Devanear
1 Domingos
Domingos
Se tem um dia da semana que parece ter o seu próprio tempo é o domingo, um dia arrastado, com cheiro de café recém coado e música de fundo. Não qualquer música, mas aquelas que facilmente seriam encontradas nas novelas de Manoel Carlos, sendo trilha sonora de alguma Helena, que poderia ser a musa perfeita de um domingo, andando em câmera lenta à beira mar. Um dia que nos desacelera exigindo uma presença absoluta, bem mindfulness, habitando intensamente o presente, observando atentamente o viver. Uma velocidade diferenciada que aumenta nossas percepções sobre nosso mundo interior. O terror de quem não gosta de se habitar e presenciar suas vivências, fugindo de si. Domingo é o abismo citado por Nietzsche, nos olhando de volta, nos ressoando. Depressivo e solitário para uns, intenso e um convite ao novo para outros. Domingo é dia de experimentar aquela oficina de pintura de cerâmica em um bairro burguês, mas também o dia de se recolher com sua coberta felpuda barata e velha segurando sua xícara descascada favorita, apenas sentindo o vapor no rosto do seu cafézinho feito na prensa francesa. Dia de sentar em frente à praia e sentir a maresia ajudar o sol a corar seu rosto, a ouvir o som do vento e das águas indo e voltando da beira da areia. Dia de ler aquele livro, pesado nas mãos, com uma visão profunda sobre um assunto que você nunca havia pensado até ver aquele livro em promoção em uma livraria qualquer. Domingo tem cara de rede balançando fazendo o metal do gancho reclamar, de cheiro de sal no corpo, de barulho de colher de pau misturando a dobradinha nas gigantes panelas de metal, é gosto de salpicão com passas (Eca! Vou ter que tirar todas). Domingo é um estado de espírito, sem correria, só estando, sem expectativas que às 17 horas você tem que sair correndo de um canto para outro e quando corremos a sensação e estar sendo gravado em slow motion. Domingo é dia de poder perder o ônibus, de ficar mais uns minutinhos no evento, de beber mais umazinha e chamando de saideira mesmo sendo a Dona Saideira IV. Domingo é família ou a falta dela. Domingo tem gosto de fim, talvez seja por isso que “vivemos tudo que há pra viver”, adoramos aproveitar as coisas no fim, ligamos o foda-se e personificamos "O Louco", se jogando no abismo, feliz e contente, abraçando seu destino. Domingo é ação, sem planos, sem expectativas, mas cheio de vida e oportunidades. Domingo é sentir um abraço macio da própria cama. Domingo é grito de gol. Domingo é cafuné. Domingo é existir.
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