Deuses e Semideuses
1 Cap. 1 - Manchas de um Passado Sombrio - Parte I
Notas iniciais
Pov. Annabeth
O céu pegava fogo, o mar congelava e o no meio de todo esse caos, lá estava eu parada, com o coração saindo pela boca, olhando quando alguém que nunca deveria ter nascido, destruía tudo o que eu amava.
— Corra Annabeth! – Foi a última coisa que ouvi antes de acordar escutando as batidas fortes do meu coração.
Me sentei ainda tremendo e suando, o tempo frio de nada adiantava. Eu queria que aquilo fosse só um sonho, mas eu sabia melhor do que me enterrar naquela dor fantasma. Foi real o suficiente, e eu sabia disso por que ainda tinha as cicatrizes daquele dia para me lembrar.
Olhei através da pequena janela que fornecia os primeiros raios de sol, me fazendo lembrar que aquele era um novo dia. Com guerra ou sem guerra Apolo ainda tinha que trabalhar.
Me sentei com o meu corpo ainda dolorido da ação de ontem. Olhei para as marcas roxas que começavam a escurecer um pouco mais e me senti frustrada. Cinco dos nossos haviam perdido a vida ontem, mas conseguiram salvar mais de 200 pessoas.
Apertei o punho com raiva, sabendo que por mais que lutássemos, já estávamos condenados, mas ninguém iria admitir isso, lutar ainda era melhor do que se deixar ser morto. Ainda penso que se aquele dia fosse diferente, não estaríamos assim. Tantas coisas ainda não são claras.
Suspirando uma vez mais pelas minhas dores, me levantei para começar mais um dia onde não havia certeza se viveria ou morreria.
Quando entrei no pequeno cubículo que chamávamos de cozinha, logo reconheci a pequena cantoria misturada com balidos. Grover era um sátiro, com quase trinta anos, mas a mentalidade de um adolescente, ou seria, por que o peso da guerra também teve um efeito nele.
Não fui rápida o bastante para evitar que uma lagrima solitária descesse pelo meu rosto. Grover estava de costa para mim, com uma frigideira em uma mão apoiado na única perna que lhe restava. Ele insistia que aquilo não o incomodava, mas eu sabia como os outros da sua raça o olhavam. Um sátiro que não poderia se curar era como um paria.
Somente eu e alguns poucos sabiam o motivo da condição de Grover, e saber que o principal motivo disso fui eu, me deixou ainda mais emocional. Não que ele me culpava, muito pelo contrario.
Grover se virou e me viu ali parada. Estava para falar alguma coisa quando parou e me olhou criticamente. Devia estar fazendo uma cara desolada, por que ele franziu o cenho e baliu com desgosto.
— Annabeth, vc...
— Eu estou bem Grover – Falei enxugando a lagrima insolente que havia acabado de ser transformar em duas – provavelmente ainda não me recuperei da missão de ontem.
Ele me olhou cético, e caminhou pulando até o pequeno banco próximo da mesa onde estava sua perna de madeira. Aquilo foi um presente do deus Pan, Grover raramente a tirava então não pensava muito no que aconteceu naquele dia.
Apesar de que por ser um presente de um deus me pareceu bem mesquinho. Por que não fazer crescer uma outra perna? Grover parecia não se importar com isso porque nunca o ouvi reclamar.
— Você devia descansar mais um pouco, ou você esqueceu que estamos recebendo recrutas hoje – ele falou encaixando a perna de madeira no que sobrou da sua.
Recrutas. Não me lembrava da última vez eu tivemos tantos de uma só vez. Depois do início da guerra, o mundo praticamente se dividiu e eu sabia que quando tempo passava não estávamos em condições de vencer.
— Thalia falou quando ela chegaria? – Perguntei me aproximando para ajudar com o café.
— Ela falou que por volta das 10hs, mas você sabe que não se pode ter certeza nos dias de hoje, se ela não encontrar gigantes ou cães infernais durante o caminho talvez ela chegue nesse horário.
Balancei a cabeça concordando. Eu sabia como isso era, os semideuses estavam sendo marcados e cassados em todos os cantos do planeta. O mundo mortal via isso como o ínicio da terceira guerra mundial, mas nós sabíamos melhor.
Eu olhei pela janela com vista para Long Island e mais uma vez naquela manhã senti meus olhos humedecerem. A paisagem que antes era verde e transmitia vida em cada canto estava seca e árida.
As árvores ou que restaram delas pareciam mortas, havia até algumas que estavam tombadas, olhei de relance para Grover e não entendia como ele poderia olhar isso todos os dias e permanecer tão resoluto e firme, principalmente por que Juníper uma ninfa que era sua namorada estava em frente a janela.
Sua árvore ainda não havia caído, mas os galhos estavam secos e retorcidos. Desde aquele dia tudo havia mudado, ela fez parte das consequências daquele dia, nunca mais saiu da sua árvore e apenas piorava dia a pós dia.
— Só temos que ser fortes para podermos mudar isso.
Tomei um susto ao escutar a voz de Grover atrás de mim. Ele também olhava para fora com seus olhos resolutos, mas eu via o quanto seu coração estava quebrado.
— Nós vamos achar um jeito Grover – Ele já balança a cabeça antes mesmo que eu terminasse de falar.
— Não é apenas aqui Annabeth, é em todo o lugar – falou com uma voz triste e vazia – eu prometi a Pan que guardaria cada ser da natureza, mas olha para mim agora – falou rindo depreciativo – Não pude salvar ninguém, nem uma única vez...
— Você me salvou Grover – falei firme o olhando fixamente.
— Salvei mesmo? – Olhou para mim desolado tocando a pena de madeira distraído – por que não é isso que me lembro.
— Nós vamos resolver isso – falei mesmo sabendo o quão impossível isso era – você vai ver Grover, logo as parcas o irão fazer pagar.
— As parcas... – Ele falou de um jeito tão vazio que me assustei.
Mas eu poderia imaginar o que ele estava pensando. As Parcas pareciam ter abandonado a todos. Os deuses estavam ocupados demais tentado fazer com o que o mundo não se partisse ainda mais e nós semideuses, fazíamos o possível para sobreviver no meio disso tudo.
Estava para falar um pouco mais quando ouvimos barulhos altos vindos da porta. Nos entreolhamos e acostumados como estávamos, automaticamente assumimos as melhores posições para nos defendermos do possível ataque.
Foi quando ouvi uma voz conhecida amaldiçoando alto. Corri até a entrada e me deparei com uma Thalia Grace ensanguentada e pálida.
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