Nero não acreditava no que Dante estava dizendo, não. Aquilo só podia ser alguma brincadeira do mestiço de vermelho. Coçou a cabeça e bebeu mais alguns goles de sua cerveja gelada, respirando fundo após isso. Estavam os dois caçadores em um pequeno e poeirento pub londrino, acompanhados por Lady e Trish. Dante viajara dos Estados Unidos até a Europa em um vôo clandestino, e logo tratou de encontrar seus amigos que estavam em solo europeu. A razão para a viagem do mestiço, no entanto, era vítima de total incredulidade por parte do caçador de Fortune City.

- Então, a grande idéia de Julian para resgatar Vergil é encontrar um anjo que mora aqui, em Londres? – Lady também achava aquele plano difícil de digerir – Eu não sei se você sabe disso, Dante, mas anjos não existem, ou se existem, nunca se preocuparam em nos ajudar.

- Na verdade, eles existem sim, mas faz séculos desde a última vez que eles andaram pela Terra. – Trish manifestou-se.

- Julian não cometeria um erro desses, ele sabe o que faz. – Dante falou, ligeiramente enervado com a reação de Lady e Nero.

- Que seja. Mas explique melhor isso, como um anjo pode ajudar a tirar Vergil do Purgatório? – Nero inquiriu, ainda sem depositar muita fé na idéia.

O mestiço de vermelho bebeu alguns goles de cerveja antes de explicar. Detestava detalhar planos, era um homem de ação, não de pensamento. Mas que podia fazer? Precisava convencer seus amigos.

- Anjos, segundo a tradição, têm o poder de andar pelos diferentes mundos do além-vida. Julian acredita que eles possuam algum mecanismo para abrir portais. Vamos achar esse tal anjo e convencê-lo a abrir um portal para o Purgatório, aí nós entramos e salvamos meu irmão. – explicou Dante.

- E Julian lhe deu algum local para procurarmos por este tal anjo? – Lady perguntou sem rodeios. Nada adiantava, aos olhos da morena, saber o que procurar sem saber onde.

O pragmatismo da humana já era um velho conhecido de Dante, que esboçou um sorriso malicioso, ah, como adorava surpreender aquela mulher.

- Não só sei onde procurar, mas também o nome do anjo. Ele é Matthew, gerente da casa noturna Jericho. – o caçador de vermelho trazia no rosto a expressão do triunfo, e seus amigos foram obrigados a ceder.

Jericho ficava nos subúrbios londrinos, uma casa noturna de fachada feia, com um letreiro neon de extremo mau-gosto. Encontrar a casa noturna não foi difícil, custou apenas algumas perguntas aos trabalhadores do cais. Lady e Nero voltaram a fitar Dante com desconfiança, aquilo era a moradia de um anjo? Nada disseram no entanto, entrando após o mestiço e Trish no recinto. O interior da casa noturna, porém, surpreendeu aos caçadores. Toda a decoração era de temática religiosa, as dançarinas, seminuas, exibiam seus corpos sensuais de maneira provocante sobre o palco, e os funcionários todos usavam vestes inspiradas na liturgia. Mas os que mais chamavam atenção naquele local eram seus freqüentadores. Os olhos treinados dos caçadores localizaram inúmeros demônios e outros seres abissais. De Ayakashis do Japão a Lâmias da Grécia, aquela casa noturna era um antro de criaturas sobrenaturais, disfarçadas em pele humana.

- Como vamos achá-lo? – perguntou um ingênuo Nero.

Dante simplesmente disparou seu sorriso malicioso, e uma bala na aparelhagem de som, parando com a música no local. Depois, subiu no palco, apalpou duas dançarinas e fitou a “platéia” com um olhar de superioridade. Sabia que a imagem de um Filho de Sparda era assustadora para grande parte dos presentes.

- Muito bem gente, o show acabou! Onde está aquela vadia emplumada chamada Matthew? — inquiriu.

Lady levou uma mão ao rosto, envergonhada, e Nero virou um autêntico pimentão. Apenas Trish parecia divertir-se com a situação, rindo discretamente. A maioria dos freqüentadores da casa, ao verem quem era o intruso, começou a se retirar de maneira tumultuada do local, quebrando móveis e outras coisas no processo. Dois demônios, no entanto, não se intimidaram, e saltaram na direção do palco, cercando Dante. Tinham aspecto humano, apenas os olhos cor-de-fogo denunciavam sua origem infernal.

- Temos dois esquentadinhos então? Venham pro papai! – provocou Dante.

Os dois demônios sacaram lâminas curtas e tentaram golpear o mestiço, que se esquivou com facilidade. Novamente avançaram, um sendo derrubado por uma rápida rasteira e outro tendo o ataque bloqueado por Rebellion. Os dois tomaram alguma distância e estavam prestes a atacar quando uma voz, vinda de um sofá localizado no fundo do estabelecimento os parou.

- Chega disso! Não quero derramamento de sangue neste local. – um homem, de pele morena e longos cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo, que até então parecia dormir no sofá, levantou-se e caminhou na direção do palco.

Os dois demônios imediatamente desapareceram em meio às sombras, e Dante pôde analisar o sujeito que se aproximava. As feições lhe lembravam um árabe, mas as roupas....uma calça de couro justa, camisa de seda negra desabotoada e casaco de pele de onça davam-lhe ares de gigolô. Ele parou a poucos metros do palco e colocou as mãos no bolso.

- Vadia era a loira safada da sua mãe. – limitou-se a dizer, um sorriso maroto surgindo-lhe na face.

- Mas como?! Você é Matthew? – perguntou Dante, perdendo um pouco da pose.

- Não, eu sou seu pai. – o moreno parou por um instante – Claro que sou Matthew! Esperava o que? Um loirinho com cara de bicha e asas brancas?

A esta altura, Nero, Lady e Trish lutavam bravamente contra seus próprios impulsos para não rir de Dante. O mestiço estava levando uma surra verbal do anjo.

- Me falaram que vocês anjos podem abrir um portal para o Purgatório. Isso é verdade? – inquiriu o caçador de vermelho.

Matthew andou de um lado para outro, provocando Dante, depois foi até o balcão de bebidas da casa e serviu-se de whisky.

- Suponhamos que sim, por que desejaria ir até o chiqueiro de Azrael?

- Ele está com meu irmão. – Dante respondeu. Nada adiantaria mentir agora, precisava abrir aquele portal de qualquer maneira.

- Entendo....Vergil, não é? Lembro-me dele quando criança, e de você também. Como duas pessoas podem ser tão parecidas, e ao mesmo tempo, tão diferentes? – o tom de Matthew agora era de alguém mais simpático.

- Você, nos conhece?! – o mestiço estava perdendo totalmente sua postura, aquela situação toda parecia fugir de seu alcance.

- Não apenas vocês. Eu era conhecido de seu pai. Ele me salvou certa vez. – Matthew encheu seu segundo copo de whisky antes de continuar a falar – Sparda, grande homem ele, não? Foi o primeiro dos grandões a se preocupar de verdade com os humanos.

- Te salvou? Como você conheceu meu pai? – Dante perguntou, sua curiosidade fora aguçada pelo anjo.

- Ah, vocês só conhecem uma parte da história de Sparda, sempre me esqueço desse detalhe. Vocês acham que essa “guerra” é apenas entre homens e demônios, não? Como são bobinhos. Isso tudo que está acontecendo agora é apenas a conseqüência de algo muito maior.

Dante e os outros caçadores não estavam entendendo mais nada. Matthew aparentemente não dizia coisa com coisa, de modo que a expressão geral era de dúvida. Nero e as duas garotas aproximaram-se também do palco, com cautela, e agora fitavam o anjo com um misto de medo e curiosidade.

- Permitam-me explicar. Muitos milênios atrás, os três seres mais poderosos da Criação, Mikael, Mundus e Azrael, lutaram uma guerra brutal e o resultado dessa batalha foi a divisão que vocês conhecem dos reinos do além-vida: Inferno, Purgatório e Paraíso. Mikael criou os anjos e Mundus, os demônios, sendo um deles Sparda, que séculos depois se voltou contra seu mestre e lutou em nome da humanidade. – Matthew bebeu um pouco antes de continuar, seus ouvintes davam-lhe a máxima atenção.

- Anos após Sparda ter selado o Inferno, fui enviado à Terra por Mikael no intuito de obliterar uma cidade de malfeitores. Como também havia inocentes na cidade, acabei hesitando e não a destruí. Mikael não gostou disso e mandou mais dois anjos....para me matar. Na correria da fuga, acabei esbarrando em Sparda, que ficou ao meu lado e me ajudou a derrotar meus potenciais assassinos, que fugiram com o rabinho entre as pernas.

- Sparda então pediu minha ajuda para selar também o Paraíso, evitando assim que Mikael acabasse com todos aqueles considerados “maus e impuros”. Aliás, basta você ter mentido uma única vez para ser considerado maligno na visão de Mikael. Assim o fizemos, usamos Rebellion para separar Terra e Paraíso. O tempo passou, e pouco tempo depois de você e seu irmão nascerem, me mudei para cá e criei este refúgio de neutralidade, um local no qual todos aqueles que desejam viver junto da humanidade encontram descanso. – Matthew concluiu, com uma pontada de orgulho.

Dante ouvira tudo com atenção, era difícil de acreditar, mas em seu íntimo sabia que era verdade. Os outros caçadores também tentavam processar as informações, de modo que todos permaneceram em silêncio por alguns instantes.

- Mas voltemos a sua pergunta, sim? De fato, eu posso abrir um portal para o Purgatório. Não é fácil e é bem cansativo, mas posso fazê-lo. Como devo alguns favores a seu pai, o abrirei pra você, mas preciso saber se não o estou enviando diretamente para a morte. Azrael não costuma ter piedade daqueles que invadem seus domínios. – Matthew se pronunciou novamente.

- E como você vai saber isso? Acho que anjos não têm bola de cristal. – Dante ironizou.

- Ahh, isso é bem fácil de descobrir....- Matthew sorriu maliciosamente enquanto retirava uma espada similar a um gládio romano de dentro de seu casaco e a apontava na direção de Dante.

- Agora estamos nos entendendo! – foi a resposta de Dante, antes de o mestiço sacar Rebellion e saltar na direção do anjo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.