Devaneio

2 Capítulo Um - Contato Imediato


Notas iniciais
Capítulo fresquinho para vocês. Ainda não sei como serão as postagens, mas preciso de uma resposta de quem lê. Estão gostando? Continuo? Boa leitura.

Rio de Janeiro — Reinício das Aulas do Último ano no Colégio

– Sam? Sammy? Samantha!

Levantei os olhos quando uma mão morena começou a sacudir em frente ao meu rosto. Ana me encarava levemente aborrecida e a julgar por isso, devia estar me chamando há muito tempo.

Nem notara que encarava o desenho abstrato do piso de linóleo, tão perdida em pensamentos que estava. Havia mergulhado em uma das milhares de ideias que corriam por meu cérebro inquieto – roteiros intermináveis que desenhavam-se sem meu consentimento.

– Desculpa Ana. Por um segundo eu parei longe daqui.

– Você mora no mundo da lua. – sentou ao meu lado e sorriu torto. – Tem certeza que quer virar médica? Eu acho que você devia pensar melhor.

– Você não vai desistir de me fazer mudar de ideia, não é?

Ana sacudiu a cabeça. Nós já tivemos essa mesma conversa milhares de vezes nos anos que nos conhecíamos e eu nunca mudava de ideia. Iria estudar medicina no ano seguinte e seguiria os caminhos de minha mãe – mesmo tendo uma parte de mim que amaria estudar cinema assim como meu pai.

Antes que eu pudesse falar, o sinal anunciando o começo da aula tocou e a multidão de alunos que ocupava o pátio do colégio começou a rumar para suas salas. Não teria aquela primeira aula com Ana. Ela estava na turma de inglês avançado e eu havia optado por fazer Italiano – uma das vantagens de ter nacionalidade estadunidense era essa, escapar das aulas maçantes da Sra. Correa.

– Nos vemos na próxima aula. – Ana falou levantando do banco e piscou o olho antes de seguir para sua sala.

Eu ainda fiquei alguns segundos encarando o nada antes de suspirar e recolher minha mochila. Tinha que aguentar somente mais um semestre e então finalmente estaria livre daquele lugar. E então começaria a verdadeira prova de fogo – cursar os anos de medicina; eu realmente não estava ansiosa para isso.

Minha turma de italiano era razoavelmente pequena; pouco mais de dez alunos ocupavam a sala que parecia gigante. A maior parte dos estudantes acabava optando por tomar aulas de inglês ou até espanhol, então as de italiano sempre tiveram poucos ocupantes.

– Ei, Sam! – ouvi uma voz chamando meu nome e encontrei Pedro acenando entusiasmadamente em minha direção. Sorri levemente e segui até a mesa ao lado da sua.

– Ei. – cumprimentei assim que larguei minha mochila no chão. – Ansioso pelo último semestre?

– Ansioso pra terminar esse ano. – ele riu e o acompanhei. Mas nem pudemos conversar muito já que nossa professora de italiano, Srta. Evans, entrou na sala.

Ela não tinha mais de vinte e sete anos e nos dava aula pelo terceiro ano seguido. Era uma morena alta com olhos cor de mel e um sorriso pequeno. Uma combinação perfeita para enlouquecer os hormônios adolescentes do colégio — e eu me incluía nesse grupo. No primeiro ano tive uma queda monstruosa pela Srta. Evans, até descobrir que ela era comprometida com uma mulher igualmente maravilhosa.

Minha paixão então mudou para um tipo de admiração silenciosa e evoluiu para uma amizade saudável.

– Bom dia, classe. — ela nos cumprimentou sorrindo. — Animados para mais um semestre comigo?

– É o último ano, professora. — Pedro falou chamando a atenção dela. Seus olhos risonhos caíram e mim e ela piscou. — Por mais animados que todos nós estamos em ter a senhorita embelezando a sala, queremos mesmo é a formatura.

Murmúrios de concordância encheram a sala. Todo mundo estava louco para terminar aquele último semestre e ter a tão desejada festa de formatura.

– Estou sendo substituída por uma festa. – ela colocou uma mão sobre o peito de forma dramática. – Triste fim para um professora de italiano.

Aquilo fez todos os alunos rirem. Era por isso que gostávamos tanto dessas aulas – nunca era um marasmo como as outras. A Srta. Evans tinha um talento especial para deixar as conjugações verbais e as palavras difíceis mais fáceis de aprender.

Como todo começo de semestre, cada um de nós contava um pouco como haviam sido as curtas (ou longas se estivéssemos começando o ano) férias. Era minha vez de falar quando fomos interrompidos por uma batida ritmada na porta; nossa diretora anunciando sua chegada.

A velha senhora fez sua presença conhecida poucos segundos depois, trazendo junto consigo uma garota que eu não lembrava de ter visto em minha turma antes. Ela parecia mais nova do que eu e o restante dos garotos.

– Desculpe interrompê-la. – a Sra. Lancaster abriu um sorriso cansado. – Estou trazendo sua nova aluna. Essa é a senhorita Ferreira. Ela vai cursar o restante do semestre com vocês.

– Seja bem vinda, senhorita Ferreira.

– De qualquer jeito, — a Sra. Lancaster praticamente empurrou a garota para a frente da turma e então bateu palmas uma vez, fazendo com que um dos garotos, que olhava embasbacado para a garota nova, pulasse assustado. – ela está entregue em suas mãos. Qualquer coisa, eu estarei na minha sala.

Ela esperou que a senhorita Evans concordasse com sua recomendação e, lançando um olhar desconfiado para a turma, finalmente deixou a sala. Aproveitei o silêncio que se seguiu para finalmente analisar a novata.

A garota era quase da minha altura e tinha longos cabelos negros como a noite, que contrastavam com a pele levemente bronzeada. Eu conseguia ver a cor de seus olhos da curta distância que nos separava – olhos tão verdes quanto a grama depois de uma suave garoa, mas tempestuosos como o mar enfrentando uma brava tempestade.

Nessa hora ela olhou em minha direção e eu senti uma explosão de clichês irromperem por minha alma; a respiração suspensa na garganta, as palmas da mãos suarem, o coração disparado no peito. O olhar durou uma fração de segundos mas eu podia jurar ter visto um sorriso brilhar em seu rosto.

– Srta. Ferreira, se importa de apresentar-se a turma?

Quando seus olhos voltaram-se para a professora, percebi um leve tom rosado que coloriu suas bochechas. Deus, ela era linda.

– Hm...Claro. – suas mãos moveram-se inquietas. – Meu nome é Vitória Ferreira e eu tenho dezesseis anos.

Dezesseis? – foi a pergunta surpresa da professora. Até eu achei aquilo estranho. Normalmente os alunos do nosso ano tinham dezessete ou dezoito anos, então ter alguém mais novo que isso era algo inusitado.

– Eu ainda estou no segundo ano. – Vitória respondeu mudando o peso de forma desconfortável. – Mas, aparentemente, meu italiano é muito elevado para acompanhar o dos meus colegas, então me mudaram para a turma avançada.

– Bom, seja bem vinda a nossa turma. – a Srta. Evans abriu um sorriso largo antes de fazer um gesto com as mãos abrangendo a sala inteira. – Somos poucos, mas tenho certeza que será muito bem recebida aqui.

Foi a vez de Vitória abrir um pequeno sorriso. Seus lábios finos esticaram-se e suas feições delicadas encheram-se da mais completa alegria.

– Você pode escolher o lugar que te agradar mais Vitória.

– Certo.

Ainda sorrindo, Vitória fez seu caminho até uma das mesas que ficava ao lado da janela direita e dava para o imenso pátio do colégio – exatas três mesas e uma fileira de onde eu me sentava, o que me garantiu uma visão privilegiada da novata.

A Srta. Evans começou a andar em frente ao quadro explicando o conteúdo que veríamos naquele semestre e eu acabei me desligando; rabiscava frases desconexas em meu caderno enquanto esperava o tempo passar. O dia estava nublado e anunciava que as previsões mostradas aquela manhã se confirmaria – uma chuva torrencial cairia sobre a cidade.

Se tinha uma coisa que eu amava eram tempestades. Os raios brancos (amarelados talvez) cortando a negritude do céu e interrompendo o silêncio sepulcral dos lugares; os ventos agitando-se contra o mar, fazendo as águas correrem sem descanso. E então vinha o que eu mais gostava. Olhar a lua depois da tormenta dos céus – o tom acinzentado, exatamente igual aos meus olhos, que preenchia seu formato.

Eu encontrava paz em tempestades.

– Sam, a aula acabou. – pisquei os olhos quando senti um cutucão e percebi que Pedro me encarava com a sobrancelha arqueada.

Sacudi a cabeça e comecei a recolher meu material. O garoto ficou me esperando de forma paciente, afinal, iriamos para a mesma direção.

– As aulas mal começaram e você já foi parar em um universo paralelo? – Pedro estava tentando esconder um sorriso. Sabia que o garoto morria para fazer alguma piadinha com seu comportamento.

– Não continua o que você quer falar. – estreitei os olhos.

– Mas eu não ia falar nada.

– E eu não te conheço, Batista.

Ele começou a rir. Fiquei o encarando de forma séria por alguns segundos antes de me render ao riso – que durou tempo o bastante para atravessarmos os corredores até nossa sala de aula.

Notas finais
Lembrando que vocês podem me encontrar no ask.fm/singalullaby. Podem me chamar se quiserem bater um papo sobre qualquer coisa, mesmo. Comentem!