Devil Inside
6 Still Sane
Notas iniciais
"Hoje é meu aniversário e estou nas alturas
O cabelo está pingando escondendo que estou apavorada
Mas isso é verão brincando de mais burro que outono
Tudo o que eu digo se transforma
Em tudo o que eu não sou
No balanço das coisas
[...]
Ei, prometa que vou ficar bem Tudo parece ir bem
Perseguindo o papel, o peguei
Sou pequena, mas estou atrás da coroa
Sou pequena, mas estou atrás de você
Sou pequena, mas estou atrás do título
Realizada por tudo o que está acontecendo"
***
O silêncio mortal fazia com que os barulhos dos cascos soassem como tambores de guerra. Jon se aproximou um pouco mais de Ivy, pronto para defende-la se necessário. Gesto ao qual a mesma retribuiu com uma pisada no pé e um baixo sussurro de "Eu sou bem grandinha e sei me defender sozinha, obrigada". Jon gemeu de dor mas não se afastou.
Os olhos da Stark estavam determinados, não se deixaria se intimidar, e não baixaria o olhar. Os visitantes podiam ter coroas sobre suas cabeças e cagar em tronos de ouro, mas aquela era sua casa. Ela era do sangue do Norte e homens do verão não tinham lugar ali.
Robb se posicionou do melhor jeito que pode para esconder Nory com seu corpo, mas isso não a privou de vislumbrar a figura que assombrava seus pesadelos.
Robert engordara, envelhecera, deixara a barba crescer em um emaranhado selvagem e fedia à vinho e putas, mas seus olhos eram do mesmo tom. Aquele azul gélido.
"Por favor, misericórdia!", ouviu a voz feminina gritar em suas lembranças. "Traidores não merecem misericórdia", ele respondera. Sangue. Sempre havia sangue. O vermelho entrando em contraste com o negro das rochas salgadas de Pyke.
Teve que cravar suas unhas sujas e curtas nas palmas das mãos para lembrar-se onde estava, a realidade travando uma batalha com suas lembranças. Winterfell. Pyke. Neve. Sangue. Robb.
Robb. Robb. Robb. Esse mantra a trouxe de volta.
Se ajoelhou quando viu todos fazerem o mesmo. Os passos do gordo Rei eram ruidosos demais no silêncio mortal.
– Se ajoelhou como um cavaleiro. Ele vai nota-la por isso. — a voz familiar sussurrou, chocando-a por alguns instantes.
– De que outra forma esperava que eu me ajoelhasse? E por que decidiu subitamente se importar comigo, querido primo? — sussurrou de volta, ácida, com a língua tão afiada como sua espada.
– Lembrei-me que Tio Victarion acabaria por me matar se eu fizesse algo de mal à você, não sem antes receber a calorosa sessão de tortura de Tio Euron. Façamos o seguinte, eu peço desculpas e o ocorrido na Mata dos Lobos fica apenas entre nós.
– Entre nós e toda Winterfell. — bufou — Aceito suas desculpas. Me sentiria melhor se tivesse Valquíria aqui.
– Me sentiria melhor se estivesse em casa.
– Não, não se sentiria.
Viu com o canto do olho Theon lançar-lhe um olhar questionador, mas ergueu-se quando Eddard fez o mesmo. Seu nervosismo estava claramente melhor disfarçado que o de Jon Snow. Moveu sua mão delicadamente até seu cotovelo, e o mesmo retribuiu seu gesto com um meio sorriso e um aceno agradecido.
Porém, "melhor escondido" não significa "inexistente". A medida que Robert Baratheon de aproximava seu panico aumentava, até sentir uma mão segurando a sua.
Novamente? Não podia ser Robb, pensou, ele estava sendo sua muralha contra Robert, que conversava amigavelmente com o herdeiro de seu melhor amigo sem desconfiar de suas intenções. Jon Snow era muito lerdo, não saberia o que fazer para acalmar alguém nem que houvesse um manual.
Olhou para a esquerda. Deuses. Sentia-se fodidamente confusa agora.
" Seja forte", Theon gesticulou com a boca. O fato de seu primo se importar a esse ponto foi tocante e animador, então foi o que ela fez.
Bem a tempo, pois os olhos azuis do Baratheon focaram-se nela.
***
Ivory assistiu, alarmada, o Rei caminhar até sua melhor amiga. "Oh, Deuses, vocês são cruéis demais com nós duas".
A comoção foi geral, embora discreta. Ela mesma levara suas mãos até a fina lâmina em sua manga. Robb tencionou-se e moveu a mão discretamente em busca d'uma espada que não estava lá. Jon adquiriu uma postura defensiva. E, pelos Deuses, até Theon dera um passo à frente!
Tudo que Robert fez foi ignorar cada um deles e parar frente à Noryne, como se visse um rosto familiar vindo de um passado não muito distante.
– Então, você é aquela garota Greyjoy? — sua voz saiu da garganta como um trovão — A filha de Victarion?
– Sim, meu rei. — Nory respondeu, sobrancelhas levemente aequeadas em um desafio velado, encarando-o nos olhos sem nem mesmo ter se curvado.
– Cresceu, — constatou — mas parece um pouco menos selvagem do que eu me lembrava.
– É o vestido, Vossa Graça, me deixa mais feminina. Robb certamente porá isso na sua prateleira de conquistas. Mas não se engane, continuo tão selvagem quanto o mar revolto.
– Noryne! — bradou Catelyn — Peça desculpas ao rei!
– Não é necessário, Lady Stark. — ele riu — Hey, Ned! Seu filho conseguiu doma-la, pôs nela um vestido! E você, velho amigo?
– Ela não está provocando nenhuma rebelião.
– Ponto para você. — Robert disse, antes de voltar a rir. Se virou para Nory — Estou quase feliz que Ned tenha falhado em doma-la, garota. Quase.
E com essa frase ele se afastou, pedindo à Ned que o levasse até as criptas, alegando que precisava fazer suas orações. Quando ambos desapareceram e a Rainha e seus filhos se foram, Noryne relaxou os ombros tensos antes de ser envolvida num abraço preocupado.
– Não me sufoque, Ivy. Eu preciso de... Ar. — murmurou, tentando se livrar do aperto exagerado da amiga — Robb, seja útil, me salve.
– E perder a chance de carrega-la desmaiada em meus braços? Jamais.
– Desculpe avisar, amor, mas isso esta virando um fetiche.
***
Alysson observou todas as pessoas no salão com a frieza costumeira. Os nortenhos podiam ser rudes e grosseiros mas eram um povo até bem animado, ela notou, bebericando seu copo de vinho.
– Não é nova demais para beber? — a voz de Jaime falou, de trás dela, seus olhos brilhando divertidos enquanto ele sorria de canto.
– Não é velho demais para foder a rainha? — ela respondeu, espelhando o sorriso — Sabe que não vou seguir os passos de Tio Tyrion, pai.
– Deuses a ouçam. Se bem que, entre nós, — ele falou fingindo um tom pensativo, enquanto seu sorriso tornava-se um aspecto mais sarcástico que o normal — A minha beleza com o cérebro do seu tio não seria uma mistura nada mal... Oh, espere. Aí está você!
Ela riu de leve, antes de sentir o olhar de alguem sobre ela, esmeraldas banhadas em fúria que quase faziam buracos em suas costas. Sorriu seu sorriso mais adorável e sinico na direção de Cersei, erguendo de leve a taça de vinho num comprimento respeitoso antes de murmurar para Jaime.
– Não olhe agora, mas acho que a leoa mãe quer pular no meu pescoço e retalhar minha garganta.
Com um suspiro cansado, ele dirigiu um olhar de censura a irmã que apenas desviou seus olhos e tomou um gole de vinho, com esnobe desprezo. O cavaleiro fechou seus olhos, inclinando a cabeça para trás e xingando algo que Alysson não fora capaz de compreender.
– Não acho que ela jamais me perdoará por traí-la com sua mãe... Ou por aceitar criar você. — disse, pegando a taça da filha e esvaziando-a em um unico gole — Mas no momento que eu a vi, pequena e com o nariz e sobrancelhas de sua mãe...
– Você não pode me deixar para trás. — completou, ja conhecia o discursso. Mordeu sua língua para controlar os commentários maldosos de que Cersei não tinha moral alguma para julga-lo e as perguntas sobre a mãe que ela nunca conhecera — Farei 19 em três meses...
Deixou as palavras no ar, que se tornou mais pesado com o significado delas e da promessa que havia sido feita. O Sor inclinou-se para pousar a taça na mesa e limpou sua boca com as costas de sua mão.
– Eu sei. — foram suas palavras antes de ir embora.
Tudo que ela pode fazer foi encarar o salão com sua frieza súbita, virando o restante do liquido alcoólico garganta abaixo.
***
Theon manteve-se quieto durante todo o tempo, não conseguindo evitar um sorriso contido quanto viu Robb surgir dos portões do salão, naquela tosca caminhada de apresentação de nobres.
Rei Robert e Rainha Cersei assim como Lord Eddard e a Senhora Catelyn já sentavam em seus lugares e o leve torcer de lábios em desaprovaçãono rosto dos ultimos três quase o fez rir.
Claro, Robb era um grande amigo, mas ele não importava no momento. Quem importava era a mulher morena que parecia disposta a esconder-se num buraco para escapar de tal situação que o Stark tão orgulhosamente guiava pelo braço.
O frio fizera suas bochechas corarem, se não a situação em si, e seus lábios estavam mais rubros sob a luz de tantas velas. O vestido roxo caia-lhe muito bem, ressaltando as curvas certas e exaltando sua pele bronzeada. Possuía alças trabalhadas com contas prateadas que se juntavam a mangas que iniciavam-se três ou quatro dedos abaixo dos ombros, o corpete bordado em linhas de cor grafite em formatos de flores e espinhos que envolviam seu torax e descavam graciosamente pela saia esvoaçante e longa junto a detalhes de pétalas caídas nas bordas. Seu colo ostentava o pingente de cristal negro com estrias douradas que a corrente grafite descansada sobre seu pescoço, um claro presente do homem que tão orgulhosamente agraciava-se em sua presença, junto com brincos com pedentes que espelhavam o padrão do cordão, além de braceletes e um lindo anel prata.
Seu cabelo trançava-se intricadamente, suspendendo-se atrás de sua cabeça para liberar ondas e ondas em sequência, rebeldes, livres e revoltosas como sua dona.
A primeira de muitas ofensas cometidas naquela caminhada, uma ofensa a Rainha, ao Rei, a ambos os pais e a única filha da Rainha, Myrcella. Mas a felicidade de Robb quase exalava de seu corpo através de seus olhos, gestos e sorriso e quando Noryne erguera seus olhos para ele e sorrira de leve ele soube que se em algum momento da vida de sua prima ela estivera mais feliz, ele com certeza não estava perto para ver.
Logo em seguida Príncipe Joffrey guiava Ivory, que parecia vestir o gelo e a neve ao redor de seu corpo de marfim, os bordados ajustando-se a seu corpo com perfeição inumana. Seus lábios róseos apenas conferiam um aspecto mais angelical e frio a seu rosto. Sansa provavelmente desejava o figado dela em uma bandeja de prata servido aos leais corvos do Meistre.
Logo depois Bran, envergonhado e estabanada, guiava a doce Myrcella. Tão deslocada do cenário com seus cabelos de raios solares, esmeraldas brilhantes e meiga ingenuidade, envolta em tecidos róseos e detalhes áureos. Ela era uma coisa pequena e delicada, totalmente imprópria de rivalizar com duas deusas nortenhas como aquelas.
"Uma lâmina, negra, ágil e letal. Um cristal, congelada, calculosa e linda. E uma pequena gatinha, indefesa... Vulnerável", Theon pensou. A grande impressão de que aquele salão seria a zona de guerra de uma batalha sem armas assolava-o e ele só podia esperar que certas duas jovens saíssem incólumes.
"Por favor", implorou dentro de sua mente, mesmo que não soubesse a quem ou porque. Sentou-se ainda quieto ao lado do bastardo de Ned Stark, aceitando resignado a cerveja que lhe estendia, esperando que o álcool o privasse de suas preocupações, assim como de seus pensamentos racionais.
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