Porque você é minha religião

Você é como eu vivo

Quando todos os meus amigos dizem que devo ter um pouco de espaço

Bem, eu não consigo imaginar isso nem por um minuto

Quando estou de joelhos, você é como eu rezo”(1)

— O que está fazendo? – Shiryu perguntou sorvendo o doce odor que vinha da cozinha.

Foi engolfado pelo perfume quando entrou em casa depois de um dia de trabalho na lavoura de arroz. Estava com os músculos fatigados, porém feliz e com a mente em paz. O esforço físico tinha esse efeito nele e nem mesmo o inesperado sumiço do Mestre Ancião o preocupava tanto.

— Um monte de geleia de amora – ela respondeu com um sorriso na voz. – Colhi muitas no bosque hoje e não queria deixar que estragassem.

— O cheiro está maravilhoso.

— Não é? O Mestre vai gostar também quando resolver voltar.

— Vai. Shunrei, você quer descer mais tarde? Hoje é sábado, tem feirinha de artesanato, podemos dar um passeio, comer alguma coisa nas barraquinhas.

— Ah, eu vou adorar!

— Certo. Vou tomar um bom banho, tirar essa sujeira do corpo e me arrumar.

— Ótimo. Já estou terminando aqui, depois vou me arrumar também.

Apesar de cansado, enquanto caminhava de volta para casa Shiryu teve a ideia do passeio. Fazia parte do plano “vida tranquila” que ele pôs em prática dias atrás, depois da conversa na noite enluarada. Poderia ser breve essa vida, com certeza seria, mas estava empenhado em criar boas lembranças para Shunrei.

Então ele tomou banho, vestiu um conjunto de seda preta que, pelo que lembrava, era uma das suas roupas mais bonitas, penteou os cabelos e passou um pouco de perfume. Depois esperou que ela também se arrumasse.

— Estou pronta – Shunrei anunciou pouco tempo depois.

— Me fala o que você vestiu.

— Estou com um vestido azul-claro na altura dos joelhos, de mangas curtas e gola alta, soltei o cabelo e coloquei uma peônia branca de enfeite.

— Deve estar linda.

Shunrei sorriu envergonhada. Ainda não estava acostumada com esse lado de Shiryu mas queria que ele continuasse assim para sempre. Ela segurou a mão dele e levou até o próprio rosto, que ele tocou de leve, notou que ela estava sorrindo, fez um carinho na lateral e procurou a flor no cabelo. Depois segurou o braço dela e deixou que ela o guiasse na descida da montanha. Não precisava mais, conseguia se orientar sozinho, mas era bom ser cuidado.

A vila estava movimentada pelos moradores e turistas que vinham conhecer a cachoeira de Rozan e à noite se reuniam na feirinha que tinha barracas de artesanato e comida. Um grupo musical se apresentava em um pequeno palco, animando a noite com canções tradicionais da região.

Os dois passearam entre as barraquinhas, felizes, sorridentes, conversando sobre tudo e trocando discretos carinhos.

Shiryu fez questão de que Shunrei escolhesse um presente e ela escolheu uma pulseirinha prateada com uma cabeça de dragão e uma pérola. Enquanto ela descrevia o acessório, ele imaginou-se como o imponente animal mitológico voando pelos céus com sua joia, seu bem precioso, sua coisa mais importante, aquela que ele protegeria a qualquer custo. E a dele estava bem ali ao lado, ao alcance das mãos...

Depois de comprarem o presente, eles pararam na barraquinha de comida de uma senhora conhecida.

— Olá, senhora Chan – Shunrei cumprimentou sorridente. – Vamos querer duas porções de gyoza, por favor.

— Claro. É pra já. Soube do que aconteceu com você, Shiryu... Uma pena que tenha ficado cego. Tão bonito e tão novinho...

— Tudo bem, já me acostumei.

— Ele já está bastante independente, trabalhando na lavoura – Shunrei completou. – Está tudo bem.

A mulher assentiu e começou a preparar o pedido dos dois mas não parou de tagarelar.

— Ah, também soube que aquele outro discípulo do Mestre Ancião voltou, aquele menino rude e briguento.

— Ohko… sim… – Shiryu respondeu sem saber exatamente como continuar.

— Foi apenas uma passagem rápida – Shunrei disse tirando-o da saia justa. – Ele já foi embora de novo.

— Ainda bem. Aquele garoto era terrível. Ia acabar fazendo arruaça aqui na vila. O Mestre está bem?

— Ele fez uma pequena viagem, mas logo estará de volta – Shiryu respondeu pois era o que esperava que acontecesse.

— E vocês dois, hein? Estão finalmente namorando?

A inesperada pergunta fez os dois ruborizarem.

— S-sim – gaguejou Shiryu sentindo o rosto queimar de vergonha.

— Ah, sempre achei que se gostavam! – ela exclamou com uma risadinha e entregou a eles dois pratinhos descartáveis com gyoza e um potinho de molho. – Hoje são por minha conta.

— Não precisa… – Shunrei ainda tentou argumentar.

— Faço questão, pombinhos!

— Então obrigada, senhora Chan.

— De nada, querida. Gosto de vocês, sempre foram muito educados e gentis e formam um lindo casal.

— Obrigado mais uma vez – Shiryu também agradeceu. – Meu rosto tá vermelho? – ele perguntou quando se afastaram da barraca o suficiente para não serem ouvidos.

— Muito. O meu deve estar também.

— Ela é tão indiscreta…

— Eu sei. A culpa é um pouco minha… Acho que falo muito de você… Quando eu venho comprar alguma coisa fico dizendo que você ia gostar disso ou daquilo, aí ela começou a perguntar quando a gente ia começar a namorar… E agora ela ficou feliz por finalmente ter acontecido.

Shiryu riu e balançou a cabeça.

— E eu achando que era segredo…

— Nunca foi – riu Shunrei. – Não da minha parte.

A feira estava bastante movimentada e eles só encontraram um banco afastado para comerem, o que no final das contas foi até melhor pois longe do burburinho podiam conversar com mais tranquilidade e comer em paz as pequenas trouxinhas de massa frita recheadas com carne e verduras.

— Está bom o gyoza mas o seu é melhor – Shiryu comentou depois de provar.

— É que o meu tem muito amor envolvido.

O cavaleiro suspirou.

— É tão mais fácil agora que não preciso fingir indiferença. Ainda bem que você tomou a iniciativa porque eu… você sabe...

— É que eu sou ariana – ela riu. – Impulsiva. Na verdade, nem sei de onde tirei coragem, mas já não aguentava mais. Eu precisava saber o que você sentia.

— É uma boa combinação Libra e Áries.

— Ótima. Somos predestinados.

Shunrei apoiou a cabeça no ombro dele.

— Você está tão feliz – ele observou satisfeito por seu plano ter dado tão certo. – É o que você queria, não é?

Agora foi Shunrei quem suspirou.

— Sim. Eu cuidando da casa, você cuidando da lavoura, nós dois sonhando com o futuro, passeando nas noites de sábado. Eu queria que fosse sempre assim.

Shiryu também queria. Adorava dessa felicidade dela que transbordava e iluminava tudo ao redor. Ainda que não fosse mais capaz de enxergar com os olhos, podia sentir a luz dela irradiando. Não pretendia estragar o momento, mas quando percebeu já tinha falado.

— Shunrei, você sabe que é impossível… O que vem por aí não é coisa boa. Os cavaleiros de prata que enfrentamos até agora são a prova de que o Santuário não aceitará Saori como Athena facilmente. Algo muito difícil virá. Eu queria muito que fosse possível, mas eu sou um cavaleiro, um…

— Santo de Athena – ela completou sorrindo e nem um pouco abalada pelas palavras dele. – Eu sei. Mas não é impossível. Não diga isso. Eu tenho fé em você, acredito que sempre vai voltar pra casa.

— Fé… – ele repetiu pensando no significado da palavra.

— Eu acredito por você e por mim. Eu acredito mesmo quando você não acredita.

Shiryu inspirou profundamente enchendo os pulmões com o ar fresco da montanha e agradeceu aos deuses a sorte de ter Shunrei em sua vida.

O cavaleiro ainda não sabia, mas em breve a fé que ela possuía o protegeria em um momento crucial.

Notas finais
(1) Religion, Lana del Rey. A música tem meio que um duplo sentido e tal, mas nesse caso é totalmente inocente. ;)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.