Dexies
2 2. Música, Elvis e banda
Maddie agora tinha que evitar os maus olhares de muitos, até de quem ela não conhecia. De um dia para o outro ela largou tudo e passou a andar apenas com Zachary. Depois de enfrentar e humilhar suas colegas que vieram tirar satisfação da sua ausência no grupo, foi taxada de apelidos e rumores que suas “ ex amigas” haviam espalhado por vingança. Mas ela não se importava. Se sentia bem afastada daqueles se só a deixavam mal.
Largou a equipe de líderes de torcida — foi difícil pois ela realmente era ótima e gostava muito do esporte, mas ela superou. O único problema era que já chegava setembro e ela não tinha mais jogos para animar, por isso passava todas as tardes sozinhas e no tédio em casa. Em um dos dias de tédio parou para observar o Elvis, que se deitara em cima do violão que estava em cima do armário.
— Ei seu travesso, cuidado para não arranhá-lo. — falou carinhosamente e tirou o gatinho preto de cima do violão. Ela tinha a maior cautela com aquele instrumento pois ele a lembrava de quando era criança e sua mãe ainda vivia em casa e tocava Beatles para Maddie. Deve ser por isso que ela sempre chorava ao ouvir Yesterday, era incontrolável, logo vinha a memória de sua mãe cantando e sorrindo para a pequena garotinha de seis anos.
Ironicamente, sem Maddie perceber, naquele quinto dia de setembro, fazia nove anos que sua mãe saíra de casa. Nove anos antes, seu pai descobrira uma traição e a expulsara de casa. Ela saiu e foi morar com o homem no qual tinha um caso, mas depois de cinco meses mudou-se de cidade e nunca mais mandou notícias. Para o pai de Maddie era normal, consequência de um divórcio, mas para ela era abandono e pois mais que guardasse uma mágoa, sentia muitas saudades.
Ali sozinha, pegou o violão. Ele era velho, mas com apenas três arranhões. Tocou a única música que conseguia inteira, porque grande parte só lembrava a cifra do refrão. Depois que acabou percebeu que aquilo a fazia melhor, então pegou seu velho caderno de composições e tocou uma de suas músicas próprias. Compor e cantar era algo que a deixava feliz. Ela não tinha planos de ser cantora, artista ou qualquer do tipo, apenas o fazia por fazer, era natural.
Mas o que ela não fazia ideia era de como cantava bem. Cantava apenas para si, sem nenhuma ambição, nenhum orgulho e por isso, nunca ouvira a verdade. Sua voz era linda. Incrível. E até então só Elvis a ouviu, e só não elogiou porque ela não compreendia o miado. Depois de tocar aquela composição se sentiu um pouco cheia. Cheia de sentimentos guardados e sabia que só os esvaziaria se os passasse para uma folha de papel então pegou alguns lápis e borrachas e passou o resto da noite compondo a letra e a melodia para uma canção nova até cair no sono.
Maddie acordou com o pai abrindo as cortinas.
— John!— gritou e procurou o travesseiro para colocar na cara, mas percebeu que estava deitada no carpete do seu quarto.
— Maddie você está atrasada. Alias, que bagunça é essa?
Ela abriu os olhos lentamente e viu o violão e quinhentos papéis jogados. Além de tudo, Elvis estava dormindo na sua barriga.
— Ah, nada. Já vou indo... tem como me dar uma carona só para não chegar mais atrasada ainda?
— Vai logo, eu também tenho que trabalhar — ele disse e saiu do quarto.
Maddie levantou, lavou o rosto, os dentes, trocou de roupa e quando ia descendo sem arrumar tudo voltou e colocou o violão de volta no armário e enfiou todos os papéis na mochila.
Quando desceu pegou uma maçã e correu para o carro do pai.
Teve aulas normais, intervalo no campo e por fim a saída. Quando ia caminhando reencontrou Zac.
— Tá me seguindo? — ela falou fingindo uma cara de assustada, daquelas típicas de novelas mexicanas. — Por favor, tenha piedade...
— A verdade é que eu sou um psicopata e planejei tudo desde quando nos conhecemos para quando chegarmos na sua casa te aniquilar. Espero que aquele seu gato chato que você me falou me auxilie com isso.
— É eu não duvido muito... — ela disse e ele ficou ao lado dela.
— Vou ter que deixar o assassinato para outro dia. Agora vou para a casa do meu primo que mora perto do seu bairro.
— Ah, entendi. É uma pena. — ela falou e eles continuaram andando. Muitos alunos também caminhavam em direção as suas casas e alguns bem desastrados. Dois meninos de skate competiam corrida e esbarraram na Maddie, a fazendo cair e derrubar sua mochila que espalhou vários papeis no asfalto.
— Nossa, foi mal ai. — eles falaram e continuaram correndo. Zac fez cara de irritado e a ajudou a levantar e pegar os papéis.
— Que bom notar que ainda tem gente legal nos Estados Unidos. — ela disse sarcasticamente e ele sorriu. — Obrigada.
Zac pegou todos os papéis e não pode evitar de ler alguns.
— Minha composição? — ele falou lendo e ela ficou envergonhada. — Nossa Maddie, você escreveu isso?
— Ah, sim, mas não é nada demais. — ela tentou pegar os papéis da mão dele mas ele segurou firme e continuou lendo.
— Você compõe? Claro que é.
— É eu também canto, mas é só por diversão.— ela revirou os olhos e tentou pegar de novo. — Agora devolve.
— Não vou devolver até que você cante isso para mim. Preciso ouvir a melodia.
— Não!
— Então não te devolverei.
Eles continuaram andando.
— Tá eu canto, mas só quando não tiver mais ninguém perto.
Zac sorriu e eles continuaram a caminhar conversando até que chegaram na porta da casa dela. Ela achou que ela havia esquecido, mas logo tocou no assunto. No fundo ela queria cantar e mostrar, mas tinha medo da reação dele, principalmente se ela fosse péssima.
— Não tem mais ninguém perto, agora pode cantar.
— Ah Zachary...— ela falou vermelha mas ele continuou com um sorriso quase triunfante. — Tá, mas fecha os olhos que eu tenho vergonha.
Ele obedeceu, abaixando a cabeça e ouvindo o refrão da música que Maddie havia escrito. Ela cantou calmamente e no ritmo, totalmente concentrada. Quando olhou para cima Zac estava com uma face indescritível. Parecia apaixonado, deslumbrado, fascinado. E realmente estava.
— Pronto, agora vou entrar. — ela disse e pegou os papéis. — Tchau Zac.
Ele não disse nada e ela entrou em casa. Estava um pouco envergonhada, mas também se sentia bem por ter compartilhado sua música com alguém. E durante a noite toda, ficou se perguntando se realmente era boa mesmo. Ela só se achava boa como animadora e em algumas matérias da escola. Pela primeira vez, se sentiu talentosa. Depois disso tomou banho e seguiu sua rotina normalmente.
No dia seguinte na escola, por sorte, tinha redação. Ela ainda estava um pouco envergonhada, mas preferiu fingir que nem se lembrava da canção.
Zac estava em seu lugar, mas quase deitado na cadeira. Maddie o olhou e notou uma ausência mental de sua parte.
— Zac? — Ela falou sentando em sua cadeira, mas com o olhar assustado para o amigo. — Tá tudo bem?
— Ah, você chegou. — ele disse e logo sentou direito, também esfregando os olhos. — Apenas sono.
Ela assentiu mais calma, e fingiu se interessar nas pessoas que chegavam, mas realmente temia algum comentário sobre sua música. Zac parecia no mundo da lua, então ela tocou no assunto da redação.
— Já tem muitas informações sobre mim? — ela disse sorrindo.
— Que?
— A redação. O trabalho. Professor. Adam.
— Ah.— ele disse com um sorriso fofinho. — Na verdade colhi uma ótima informação ontem.
Maddie ficou vermelha e resolveu mudar locução da conversa.
— Eu ainda estou colhendo as suas também. — ela falou “colhendo” com uma certa dificuldade.
Na verdade ela ainda nem tinha começado a redação. As vezes, durante o banho pensava em algumas características e como as representaria mas nada passara para o papel. Mas como sempre, ela faria as coisas faltando um dia para entrega e daria surpreendentemente bem, afinal, era muito inteligente.
A aula começou e dessa vez o professor passou um texto e eles tiveram que escrever, argumentando suas opiniões. Maddie estava se saindo muito bem, mas de vez em quando olhava para o lado e percebia que o amigo estava muito avoado.
Mesmo um pouco confusa, continuou escrevendo e não falou mais com o Zac até o intervalo, o encontrando novamente no campo.
— Algo deve ter acontecido ontem. — ela disse comendo uma maçã e ele pareceu não entender. — Você foi para a casa do seu primo e voltou assim.
— Assim como? Com sono?
— Acho que sim.
— É, eu dormi por lá ontem e o pessoal não me deixou dormir. Na verdade eu fui para o projeto da universidade, aquele que eu te falei.
Ele realmente tinha falado algo como “apresentar um projeto baseado em seus amigos” para a Academia de Artes, mas ela entendido o que fotografia estava incluso nisso.
— Ah sim, o que você desenvolveu?
— Como eu tinha te falado, eu quero acompanhar a banda deles desde o início, desde esses primeiros ensaios e primeiras composições. Então eu fui tirar algumas fotos e anotar o que acontecia, ai eu fiquei por lá porque meus pais resolveram sair e eu não tinha chave.Mas quando era meia-noite mais ou menos eles começaram a discutir e eu que era o único que estuda e precisa acordar antes das oito, fui afetado com o barulho e não consegui dormir.
— Por que eles brigaram? — Maddie não controlou a curiosidade.
— O Ben que é vocalista estava doido mais uma vez e provocou uma briga. No fim ele acabou saindo da banda.
— Nossa que chato. E agora?
— Ah agora eu e o meu primo vamos procurar alguém para cantar, ainda estamos pens...— ele se interrompeu e começou a olhar Maddie de um jeito estranho. Ela começou a ficar vermelha.
— Que... que foi? — ela disse olhando para trás.
— Como eu não pensei nisso? Haha, como eu não pensei nisso! — ele disse rindo.
— Sinceramente, você está começando a me assustar.
— Maddie! Você é perfeita para ser vocalista dos Dexies. — ele começou e ela negou com a cabeça, mas ele continuou falando.— Escuta a sua voz é incrível e o som deles também. Você tem a cara da banda, de verdade.
— Eu? Em uma banda masculina? De jeito nenhum, além do mais eu não sou “roqueira”. — ela disse com um tom de ironia.
— Não é totalmente masculina, tem uma guitarrista também. — ele falou e começou a ficar mais perto dela. — Escuta, você precisa mostrar a sua voz e as suas composições também são excelentes, eu só não sei como não imaginei isso antes.
— Zac, você deve ter bebido ontem porque realmente...
— Maddie, por favor. Hoje o Mathew vai levar um vocalista que com certeza vai ser horrível e você pode ir comigo e mostrar sua voz para o resto da banda. É pertinho da sua casa, vai...
Maddie continuou negando e pensando como aquela ideia era sem noção. Ela conhecia Zachary há menos de um mês e até então imaginava que ele era sozinho e não tinha amigos, mas a cada dia que passava percebia que ele eram muito mais cool que ela pensava.
Ela nem fazia ideia de como eram seus amigos. E se fossem super chatos? Ela nem queria contato.
O sinal bateu e ela foi para a classe de Algebra e Zac foi para a sua. Ela realmente não conseguiu se concentrar o resto do dia inteiro, pensando se valia a pena, em um dos seus diálogos mentais com suas opostas personalidades, mas suas.
“Ok, quando eu era mais nova eu sempre sonhei em estar em uma banda. Essa é a oportunidade” “Para de ser retardada Maddie, você nem sabe cantar direito.” “Claro que eu sei, se o Zac ficou com aquela cara de bocó é porque eu sei.” “O Zac já tem cara de bocó de qualquer jeito.” “É um bocó fofo por sinal” “É, ele realmente é muito bonito.” “Talvez valha a pena ajudá-lo com o projeto.” “É, talvez...”
Na saída encontrou Zac parado e com a cara mais lúcida dessa vez.
— E ai, vai comigo? — Ele disse e ela revirou os olhos.
— Saiba que é pelo seu projeto, apenas.
Ele fez um sorrisinho triufante e eles foram andando. Passaram pela casa da Maddie até virar em uma rua que ela não conhecia e pararam em frente a uma casa pequena e cinza, pouco conservada.
Na rua já dava para ouvir barulho de instrumentos e na hora que Zac abriu a porta ela teve seu primeiro contato com os Dexies.
Havia uma menina toda de preto, com uma guitarra armada em cima de sua jaqueta. Ela realmente parecia aborrecida quando os viu. Do lado dela, havia um menino que ria sem parar também com a guitarra apoiada, e era bem parecido com o Zac também. No fundo tinha um bateirista loiro que ria também. Todos eram bem “descolados” de seu certo modo e Maddie se sentiu deslocada por seu vestido vermelho que parecia de criança.
— E ai crianças?
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