[Noelle] — Ufa ! Eu finalmente sai da escola. *Sigh*. Sinceramente, não sei do que o Kuzuha reclama tanto, aqui é muito legal ! Os professores são atenciosos, as salas são bem organizadas, e eu até fiz algumas amigas novas ! Bom, se bem que tem uma coisa errada...

Ela se lembra de uma conversa que teve com algumas garotas.

[Garota 1] — Ei, você é a garota nova, não é ?

[Noelle] — Sim. O que foi ?

[Garota 2] — Uma dica de amiga: não fica perto do demônio.

[Noelle] — D-Demônio !? Quem !? Quando !? Onde !? *Será que é um Khramox !?*

[Garota 2] — Aquele garoto que você fica perto, ele é um demônio. Só traz problemas.

[Garota 1] — É ! Escuta a gente, só queremos o seu bem.

De volta ao presente.

[Noelle] — Não tem como uma pessoa daquelas ser do mal... Já sei ! Meu próximo passo, depois de espionar ele, vai ser melhorar sua vida estudantil ! Mas antes de tudo, eu acho que vou falar com a diretora.

Enquanto isso, em um parque. Kuzuha está sentado em um banco, encarando um lago. Ele está com um buquê de flores brancas em seu colo.

[Kuzuha] — *Sigh. O que será que eu vou fazer agora ? Eu não posso entrar nessa organização de loucos... Mas, se eu não entrar, eu morro. Cara, eu não posso morrer. ELA nunca ia me perdoar se eu morresse*.

Ele nota alguns patos nadando no lago.

[Kuzuha] — *Sigh. Eu queria viver como esses patos, eles não tem preocupações... Tudo o que eles fazem é nadar e nadar, sem se preocupar que, um dia, tudo e todos que eles conhecem vão desaparecer... Eu costumava ser assim, quando eu era criança…*

Ele olha para o céu.

[Kuzuha] — *…Hiro… Holly...*

De repente, um dos patos afunda.

[Kuzuha] — *Hã ? Que estranho... Nah, deve só ter ido pegar comida. Sigh. Devil Slayers... Será que eu realmente quero me tornar um deles ? Que motivos eu tenho para lutar por uma organização esquisita dessas ? Nah… Talvez…*

Ele encara suas mãos.

[Kuzuha] — *Eu fui capaz de criar fogo com elas… Mas… eu não... eu não quero que o mesmo incidente aconteça de novo...*

Noelle e Excalibur estão escondidas em uma moita, observando ele.

[Noelle] — -O que será que ele tá fazendo ?-

[Excalibur] — -Eu sei lá. Acha que, se descobrirmos o que ele faz, ele vai mesmo querer ser um Devil Slayer ? Tipo, você sabe que isso é espionagem e coisa e tal, né ?-

[Noelle] — -Quieta ! Não é espionagem, se for pelo bem de outra pessoa. Enfim, pelo que o conselho disse, eu só tenho até às dez da noite de hoje pra levar ele pra sede, senão eu volto pra França e…-

[Excalibur] — -Ele é assassinado… Nah, não esquenta, loira ! Nós vamos conseguir convencer ele, e você vai continuar aqui !-

[Noelle] — -…Tomara...-

Outro pato afunda.

[Kuzuha] — *Que patos comunistas ! Parece que eles nunca comeram na vida ! Ahem ! Caro leitor, saiba que isso foi apenas uma piada. Caso não tenha gostado dela, odeie quieto e continue lendo. Sem mimimi, por favor*.

Algumas bolhas começam a aparecer onde os patos afundaram.

[Kuzuha] — *Devem ter se afogado. É, eu não tô nem aí. Mas, que motivos eu tenho pra entrar nessa empresa de agentes doidos aí ? Proteger o mundo ? É... Nah, o mundo consegue se proteger sozinho. Lutar pela paz ? Não, eu tenho preguiça demais pra fazer isso. Pelos meus ideais ? Eu sou uma pessoa simples, não tenho muitas ambições. Pensando bem, eu tô afim de descobrir quem é essa tal de Black Widow, não sei por quê. E, eu acho que seria legal virar um King... Se é que dá pra fazer isso, né*.

Quando ele percebe, não há mais nenhum pato no lago.

[Kuzuha] — *Hã... ? Eles devem ter voado enquanto eu tava olhando pro nada. É, eu não tô nem aí. A propósito, que horas são ?*

Ele pega seu celular.

[Kuzuha] — Já são três e dez da tarde, huh ? Hora de vazar daqui.

Quando se levanta, ele vê uma mancha vermelha perto da beira do lago, e vai verificar.

[Excalibur] — -Psiu ! Ei, loira ! Ele vai fazer alguma coisa !-

[Noelle] — -Ele levantou !-

[Excalibur] — -É mesmo, é ?-

[Noelle] — -*Sigh*. As vezes você me irrita. Enfim, onde será que ele vai ?-

[Kuzuha] — Que estranho... Não era por aqui que os patos estavam ?

Ele começa a aproximar seu rosto à mancha.

[Kuzuha] — Isso é mesmo muito estranho...

Ele encara a mancha por alguns segundos.

[Kuzuha] — Hmm... É, eu não tô nem aí.

Ele vai embora.

[Excalibur] — Grr ! Que saco ! Quando é que nós vamos falar com ele ?!

[Noelle] — -Shhh !-

[Excalibur] — Mas se a gente não falar com ele, o prazo acaba !

[Noelle] — Shhh !

[Excalibur] — "Shhh" nada ! Eu já tô cansada de ficar aqui ! E, eu acho que tem um galho cutucando minha-
[Noelle] — Fica quieta ! Se ele descobre que estamos aqui, o plano já era !

Kuzuha aparece atrás das duas e põe as mãos na cabeça delas.

[Kuzuha] — Não é um galho não, fica esperta aí. A propósito, nem é um plano tão bom assim, contém bastante falhas.

[Noelle] — Gente, eu não tô nem aí- Perai...

Elas olham para trás, se assustam e caem para fora da moita.

[Noelle] — K-Kuzuha !?
[Excalibur] — P-Porco espinho !?

[Kuzuha] — Ugh ! Qual seu problema com meu cabelo, empregada ?!

[Excalibur] — C-Como foi que você achou a gente !?

[Kuzuha] — É que eu tenho um faro pra idiotas, sabe.

[Noelle] — Ah... Ei ! Quem é que você tá chamando de idiota ?!

[Kuzuha] — Não muda de assunto ! Por que as duas estavam me espionando, hein mocinhas ?!

[Noelle] — Não é da sua co-
[Excalibur] — Nós queríamos descobrir mais sobre esse tal "compromisso" que você disse ontem. Descobrindo isso, nós íamos bajular você e fazer com que seja um Devil Slayer. Pronto.

[Noelle] — Você é idiota ?! Por que contou o nosso- o MEU plano genial ?!

[Kuzuha] — "Genial".

[Noelle] — Você fica quieto aí !

[Excalibur] — Não adianta ficar escondendo, loira, alguma hora ele ia descobrir.

[Kuzuha] — Isso mesmo, Excalibur, você tá certa. Agora, não venham mais me procurar, ouviram ?

[Noelle] — Por favor, entenda a situação em que nos encontramos. *Ahem !* Se te deixarmos ir, você morre e eu volto pra França.

[Kuzuha] — Ah… Olhando por esse lado...

[Noelle] — Então, você vai vir ?!

[Kuzuha] — Deixa eu pensar… É...

[Noelle] — Sério mes-
[Kuzuha] — …eu não tô nem aí.

Noelle tenta enforcar ele, mas Excalibur à segura.

[Noelle] — Não me solta, empregada ! Senão, eu mato esse moleque !

Kuzuha se levanta, põe as mãos nos bolsos e começa a andar.

[Noelle] — Não ! Isso não vai ficar assim ! Hora de usar a arma secreta.

[Excalibur] — Hã ? Desde quando temos uma arma secreta ?

[Noelle] — Temos, meu charme e fofura de menina bonita.

[Excalibur] — . . . Exibicionista...

Elas vão atrás de Kuzuha.

[Kuzuha] — O que vocês querem dessa vez ? Eu já não disse que não vou entrar em nenhuma-

Noelle pega o braço dele e começa a puxá-lo. Excalibur dá de ombros e começa a seguir os dois.

[Kuzuha] — Ei, ei, ei-

Eles param no meio do parque. Noelle solta o braço dele.

[Kuzuha] — Ei, isso doeu ! Qual é a sua, hein ?!

[Noelle] — Eu quero que você veja.

[Kuzuha] — Ver o quê ?!

[Excalibur] — *Ah ! Entendi a sua jogada, loirinha. Bem pensado. Muito bem pensado*.

No parque, há várias pessoas. Algumas caminhando, algumas de mãos dadas, outras sozinhas e até pessoas com carrinhos de bebê.

[Noelle] — Tá vendo ?

[Kuzuha] — Nossa, mas que grande coisa ! Pessoas no planeta Terra, que coisa anormal !

[Noelle] — Erradissimo. O que essas pessoas parecem pra você ?

[Kuzuha] — …Pe... ssoas… ?

[Noelle] — Quase isso. Essas pessoas, para mim, parecem muito felizes com suas vidas, suas casas, amigos e suas famílias.

[Kuzuha] — E… ?

[Noelle] — Sabe qual é nosso trabalho ?

[Kuzuha] — Matar coisas estranhas… ?

[Noelle] — Errado, de novo. Não digo só o trabalho de Devil Slayer, digo o trabalho como pessoa. Bom, nossa tarefa é garantir duas coisas: Fazer com que essas pessoas vivam, e que possam sorrir, mesmo depois de tudo o que passaram.

[Kuzuha] — . . . *Sigh*. Será que ela não consegue ficar de boca fechada, pelo menos, uma vez ?!

[Noelle] — Você não vai ficar bravo com a diretora ! Eu te proíbo de fazer isso !

[Kuzuha] — Sério, por que é que toda vez, TODA SANTA VEZ, que alguém se aproxima de mim ela conta isso ?! Será que ela nunca ouviu falar de privacidade-

Noelle dá um tapa no rosto dele, deixando uma marca vermelha de sua palma.

[Excalibur] — *Gasp !* Eita… Aí foi longe, hein loirinha… Não precisava disso…

[Noelle] — Você tem que parar de ser tão idiota !

[Kuzuha] — . . .

[Noelle] — Só você pode decidir se continua ouvindo este disco tocando melodias melancólicas sozinho, enquanto a vida se torna uma anedota de tristezas amarguradas e sofridas, ou se vira este disco, e começa a ouvir uma nova melodia com tons alegres, tristes, indefinidos, mas nunca, nunca mesmo, nunca sozinho !

Kuzuha aperta o buquê em sua mão.

[Kuzuha] — …Você… nunca mais vai fazer ou falar isso. Entendeu ?

Ele põe as mãos nos bolsos e começa a andar.

[Noelle] — Ei, seu covarde ! Quando é que você vai parar de correr dos seus problemas e começar a enfrentá-los cara a cara ?!

Kuzuha para.

[Kuzuha] — Vocês duas… Se vierem atrás de mim, eu não vou ter piedade.

Ele vai embora.

[Noelle] — Quer saber ?! Eu desisto ! Eu queria poder ficar mais tempo no Japão, aqui é maravilhoso. Eu pensei que um dos meus discursos motivacionais fosse funcionar, mas esse moleque consegue ser um cabeça oca quando quer !

[Excalibur] — Afinal de contas, loirinha, onde foi que você puxou tanta motivação pra fazer esse discurso ?

Elas se sentam em um banco.

[Noelle] — Bom…

Ela se lembra de quando foi à diretoria. Noelle está parada, na frente porta. Ela bate.

[Noelle] — A diretora deve saber alguma coisa sobre ele, afinal, ela é a diretora.

[Diretora] — Pode entrar.

Noelle adentra a sala.

[Noelle] — Oi, diretora. Eu gostaria de falar com você por alguns instantes.

[Diretora] — . . . Quem… é você... ?

[Noelle] — H-Hã !? Eu sou a aluna nova !

[Diretora] — . . . Desculpa, eu não lembro de nenhuma matricula recente. Hehehe...

[Noelle] — Eu sou Noelle. Me transferi para cá ontem

[Diretora] — Aaahhh… Então, quer dizer que você é aquela Noelle que o Kuzuha gosta ! Ouvi falar bem de você, hein~ Bem que vocês podiam namorar~

[Noelle] — Uhhh... ?

[Diretora] — E-Eu disse namorar !? E-Esquece isso ! Eu não quis dizer isso ! Eu… é... Uhhh...

[Noelle] — …É melhor, uh, deixar pra lá...

[Diretora] — …É... *Ahem !* Posso saber o que quer aqui, senhorita Vermillion ?

Noelle olha para baixo, encarando o chão seriamente.

[Noelle] — Poderia não repetir isso, senhora ?

[Diretora] — S-Seu nome ?

[Noelle] — Sim. Só Noelle serve, senhora.

[Diretora] — Por quê ? Um nome como esse, que carrega tanta nobreza-
[Noelle] — Só. Noelle. Serve. Senhora.

[Diretora] — O-Ok... *Ahem !* O que veio fazer aqui, senhorita Noelle ?

Noelle levanta a cabeça.

[Noelle] — Eu quero saber mais sobre a vida do Kuzuha.

A diretora começa a olhar para os lados, vendo se não há ninguém em volta.

[Noelle] — Uhhh… ?

[Diretora] — Senhorita Noelle, poderia fechar as persianas da janela, por favor ?

Noelle se levanta e às fecha.

[Diretora] — Ah ! Antes que se sente, poderia trancar a porta ?

Noelle tranca a porta e se senta.

[Noelle] — Pra que tudo isso ? Não é como se fossemos falar de um armamento secreto do governo. *Afinal, eu saberia disso, já que tenho acesso a eles. Hehehehe*.

[Diretora] — Temo que seja pior.

[Noelle] — H-Hã !?

[Diretora] — É do filho da Lilyum que estamos falando.

[Noelle] — O-O que tem de tão perigoso nisso ?!

[Diretora] — Quer saber ?

Ela faz uma cara assustadora.

[Noelle] — Eeekk ! *N-Não, Noelle !* Q-Quero !

[Diretora] — Quer realmente saber o quão perigoso isso é ?

Ela chega o rosto mais perto ao de Noelle.

[Noelle] — E-E-Eu quero ! *Não vou desistir de ficar no Japão !*

[Diretora] — Muito bem. Já que deseja tanto, eu vou lhe dizer. O perigo dessas informações que eu estou prestes a te dizer é…

[Noelle] — *Gulp !*

A diretora sorri.

[Diretora] — Nenhum.

Noelle cai da cadeira.

[Diretora] — V-Você está bem, Ver- *Ahem !* Digo, Noelle !?

[Noelle] — Tô, tô.

Ela se levanta, e senta novamente.

[Diretora] — Só queria te assustar mesmo. Bom, o que quer saber ?

[Noelle] — Tudo.

[Diretora] — Bom, eu não vejo desde que ele era criança, mas acho que o pênis dele deve ter-

Noelle a interrompe, ficando vermelha.

[Noelle] — N-Nem tudo !

[Diretora] — Aaahhh ! Podia ter dito antes, né.

[Noelle] — Por que os alunos chamam ele de demônio ? Até parece que eles não tem educação !

[Diretora] — Você já deve ter notado o tapa olho dele.

[Noelle] — Sim. É um pouco estranho, mas dá pra acostumar.

[Diretora] — *Sigh*. Se fosse só o tapa olho…

[Noelle] — Como assim ?

[Diretora] — Debaixo daquele tapa olho reside o maior mistério da humanidade, o olho dele.

[Noelle] — E, o que tem de tão especial em um olho ?

[Diretora] — Não é "um olho", é "O Olho" ! O olho dele, ali em baixo, é muito estranho. A pupila e totalmente preta, a íris é roxa, parece o olho de um gato e, o pior de tudo, aquilo brilha no escuro. Cara, aquele olho, à noite, me dá medo ! Fora o fato de que, quando aquilo é aberto, ele fica estranho.

[Noelle] — Por que isso acontece ?

[Diretora] — Eu não sei. Na verdade, ninguém sabe. Cientistas estudaram eles por anos, mas a conclusão máxima que conseguiram chegar é a de que o olho dele não é normal. Em outras palavras, não existe uma cura para aquilo. Quando as crianças viram o olho dele, o apelidaram de "Demônio". Depois desse apelido, ninguém chegou perto dele. Nunca mais…

[Noelle] — …Nossa… E, onde os pais dele moram ? Quero falar com eles. É impossível que não façam nada pra ajudá-lo !

[Diretora] — *Sigh*. Boa sorte os encontrando. Você vai ter que cavar bem fundo.

[Noelle] — Não entendi…

[Diretora] — Mortos, senhorita Noelle.

[Noelle] — *Gasp !*

[Diretora] — A dez anos atrás, uma grande explosão aconteceu em Tokyo. Esta explosão destruiu metade de Tokyo e devastou completamente Kyoto... Eu e a família dele morávamos em um distrito perto da explosão... Quando ela ocorreu, eu não me lembro de muita coisa, só de conseguir acordar no meio de muito fogo, destruição e ver os pais do Kuzuha mortos abraçando ele, enquanto ele os abraçava de volta chorando muito...

[Noelle] — Eu não sabia… Sinto muito...

[Diretora] — Desse acidente, quase ninguém conseguiu sobreviver. Só sobreviveram três pessoas: eu, o Kuzuha e a Yasumi.

[Noelle] — Yasumi… ?

[Diretora] — A irmã mais nova dele. Na época, ela era apenas uma bebêzinha, então não sabe como seus pais eram… Sabe, eu fico muito triste quando o Kuzuha apronta. Não porque ele faz algo que não devia, mas sim, porque eu sei que, no fundo, ele só faz isso pra descontar a frustração de não poder ter salvado os pais naquele dia…

[Noelle] — *Ele tem uma irmã mais nova… Gasp ! Já sei !* Com licença, madame, eu preciso urgentemente ir embora !

De volta ao presente.

[Excalibur] — Caramba…

[Noelle] — *Ninguém nunca quis chega perto dele… Eu imagino a solidão que ele deve ter passado…*

O lago começa a borbulhar. Os relógios das duas começam a fazer barulho.

[Excalibur] — Se liga, loirinha ! Parece que temos companhia !

[Noelle] — Onde ?

[Excalibur] — Deixa eu ver aqui… Ih ! A missão é aqui, no lago !

[Noelle] — Vamos !

Elas correm até o lago.

[Excalibur] — Pelo que parece, tem um Khramox aqui.

[Noelle] — Hã !? Um Khramox aquático !?

Dois tentáculos cinzas saem da água e pegam as duas. Enquanto isso, na entrada de um hospital.

[Kuzuha] — *Bom, já que eu vou morrer, eu tenho que aproveitar esse dia como se fosse o último*.

Ele vai na recepção.

[Kuzuha] — Yo, Hyoirin ! Continua bonita como sempre, hein.

Uma enfermeira de rosa, atrás de um balcão, dá um cascudo nele.

[Hyoirin] — Sai dessa ! Ahahaha ! Eu sou muito velha pra você. Mas, qual é a boa, ouriço ? Veio checar esse seu olho aí ?- Hã ? Quem foi que te bateu ?!

Ela arregaça as mangas.

[Hyoirin] — Fala pra mim, que esse cara tá morto !

[Kuzuha] — R-Relaxa, foi só um tapa leve. Nem doeu mesmo. Enfim, meu olho tá bem. Eu vim fazer o de sempre. A propósito, alguma melhora ?

[Hyoirin] — Não...

Kuzuha dá um leve sorriso.

[Kuzuha] — Tá de boa. A gente tem que viver os dias como se fossem os últimos mesmo.

[Hyoirin] — Não sei se você é doido ou só muito otimista... É, acho que um pouco dos dois.

[Kuzuha] — Até eu acho isso.

[Hyoirin] — Bom, pode subir. A propósito, trocamos o médico dela ontem. Acho que foi uma troca considerável.

[Kuzuha] — Por quê ?

[Hyoirin] — Ela parece mais feliz com ele. O outro médico se demitiu mesmo.

[Kuzuha] — Que bom que ela tá mais feliz. É, eu tô indo. Falou, belezura.

[Hyoirin] — Falou, ouriço.

Kuzuha começa a subir uma escadaria, até parar em uma porta.

[Kuzuha] — *Sigh*. Eu até diria "Seja o que Deus quiser", mas sou ateu, então não tô nem aí. O que eu digo ? "Desculpa pelo atraso ! É que eu tava passeando por aí" Nah, essa não cola. Hmm… "Foi mal pelo atraso ! Ehehehehe. Sabe como é, né." Também não. Hmm… Ah, já sei !

Ele força um sorriso e abre a porta.

[Kuzuha] — Olha, eu cheguei na hora certa-

Um travesseiro o acerta no rosto e ele cai no chão.

[Kuzuha] — Ai… Tá com a pontaria boa hoje, hein. Normalmente você acerta meu peito.

Ele se levanta. Uma garotinha de pele morena, olhos castanhos, vestindo uma camisola branca e com a cabeça enfaixada está parada na frente dele. Ela parece estar muito brava.

[Garota] — Eu não teria de fazer isso todo dia, se você não se atrasasse todo santo dia. Sabe muito bem disso ! *Humpf !*

[Kuzuha] — Eu sei, eu sei… É que eu tive que resolver algumas coisas com umas amigas minhas.

[Garota] — Você, amigas !? Ahahaha ! Essa é a melhor piada que eu ouvi hoje- Não ! Que eu ouvi no ano !

[Kuzuha] — Eu não sou tão antisocial assim, tá !

[Garota] — O que é que você tem aí atrás ?

[Kuzuha] — Pelo jeito, seu cabelo ainda não cresceu…

[Garota] — Fazer o que, né.

[Kuzuha] — Bom, o que eu tenho aqui é uma coisa que você vai adorar !

[Garota] — Sério !? Me mostra, me mostra !

[Kuzuha] — É um shampoo pra você. Legal, né ?

[Garota] — Aww~ Acha que eu esqueci de você ? Eu te comprei um óculos de presente~

[Kuzuha] — *Sigh*. Chega de elogios. Toma aqui.

Ele entrega o buquê.

[Garota] — . . .

Ela joga o buquê no chão e pisa em cima.

[Garota] — Camélias ?! Você sabe que eu odeio essas flores !

[Kuzuha] — Eu sei. Por que você acha que eu trouxe justo elas, hein baixinha ?

[Garota] — Baixinha não ! Você sabe que eu tenho nome !

[Kuzuha] — Yasumi. É, eu não tô nem aí.

Yasumi o abraça e começa a sorrir.

[Yasumi] — Melhor irmão do mundo.

Kuzuha começa a fazer carinho na cabeça dela.

[Kuzuha] — É, eu sei. Vem cá, você acha que tá melhorando ?

[Yasumi] — Com certeza !

[Kuzuha] — Bom, se você diz que sim... É, eu tenho certeza de que você tá ! Olha só pra você ! Cresceu bastante... eu… acho… ?

[Yasumi] — Você me viu ontem ! Não tem como eu crescer tanto em um dias ! Mas, eu queria ter meu cabelo de volta, tô sentindo falta dele. Era tão macio e bonito...

[Kuzuha] — Ah, qual é ! Pensa pelo lado bom, você economiza muito com shampoo.

[Yasumi] — É. Ahahaha !

[Kuzuha] — Ahahaha !

Yasumi começa a apertar a camiseta dele.

[Yasumi] — ...Irmãozão…

[Kuzuha] — Fala, baixinha.

[Yasumi] — Quando você acha que… eu vou poder brincar com você de novo… ?

[Kuzuha] — Não faço a mínima ideia. Estranho, você nunca perguntou isso antes- Perai ! Estão te maltratando aqui ?! Porque se tiverem, eu juro que-
[Yasumi] — Não ! Eles são muito legais comigo !

[Kuzuha] — Que bom. Pra eles.

[Yasumi] — Hmm…

[Kuzuha] — Que foi ?

[Yasumi] — Você… acha que tem alguma cura pra minha doença ?

[Kuzuha] — Ahahaha ! Tá brincando, né ? É óbvio que tem cura ! Pfftt ! Até parece que não vai ter.

[Yasumi] — Mas, se não conseguiram achar uma cura pro seu olho...

[Kuzuha] — Meu olho é meu olho. Você não precisa ficar se preocupando comigo, ok ? E eu tenho certeza de que tem uma cura pra sua doença. Se eles não acharem, eu juro que vou achar. Nem deve ser tão difícil assim, eles que devem ser preguiçosos.

[Yasumi] — …Irmãozão…

Ela o solta e põe as mãos na cabeça.

[Yasumi] — Nah, eu não tô nem aí.

[Kuzuha] — Hã !?

[Yasumi] — Não se preocupa em achar uma cura, eu não ligo se eu morrer. Você devia é fazer o que você quer, em vez de ficar me vendo toda hora, idiota.

[Kuzuha] — Como é que é-

Ele começa a escutar um barulho.

[Kuzuha] — Que barulho é esse ? Parece um sininho.

[Yasumi] — Ah ! O meu novo médico pediu pra eu te entregar umas coisas.

Ela o leva até uma cama.

[Kuzuha] — Ah, nem a pau !