Devaneios Dilacerados
1 Lacey, Doce Lacey
Tudo que minha visão alcançava era o brilho da pele de Lacey refletida num raio de sol, que invadia a varanda com o seu amigo vento, a agitar seus cabelos cor de mel, doces e enrolados. Seu sorriso era indiferente e demonstrava sua meiguice, como uma singela flor que desabrocha na curta e alegre primavera.
O calor de seu corpo acanhado e sem curvas desnecessárias, o seu modo de respirar... Tudo era tão conveniente... Tão belo, tão... Maravilhoso! Fiz questão de aproximar-me a ela, com o intuito de lhe observar suas feições com mais nitidez e me maravilhar com o seu jeito meio... Desligado e imaturo. Pairei meu andar a uns dois passos atrás de minha bela amada. Como não percebi hesitação alguma, decidi então, que se andasse os dois passos que restavam ela não iria se importar. Foi o que fiz. Ela não se desligou da monótona e remota paisagem, apenas me deu um ‘Oi’ ao ouvir meu alivio de felicidade (que convenhamos, foi quase um urro). Respondi sem mostrar que estava interessado em conversas:
- Está uma bela manhã, não acha? – Ela disse.
- Sim, está. – Respondi, mas a única coisa em que eu havia reparada era em seus olhos de cor esverdeada, que brilhavam de uma intensidade absurda.
Oh, Lacey... Como você é linda! Fui me aproximando devagar, e observando suas respostas imaginárias com o movimentar de seu lindo corpo. Ela não se movimentou hora alguma, o que era um triunfo pra mim. Meu desajeitado corpo estava tão perto da pequena Lacey, que eu sentia o perfume de seus cabelos cor de mel, um cheiro forte e doce que ao penetrarem em meus ávidos pulmões, me dava a sensação de estar um campo florido, e aquele velho perfume ficou gravado em minha mente (e coração) pra sempre.
Agora a única coisa que nos separava era uma tênue linha entre a realidade de estar próximo a minha amada, e a minha vasta e incansável imaginação. Seus cabelos, como o toque de uma seda, tocavam minha têmpora esquerda, enquanto o vento os agitava. Sem mais delongas, resolvi chegar logo ao ponto, mesmo que fizesse uma grande besteira ao ponto de Lacey, de constrangê-la.
No momento em que toquei seu ombro desnudo, ela voltou sua atenção pra mim e me olhava de forma agonizante. Acariciava seu braço, sentindo seus louros e delicados pelos, se arrepiarem de forma deliciosamente boa. Lacey, pelo incrível que pareça não se afastou nem ao menos pronunciou uma palavra de negação. Afaguei sua nuca com leveza, sentindo seu calor e me deliciando com os movimentos involuntários que seus lábios faziam. Segurei sua cintura, acariciando com veemência seu lindo e delicado busto juvenil. Enquanto Lacey alisava meus cabelos com seus delicados dedos, e sua amabilidade costumeira. Contemplando seu lindo e precioso rosto, tocava-o com as costas da minha grande e robusta mão, e tirando com a ponta dos dedos os desobedientes cachos que pousavam na sua rosada bochecha. Já não conseguia agüentar mais. Com certa pressa, toquei seus lábios com meus dedos, e observava seus olhos se fecharem com lerdeza, como se estivessem pesados. Eu me sentia inteiramente dopado de emoção, meu coração estava em um ritmo que seria impossível descrever.
Finalmente me deixar levar, e rocei meus lábios no dela e sentindo que ela fazia o mesmo, não era mais necessário adiar. Seus movimentos eram graciosos, seus lábios eram quentes e doces, e o toque de suas mãos em meus cabelos me fazia... Flutuar. Oh, Lacey, o motivo de minha existência.
- STAAAPH!
Acordei assustado com o barulho da janela ao bater com o vento. E percebi que tudo que aconteceu era fruto de umas doses de uísque e um dia cansativo. Afaguei meus cabelos, e corri para atender ao telefone que deveria estar tocando uma eternidade.
- Alô?! – Disse, enquanto bocejava.
- Corey Taylor? – Disse uma voz em tom melódico.
- Sim, sou eu. Quem deseja? – Disse, não reconhecendo sua bela e rouca voz.
- Aqui é uma amiga de Lacey... Esse era o último número que ela teria ligado do celular dela, então, resolvi ligar e avisar que...
- O quê aconteceu? Algo de errado com ela? Como Lacey está? – Não sei se dava pra escutar do outro lado da linha, mas meu coração estava batendo tão descompassadamente que me causava certa falta de ar.
- Encontraram-na desacordada em seu quarto... Overdose de calmantes e anti-depressivos. – E assim dito, desligou sem esperar resposta.
Fui até a iluminada varanda, me recostei sobre a fria e brilhante sacada de mármore bem polido. Minhas lagrimas caíram sobre ela, sem pestanejar. Vento soprava ruidosamente, o sol brilhando intensamente, aquele beijo e o realejo, e tudo corrompido, estraçalhado... Morto. Porém dia continuava lindo.
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