Dexies
4 4. Fora da sobriedade
Cada dia que passava Maddie perdia o foco em relação aos estudos. As tardes que eram sempre monótonas e tediosas agora se transformavam em saídas divertidas com seu amigo. As vezes saiam com a desculpa para “conhecer o outro” para a redação, mas na verdade iam porque gostavam da presença mesmo.
Em uma sexta-feira foram ao Cletter's, uma lanchonete daquelas com decoração inspirada nos anos 60, o que os faziam sentir no Grease e coisas do tipo. Ela pediu um pote de frango assado achando que ia dividir com Zac, que só pediu uma coca e algumas batatinhas.
— Eu não acredito que você vem na melhor rede de Frango do oeste da Califórnia e pede Batatas. — ela disse enquanto mordia uma coxa e deixava a boca toda suja.
— Você queria que eu pedisse o que? Essa coisa ai?— ele falou rindo e tomando um gole.
— Mas é claro, é a melhor coisa daqui. Sem dúvida alguma, o melhor molho que já experimentei na minha vida vem desse frango. Toma, prova um pedaço...— ela disse colocando o frango na boca dele e o sujando todo de molho.
— Sai fora! — ele falou rindo tão alto que as pessoas o encaram e eles tentaram segurar a risada. — Eu não como isso Maddie.
— Ah, tá brincando. Você é vegetariano?
— Minha família é, e eu cresci sem comer carne e mesmo quando comi, não achei muito saborosa.
— Nenhum tipo de carne? Tipo, nenhum filézinho mesmo? — Maddie não se conformava. Seu pai era daqueles viciados em churrasco e sempre que podia roubava pedaços. Tentara ser vegetariana, pois apesar de tudo tinha um pouco de dó, mas sentia “saudades” de carne então estava sempre comendo.
— Nenhum. Isso me deu vários problemas na infância por causa da falta de proteína, mas tirando carne eu como de tudo. Não sou desses fanáticos ambientalistas com discurso, se você quiser comer, coma. Eu só não comerei por você.
— Que bom. — ela disse mordendo um pedaço de coxa e falando de boca cheia. — Não queria que você tivesse raiva de mim por assassinar os animais ou algo do tipo.
— Se eu tiver raiva de você terei porque você tá cuspindo molho na minha cara. — ele falou e eles caíram na gargalhada. Um casal ao lado só os encaravam, mas eles não ligavam. Vergonha naquele momento pouco importava.
Também tocaram no assunto de como Maddie conseguia comer tanto e ser tão reta. Em mais de dois meses de amizade, qualquer um se assustava com a quantidade de comida que ela digeria. Sem contar as balas e chocolates que levava na bolsa.
— Eu ser gulosa desse jeito nunca foi um problema. Quando estava no time, precisava pesar no máximo 46 quilos e me mantinha na média—ela falou enquanto tomava seu suco de laranja (pelo menos odiava refrigerante, para compensar.)— Acho que meu metabolismo é acelerado, essas coisas. Minha mãe também sempre foi muito magra, mas bebia demais. Meu pai perguntava como ela não tinha a famosa barriguinha, e ninguém nunca soube a resposta.
Zac sorriu.
— Sua mãe deve ser engraçada como você.
— É. Deve ser... — Maddie diminuiu o sorriso e olhou para baixo. Ela tinha muitas lembranças da mãe durante sua infância, mas nenhuma novidade em relação a sua adolescência. As vezes Maddie só queria saber como ela estava, queria revê-la e contestar se sua realidade era realmente fiel a memória, mas sabia que aquilo era impossível. Nem fazia noção de onde a mãe morava.
— Como assim, você não sabe? — Zac também diminuiu o sorriso.
— A minha mãe não mora comigo. Mora com o marido e nem temos contato.
— Ah me desculpa, eu não sabi...
— Tá tudo bem. — ela sorriu. Sabia que o Zachary era um menino legal e não falou por maldade mesmo, ao contrário de sua colega Amber que as vezes a chantageava emocionalmente com o papo de que a ausência materna a deixava masculina e respondia qualquer frieza da parte dela como um vazio não preenchido pela mãe. Sendo verdade ou não, ela não tinha direito de falar nada. Nem se quer gostava da amiga, quanto mais podia criticá-la.
Saíram da escola as quatro. Saíram do Cletter's as oito. O papo passava rápido e eles se descobriam cada vez mais. Em cada risada, em cada palavra, em cada sorriso havia uma amizade verdadeira surgindo e os dois já tinham certeza disso.
Em relação aos ensaios, Maddie já estava acostumada. Era toda semana, algumas vezes tocavam covers, outras insistiam em algumas composições e as melhoras. Mas até aquele ponto só tinham duas canções realmente consideráveis.
Em um treino semanal na casa de Leon, se reuniram no tapete velho da sala para formarem a melodia de uma composição já escrita há tempos.
O problema era que Leon já tinha a parte da bateria e o refrão em relação a guitarra principal estava feito, mas ainda faltava todo o resto da canção.
Apesar de Maddie ser apenas a vocalista, fazia o que podia para ajudar na cifra também, mas nem sempre era útil, por isso ela e Zac costumavam conversar no canto enquanto a banda pensava junto.
— As vezes eu queria ser mais útil. — Maddie falou abraçando os joelhos. — Eu sinto que se não terminarmos isso logo nada vai dar certo.
— Então o Leon te falou? — Zac sussurrou atras do sofá. — Do lance da Garage?
— Que? Não... Que?—Maddie não entendeu nada.
— Sabe a Garage?
Garage era uma boate de música alternativa no estilo CBGB mas bem mais calma e atual. Ficava bem no centro da cidade. As melhores bandas tocavam por lá.
— Sim, nunca fui lá mas parece ser bem legal. Por quê?
— Não sei se é certeza, mas eles estão meio desesperados com o número de público decadente, então estão aceitando bandas novas para abrir shows.
— Mentira! — Maddie já imaginou o pretexto.
— Não é certeza... Leon é amigo do diretor de lá que disse que vai ver se podemos abrir uma apresentação do Blondie que vai ter daqui três semanas.
— Ai meu Deus! — Maddie falou alto e ouviu um “shiiiiiu” vindo do resto da banda concentrado na composição. — Blondie? Isso... isso... seria demais!
— Não se empolgue muito, ainda vamos ver, por isso ele não comentou nada.
Ela assentiu mas ficou elétrica o tempo todo. Blondie era realmente uma banda incrível e que ela ouvia sempre, tinha até um pôster de One Way or Another atrás da porta do quarto.. Além de tudo se inspirava muito em Debbie Harry para seu papel musical já que era – quase- a única menina e uma vocalista loira e fofinha.
Quando todos estavam arrumando as coisas para ir embora depois de tocarem uns três covers — e Zac ficar tirando fotos— Leon os chamou novamente.
— Ok gente, precisamos nos esforçar muito para criações.
— Nós estamos Leon. — Matthew disse enquanto colocava o baixo na capa.
— É mas podemos mais.
— Desculpa se não somos como seus amiguinhos profissionais cara, estamos fazendo o que dá. — Noah falou e Julia cruzou os braços.
— Se quisermos esse lance com a Garage temos que...— Maddie começou mas esqueceu que era segredo.
— Que lance? — Matthew falou.
“Desculpa” ela sussurrou para Leon e Zach.
— Não é certeza. — Leon sentou no apoio do sofá. — Mas se compormos mais e conseguirmos algumas originais decentes podemos apresentá-las no Garage dia 25. Meu amigo Patrick disse que estão procurando uma banda amadora para abrir Blondie.
— Essa banda ainda existe? — Matthew riu. —Que brega.
— Cala a boca, Matt.—Julia falou e encarou Leon com um olhar desapontado,— Não acredito que você ia esconder isso da gente.
— Eu não queria criar expectativas.
— Mas você criou para a “blondie” ai. — ela brincou com a palavra loirinha e Zac riu. Maddie não gostou.
— Eu só falei para o Zachary, apenas. — Leon disse e Julia revirou os olhos.— Além do mais agora vocês sabem e tem uma motivação.
Os irmãos Julia e Noah ficaram tão nervosos que foram embora emburrados e ficaram apenas os quatro. Maddie pediu desculpas mas não tinha problemas, tirando os dois irmãos todos eram muito legais ali então conversaram novamente e normalmente até Matt ir embora e Zac pegar suas coisas para ir também. Ai Maddie lembrou que sua chave havia ficado com o pai.
Pediu um telefone ao Leon que estava na cozinha conversando com Matt e logo teclou os números de casa, mas John ainda não tinha chego do trabalho. Além de tudo, estava sem as chaves dessa vez.
“Droga, droga, droga.” pensou enquanto batia o telefone com força. Percebeu que Zac a encarava assustado.
— Que horas são? — ela perguntou coçando a cabeça.
— Acho que nove e meia, por quê?
— Merda. — ela sentou na cadeira que ficava próximo a escrivaninha de Leon. — O telefone só cai na caixa postal.
— E isso significa que seu pai não está em casa?
— É. John deveria ter chego, mas sei lá, ele vive chegando mais tarde e me deixa sem chave.
Ela ficou aflita mas ele pareceu nem se importar. Aquilo a deixou um pouco chateada.
— Ah, tudo bem.
— Não, não tá! Eu vou ficar onde? Leon disse que vai trabalhar as dez.
Zac abriu um sorriso irreverente e colocou seu moletom.
— Ei. Zachary. Não tem graça.
— Tem sim. — ele falou rindo. — Vamos, sua boba.
Ela ficou com cara de interrogação e ele teve que puxá-la pela mão.
— Tchau Leon. — ele gritou na porta.
— Tchau meninos. — ele sussurrou da cozinha.
Quando chegaram na rua Maddie percebeu que já estava tudo escuro.
— E agora Zac?
— Não tem problema Maddie, você pode ficar na minha casa até seu pai chegar.
— Mas... Eu não sei quando ele vai chegar, esse é o problema.
— Você pode deixar uma mensagem e pedir para ele te ligar quando chegar — ele disse e eles foram andando até a casa de Zachary, que ficava uns três quarteirões da de Maddie.
A casa de Zachary era bem bonita. Não tinha garagem, mas era um sobrado bem grande azul claro com janelas brancas, além de tudo havia um lindo jardim na parte da frente e que mesmo de noite, brilhava de maneira estonteante. Enquanto Zac abria a porta Maddie arrumava o coque todo desfiado, afinal, se a casa era tão bonita daquele jeito a família dele devia ser organizada e ela queria causar uma boa impressão.
Os dois entraram e Maddie ficou fascinada pelo cheiro de incenso e a decoração da casa, linda de um jeito simples e natural. Haviam alguns quadros de árvores e animais silvestres na parede da sala. Ela não pode deixar de reparar em pequena uma estátua de Buda no início da escada.
O andar de baixo estava todo apagado, então ela supôs que estavam sozinhos. Quando Zac começou a subir as escadas em direção ao quarto ela sentiu uma pequena desconfiança até porque sempre tivera poucos amigos meninos, e nunca fora para o quarto de um quando estavam sozinhos. Mesmo assim, os dois subiram e encontraram uma mulher bem magra, de cabelos castanhos e óculos lendo na sacada de um quarto de casal que estava aberto.
— Zachary, estava no Matthew? — ela falou com um leve sotaque britânico.
— Estava no Leon, mãe.
A mulher percebeu a presença de outra pessoa e levantou-se do banco em direção ao corredor.
— Ah mãe, essa é a Maddie, minha amiga.
A mulher sorriu.
— Olá Madison, suponho. — ela disse e a beijou no rosto.
— Amandine. — Zac falou antes que Maddie pudesse responder e ela o encarou mas acabaram rindo.
— Belo nome. — a moça disse. — Sou Olivia.
— Prazer em conhecê-la. — Maddie sorriu e a mulher assentiu.
Zac logo foi em direção a seu quarto, e Maddie sem reação, o seguiu instantaneamente.
— Nossa, você nem falou para sua... —Ela começou a falar mas parou quando entrou no quarto dele. Era todo revestido por fotografias e quadros gigantes. Além de tudo, uma estante com polaroides seguiam em cima da cama. Também havia um armário só de livros que deixava o quarto com um ar clássico muito legal. — Uau, seu quarto é foda.
Enquanto Maddie corria para folhear alguns livros Zac tirava o moletom e conectava sua câmera no computador.
— Você gostou?
— Sim, a decoração é demais. Já tentei deixar meu quarto mais ou menos assim, mas tudo que eu consigo são alguns pôsteres no teto.
Ele riu e começou a teclar.
Ela sabia que Zac amava literatura e fotografia, mas não sabia que era tanto assim. Entre os livros da estante encontrou uma edição antiga de O Sol é para todos, Amor e preconceito, Sementes Malditas e outros clássicos que Maddie queria ou já tinha lido. No meio de tanta diversidade, se sentiu uma anta.
Com o velho espírito de bisbilhoteira, abriu um gaveta e achou um monte de vinis.
— Cara... Por que você é tão clássico? — ela falou enquanto xeretava um LP dos Smiths.
— Isso é ruim?
— Não, é que... Nunca conheci ninguém assim.
— É meio exagerado, não é? — ele falou sorrindo, e rodou a cadeira do computador para trás.
— Eu acho demais, você sabe que eu curto tudo isso. Só estou impressionada porque você superou minhas expectativas.
— Uau, eu superei expectativas. — ele falou com um orgulho irônico e ela riu.
Depois disso, Maddie ligou para casa e deixou uma mensagem na caixa de correios com o número de telefone da casa de Zac.
Os dois passaram o resto da noite vendo as fotos do show, ouvindo algumas musicas que amavam em comum, rindo de algumas pessoas da escola (Amber e sua turma) e imitando professores, mesmo que só tinham um em comum.
Quando já eram dez e quarenta, Maddie deitou na cama enquanto ele continuava editando algumas fotos que havia tirado naquele ensaio.
— Caramba, quantas fotos por minuto você tira? — ela falou deitada, enquanto brincava de encostar as pernas no tronco – coisa de líder de torcida.
— Depende. Gosto de registrar todos os momentos, hoje foram muitos então... —ele virou para trás e a encontrou com uma perna totalmente esticada ao lado da cabeça — Meu Deus, como você faz isso?
Ela riu e sentou direito.
— Não sei, eu só tenho vontade e faço.
Ele levantou e pegou uma câmera na estante.
— Faz de novo.
— Para você tirar foto?
— É. — ele respondeu e ela ficou pensativa. Ela levava sua flexibilidade como algo artístico e divertido, mas muita gente já levara na maldade.
— Mas por que?
— Porque é super bizarro e gosto de tirar fotos de coisas assim.
Ele falou e ela ficou pensativa, mas logo deu de ombros e começou a puxar a perna. Nesse instante momento, Olivia entrou no quarto.
— Oi, um homem li... Nossa, como você é flexível.
— Ah, obrigada. — ela sentou novamente.
— Viraram belas fotos, com certeza. Já mostrou as minhas para ela, Zachary? — Ela disse e Zachary revirou os olhos. Logo Olivia foi em direção a uma estante.
— Como assim? — Maddie sussurrou e Zac riu.
— Mãe, você vai assustá-la assim.
Ele disse mas ela nem ligou e logo apareceu com um álbum de fotos e mostrou a Maddie. Nas fotos feitas em um estúdio, Olivia fazia posições de yoga e esbanjava flexibilidade de uma maneira totalmente artística.
— Uau. — Maddie ficou impressionada. — Você é incrível.
— Obrigada querida. Mas elogie ao Zachary que tirou as fotos para minha oficina de yoga.
— Tá bom mãe, ela não quer ver essas coisas. Além do mais, o que você ia falar mesmo?
— Claro que quer.— ela disse e Maddie sorriu. — Ah é, um homem ligou e pediu para avisar a Amandine que está em casa.
— Meu pai. — ela levantou e Zac também. — Tenho que ir. Você pode me mostrar o resto das fotos outro dia, Olivia?
— Claro. — a moça sorriu e todos desceram as escadas.
— Tchau mãe, vou leva-la até a casa dela.
A mulher assentiu e eles saíram. Na rua Zac pediu desculpas pela mãe, mas Maddie tinha realmente gostado.
— Geralmente qualquer pessoa ficaria assustada.
— Você sabe que eu não me assusto fácil.
— Ah não? — ele disse e ficaram em silêncio. — Bom, então acho que você pode ir sozinha para casa... No escuro... Nesse bairro desconhecido.
— Cala essa boca Zac. — ela falou e eles riram.
— Tchau Maddie. Siga sua jornada sem mim.— ele disse e parou de andar, fixado no meio da rua.
— Zac. Vem logo. — ela riu e ficou o puxando, mas ele não saia do lugar. — Zac. Olha o carro. Zac. Zac!
De repente um carro surgiu buzinando e os dois levaram um susto, saindo correndo e tropeçando na calçada.
— Meu Deus, Zac. Tá bem? — Maddie o ajudou a levantar, mas não pode conter a risada.
— Cuidado, retardados! — o motorista gritou.
— Tô bem, tirando o fato de ser retardado, de acordo com o cara ai.
— É isso não dá para negar. Nós dois sempre ficamos um pouco fora da sobriedade.
— É.
Zac riu baixinho e e os dois começaram a rir alto, e o eco da rua os fez rirem mais.
— Sei lá. — Maddie olhou para o amigo. — Acho que não fomos feitos para sermos normais juntos.
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