Devorar-te-ei: Memórias póstumas de um amor
20 Fim do Dueto
— Eu já disse que não consigo!
Minha voz ecoou pela sala ampla e vazia. A única luz no local era a que conseguia passar pelas brechas das pesadas cortinas que cobriam as janelas de ponta a ponta na parede à minha esquerda.
Eu conseguia distinguir a silhueta de Sebastian mesmo na penumbra, mas não precisava vê-lo para saber que estava se divertindo com a situação...
— Se as coisas continuarem como estão, eu não poderei estar lá para protegê-la sempre, my lady...
A voz de Sebastian soou branda e séria, não sarcástica ou divertida como de costume. Isso fez com que eu retesasse por instinto, com medo daquele comportamento tão atípico. Para muitos poderia ser pouco mas, pra mim, qualquer mudança na minha relação com Sebastian parecia um grande e problemático evento.
Ainda mais considerando o que havia acontecido. O que vinha acontecendo...
Nosso laço, que sempre fora inabalável, agora começava a ceder aos poucos, a queimação que eu sentia sobre a marca em meu peito podia ser só coisa da minha cabeça, mas tinha um infeliz e racional significado.
— ...É seu dever me proteger, estar lá quando preciso... — falei com os dentes cerrados, desviando meu olhar para o chão mesmo que não conseguisse fitar meus próprios pés.
— A senhorita tem o terrível dom de se meter em problemas, isso não facilita meu trabalho.
— Você é um demônio, nada é difícil para você.
Um silêncio se seguiu, ao ponto de me fazer imaginar se ele não tinha saído e me deixando sozinha na sala, mas a luz que vinha da janela entregava sua forma, revelando apenas parte do corpo rígido e com uma postura invejável do meu mordomo.
— Nem tudo é fácil, também. Eu estou ocupado com as investigações externas...
— E só por isso você não vai estar lá caso uma emergência surja?!
Eu me exaltei, mesmo sem ter nenhum motivo pra isso, o que fez um novo silêncio pesar sobre nós. Eu, que sempre fora tão controlada e racional, sucumbia e afundava cada vez mais nos meus próprios sentimentos. Não bastando os joguinhos mentais de Sebastian, ainda havia a problemática do Ciel e todo o mistério que o rodeava, além do verdadeiro desastre que minha reputação havia se tornado. Eu era praticamente uma viúva suspeita dos mais variados crimes contra a côrte inglesa, como se eu fosse capaz de tal...
Não havia como eles saberem, claro, mas, se eu fizesse algo eles jamais iriam descobrir. Eu não deixaria tantas pontas soltas...
Sebastian não deixaria tantas pontas soltas.
Uma explicação para o comportamento estranho de Sebastian surgiu novamente em minha mente. Começou como uma ideia idiota e insignificante, uma mera coceira incômoda em meus pensamentos, mas aos poucos foi tomando cada vez mais sentido e força, ao ponto de dominar por completo meu raciocínio.
A marca do contrato estava enfraquecendo e Sebastian não precisava vê-la para saber disso. Nossa união "obrigatória" aos poucos ia se tornando mais e mais sem sentido e sem importância, ao mesmo tempo em que nos afastavamos. Nossas mentes sempre funcionaram em conjunto, mas agora ele não notava nem mesmo minhas mentiras mais descaradas, deixava passar até mesmo o estado angustiante em que eu me encontrava...
Aquela mulher havia feito alguma coisa. Algo que eu não sabia explicar ou como corrigir, mas algo que me fazia tremer por dentro.
Sebastian não parecia disposto a fazer algo para mudar aquilo, de qualquer forma, e isso era o que mais me machucava e irritava ao mesmo tempo...
Eu joguei o florete no chão, sentindo o punho dele cair sobre meu pé direito e o puxando pra trás por reflexo. Não dava pra acreditar que, de uma hora pra outra, minha vida havia virado de cabeça pra baixo e começado a piorar drasticamente... Isso considerando que ela já não era tão boa.
Só de pensar que alguém estava por trás disso, se certificando de arruinar minha vida de uma forma sádica e gradativa... Fazia o sangue me subir à cabeça. De repente, aquela sala vazia e escura fez eu me sentir sufocada. Talvez fosse a necessidade de ar puro ou a presença de Sebastian a poucos metros de distância que me sufocava, eu não sabia, mas eu precisava sair.
Em passos largos, comecei minha caminhada em direção à porta. Eu podia não enxergar, mas conhecia bem o caminho. Geralmente eu e Sebastian treinavamos naquela sala, numa atmosfera muito mais... Receptiva e agradável. Eu parei ao sentir algo pressionado contra meu peito, demorando alguns segundos para emergir dos meus pensamentos raivosos e voltar a focar no que estava acontecendo.
— Você morreu. — A voz firme e rouca de Sebastian soou apenas alguns centímetros de distância do meu ouvido.
Eu o empurrei, sentindo um aperto desconfortável em meu peito, mas ele sequer se abalou ou saiu do lugar, ao invés disso, agarrou-me pelo braço e me puxou para que eu ficasse à sua frente.
— Se isso fosse uma luta de verdade, você estaria morta. — ele voltou a falar, com um tom que beirava a algo que não irritação nem indiferença. Soava como... Impaciência.
— Mas isso não é uma luta de verdade. — eu retruquei — Diga o que quiser, mas eu sei que você vai estar lá quando eu precisar.
— A senhorita está bem confiante disso.
Os lábios de Sebastian se curvaram em um sorriso discreto. O brilho rubro de seus olhos era suave, mas denunciava seu olhar intenso contra o meu.
— Eu sei lidar com alguns "homens maus". — eu sorri confiante e irônica. — Mas é exigir demais de uma "humana" que ela lide com SM's como os que estamos enfrentando sem dificuldade.
— Alguém como a herdeira dos Kyotsu deveria ser capaz de bem mais que isso, se me permite dizer.
O sorriso nos lábios de Sebastian era frio, ferino, como se estivesse se deliciando com o caos em minha mente. Eu precisava me concentrar em manter minhas barreiras bem altas, haviam segredos ali que precisavam continuar assim. Como segredos.
Eu conseguia sentir que ele tentava entrar em minha mente, parecia querer entender o que estava acontecendo comigo. Talvez... Conosco.
— E você deveria se lembrar do seu papel. Nosso contrato garante que você esteja lá para mim sempre que o chamar, então não entendo o porquê deste treinamento infundado.
Eu puxei meu braço de volta, ele não ofereceu nenhuma resistência. Cruzei os braços sobre o peito e o encarei séria. Nós tínhamos problemas infinitamente maiores do que o fato de ele aparentemente não querer mais me proteger.
Querendo ou não, ele era obrigado a me proteger, não importava o rumo que aquela conversa tomasse.
— A senhorita tem novas prioridades agora. Eu só queria garantir, como seu servo leal, que não se colocasse em um perigo maior do que consegue lidar.
O tom dele era sugestivo, mas sem um pingo de preocupação. Suas palavras soaram tão secas quanto era possível, fazendo com que as minhas próprias ficassem presas em minha garganta.
Não sabia o que ele queria dizer, mas o significado que aquelas palavras simples tiveram pra mim era óbvio: Ciel.
Os dois não se toleravam, nem mesmo em situações em que a etiqueta nos obriga a fazer o que muitas vezes não queremos. Seria muita presunção da minha parte acreditar que os dois estavam secretamente lutando por mim?
Eu ri de mim mesma, abanando a cabeça negativamente e suspirando demoradamente. Mas que pensamento idiota...
Era claro que Ciel estava interessado em mim, mas Sebastian? Ele tivera anos para demonstrar algum interesse, mas tudo o que sempre fez foi brincar e zombar de minhas "reações humanas" a todos os seus joguinhos maldosos.
Por que ele tinha que ser assim?
— Como resolvemos? — eu perguntei, ainda evitando encara-lo.
— My lady terá de ser mais específica.
— O selo. Você sabe o que está acontecendo... Então, como resolvemos?
Sebastian me encarou por um longo segundo, seus olhos incandescentes fulminando os meus com uma intensidade que chegava a queimar fundo no meu peito.
Sem se abalar ou esboçar nenhuma reação, ele apenas respirou, soltando seu hálito frio contra meu rosto apesar de não estarmos tão próximos. Já não duvidava de que até mesmo aquilo não fosse fruto da minha imaginação pecaminosa e cada vez menos prudente.
— Não há como resolver. — ele finalmente respondeu, com frieza. — O selo foi perdido e logo eu não poderei mais estar ao seu lado, my lady.
— ....O que? Eu estou falando sério, Sebastian. — eu revirei os olhos com descrença.
— Não há nada que eu possa fazer.
— Mas...! — eu franzi a testa, tentando assimilar aquela informação — Minha alma. Você disse que eu precisava dá-la à você no fim do contrato...
— O contrato não acabou.
— Então...
— É como se ele nunca tivesse existido.
A face séria do demônio eliminava qualquer jogo ou brincadeira que eu pudesse achar que ele estava fazendo. Talvez tivéssemos trocado palavras tão sérias assim apenas por uma ou duas vezes durante todos os anos que estivemos juntos. Claro, se tratando de algo pessoal e não negócios da côrte.
Mas logo um sorriso brotou em seus lábios. Um sorriso que começou incerto e, arriscaria dizer, magoado, mas logo se tornou rígido e automático, como costumava fazer com todas as pessoas que era obrigado a recepcionar como meu mordomo.
— E o que vai acontecer com você? — eu arrisquei, sentindo um nó em minha garganta.
— Eu vou procurar outra pessoa. E você vai estar livre.
— Mas...!
— Não iluda a si mesma com essa cara. Eu tenho consciência do incômodo que foi me ter ao seu lado ao longo desses anos, terá uma chance de ter uma vida normal. — ele falava com firmeza, sem nenhum sentimento, bom ou ruim. — Ou melhor, terá a chance de viver uma vida normal para uma Kyotsu.
— ... Eu não quero isso.
— Isso não depende de você.
— Eu ordeno que faça um novo contrato! O-ou... Faça algo...!
Instintivamente, eu o agarrei pelas mangas de seu terno, apertando-as com firmeza.
Ele era tudo o que havia me restado, mesmo que de uma forma confusa e deturpada. E agora, quando tudo começava a ruir, ele ia embora.
A pior parte era que eu sequer sabia se era por culpa daquela maldita mulher ou porque ele finalmente havia encontrado a chance perfeita. Ele parecia... conformado. Parecia ter aceitado a notícia com naturalidade...
Então me ocorreu, não pela primeira vez, mas só então decidi dar razão àquele sussurro incômodo em minha mente. Talvez nosso "laço", aquela relação "única" e poderosa que sempre achei que tivéssemos, não passasse dele fazendo seu trabalho. A amizade que eu achei ter surgido depois de tantos anos, não passava de um demônio cultivando a alma de seu mestre para a colheita...
— Você... não vai fazer nada... não é? — já sentia minha voz começar a falhar, cedendo às lágrimas.
— Não. E é por isso que "isso" é tão importante.
Ele se abaixou, tomando o cuidado de desviar o seu corpo do meu por míseros e quase inexistentes centímetros. Sebastian pegou meu florete e escorregou sua mão coberta pela luva ao longo da lâmina, me estendendo o punho da mesma. Mas meus olhos estavam vidrados nos seus, tentando encontrar o verdadeiro sentido por trás de tudo aquilo. Uma parte de mim, embora pequena, se recusava a acreditar em tudo aquilo e acreditava haver uma explicação bem racional e prática para tudo aquilo.
Mas não havia nada, apenas um vazio infinito e rubro, que me encarava de volta com igual intensidade mas sem esboçar nenhuma expressão sequer.
Um soluço escapou dos meus lábios antes que eu pudesse conte-lo, fazendo com que eu desviasse o olhar.
Meu rosto queimava, se por raiva ou vergonha eu não sabia, mas nenhum dos dois sentimentos eram úteis ou agradáveis de serem sentidos em um momento como aquele.
Mordi meu lábio inferior com força, sentindo o sangue se espalhar pelo interior da minha boca enquanto eu cerrava e apertava os punhos também.
Algo havia acabado de se partir dentro de mim, exatamente como na noite enevoada em minhas memórias. A noite em que eu havia escapado do incêndio, onde eu havia sido a única a escapar...
Naquela situação, Sebastian estava lá por mim. Mas e agora? Agora eu estaria sozinha.
Eu me virei em direção à porta e comecei a caminhar de maneira automática até ela, ouvindo os passos do meu mordomo logo atrás.
— Se você vai mesmo embora, vá agora. Não o quero mais nos territórios da mansão Kyotsu... Nunca mais.
— My lady...
— Agora. Isso é... — eu respirei fundo, sentindo o ar me faltar naquele segundo — Isso é uma ordem.
Após o que pareceu uma eternidade de um silêncio ensurdecedor, finalmente ouvi a voz de Sebastian soar baixa, porém firme, atrás de mim.
—... Como desejar, Luna.
A forma dolorosa como meu nome soou em seus lábios uma última vez, depois de uma eternidade sem que ele o ousasse falar por ter de sair do papel de mordomo leal, fez com que um suspiro doloroso escapasse dos meus lábios.
Eu estava louca, estava sendo impulsiva demais e não estava pensando direito. Não era só as implicações na minha vida pessoal, mas na profissional também. Nós tínhamos um caso em aberto, um caso bem sério e talvez o maior que já tiveramos até então...
Olhei pra trás, buscando em minha mente qualquer coisa que desfizesse o que havia acabado de acontecer, mas tão logo encarei o salão vazio atrás de mim eu soube.
Estava acabado.
Sebastian tinha partido pra sempre.
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