelindo fortemente todas as agulhas que estavam fincadas em seu corpo.
Fale com o autor