Devíamos dizer adeus?
1 Capítulo Único
Notas iniciais
A escuridão fora a primeira lembrança daquele lugar. Depois a solidão. E, por fim, sentiu o frio dali corroer até sua última célula para perceber que talvez isto não fosse mais um daqueles sonhos bobos. Talvez nem como um delírio isto podia ser classificado.
Começou a se perguntar se seus olhos realmente estariam fechados ou se a ausência total de luz fosse algo do ambiente ainda desconhecido pelo rapaz.. Afinal, o que era isto? A pergunta ainda rondava seus pensamentos deixando-o totalmente inquieto, contudo não se movia, falava, nada. Não queria quebrar a tranquilidade do local, ou pelo menos achava que isto era proibido já que nenhum ruído foi ouvido por Shintaro desde chegou ali.
O som estridente de um sinal batendo ecoou pelos tímpanos dele.
Quase que como um reflexo Shintaro abriu os olhos arregalados.
O ambiente não lhe era nada estranho, na verdade era praticamente mais familiar para si do que a face de seu falecido pai. Dizer que o lugar era conhecido não é sinônimo de que o rapaz gostava dali. As carteiras de madeira enfileiradas, o quadro negro, a mesa do professor, a enorme janela, o seu único conforto ali era sua garantia de notas excelentes sem qualquer esforço. Aliás, havia poucas pessoas ali que gostavam ou sequer simpatizavam com a escola.
O uniforme sem graça, assim como a rotina monótona e cansativa, não faziam muita falta, na verdade, não sentia um pingo de saudades deste lugar senão de Ayano, ela era a única que prendia sua mente ao Ensino Médio.
A sala estava vazia.
A paisagem da janela era tediosa até Shintaro lembrar-se de algo importante.
Assustado rapidamente tateou sua calça em busca do seu celular que deveria continuar em seu bolso. Nada. Tentou puxar os fones, porém não os utilizava no momento. Como poderia ter perdido o utensílio tão necessário para o rapaz era um mistério.
Suspirou decepcionado consigo mesmo. Nada poderia fazer a não ser esperar o sonho acabar para que pudesse ter novamente seus equipamentos eletrônicos e, mesmo não querendo admitir, Ene o atormentando também era algo pelo qual ele esperava o amanhecer para acontecer.
Desviou o olhar do teto para a enorme janela à sua esquerda. O céu estava azul com poucas nuvens brancas o pintando como em pinturas detalhadas. O sol estava encoberto por uma delas, contudo a luminosidade ainda era muita. Em outras palavras, o dia estava lindo.
Enquanto observava o movimento que o vento provocava em uma nuvem, a visão repentinamente mudou e um flash de Ayano caindo em queda livre na lateral do prédio passou por seus olhos castanhos. A última coisa que viu foi o final do cachecol vermelho e novamente o céu voltou a ficar limpo e lindo. Contudo a beleza do lado de fora não podia recompensar o choque no rosto de Shintaro. O traumatizou ter tido uma breve vista do suicídio de, infelizmente ou felizmente, seu primeiro amor.
O barulho de papel sendo amassado ou manuseado o tirou do transe momentâneo ocasionado pela miragem. Sem demorar muito o rapaz olhou para a carteira ao seu lado, muito próxima por sinal, onde um origami de um tsuru fora deixado no canto superior esquerdo.
Algo de familiar naquela dobradura chamou a atenção de Shintaro. Não era um tsuru feito de um papel qualquer. Era um tsuru feito com a folha de uma prova na qual o aluno que a fez tinha ido mal tirando a nota de 36 com pontuação máxima de 100—coincidentemente, ou não, o número 36 era a maior nota que Ayano já tirou em sua vida escolar tão curta.
Sem muita consciência, o rapaz logo se lembrou das longas tardes na biblioteca onde tentava ajudar a garota com seus estudos. Infelizmente sendo em vão já que nada conseguia entrar naquela cabeça de vento. Horas e horas desperdiçadas para, no final, a menina conseguir tirar apenas 36—uma nota tão insignificante—, contudo nunca vira um sorriso tão grande e feliz quanto quando Ayano recebeu a bendita prova com os trinta e seis pontos.
As dolorosas lembranças de momentos felizes o destruíam por dentro. Podia sorrir ao recordar-se do passado alegre, contudo o magoa saber que tais tardes de estudos e risos nunca mais serão vividas pelo rapaz e pela falecida garota.
Nunca mais ouviria a risada boba e entusiasmada de Tateyama. Nunca mais veria seu sorriso sem graça ou aquele grande e feliz da nota 36. Nunca mais a veria se esforçando ao máximo para conseguir entender algo e no final desistir de tudo por realmente não conseguir. Nunca mais voltaria para casa com ela. Nunca mais veria seu surrado e velho cachecol vermelho o qual a menina fazia questão de usar até no verão. Nunca mais veria Ayano cortar-se com papel enquanto fazia seus tsurus e sorrir gentilmente como se o sangue que pingava fosse insignificante. Nunca mais iria vê-la falando alegremente de como seus irmãos adotivos eram incríveis e de como queria ser como eles.
Nunca mais criaria outras memórias junto de Ayano.
Seu sorriso? O cachecol cujos tons de vermelho ressaltavam os olhos da menina? Apenas na mente de Shintaro ficariam porque jamais retornaria a ver tais simples prazeres da vida ao vivo.
E, apesar de tudo, o rapaz não tinha raiva de Ayano, apenas saudade e magoa restavam para ele. Contudo queria saber o porquê de um suícido tão repentino. Eram suas notas? Provavelmente não já que a garota já se acostumara a tirar valores tão baixos nas avaliações. Não conseguia pensar em outros motivos aparentes porque, em todos os sentidos, a garota tinha uma vida perfeita.
Pelos relatos que uma vez ouviu da morena, ela tinha três irmãos mais novos e os amava muito. Tinha bons amigos como Haruka e Takane e ainda tinha Shintaro, não eram bem amigos, talvez algo a mais, porém nunca soube ao certo já que tal relacionamento fora interrompido pela afiada lâmina da morte.
“Não vá.”
“Cale-se!”
As duras palavras que dissera para a moça continuavam a atormenta-lhe a mente. Nunca quis ser tão frio com Ayano. Nunca quis que ela se afastasse dele. Nunca desejou sua morte.
Deveria ter olhado para trás naquele dia. Não deveria ter ficado tão alterado com ela. Queria dizer apenas mais uma vez “Bom dia, Tateyama-san”, ou “quer que eu explique novamente?”, apenas mais uma vez para ouvi-la dando uma breve e abafada risada enquanto esboça seu tímido e leve sorriso de menina boba. Uma vez seria o suficiente para Shintaro.
Queria vê-la preocupando-se com ele também. Recordava-se perfeitamente dos grandes olhos castanhos preenchidos com aquela preocupação que somente mães tinham por seus filhos, apesar de haver algo diferente naquele brilho. Uma chama ardendo juntamente da aflição da garota. Nunca conseguiu decifrar aquele singelo e único olhar. Ele podia hackear sistemas de segurança, mas era impossível ler o código daqueles orbes chocolates de Ayano.
Um pequeno sorriso melancólico surgiu nos lábios do rapaz ao lembrar com tanta nostalgia e saudade da garota a qual não merecia este tipo de destino.
- Shintaro... - Um sussurro ecoou pela sala seguindo o caminho do vento.
Rapidamente o sorriso esvaiu-se e o rapaz passou a olhar para todos os lados à procura da origem deste som o qual era exatamente igual à voz da Tateyama.
- ... Ayano? - perguntou receoso.
Uma leve brisa balançou seus fios negros deixando-os ainda mais desarrumados do que antes. O aroma leve no ar, o relance da cor vermelha passando pelos olhos do rapaz, a sensação de papel cortando seus dedos... Era ela.
Shintaro arregalou seus olhos o máximo que pôde para vislumbrar tal milagre. Sentiu seu rosto esquentar de maneira com que esta fosse uma precipitação para lágrimas. A realidade devia estar lhe pregando uma peça. Deveria ser algum truque de sua mente ou talvez Kano. Logo aquele idiota apareceria ali no lugar da morena rindo e tirando sarro de Shintaro. Porém nada aconteceu.
Ela continuou ali com seu sorriso sem jeito e seus grandes olhos castanhos cheios de nostalgia e semiabertos. Seu cachecol vermelho balançava levemente suas franjas. A saia logo abaixava com leveza. O cabelo, como sempre, estava um pouco desgrenhado por causa da interferência do lenço no pescoço, contudo continuava com seu estilo delicado e perfeito.
Tudo ao seu redor parecia ficar mais claro, com mais vida, como se até então tudo que Shintaro tivesse vivido fosse em preto e branco e apenas com Ayano aquilo coloria-se de maneira excepcional.
O tempo parecia estagnado ali. Se este passava, era muito devagar para o rapaz notar. Talvez fossem as horas excessivas sem dormir. Talvez fosse o tempo mais que exagerado no computador. Talvez fossem os mais de dois anos os quais Kisaragi ficou trancado em seu quarto. Ou talvez fosse até a quantidade de coisas novas que vira acontecer, mas se isso fosse uma alucinação, queria continuar aqui. Concentrava-se apenas na menina, afinal, não era todo dia que os mortos faziam-lhe uma visita destas.
Shintaro respirou fundo. Inalou o máximo de ar que podia e prendeu-o. Era apenas de mais para ele acreditar.
- Sentiu minha falta? - perguntou docemente enquanto seu sorriso abria-se mais para o moreno.
O rosto do rapaz esquentou de tal maneira que ele podia já sentir as lágrimas deslizando por suas rosadas bochechas nas quais havia algumas pequenas cicatrizes de espinhas. As mãos suavam e tremiam como se ele houvesse sido diagnosticado com Mal de Parkson. Sua espiração era lenta e profunda para adquirir tanto oxigênio quanto fosse possível. Tinha sorte de seu celular não estar dentre seus dedos, pois se este fosse o fato, ao aparelho já teria caído e quebrado de maneira a qual não haveria um concerto fácil e barato.
- Ayano... - era tudo que ele conseguia sussurrar pelo choque que isto era.
Não piscava, se fizesse isso acreditava que ela iria desaparecer e não queria isso. Ele mal se movia também. Apenas estava paralisado para que esta doce ilusão não se fosse tão rápido.
A garota soltou uma leve e gostosa risada a qual soava como a mais pura sinfonia para os ouvidos de Shintaro. Era como se ela fosse um anjo tirando todos os pecados do moreno-o que provavelmente era o caso.
- Faz tanto tempo desde que nos vimos pela última vez e é isso que você tem a dizer? - seu sorriso tímido e o olhar ainda mais doce que o caráter da menina lhe encantavam mais ainda depois de dois anos de ausência. O cachecol continuava a ser o mesmo vermelho e surrado de sempre, contudo ele fazia um belo par com todos os traços de seu delicado e angelical rosto emoldurado por madeixas tão negras quanto à própria escuridão na qual Shintaro se afogou nesses anos decorridos em seu quarto.
- É que eu... Eu... - tentava falar sem sucesso por não achar as palavras certas. Na verdade, não conseguia pensar de maneira lúcida e apenas balbuciava uma única sílaba. Era demais para seu pobre coração, aquele que se afogou em um mar de mágoas. Quando achava que finalmente haveria superado a garota, lá estava ela para relembrar sua dor. - Eu... Eu tenho sentido sua falta, Ayano... - confessou e logo mais lágrimas brotaram e lavavam seu rosto. - Eu sinto saudades de você... Eu... Eu... Eu não consigo sem você aqui -admitiu e não conseguia mais controlar seus soluços. Estava em prantos.
A expressão do fantasma de Tateyama logo mudou de seu sorriso tímido e doce para preocupação e culpa por tê-lo deixado. Contudo, após dois passos dados na direção do rapaz ajoelhado chorando, o sorriso apaziguador voltou a lhe enfeitar a face. Agachou-se ao lado dele e envolveu o pescoço de Shintaro com o cachecol vermelho, compartilhando-o. E logo o abraçou fortemente, ato que ele logo retribuiu com ainda mais intensidade.
Afagou a cabeça dele com gestos lentos e carinhosos tentando acalmá-lo. Podia sentir os soluços e a respiração falha de Shintaro em seu peito e não queria largá-lo, apesar de ser necessário.
- Shh! Está tudo bem... - sussurrava no ouvido dele com doçura e calma assim como uma mãe fazia com um filho.
O rapaz apenas abraçou-a ainda mais forte e tornou a chorar com mais intensidade.
Não queria larga-la. Não queria que ela se fosse novamente. Não queria voltar para a insatisfatória realidade que era o mundo sem Ayano. Não queria enfrentar o fato de que este era um sonho com um fantasma do passado. Apenas queria dormir para sempre e continuar nessa utopia que era este lugar.
- Por quê? Por que você fez isso, Ayano? Por quê...? - repetia dentre soluços desesperados.
O coração do fantasma apertou-se de culpa. Não era isto que ela queria. Queria a felicidade, não a ausência dela.
- Eu... - começou a argumentar, contudo segurou-se por não ter uma explicação plausível. - Desculpe - restringiu-se a responder para o rapaz.
Shintaro apertou ainda mais o abraço para ela não ir embora. Contudo aos poucos podia sentir o corpo de Ayano se esvaindo como poeira ao vento, apenas o cachecol resistindo à magia.
- NÃO! AYANO! NÃO! FIQUE! -implorava enquanto a quantidade de lágrimas apenas aumentava.
- Desculpe Shintaro... Acabou meu tempo - confessou a menina com os olhos marejados e um doce sorriso melancólico estampado em sua face.
- NÃO! NÃO VÁ EMBORA, POR FAVOR! - clamava o rapaz que balançava as mãos no ar tentando agarrar o que restava da menina no ar. Realmente não queria dizer o adeus definitivo.
- Eu te amo, Shintaro... - disse por fim antes de sua face com o sorriso melancólico e uma única lágrima escorrendo desaparecer no ar.
O rapaz continuou ali aos prantos agarrado ao cachecol que acabou por ficar para trás.
- Eu também te amo, Ayano... Eu te amo... Eu te amo - repetia incansavelmente se agarrando à única relíquia restante da menina.
Nem sempre o destino é justo, e a única certeza que temos é que um dia teremos de dizer adeus.
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