Notas iniciais
Não era a minha intenção fazer uma árvore genealógica da família Bloxam, nem uma série de fics com as personagens femininas que antecederam Cordélia, mas aconteceu. Nerissa é vagamente citada em A Garota que Amou Tom Riddle, e agora vocês podem conhecer um pouco mais dela.

Nerissa Gaunt descobriu cedo que era a única esperança de uma família em ruínas.

Dinheiro nunca havia sido uma matéria abundante em sua casa, desde a tenra infância, embora, em contraste, de alguma forma, joias de família o fossem. Mesmo sendo bruxos, a Casa dos Gaunt onde moravam tinha hera subindo pelas paredes, corredores empoeirados e uma lareira que não era acesa nem no auge do inverno, por economia. Seu pai vinha de uma longa linhagem de sangues-puros descendentes de Salazar Sonserina, mas que havia se deteriorado por uma mania de gastar mais do que tinham, e o costume de se casarem entre primos para manterem a linhagem.

Seu pai havia apenas se casado com sua mãe, Orchid Selwyn, porque não havia nenhuma Gaunt disponível, mas concordava que fora o melhor; os Selwyn tinham dinheiro, e o dote de sua mãe havia sido o que permitira à família começar com um teto sobre suas cabeças, ao contrário do irmão mais velho de seu pai, que morava num casebre junto a uma vila trouxa, com seus dois filhos um pouco mais novos que Nerissa, cuja mãe havia morrido antes que a menina aprendesse seu nome.

Por essas razões, nada sobrava a Nerissa a não ser casar bem. Era seu dever, mas também sua única chance. Como mulher, não tinha modo de fazer seu próprio dinheiro de forma respeitável na sociedade de sangues-puros à qual pertencia. Para Nerissa, não fazia diferença se seria um Black, Malfoy, Rosier, Lestrange, Crabbe ou Nott, desde que fosse alguém condizente com seu status sanguíneo. Essa exigência era a única que ela tinha.

As únicas vezes que ganhava presentes eram em suas idas para Hogwarts, depois dos onze anos. O fato de os pais se preocuparem em vesti-la bem, com vestidos da moda em bonitos tecidos brilhantes, o uniforme perfeitamente novo, era um investimento, ela sabia. De volta, ela devia a eles seu casamento.

Apesar do irmão, Marvolo, ter fama de ser um homem agressivo e cruel com os seus próprios, o mesmo não se aplicava a Menelaus, o Gaunt mais jovem. Mesmo diante da decadência infeliz dos Gaunt, ele, mais do que o irmão, tinha algo em que se sustentar. Sua sobrinha, Mérope, era uma criatura sem-graça que se misturava à sujeira da parede do casebre. Seu sobrinho tinha um traço de loucura nos olhos cruéis. Sua filha, Nerissa, por outro lado, era bonita como uma joia; os densos cabelos negros da mãe, os olhos escuros dos Gaunt, brilhantes como o céu estrelado.

Em Hogwarts, Nerissa não desapontou. Tinha notas perfeitas; o que todos sabiam ser uma importante conquista na procura por bons maridos. Os garotos também gostavam dela. Apesar de Pollux Black ter um contrato de casamento com Irma Crabbe, era de conhecimento geral que tinha uma admiração pela menina Gaunt. O seu sangue clamava atenção; era filha de um Gaunt, neta da última Peverell. Não havia razão para que não se desse tão bem quanto era possível; era o que seus pais esperavam.

Cornélius Bloxam era sangue-puro. Talvez não o mais rico dos sangues-puros, mas seu cofre do Gringotts era guardado por uma Mantícora. Talvez não o mais belo –esse título, provavelmente, era de Abraham Malfoy –mas tinha olhos verdes bonitos o suficiente para uma garota. Também era um dos poucos de seus colegas da Sonserina que não viravam a cabeça quando a viam passando. Nerissa não teria se incomodado. Realmente, não teria. Poderia ter casado com Malfoy se quisesse, provavelmente. Ou com Corvin Lestrange.

Exceto que, além do dever, Nerissa conhecia apenas outra coisa; sangue.

O grupo de setimanistas sonserinos estava no Salão Comunal, fazendo lições, quando Mérope passou por eles em seu usual passo apressado; fazendo o possível para não ser percebida. Nerissa não teve problemas em conceder seu desejo: continuou com os olhos bem pregados na lição de Defesa Contra as Artes das Trevas sobre maldições de sangue, adornada com a imagem de um bruxo se contorcendo enquanto seu esqueleto abria caminho pela sua pele.

Demorou um segundo para notar que os sussurros de seus colegas não eram sobre a lição.

—Coitada. –Comentou Irma Crabbe com desdém. –Ela é simplesmente tão... apagada.

—Feia, você quer dizer. –Complementou Margaret Rosier, então virou-se para Nerissa com um olhar cúmplice, o tipo de olhar que se troca entre duas garotas que se consideram iguais em beleza. –É difícil acreditar que vocês são parentes.

Nerissa deu de ombros, com o queixo levantado alto, sem ligar, quando Abraham Malfoy acrescentou:

—Não sei... alguma coisa ela tem. Onde você acha que Cornélius anda depois das aulas, todo sumido?

Margaret abriu a boca em choque. Cornélius era um bom partido. Um partido muito bom. Era difícil acreditar que ele havia sido fisgado pela garota mais cinzenta da Sonserina; especialmente porque Mérope era uma quintanista, enquanto eles estavam todos no sexto ano. Foi Nerissa quem falou, pela primeira vez na conversa.

—Você não está falando sério. –Desdém pingava de sua voz. –Ouvi dizer que ela é um desastre. Magia errática, caótica. Não tem domínio ou talento.

—Eu ouvi dizer que ela é boa em Poções. –Corvin interviu, por justiça. Nerissa fechou a cara para o sonserino e ele, que gostaria de cair nas boas graças dela, investindo em cortejá-la, calou-se.

Nerissa não se considerava uma pessoa de emoções complexas –e provavelmente não o era. Havia sangue, que era o que ela sentia pelos seus pais. O que a ligava ao dever. Não era bem amor –não sempre. Naquela tarde, ela descobriu competição. Não era ciúmes. Ou ela achava não ser. Apenas acontecia que, de repente, Cornélius parecia interessante, e estava em toda parte, afinal, eles tinham aulas juntos, dividiam o mesmo Salão Comunal e o mesmo grupo de amigos.

A sonserina planejou suas próximas ações com cuidado. Primeiro, descobriu discretamente onde os dois vinham se encontrando –na torre de astronomia depois das aulas. Em seguida, decidiu a quem abordaria primeiro –e fez sua escolha pelo elo mais fraco, o que ela conhecia melhor, o que ela poderia dobrar à sua vontade.

Abordou Mérope na saída do Salão Comunal, usando de seu distintivo de monitora para estar fora do dormitório após o horário de recolher.

—Ora, ora, Mérope. –Chamou por de trás da garota, saindo de um nicho na parede quando ela passou sem a notar. Mérope virou-se com brusquidão, os cabelos sem corte, castanhos e lisos, chicoteando seu rosto no processo. Nerissa cravou os olhos na prima e abriu um grande sorriso. –O que faz andando nos corredores fora do horário? O que Morfino pensaria disso?

O nome foi usado propositalmente. Muitas coisas assustavam Mérope, ela achava: o diretor Dippet, o diretor da Casa de Sonserina, Alosyus Avery, professor de Defesa Contra as Artes das Trevas. Mas nada a assustava tanto quanto a mera menção de seu irmão mais velho.

Mérope hesitou, estreitando os olhos. Nerissa não deixou seu sorriso vacilar.

—Você realmente tiraria pontos da Sonserina por minha causa? –A prima perguntou, a voz baixa. Sua voz era sempre baixa, mas Nerissa a conhecia o suficiente para que a entendesse mesmo que não estivessem apenas as duas num corredor vazio. Um arrepio cruzou sua espinha.

A mais velha notou a varinha da outra brilhando em sua mão apenas um segundo antes de puxar a própria varinha. Havia pouco amor entre as primas, apenas sangue e, naquele momento, competição. Porque, mesmo que nada houvesse sido dito naquele sentido, Mérope não era burra. Conhecia a prima. A prima que a sabotaria se quisesse sabotar, apenas pelo prazer de fazê-lo –pela competição. E, se não fosse ser Bloxam, sabia muito bem que nenhum outros dos garotos sangues-puros a cortejaria.

—Imperio!

—Crucio!

Era uma época mais simples; com leis mais flexíveis quanto se tratava de sangues-puros. Embora houvesse uma lei que dizia que qualquer bruxo a usar uma Maldição Imperdoável num igual deveria ir para Azkaban, ninguém condenaria duas meninas sangues-puros de uma das mais antigas famílias bruxas em uma rixa entre adolescentes.

Nenhuma das duas acertou o alvo, por pouco. Nerissa era apenas um pouco mais confiante do que Mérope, e isso fez toda a diferença. Com o feitiço Carpe Retractum, derrubou a prima, que deixou a varinha cair, escapulindo entre seus dedos. Mérope arregalou os olhos para a mais velha quando esta se aproximou em passos largos, mas Nerissa, apontando a varinha para a testa da outra, mesmo sorrindo maliciosamente, apenas murmurou o feitiço de dormir, “Somnus”, e a mais nova apagou imediatamente, sendo deixava à meia-luz do corredor, num quase abandono.

Seus passos ecoaram na escada em espiral da Torre de Astronomia quando Nerissa se aproximou, e ela capturou a imagem de Cornélius Bloxam de costas, um segundo antes de ele se virar com a expressão receptiva –em seguida, alarmada.

Nerissa sorriu, faceira.

—Não estava esperando outra pessoa, estava? –Perguntou, enquanto subia os últimos degraus.

O bruxo limpou a garganta, subitamente nervoso, mesmo enquanto se adiantava para tirar a capa de veludo de cima dos ombros dela, afinal, era uma bela noite de primavera, que ficava mais quente conforme os meses iam passando. Cornélius segurou a capa da bruxa em seus braços enquanto Nerissa se apoiava na amurava, o corpo inclinado para fora, o vento ricocheteando nos cabelos pesados e escuros.

Ele riu.

—Claro que não. –Foi a resposta, segura como se fosse verdade; Nerissa se lembrou de que não era a única sonserina naquela conversa. –O que você faz aqui?

Ela encolheu os ombros, com displicência.

—Gosto daqui. –Falou. Não era verdade até aquele momento, mas, com o vento suave de primavera em seu rosto e o gosto de vitória no fundo de sua língua, acabou sendo. –É como o topo do mundo.

—O lugar perfeito para você. –Foi o comentário dele, dito com honestidade.

Nerissa sorriu presumida, mais para si mesma do que para ele.

Aquela cena se repetiu um milhão de vezes nas semanas seguintes. Se Cornélius sentiu falta de Mérope, não demonstrou. A prima, aliás, acabou, naquela noite, sendo encontrada por Horácio Slughorn, o outro monitor, e, sabendo que a prima a meteria em maiores encrencas se abrisse a boca, não a denunciou.

Ninguém comentou o súbito interesse de Cornélius nela em vez de em sua prima; afinal, aquele era o modo como todos esperavam que funcionasse, levando tudo em consideração. O único que pareceu incomodado foi Corvin, a quem Nerissa havia dado esperanças antes que sua sede por vitória tomasse conta. Mas não havia motivo para que ele se prendesse àquilo; ainda era um muito bonito jovem sangue-puro que poderia escolher a garota com quem quisesse casar.

Foi numa noite, voltando de um dos encontros com Cornélius na Torre de Astronomia –agora, ele já havia pedido sua mão em casamento ao seu pai, que olhou para Nerissa com o tipo de orgulho que ele dedicava a ela quando a garota cumpria com seu dever—que ela deu de cara com Mérope no escuro Salão Comunal, num dos sofás de couro mais próximos à janela, metade de seu rosto esverdeado por causa da luz difusa que passava pelas águas do lago.

Sinuosa como uma serpente, Nerissa se aproximou da prima com os quadris dançando à meia-luz, debaixo da saia rodada. Um sorriso jocoso brincava em seus lábios. Mérope não levantou a cabeça para sua aproximação, mas foi a primeira a falar.

—Por que fez isso? –Usou a voz subjugada que sempre usava com a família; com o pai e o irmão, por exemplo, mas raramente com ela. Com Nerissa, Mérope geralmente não falava; elas tinham outra forma de comunicação.

Nerissa escorregou pelo couro negro de dragão até estar sentada junto da prima, as pernas das duas encostando-se uma na outra.

—Pensei que estava fazendo um favor a você. –Respondeu a mais velha, e baixou a voz até que fosse apenas um sussurro. –Ora, Mérope. Eu sei do que você gosta.

A sonserina mais velha deu uma risadinha quando sentiu o corpo da prima ficando rígido ao lado do seu; tensão em cada nervo do corpo dela. Era um tipo diferente de prazer saber que ela estava causando aquela reação.

—Cale a boca. –Mérope sussurrou de volta, furiosa.

Nerissa inclinou a cabeça de lado para pegar os nuances mais discretos da expressão da outra. Naquela luz esverdeada, Nerissa parecia mais uma descendente direta de Salazar do que a prima, embora o contrário fosse verdade.

—Alguns chamariam você de depravada, sabia? Uma boa garota de sangue-puro que gosta de sangues-ruins, sua própria família...

—Cale a boca. –Repetiu Mérope, mais fracamente dessa vez, com o hálito de Nerissa na lateral de seu rosto, adocicado como veneno, e amargo no fundo da língua.

—E garotas. –Concluiu Nerissa sem se importar com a mão de Mérope que foi ao seu pulso, a segurando com força. Nerissa aumentou o sorriso, até que parecesse que ia rasgar os cantos de seu rosto, e se inclinou para mais perto, os lábios roçando a bochecha da prima quando falou. –De certa forma, é até melhor. Os Gaunt costumavam casar entre primos. Se você tivesse algo um pouco maior entre as pernas, a teriam casado comigo.

No fim, o fruto não caí longe da árvore. Mérope também conhecia as regras: sangue, dever e competitividade. Nerissa era a combinação de tudo aquilo; e apenas por isso a mais nova se inclinou e capturou os lábios macios da prima, que, desde que ela havia se sentado ao seu lado, imploravam pelos seus. Nerissa tinha gosto de depravação em sua boca, e o sabor metálico adocicado que havia em todas as coisas proibidas.

O saber fazia com que o gosto fosse amargo no fundo da língua, mas Mérope já havia ido longe demais para se importar. Nerissa sairia de Hogwarts para um casamento respeitável, Mérope sairia de Hogwarts para um lar abusivo. O tempo corria contra elas –e o dever também.

Era o único jogo em que as duas podiam ganhar, mas por pouco tempo. Mérope segurava os pulsos da outra com força; e Nerissa montava-a no couro negro do Salão Comunal como se a ideia de ser pega fizesse seu sangue correr, mas elas nunca eram. Pernas pálidas entrelaçadas e cabelos escuros até onde a vista alcançava eram suas lembranças de Hogwarts.

Para Nerissa, era uma necessidade e um passatempo. A única coisa que fazia não em nome da família, embora, ironicamente, tivesse tudo a ver com sague. Sangue que clamava por sangue, como o sangue dos Gaunt fazia. Era por isso que casavam entre primos, ela sabia; não pela honra de manter o sangue puro, mas pela depravação.

Exceto que Mérope queria amor, e Nerissa não conhecia amor, apenas sangue.

Não havia esperança. Ambas sabiam disso, mesmo quando era Nerissa a deixar Mérope no sofá, e mesmo quando Mérope sabia que Nerissa voltaria. Não havia um mundo diferente e uma realidade diferente. A melhor parte era essa; cutucar as feridas até que saísse sangue. Porque eram garotas, e eram primas, e eram família. E, se não houvesse o dever e a honra, ainda haveria isso.

Notas finais
Bem, espero que tenham gostado dessa one-shot descompromissada que acabei escrevendo. Deixe sua opinião na caixinha aqui abaixo, vou ficar feliz em ouvir!
Nos vemos nas próximas fics!
XOXO
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!