Devastação
2 Pantufa
Notas iniciais
— Você quebrou a porra do meu coração pela última vez, Brian. É serio, não sou a sua prostituta particular. Você não pode me foder em uma noite, me dizer coisas lindas e no outro dia, estar com Megan no seu colo, dizendo as mesmas coisas lindas para ela. — Tenho a infelicidade de escutar a minha colega de quarto dizer pelo telefone. Ela está tão transtornada que nem se importa com a minha presença. É claro que ela está nisso a mais de cinco minutos. Não posso deixar de notar as grossas lágrimas que escorrem pelo seu rosto bonito, ou o inchaço em seus olhos verdes.
Lisa Davies é linda, ela sabe disso. Nós não somos tão próximas assim. Mas, ao longo dos últimos dois anos aprendemos a conviver pacificamente. Já que temos o azar ou a sorte de sempre sermos escaladas para o mesmo dormitório.
Mas, o que minha colega de quarto possui em aparência física, ela não tem em sorte em relacionamentos. Já perdi as contas de quantos namorados ela teve. E todos os seus relacionamentos acabam da mesma forma, Lisa chorando no final.
Uma vez, uma única vez, tentei consolá-la e dar um conselho de amiga, que pudesse ajuda-la.
Todavia, Lisa não pareceu gostar muita da minha intromissão, então daquela noite em diante, nunca mais me meti em nenhum de seus problemas.
O cheiro forte de sua dor, perfura os meus sentidos, é azedo e ligeiramente desagradável, me lembra de desolação e profunda tristeza. Sendo uma Beta, o seu cheiro não me afeta tanto. Apenas me sinto desconfortável, afinal consigo sentir suas emoções com o meu olfato, ela não. Sua designação faz com que seu senso olfativo seja ridicularmente fraco.
— Você é um babaca se acha que vou aceitar uma coisa dessas. Não, eu não fantasio com ménage. Que tipo de idiota você acha que eu sou? — Ela continua a sua discussão. E eu tento ao máximo não ouvir nenhuma palavra. Porém, é difícil não escutar seu momento íntimo quando ela fala tão alto. É ainda mais difícil me concentrar no que estou fazendo quando os seus soluços enchem todo o quarto. — Espero que você pegue sífilis ou gonorréia, seu bastardo nojento. Você acha que só por que é um Alpha eu tenho que aguentar sua merda? Nunca mais me ligue.
Quando ela enfim termina seu telefonema, acaba por jogar o celular no final da sua cama.
Tenho que presenciar a cena, pois não tenho para onde ir. Quer dizer, ainda é começo de noite, o céu está pintado de laranja e azul. Mas, até Lisa entrar em nosso quarto e desabar em outro de seus términos, eu estava confortavelmente estudando em minha escrivaninha.
Eu sei, estudar no quarto é a pior decisão a se tomar quando se tem uma colega de quarto igual a que tenho. Porém é sábado, e a biblioteca do campus está fechada para reforma, acabei ficando sem opções e tive que seder ao desespero e me por para estudar aqui mesmo.
Normalmente eu estaria debruçada em alguma mesa reservada da grande biblioteca, me afundando em um estudo reforçado, exatamente do jeito que gosto. E não trancada no meu minúsculo quarto universitário tendo de lidar com o drama da ruiva ao meu lado.
E se eu tivesse a média acadêmica de Lisa, certamente colocaria o foco da minha atenção nos estudos e não em arranjar namorado.
As vezes penso que ela vive em uma eterna busca pelo Alpha perfeito, daquele das histórias, livros e cinema.
E antes que me julguem, não fico bisbilhotando as notas dela. Procurando escondida em seus livros em busca do boletim. Minha colega de quarto costuma escrever suas notas no quadro de avisos pendurado na parede que lhe pertence.
Pelo que pude entender, essa é sua forma de manter o foco e motivação para estudar.
Então fica difícil ignorar tantas notas vermelhas brilhando na parede oposta a minha. E juro que tento muito não julgar sua busca por um sonho impossível. Qualquer mulher com dois neurônios funcionando sabe que o melhor a se fazer é ficar longe dos Alfas.
Já eu, sou mais o tipo estudiosa e bem focada. Pelo menos essa é a forma que me enxergo, e dificilmente vou estragar minha chance na Universidade, já que a minha designação é a pior de todas.
Ômega!
As vezes essa palavra faz com que meu sangue gele nas veias. Nasci com a designação perfeita para ser atormentada pelos idiotas.
Os Betas não conseguem entender, odeiam ou almejam ser o que eu sou. Os alfas são o meu maior problema.
Os grandes idiotas acreditam que sou uma espécie de útero ambulante para suas crias. Uma tola submissa que vai implorar por um nó e ser acasalada.
Ainda bem que o século mudou e muitas das leis arcaicas referente aos Ômegas, mudaram drasticamente. Uma das principais foi o direito de uma pessoa que apresenta a designação ômega, poder estudar em universidades e se graduar em qualquer profissão de sua escolha.
Agora já não precisamos mais de uma autorização judicial de aceitação de nosso Alfa, ou responsável legal. E ainda recebemos como incentivo, uma bolsa de estudos paga.
Aos poucos as Universidades e vagas formais de trabalho estão sendo preenchidas por Ômegas.
E posso afirmar que mesmo o meu campus não possui tantos Ômegas quanto o esperado. Muitas famílias ainda impõem o medo em seus filhos e filhas.
Por isso, faço de tudo para permanecer o mais anônima possível, tomo religiosamente os meus supressores de feromônios, e me mantenho o mais afastada possível de alfas.
Brigitte, a única pessoa que considero minha amiga aqui no campus, vive me dizendo que tenho que me soltar mais, fazer novas amizades e curtir minha vida universitária. Que mesmo a minha designação não pode me afastar de ter amigos e ter uma vida plena. Entretando, para ela é fácil dizer qualquer dessas coisas, Bry, meu apelido carinhoso para ela, é linda e uma Beta. Sua beleza é diferente da de Lisa, pois Bry tem uma aparência autêntica e natural, ou seja, o tipo de beleza que uma pessoa só possui ao nascer com ela.
Já Lisa, é linda. Mas, sua beleza é mais montada e artificial, ela vive se enchendo de perfumes com feromônios, destinados a chamar a atenção de alfas. As vezes tenho a sensação de que ela me odeia por nascer sendo o que sou.
E não sei porque ela tem esses sentimentos, ja que tento deixar a minha aparência o mais comum possível. Sei que não sou lindíssima, e tenho plena consciência que não sou nenhuma rainha da beleza. Eu deveria ser mais magra, mais dentro do padrão, quem sabe assim teria uma vida amorosa. Meus cabelos são indomáveis, minha pele sardenta não me ajuda em nada. Entretanto, tenho o padrão básico de uma Ômega, quadris largos, cintura estreita e seios médios, uma estatura mediana que frequentemente me irrita.
E sou sincera em admitir que queria estar no padrão, ser apenas mais um Beta por ai, mas, também tenho de admitir que não me desgosto tanto assim. Afinal de contas, tenho que ter orgulho da minha designação. Mesmo os cabelos cacheados e as sardas, no final acabo por não me esforçar tanto para seguir o padrão das mulheres Beta. Nunca consegui seguir dieta alguma, e apenas atualmente comecei a praticar atividade física com mais frequência.
E existe um motivo maior para o exercício físico, desde que iniciei a minha graduação, descobri que penso melhor ao caminhar ao ar livre.
A universidade está cheia de verde e trilhas, então tenho bastante espaço para exercer as minhas caminhadas matinais. Por ser um lugar muito seguro para estudantes Ômegas, não tenho medo algum de me exercitar sozinha. As regras são muito rígidas para qualquer um que atacar uma pessoa que se apresentou igual a mim.
Bry detesta suar. Várias vezes tentei fazê-la me acompanhar, todavia sempre sou descartada.
A universidade possui um grande ginásio esportivo e uma academia para os graduandos. Um local arejado e que possui uma centena de equipamentos modernos, cheia de estudantes Alfas e Betas. Porém, pensar em me exercitar com um bando de homens e mulheres sarados me olhando, e no caso dos alfas, sentindo o meu cheiro a todo o momento, como um convite para se aproximar, julgando todos os meus erros e o meu corpo, não é algo que eu queira.
Então, me agarro na desculpa de preferir estar ao ar livre e exerço os meus desejos de modo bem descompromissado.
As leis podem me garantir alguma proteção, porem prefiro não arriscar minha segurança de forma tão deliberada. Apenas imaginar uma sala coberta com vários feromônios Alfa, me faz tremer de repulsa.
Ao contrário do que muita pessoas pensam, mesmo para um Ômega, nem todo perfume alfa cheira agradável. Pelo menos para mim, a maioria dos Alfas possuem um odor azedo e forte, completamente repulsivo para os meus sentidos.
É durante muito tempo acreditei que seria assim, mas recentemente as coisas mudaram. E não é uma mudança que eu goste. Mas, fiz uma promessa de nunca ser dominada pela minha designação. Tudo isso é apenas biologia, algo que foi imposto pelos meus genes. Porém, não vou permitir ser dominada pela biologia do meu corpo.
Sou acordada dos meus pensamentos quando escuto o meu celular tocar. Acabo por continuar a ignorar o choro de Lisa, o cheiro de sua tristeza e pego o meu celular.
Encaro a tela do telefone sem expectativas, mas o sentimento muda quando vejo o nome brilhando na tela.
Dylan Hunter.
Imediatamente sinto o meu coração disparar dentro do peito.
— Alô. — Atendo no mesmo instante.
— Oi Emma, tudo bem? — A voz grossa e descontraída diz pelo telefone. — Você não desistiu do nosso encontro, não é mesmo?
— Oi Dylan, estou bem e não, eu não desisti, houve apenas um imprevisto e acabei esquecendo da nossa aula. — Respondo o mais verdadeiramente possível. Aos poucos sinto o meu coração voltar aos batimentos tranquilos. Falar com Dylan sempre me deixa assim, ansiosa, e nem é por ele ou o seu cheiro incrível de alfa. — Estou saindo agora do dormitório, você pode me encontrar na lanchonete de sempre?
— Claro Emma, obrigado mesmo. Você está me salvando. — Escuto sua risada áspera, e começo a correr pelo meu pequeno espaço, procurando alguma coisa para vestir.
Rapidamente marco um novo horário de encontro com ele, e em seguida desligo o telefone.
Acontece que desde o semestre passado, tenho me candidatado para algumas vagas de monitora em matérias que tenho facilidade. Essa atitude além de subir minha média com os professores e com meu currículo acadêmico, também me rende algum dinheiro extra.
Dinheiro esse que faz muita falta. Não sou rica, mesmo a minha bolsa de Ômega não paga todo o meu curso e minha mensalidade é paga com muito sacrifício. Então, entre estudar igual a uma enlouquecida, trabalhar algumas horas na biblioteca do campus, eu também presto essa monitoria para alguns alunos.
A monitoria funciona apenas nos dias da semana e em horário pré-determinado pela reitoria da universidade, mas, nada me impede de dar algumas aulas em horários combinados por mim e fora das minhas aulas, ganhando por fora algum dinheiro.
Tenho sido monitora de Dylan a pouco tempo, coisa de três semanas, e ele de longe é o aluno pagante mais regular na minha agenda.
Com a biblioteca do campus fechada para reforma, eu não recebo nada. Por isso, tenho que ter uma dedicação maior nos meus alunos de monitoria.
Com o drama de Lisa, acabei esquecendo de confirmar nosso encontro para mais uma aula de literatura americana avançada.
Com a maior rapidez, troco o meu pijama de algodão, por uma calça jeans, uma camiseta e um agasalho bem confortável. Não tenho tempo para pensar em nada mais. E Além disso, é apenas Dylan, o cara é lindo igual a um deus grego, possuindo o estereótipo perfeito do que um Alfa tem que se parecer, mas não está interessado em mim de forma alguma. Tudo o que ele precisa é ajuda em Literatura Americana Avançada. O que é um alivio, já que não gosto de dar monitoria para Alfas.
O problema é quem normalmente aparece no meio das nossas aulas. Esse sim, dá arrepios quando me olha. Logo, é por esse motivo que tento não parecer uma desleixada nos meus encontros com Dylan.
Quando saio do meu quarto de dormitório, não me incomodo em falar com Lisa.
Apenas me certifico de tirar duas barras de chocolate do meu esconderijo na escrivaninha e colocar as duas barras ao lado dela. Estou ciente que tudo o que ela vai fazer nessa noite é chorar e comer doces, e para falar a verdade eu nem gosto de chocolate, como muito pouco desse doce, toda a reserva que tenho em minha mesa de estudo é para os momentos iguais aos de hoje. Lisa terminando com mais um namorado alfa e se acabando de chorar.
Sei lá, acho que fico com pena dela.
Para chegar ao Lumino's, minha lanchonete preferida aqui no campus, tenho que passar no bicicletário e pegar minha bicicleta.
Ela é um modelo vintage, um presente de minha irmã quando descobriu que eu consegui uma bolsa par ingressar em minha graduação.
Eu sei que a maioria dos alunos possui carro ou moto. Mas, não tenho vergonha alguma de ostentar minha bicicleta azul. Meu dormitório fica tão perto dos prédios das aulas que é um sacrilégio pensar em usar outro transporte para me levar que não seja minha blue.
E nos últimos dois anos ela tem me servido muito bem.
Não demoro em encontrar a minha Blue, então coloco meus livros na sexta frontal e depois coloco os meus fones de ouvido, ligando o meu celular em uma das minhas bandas favoritas.
Quando Seafret começa a tocar, sinto o meu coração se encher de calor.
Nesse horário, as ruas pavimentadas do campus estão razoavelmente vazias. Ainda assim, mantenho a minha atenção enquanto pedalo.
Assim que chego no Lumino's, vejo a moto vermelha de Dylan estacionada na direita do estacionamento, mas vou até a pequena vaga para bicicletas e logo posiciono Blue em uma das vagas. Foi apenas quando estava prendendo a trava de segurança que percebi que em minha pressa para chegar na pequena lanchonete, esqueci de trocar as minha pantufas por um tênis ou sapatinhas.
Imediatamente senti meu rosto queimar de vergonha. Sou tão distraída, que sair por ai de pantufa não me surpreende em nada. É o tipo de coisa que faço quando não estou prestando atenção.
E não tenho como voltar para o dormitório é trocar as pantufas de lobo. Agora é ficar e torcer para que ninguém perceba esse meu lapso.
Com rapidez recolho minha mochila da sexta frontal de Blue e entro na lanchonete.
Imediatamente meu sentido olfativo é tomado por diversos odores diferentes. Desde as pessoas presentes e suas designações, ao cheiro suave de diversas comidas cozinhando.
Não demoro em encontrar Dylan sentado em um lugar mais afastado do centro, o seu odor de alfa é levemente cítrico e convidativo, lembra um dia preguiçoso de sol no verão. Assim que me vê ele abre um sorriso largo e acena com uma das mãos.
Quando Dylan sorri parece que algo no ambiente se ilumina. Não sei explicar, mas não é a toa que as mulheres desse campus são apaixonadas por ele.
Seus cabelos loiros de uma tonalidade mais suja, seus olhos castanhos, sorriso largado e físico atlético tem o poder de abaixar a calcinha de uma multidão de graduandas.
Não que isso aconteça comigo, não sou afetada dessa forma por ele, e mesmo o seu cheiro convidativo não é uma tentação inegável. Eu o acho atraente? Sim, mas não o meu tipo de atraente.
Não igual ao...
Rapidamente prendo o meu pensamento de continuar. Não diga o nome de satã ou ele aparece.
É melhor não pensar no irmão gêmeo de Dylan, pois sim, colocar um deus grego Alfa na terra para as mulheres sofrerem não foi o suficiente para deus, ele tinha que mandar em dose dupla.
Enquanto Dylan é todo Apolo, seu irmão está mais para Hades.
Mais uma vez tenho que me forçar em não pensar no irmão de Dylan, em seus olhos castanhos tão gelados quanto um iceberg.
Dylan me recebe com um abraço apertado quando me encontro com ele. Esse hábito nunca deixa de me fazer corar, mas sei que ele não tem segundas intenções comigo.
Não sou seu estilo de garota, mesmo sendo uma ômega.
— Baixinha. — Ele me cumprimenta com um sorriso aberto, seu cheiro é ainda mais forte quando estamos pertinho um do outro, faz o meu nariz coçar e uma pequena sensação de segurança crescer em meu peito. Eu sei que ele está em supressores para controlar seus instintos Alfas e manter os seus feromônios em controle. — você não sabe o quanto é maravilhoso te ver. Por um momento pensei que você tinha desistido de tentar enfiar Literatura na minha cabeça, e iria me deixar afundar no pântano do desespero acadêmico.
Não posso deixar de rir com o seu exagero. O drama de Dylan sempre me diverte. Não sei de onde ele tira essas coisas.
— Desculpe, estava estudando e acabei me esquecendo de confirmar nossa aula. — Respondi o mais sincera possível.
Com rapidez me livrei do abraço e me sentei, escondendo as minhas pantufas de lobo embaixo da mesa.
Sem delongas retirei meus livros de dentro da mochila. Amarei meus cabelos em um rabo de cavalo alto e começamos os nossos estudos.
O bom da lanchonete Lumino's é que ao contrário das outras lanchonetes do campus. Essa aqui é um local familiar, cheia de nerds e geeks. Todos estudando ou conversando mais baixo. Algumas poucas famílias estavam presentes, e os filhos pequenos nunca eram escandalosos.
Acredito que a atmosfera do local acaba impregnando quem entra. Não existe uma competição pela designação, ninguém tentando ser superior ou descaradamente flertando.
É minha lanchonete preferida e quando as poucas vagas temporarias de verão abrem, sempre me candidato e faço alguns turnos.
As outras lanchonetes do campus são cheias e barulhentas. Lotadas de Alfas e Betas jogadores de futebol americano, esportistas e lideres de torcida betas, não esquecendo dos artistas e populares.
Para mim um filme de terror, principalmente olfativo. Quando estou ao redor de muitos Alfas tento manter sempre a minha cabeça erguida e mostrar uma atitude forte, mesmo sendo uma ômega, que em geral é uma designação que muitos acreditam ser de pessoas naturalmente submissas e mansas.
Meu interesse em esportes morreu na minha adolescência, e mesmo tendo sido uma líder de torcido no colegial, quando minha vida virou de cabeça para baixo no dia que me apresentei, acabei por abandonar tudo aquilo e nunca olhei para trás.
Não sinto falta, nunca quis estar entre os populares. Prefiro a segurança e a liberdade presentes no anonimato.
Ser comum significa ser livre, por isso sempre tomo os meus supressores e fico longe de problemas, assim não tenho olhos constantes em mim. Sabendo tudo o que faço, todas as roupas que visto e julgando o meu comportamento diário, esperando que eu caia para o primeiro Alfa que me perfumar. Aqui na Universidade, procuro ser o mais autentica possível. Visto minhas camisetas geeks e roupas vintage, deixo o meu cabelo crescer do modo que gosto e não do modo que está na moda, na maioria dos dias os fios grossos e abundantes me ajudam a esconder minhas glândulas de feromônios na base do meu pescoço e atrás das minhas orelhas. Não tenho ninguém de olho na minha vida, cuido dos meus assuntos sem medo de julgamentos. E não preciso me preocupar com a quantidade de amigos que possuo, preferindo sempre a presença de Betas.
A aula está pela metade quando o celular de Dylan toca. Imediatamente ele pega o celular e depois de olhar o monitor me lança um olhar de esguelha com um sorriso sapeca em seus lábios ao atender a ligação.
— Kane, sou eu. — O escuto dizer, tento manter a minha atenção no texto que estou lendo, mas assim que o escuto pronunciar o nome do irmão, sinto algo em meu estômago congelar e esquentar ao mesmo tempo, minhas glândulas no pescoço começam a coçar de forma muito delicada. No mesmo instante estou desconfortável, por isso evito olhar para o meu aluno. E finjo que ainda estou lendo. — Estou estudando no Lumino's.
Se eu prestar bastante atenção quase posso ouvir a voz grossa de Kane Hunter do outro lado da linha. Meu coração continua disparado no peito enquanto me questiono se devo pedir licença e ir ao banheiro. Mesmo não estando com vontade, tenho que tentar voltar a ter controle.
— Sim, sim. Com a baixinha. — Dylan continua a sua conversa e dessa vez eu realmente escuto o rosnado de Kane pelo telefone. Não faço a mínima ideia do que eles estão conversando, mas independente do mal humor de Kane, seu irmão solta uma gostosa gargalhada. — Ei, você sabe que eu tenho o melhor comportamento com garotas bonitas.
De imediato olho em volta em busca de alguma garota bonita que tenha chamado a atenção de Dylan. Existe uma morena solitária do outro lado do restaurante, ela está lançando olhares sonhadores em direção a Dylan, seu modo discreto diz que ela deve ser igual a mim em relação a flertar. O que se certa forma me diverte internamente.
— Nem pensar, não terminei minha aula. E a baixinha tem muito a me ensinar ainda, não é, Emma? — Sua voz arrastada chama a minha atenção. Seus olhos castanhos cheios de segredos me encaram divertidos.
— Ainda não terminamos o capítulo e eu não sou baixinha. — Digo de modo sério.
Dylan parece achar graça das minhas palavras e as de Kane também, porque ele fica vermelho ao tentar segurar um explosão de riso.
Kane agora deve estar gritando algo com seu irmão pois sua atenção volta totalmente para o celular.
— Você é tão engraçado irmãozinho. — E com essa última frase ele desliga seu celular e me olha de modo inocente. — desculpe a interrupção, onde estávamos?
Com o meu indicador, aponto para o trecho do texto que ele estava lendo. Não digo mais nada para ele. Mesmo estando curiosa sobre essa conversa estranha que ele teve.
Kane. Alfa. O instinto suave ronrona ao queimar em meu cérebro e logo levo os meus dedos para minha têmpora.
Pensar nele me deixa com dor de cabeça, e internamente desejo que ele não venha encontrar com seu irmão.
É engraçada pensar nos dois gêmeos. Eles não estavam aqui quando iniciei minha graduação, chegaram neste semestre e fizeram de toda universidade o seu pequeno reinado.
Não tenho medo de arriscar dizer que não existe ninguém que não conheça os irmãos Hunter.
E mesmo sendo gêmeos, ambos são incrivelmente diferentes na aparência. Dylan e todo quente e risonho, amigável com todo mundo e conquistando admiradores por onde passa, sua atitude Alfa é bem controlada.
Já Kane é difícil de explicar. Primeiro porque pouco o conheço e depois porque ele é tão intenso e misterioso que nem satã deve saber de seus segredos. Se você olhar bem para ele pode notar as semelhanças que o irmão e ele carregam, as sobrancelhas cheias e bem desenhadas, a tonalidade dos cabelos, a postura orgulhosa de andar, os traços suaves do maxilar, estatura, um verdadeiro Alfa até a medula dos ossos.
Mas tirando isso, eles são quase água e vinho.
Kane é mais robusto que o irmão, mais corpulento, também leva no corpo uma centena de tatuagens que cobrem quase que inteiramente a sua pele. A tinta em excesso o faz parecer tão perigoso que as pessoas normalmente não sabem como lidar com ele.
E seu cheiro Alfa ascende algo dentro de mim. É ridículo o quanto sou puxada para esse odor, o tanto que meu cérebro vira gelatina quando ele está por perto.
Onde um é claro o outro é escuro.
Dylan possui riso no olhar. Kane não, a intensidade de seus olhos castanhos te faz pensar que ele enxerga toda a sua alma. É difícil descrever o que parece.
E é claro que a maior diferença está no fato de que Dylan gosta da minha presença. Kane nem um pouco.
Quando ele me olha. Algo queima tão profundamente em seus olhos que me sinto inteira desconfortável e carente.
Somente pensar nisso já me faz querer acabar a aula mais cedo. Não quero me encontrar com Kane. De jeito nenhum.
Então, é isso o que faço quando noto que Dylan terminou a leitura do capítulo. Ele não parece surpreso com o final estranho e rápido da aula, muito pelo contrário, ele carrega em seus lábios um sorriso contido, quase como se estivesse guardando um segredo muito engraçado.
De lição de casa, peço que ele escreva um resumo desse capítulo enumerando os similaridades entre os contextos apresentados.
Me sinto feliz quando noto o sorriso sumir de seus lábios.
— Você é uma coisinha má. Uma ômega não deveria ser doce e boa?- O escuto dizer ao me encarar.
Quando não respondo nada, apenas o encarando do modo mais malvado que consigo, ele volta a sorrir descaradamente.
— Ele precisa disso, sabia?
— Quem precisa do quê? — Pergunto curiosa. Não me incomodo com sua observação da minha malevolência quando sou contrariada. Eu sei que sou assim, e me orgulho de se forte.
— Kane. — Ele me responde enquanto recolhemos as nossas coisas .
Agora é que não entendo nada mesmo. O que eu tenho a ver com Kane? E desde quando o meu lado sombrio é necessário para alguém?
Quer dizer, eu nunca vi um homem ter tantas mulheres iguais a Kane. É mais que óbvio que Dylan não fica atrás, mas nunca vi Kane sozinho, ele sempre está com uma graduanda diferente presa em seus braços. É embaraçoso e ridículo notar o quando o sexo feminino não significa nada para os irmãos.
Rapidamente recolho os meus livros e os enfio de qualquer jeito dentro da minha mochila.
Antes de sair da lanchonete, ainda paro e compro um chocolate quente. A noite está muito fria e vou precisar desse pequeno calor quando chegar ao meu dormitório, com sorte Lisa já estará adormecida.
Dylan me espera pacientemente, o que acho muito engraçado.
Quando recolho meu pedido, caminho até ele e saímos juntos para o ar gelado da noite.
— Podemos marcar nossa próxima aula ainda essa semana? — Dylan me pergunta quando estamos parados nos primeiros degraus da porta da lanchonete. — Você pode ir até meu apartamento dessa vez?
— Não sei Dylan, ir no seu apartamento não parece certo. — Respondo de forma sincera.
— É claro que é certo. Eu vou me comportar e Kane não vai estar lá. Prometo. — Ele insiste e seus grandes olhos castanhos e sorriso de menino pidão, são irresistíveis de negar. Também existe verdade em seu cheiro, ele não está me enganando.
Bom, mais uma aula. Mais um valor para receber. Corro o risco de encontrar com Kane, mas sei ignorá-lo muito bem, tenho que acreditar que não sou dominada pela minha biologia. Estou ficando especialista em evitá-lo e ao seu cheiro maravilhoso.
— Ok. Podemos marcar para essa quinta-feira, no mesmo horário de hoje? — Pergunto ao encará-lo.
— Perfeito. — É a resposta de Dylan para mim. É claro que sou surpreendida quando ele se inclina e passa os braços em minha volta. Me abraçando bem apertado, seu corpo é mais quente que o meu, mais uma característica Alfa. — Amanhã irei fazer o pagamento das aulas em deposito na sua conta.
— Eu já paguei. — Somos interrompidos pela voz grossa de Kane Hunter, quase posso detectar um rosnado em seu timbre.
Por alguns instantes sinto o meu coração disparar no peito, meu estômago afunda em algo gelado e imediatamente me torno tensa. Algum instinto antigo me diz para ir até o Alfa e oferecer meu pulso para que ele se acalme com o meu cheiro. Tenho que me sacudir internamente e fortemente para não agir como o instinto manda.
— Irmãozinho. — Dylan cumprimenta Kane com um largo sorriso. Um de seus braços ainda está abraçando os meus ombros, o que me deixa ligeiramente desconfortável.
Não consigo controlar o rubor que toma conta de mim quando vejo os olhos escuros de Kane presos exatamente onde Dylan ainda me segura. Sua mandíbula fica ainda mais serrada e seu olhar hostil seria intimidante se eu já não estivesse acostumada com sua carranca.
No mesmo instante me solto do aperto de Dylan e dou um passo para o lado. Não me levem a mal, Dylan é incrivelmente lindo, e tem um carisma tão potente que conquistaria a atenção de um defunto. Mas, não me sinto atraída.
Não quando o cheiro de Kane me chama. Seu odor forte de Alfa viaja através do meu corpo e sempre me faz um pouco necessitada, meu núcleo aperta apenas com os som de sua voz, e algo canta dentro de mim enquanto sinto minhas glândulas no pescoço e nos pulsos coçar e irritar.
Seus feromônios são tão atrativos para mim, que quase posso sentir o gosto em minha língua.
Olhar para os dois irmãos, lado a lado é uma visão. Os gêmeos são tão parecidos e ao mesmo tempo tão diferentes.
Enquanto Dylan está usando uma jaqueta jeans de inverno e calças azuis simples. Kane está vestindo uma jaqueta preta por cima de uma camiseta branca e jeans escuros. Suas mãos são cobertas de tatuagens, vários símbolos, desenhos e escritos, que também cobrem a pouca pele visível no pescoço. O cabelo loiro cortado bem rente a cabeça e sua expressão forte apenas aumentam o seu ar de garoto-problema.
Seus olhos castanhos tão parecidos com os do irmão ao seu lado, me observam com uma intensidade que acho difícil ignorar.
Eu sei que toda vez que ele me olha deve pensar no tapa que lhe dei, logo quando nos conhecemos. E mesmo estando arrependida da agressão, afinal não sou o tipo de pessoa que chega a esses extremos, não consigo achar coragem para pedir desculpas, e no final das contas ele mereceu.
— Olá Kane. — Cumprimento ao encará-lo e até consigo dar um pequeno sorriso.
Ele continua com a mesma expressão de seriedade em seu rosto.
— Emma. — É tudo o que ele diz. Sua voz rouca arranha ao pronunciar o meu nome e não posso deixar de sentir um arrepio em minha pele. Mas, logo culpo a brisa gelada pela sensação.
— Você sempre salvando a minha pele. — Dylan interrompe a nossa batalha de olhares. Mais uma vez ele me puxa para um abraço e sou pega de surpresa. — Vocês dois são meus salvadores.
— Porra Dylan, pare de me testar. — Kane rosna ao fechar ainda mais sua expressão. Seus olhos queimam de raiva e seu cheiro intensifica em notas amargas.
— Você está todo carente esta noite. — Retruco ao sorrir para Dylan. Volto a me afastar dele. — Onde está o seu fã clube de iludidas?
— Você é a única que vale a pena nessa Universidade, baixinha. — Dylan me responde todo sedutor, quando ele levanta a mão para me tocar no rosto, seu movimento é interrompido por Kane que rapidamente segura o seu braço.
Os olhos castanhos de Kane estão ardendo quando ele encara o irmão gêmeo.
— É o último aviso que te dou. Pare de me testar. — A sonoridade ameaçadora de sua voz estremece alguma coisa dentro de mim. Isso é um comando Alfa.
Os irmãos ainda trocam alguma espécie de conversa através do olhar, depois Dylan contém um sorriso e dá dois passos para trás.
Não entendo nada da interação entre os irmãos. De repente fico me perguntando se Kane me acha tão repulsiva ao ponto de não querer que seu irmão encoste em mim.
Isso machuca.
— Bom, eu já vou indo. — Digo ao repuxar a minha mochila para o meu ombro. O embrulho da lanchonete com o meu chocolate quente ainda está bem seguro em minha mãos. — Dylan se você realmente quiser a aula, me confirme por uma mensagem no celular. Ok?
— É claro, baixinha. — Escuto a sua voz dizer, mas não estou realmente prestando atenção nele. Apenas faço de tudo para deixar de ser o centro das atenções de Kane, mais uma vez.
— Não sou baixinha, então pare com esse apelido estúpido. Ou vou começar a te chamar de sujeito castrado, ou algo parecido e você não vai gostar. — Ameaço de forma mais branda, ainda assim coloco em minha face o meu melhor olhar de malvada. Espero que dê resultado.
Dylan apenas gargalha mais uma vez, enquanto Kane continua me encarando com seu olhar intenso.
Aceno de forma discreta uma vez para os irmãos, enquanto me afasto para o lugar onde deixei a minha bicicleta.
— Ei, Emma! — Escuto uma voz potente me chamar. É claro que reconheço a voz, por isso não posso deixar de sentir o meu coração disparar dentro do peito. Com uma expressão neutra, me viro para Kane Hunter. — Eu gostei das pantufas.
Seu comentário me faz corar no mesmo momento. Fiquei tão distraída com sua chegada que até me esqueci que tinha ido a aula de Dylan, usando pantufas fofas com um lobo de pelúcia preso nelas.
O cretino até está sorrindo para mim, um de seus raros sorrisos, todo largado e predador.
— O que posso dizer, tenho que apoiar o time da casa. — Respondo a altura, porém não chego a sorrir nem nada disso.
Não espero a sua resposta, apenas caminho até onde deixei Blue.
Depois que organizo minha mochila na cesta da bicicleta. Volto a colocar meus fones de ouvido, permitindo que a música de Seafret me enche novamente.
Para sair do estacionamento do Lumino's tenho que passar pela frente do carro de Kane, ele já está ao volante e seus olhos castanhos continuam a me observar. Noto que Dylan está parado ao lado de sua moto vermelha. Ambos os Alfas me encaram.
Com um último aceno, sigo o meu caminho até o dormitório feminino.
Deixo os irmãos problemas para trás. Tenho que ter em mente que meu contato com eles tem que ser passageiro e cuidadoso.
Se é meu desejo continuar anônima, tenho que me manter afastada de homens iguais aos gêmeos.
Estar próxima de Alfas nunca é uma boa ideia.
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