Devorar-te-ei: Memórias póstumas de um amor
2 Estranha como o lado negro do Sol
Eu estava sentada de frente para minha escrivaninha. Pela janela eu conseguia ver o jardim de minha mansão, parecia estar agradável lá fora...
Acordo de meus devaneios com o som dos passos de Sebastian. Ele parou ao meu lado e acompanhou meu olhar até a janela. Ele estava diferente naquela manhã... Algo nos olhos dele me fez perceber que ele estava triste, ou talvez preocupado. Sebastian me deixava confusa.
— A senhorita tem visita, my lady — Sebastian voltou a olhar para mim.
— Quem é?
— Conde Tokudaiji. Ele a está esperando lá embaixo.
— Kyro? Mas o que será que ele quer dessa vez?
Levantei-me e fui caminhando até o corredor. Sebastian falava algo sobre uma festa para a qual fui convidada, mas eu estava distraída olhando para os quadros enquanto me encaminhava para as escadas. De repente, vi um quadro de um senhor de cabelos grisalhos com uma garotinha sentada em seu colo. Eu parei e encarei o quadro. Aquela garotinha era eu quando pequena, mas quem era aquele homem?
— Este é seu avô, my lady. Não se lembra? — Sebastian disse, respondendo à pergunta que eu nem chegara a fazer.
— C-claro que me lembro! — Respondi, envergonhada por ter esquecido algo assim.
Continuei andando e desci as escadas. Logo cheguei na sala onde Kyro estava me esperando. Sentei-me ao lado dele.
— E então, como minha noiva está? — Ele virou-se para mim e sorriu.
— Você veio até aqui só para saber como eu estou? — Eu perguntei, percebendo tarde demais como estava sendo rude.
— Não. Quer dizer, eu só...
— Você só...?
Ele ia continuar, mas Sebastian se aproximou e estendeu uma xícara de chá para Kyro.
— Obrigado Sebastian.
— Desejam algo mais? — Sebastian perguntou, logo se afastando quando eu fiz que não com a cabeça.
— Você estava dizendo... — disse, tentando retomar o assunto que Kyro havia começado. — Ah sim, vai ter um baile de máscaras no próximo sábado e, como você é minha noiva, falaram para eu vir lhe chamar para ir comigo.
— Tudo bem. É só isso? — perguntei ríspidamente.
— Então posso passar aqui às sete?
— Faça como quiser. — eu levantei-me e passei a mão em meu vestido, desamassando-o — Agora se me dá licença, estou me sentindo um pouco indisposta. Sebastian!
— Sim, my lady? — Sebastian entrou novamente na sala.
— Acompanhe Kyro até a porta.
Eu saí da sala e subi para meu quarto. Joguei-me em minha cama e fiquei encarando o teto. A verdade é que eu estava preocupada com o que vinha acontecendo. Eu estava esquecendo de coisas muito importantes... Pessoas importantes... O que diabos estava acontecendo comigo?!
Escuto a porta do meu quarto se abrir e logo vejo Marye entrando no quarto. Assim que me viu, ela, desajeitadamente, fez uma reverencia.
— Desculpe, my lady. Não sabia que a senhorita estava aqui... Se soubesse eu não teria entrado assim e... — Ela explicou-se apressadamente, atropelando as palavras.
— Não se preocupe, é que eu não estou me sentindo muito bem e...
— Ah! My lady está passando mal?! Quer que eu faça algo?!
Marye se aproximou apidamente e começou a me examinar. Ela puxou as mangas de meu vestido para ver meus braços e ficou esfregando enquanto apertava minhas bochechas. Eu já não estava aguentando mais quando vi Sebastian entrar no quarto e sorrir.
— Marye, vá ajudar Finny com a cozinha. Deixe que eu cuido da Luna.
Marye fez uma reverencia e saiu, eu aproveitei para ajeitar meu vestido e verificar se minhas bochechas ainda estavam no lugar. De repente, eu senti a mão de Sebastian em meu rosto. Ele começou a fazer uma massagem em minhas bochechas. Sem que eu me desse conta, nossos rostos foram se aproximando cada vez mais. Nossos lábios já estavam quase se tocando quando eu consegui voltar a mim e empurrá-lo para longe.
— O que pensa que está fazendo?! — gritei, enquanto me afastava ainda mais de Sebastian — Eu só estava fazendo uma massagem...
Ele me olhou sorrindo, aquele sorriso de quem estava mentindo, não vai admitir e ainda vai conseguir te fazer acreditar que o errado é você.
— Você sabe muito bem que esse sorriso não funciona comigo! — gritei novamente, dessa vez apenas me virei e respirei fundo antes de continuar — Deixe-me sozinha, não estou me sentindo muito bem e preciso de um tempo para descansar.
Sebastian fez uma reverencia e saiu.
Ultimamente pensar sobre Sebastian me deixava ainda mais confusa. Eu não gostava de estar confusa... As vezes, as coisas poderiam ser mais simples, mais fáceis de se decifrar...
Eu olhei para a janela como se todas as respostas de que preciso estivessem lá fora. Ainda conseguia enxergar a carruagem de Kyro partindo em direção ao Norte. Não consigo acreditar que sou noiva... Ainda mais de uma pessoa como ele.
Quando eu era pequena, acreditava que esse casamento era algo de conto de fadas, algo maravilhoso... Mas agora que ele está chegando, e eu vejo que é real, não sei o que fazer. Talvez eu deva fugir para bem longe e recomeçar minha vida... Não sei...
Sacudi a cabeça espantando aquela ideia.
Ultimamente eu vinha pensando em coisas muito estranhas...
Eu me joguei na cama e fiquei encarando o teto. Depois de algum tempo, minhas pálpebras foram ficando cada vez mais pesadas e acabei dormindo.
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