Devotion
5 Refém do Passado
Os dois se encaravam continuamente enquanto dançavam ao som da música lenta. Havia um brilho em seus olhares, um brilho que somente uma pessoa repleta do mais puro sentimento de amor poderia ter.
Markus segurava firmemente a cintura de North, que, de mesmo modo, tinha suas mãos entrelaçadas sobre sua nuca. Seus corpos, assim como suas mentes, estavam em sintonia naquele instante. Sentiam e ansiavam as mesmas coisas, o que tornava-os ainda mais unidos.
Markus puxou a garota para mais perto de si, deixando seus rostos separados por poucos centímetros. Os lábios de North, pintados de vinho, tornavam-se irresistíveis a cada segundo. Queria beijá-los por horas, anos; Por toda eternidade, se possível. Mas, apenas breves selinhos eram o que tinham até o momento.
A falta de privacidade não permitia que se entregassem aos seus instintos, ao invés disso, relutavam para contê-los.
North aproximou-se de Markus para sussurrar-lhe no ouvido:
— Quer continuar de onde paramos? — sugeria, referindo-se aos momentos que tiveram juntos mais cedo no terraço.
O convite fez com que o androide sorrisse imediatamente, deixando sua resposta evidente. North, então, o segurou pela mão e o guiou até seu quarto. Finalmente estavam sozinhos.
Markus foi logo envolvendo a ruiva com seus braços e, sem mais um segundo de hesitação, beijou-a.
Como um faminto que encontrara um banquete ou um sedento que encontrara uma fonte, Markus encontrara os lábios de North. Possuia-os fervorosamente, revelando o quanto os desejava.
— Markus, espera. — disse a garota, afastando-se do androide.
Andou até a porta do quarto e trancou-a com a chave. Desta vez, não queria correr o risco de uma interrupção.
Voltando-se para Markus, deu-lhe um sorriso insinuante e sentou-se sobre a pequena cômoda ao seu lado. Divertindo-se em provocá-lo, retirou as alças de seu vestido e disse-lhe em seguida:
— Pode fazer o que quiser comigo, agora.
Markus, deixando suas emoções o guiarem, foi até a garota. Segurou delicadamente seus pulsos suprimindo suas simulações de pele nas mãos e conectou-se com ela. Os dois se encaravam continuamente enquanto compartilhavam suas intenções, ficou claro que não se contentariam apenas com beijos.
O androide fitou os olhos castanhos por mais alguns segundos antes de mover suas mãos para a cintura da garota e descer seus lábios até seu pescoço. Enquanto desfrutava das carícias, North fez suas mãos, inicialmente postas na nuca, escorrerem pelo corpo do moreno. Ardilosamente, desabotoava seu colete e, por conseguinte, sua camisa, deixando seu tórax exposto. Quando Markus se deu conta, fez o mesmo, puxando o vestido preto para baixo, até revelar a peça íntima rendada de mesma cor. A temperatura dos androides aumentava a cada instante.
Surpreendendo Markus, North levantou-se e retirou o restante do vestido, deixando seu corpo perfeito coberto apenas pelo conjunto íntimo, especial para a ocasião — teria ela planejado usá-lo esta noite? A ruiva mordiscou seu lábio inferior, enquanto esperava que seu namorado fizesse o mesmo. Logo, as peças finas espalharam-se no chão. Ambos semi-nus, voltaram a agarrar-se.
Markus pressionava a garota na parede, mostrando seu lado mais irracional. Enquanto mordiscava sua orelha, explorava as curvas da androide com as mãos. Seu corpo era especialmente projetado para ser o mais sensual o possível, mas não era o único motivo para Markus a desejar tanto. Ele a amava verdadeiramente.
Embora a estrutura física dos androides não permitisse o desenvolvimento de um tato sofisticado e apurado, cada toque que recebiam gerava uma gama de sensações, até então, inéditas. Era a primeira vez que deixavam suas ações serem completamente impulsivas.
— Você é tão sexy. — Markus dizia baixinho para a garota, totalmente extasiada.
Os amantes continuaram com os amassos
na cama. Markus prendia os braços de North, pressionando-os no colchão, enquanto beijava seu corpo. Os olhos, ainda maquiados, estavam fechados para que permitissem total concentração nas sensações. Sentia o corpo quente de seu amado sobre o seu, tendo seus batimentos cardíacos cada vez mais acelerados.
— Você é toda minha. — O androide sussurrou, em um tom malicioso.
De repente, o semblante da ruiva mudou completamente. Passou de uma expressão de pleno deleite para uma cheia de temor.
— Não! — gritou — Não! Me solta! — North puxou seus braços bruscamente e empurrou o androide que estava sobre si.
Colocou-se de pé ainda afoita, mas, logo em seguida, caiu na realidade e acalmou-se. Olhou para Markus que estava tão perdido quanto ela e pensou: "O que foi que eu fiz?".
— Me desculpa. — disse nervosa — Eu não queria ter feito isso. — Arrependida, cobriu o rosto com a mão.
— North... Você tá bem? — Markus, confuso, tentava entender a situação.
— Não. — suspirou — Mas não é nada.
O androide olhava preocupado para a garota. Encostou-se ao seu lado e perguntou:
— Quer falar sobre isso?
North demorou a resposta, hesitando se deveria contar-lhe. Suspirou, e disse com os olhos molhados:
— É que... Algumas coisas são difíceis de esquecer.
Markus levou alguns segundos para entender do que North estava falando. Quando soube, tudo passou a fazer sentido.
Compadecido com a situação da garota, abraçou-a na tentativa de confortá-la.
— Me desculpa, Markus. — falou com uma voz de choro.
— Não precisa se desculpar, North. — Markus passava as mãos suavemente pelos cabelos ruivos — Ta tudo bem. — Beijou a garota na testa, carinhosamente.
~
Já passava das duas horas da madrugada. O casal decidiu dormir junto desta vez. Ambos dividiam a pequena cama e, apesar disso, pareciam gostar de estarem bem perto um do outro. North se sentia segura quando Markus estava ao seu lado — este a jurou protegê-la em qualquer circunstância — mas, isso não explicava o que acontecera pouco antes.
North, por mais que tentasse, não conseguia dormir; Estava presa aos seus pensamentos. Desejando desabafar consigo mesma, saiu de seu quarto, sem acordar seu namorado, para o terraço.
Olhando para as luzes da cidade parcialmente encobertas pela neblina presente naquela noite, finalmente deixou suas lágrimas escorrem livremente. North é do tipo que não demonstra suas fraquezas na frente dos outros, quando chora, quase sempre é escondido.
Memórias pertubadoras de seu passado atormentavam seu presente. Estaria condenada a viver para sempre com estes fantasmas? Temia que isso atrapalhasse seus relacionamentos e a impedisse de ser feliz. Sentia vontade de gritar, gritar com todas as suas forças, na esperança de que isso pudesse aliviar sua pressão interna.
— North? — Ouviu a voz de Markus. — O que faz aqui?
A garota enxugou as lágrimas rapidamente ao perceber que o androide se aproximava.
— Nada. Só não consigo dormir.
— É por causa do que aconteceu, não é? — O rapaz sentou-se ao seu lado, mantendo o olhar zeloso sobre si.
North assentiu com a cabeça, ainda fitando o horizonte.
— O que exatamente aconteceu naquele momento? — perguntou, sem obter uma resposta imediata da androide.
— Às vezes eu tenho alguns flashbacks muito intensos do meu passado, antes da divergência. — Respirou fundo. — Eu vejo cenas no Eden Club e sinto tanto nojo, ódio, repúdio... Mas, sabe qual é a pior parte? Saber que essa era minha função, que essa era a minha vida.
Markus estendeu sua mão:
— Você não está mais sozinha, North.
— Não. Não! Eu não vou compartilhar coisas ruins com você. — a garota afastou-se
— Eu estou pedindo. — insistiu — Confie em mim, você vai se sentir melhor.
North olhou mais uma vez para Markus. Talvez ele tivesse razão. Receosa, entregou seu braço para ele, deixando suas memórias se conectarem.
Markus passou a visualizar, em primeira pessoa, o episódio que atormentava a garota.
"No Eden Club.
— Vai ser essa aqui mesmo. — Um homem, que aparentava estar próximo da meia idade, observava a androide em exposição. — Vamo ver o que você sabe fazer. — sorriu malicioso, pagando pelo aluguel da garota.
A androide seguiu o sujeito até o quarto, até então, nada fora de sua rotina.
— Vamos, tire logo a roupa. — ordenava, já acomodado.
A ruiva obedecia as ordens do cliente, como fora programada. Despiu-se de seu uniforme e deixou o homem aproveitar-se de seu corpo nu.
— Tenho pressa, vamos logo com isso. — Repentinamente, jogou a garota na cama e, ficando sobre ela, imobilizou seus braços.
— Pra uma boneca, até que você é bem sexy... — falou enquanto penetrava a androide. — Você é minha!"
A visão das memórias foram interrompidas quando North puxou seu braço subitamente, desconectando-se de Markus.
O androide fitava a garota, sem palavras.
Com lágrimas escorrendo pelo seu rosto, confessou:
— Eu só queria esquecer tudo isso. — desviou o olhar, envergonhada — Eu não queria ter te mostrado... Tenho medo que seus sentimentos por mim não sejam mais os mesmos.
— North, não... — Markus enxugou delicadamente a lágrima que estava prestes a escorrer pelo rosto da androide. — Eu te amo. Isso nunca vai mudar.
— Me promete, Markus. — A androide tinha os olhos apreensivos. — Promete que vai me amar pra sempre.
— Eu prometo.
North o surpreendeu com um abraço apertado. Um sorriso de alívio surgia depois de tanto sofrimento:
— Obrigada...
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