Devil Inside
1 Here Comes the Woman.
Notas iniciais
"Lá vem a mulher, com aquele olhar no seus olhos.
Criada em couro, com a carne em sua mente.
Palavras como armas, mais nítidas do que as facas.
Faz você se perguntar como a outra metade morre."
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A neblina espessa abria caminho para seus passos apenas para se agarrar à barra de sua capa, imitando seus movimentos ao criar espirais esfumaçadas por onde passava. As árvores estavam brancas devido as camadas de neve que as revestiam, tal qual toda extensão de terra que seus olhos podiam ver, cada passo enterrava seus pés até os tornozelos na unidade fria mas esta não a afetava mais.
Deteve-se de súbito, prendendo sua respiração para ouvir atentamente aos ruídos de galhos quebrados e passos contra a neve. Suspirou aliviada após alguns segundos, um pequeno sorriso curvando seus lábios.
— Você nunca foi silenciosa, pulguenta. — Ela comenta sobre seus ombros, virando sua forma sombria de leve na direção de sua companhia. Sua roupa era constituída por uma cota de malha prateada, um corpete de couro, calças revestidas de pele, botas de couro e a capa negra de pele presa por um broche dourado de uma lula gigante, exibindo orgulhosa as cores e símbolos de sua casa. Seus olhos eram tão negros quanto seus cabelos cacheados, criando uma harmonia com sua pele perpetuamente bronzeada apesar do frio do Norte e sua escassez de sol.
— Você nunca soube quando eu queria ser silenciosa, molusco. — A mulher ruiva de olhos azuis respondeu no mesmo tom. Sua pele pálida e seu rosto tinha aspecto doce que revestia com a pele de lã o fato de ser uma loba. Usava uma túnica surrada, uma calça velhas de tecido grosso e botas duas vezes seu tamanho. Seus ombros estavam envoltos por peles e seu cabelo estava preso numa trança intrincada e firme, os olhos claros se iluminaram com um brilho de divertimento. — Meu Deuses… Noryne, é um sorriso que vejo em seu rosto? Isso não é natural de sua parte! — A mulher continuou, provocando a outra com sua falsa preocupação. — Devo levá-la a um meistre ou aproveitar a floresta para rezar em agradecimento aos deuses?
— Você me fala de Meistres? — Noryne perguntou, bufando antes de erguer seu queixo em desafio, seus olhos afiados movendo seu foco para a perna esquerda da ruiva. — Sua perna está a ponto de gangrenar. Eu pensaria em abandonar as ervas da mata e ouvir meu próprio conselho sobre Meistres, Ivory.
— Ervas congeladas não falam. — A ruiva argumentou, dando de ombros como se o bom senso de nada lhe servisse. — Nem tem o cheiro de Meistre Luwin.
Noryne não conseguiu reprimir uma pequena risada pressionando seus lábios, sua amiga tampouco teve sucesso com seus esforços; após alguns segundos de silêncio forçado, a vontade de gargalhar foi mais forte, rasgando-lhes a garganta, provocando caretas risonhas. Sentiam-se crianças novamente, correndo pelos halls e corredores de Winterfell, esgueirando-se pela cozinha e estábulos, provocando dores de cabeça a todos ao se embrenhar na floresta e nunca mais querer voltar. O silêncio pesa tenso novamente quando as risadas morrem; ambas ainda causam dor de cabeça, mas apenas uma delas não queria voltar da floresta dessa vez.
— Espero que você me perdoe, Ivy. — A primeira começa, sua voz cautelosa com nuances de remorso — Sabe que se preciso, eu irei levá-la a força para Winterfell.
— Espero que me perdoe por resistir. — A garota respondeu, seus pés mudando seu apoio para uma postura defensiva.
— Perdoaria se esse fosse o caso, mas não será. — Ela gesticulou para algo atrás de Ivory com um gesto de sua mão. — Tenho certeza que teve saudades.
A ruiva se virou vislumbrando o rosto pálido de cabelos encaracolados negros e olhos azuis que lhe trouxe um sentimento nostálgico.
Houve um golpe contra sua cabeça e escuridão.
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Nory caminhou em silêncio na dianteira do grupo, com o filho bastardo do homem que a havia tomado como refém alguns passos atrás, guiando o cavalo sobre o qual a sobrinha rebelde do Senhor de Winterfell se encontrava desacordada.
Os olhos azuis de Jon, febris de preocupação, pareciam queimar furos em suas costas como se para marcar que a culpa era dela; não era, mas ninguém gosta de admitir seus erros. Não fora ela que havia deixado a ruiva inconsciente, muito menos havia sido ela que escolhera ser usada como isca para atrair sua amiga de infância. Odiava como os Starks pareciam sempre usá-la como uma válvula de escape para toda e qualquer irritação, até mesmo para os mais gentis e compreensivos, até mesmo os que não eram Starks.
Era um kraken em meio aos lobos, afinal. Não era como Theon, o idiota que esquecera o que seus "amigos" causaram a sua família, deixando-se domesticar e amolecer entre as paredes invernais de Winterfell. Ela mal lembrava-se da face de seus falecidos primos ou de sua prima, de seus tios ou de seu pai, mas lembrava do cheiro de maresia impregnado em seu quarto. Lembrava-se das palavras de seu pai, lembrava-se que o mar corria em suas veias como o fogo havia pelas veias dos falecidos Targaryen; ela era uma tempestade envolta em roupagem humana.
— Pare de me encarar. — Ela diz de forma firme, quase cortante. — Já estamos chegando e você poderá ser o cavaleiro honroso quando ela acordar. Não se preocupe, pode colocar toda a culpa em mim. Não vou desmentir nada.
— Sabe que eu não penso dessa forma, Noryne. — A voz de Jon veio em sua defesa após alguns segundos, mas estava fraca e sem convicção.
— Não, não sei. — Foi sua única resposta, dura e simples, como se erguendo uma muralha própria e urgindo-o a não trespassar. — Chegamos.
— Nory… — Seu tom de voz parecia implorar pelo perdão de uma ofensa sem intenção.
— Esqueça. — Foi tudo que se dignou a dizer antes de apressar seu passo, afastando-se do bastardo e entrando na fortaleza.
Atravessou os portões, assentindo para compensar a reverência rasa para com Lorde Stark, indicando que cumprira sua missão. Um breve sorriso foi direcionado a Arya e um olhar frio a Theon, que desviou seu olhar por falta de coragem. Ela sentiu o olhar de Robb pairar sobre ela de um acento que ela não podia ver, logo não o retornou. Colocou o capuz sobre sua cabeça e vagou novamente entre as paredes rochosas de Winterfell.
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