Notas iniciais
"Outro com uma língua de ouro
A envenenar a tua fantasia.
Outro projeto de um assassino
Que transformou uma emoção numa tragédia."
Jack White & Alicia Keys, Another Way To Die

O céu violeta estava limpo, mas continuava a trovejar. Os dois, humano artificial e saiya-jin, tinham saído da cabana numa corrida. Goku mirava o céu desconfiado e tenso.

– O que poderá ser isto?

– Os teus desejos satisfeitos.

Olhou para número 17.

– Captaste a atenção do tirano Lux. Parabéns.

Agora, dito daquela forma, já não parecia uma tão boa ideia. Goku tornou a mirar o céu e esperou pela aparição daquele ente supremo que se manifestava com trovões.

Um segundo relâmpago brilhante encandeou-os e Goku protegeu a cara com um braço, tentando vislumbrar alguma coisa no meio daquele mar branco que esbatia todos os contornos. Parecia que alguém tinha utilizado a técnica famosa de Ten Shin Han, o Tayouken, que imitava a luz deslumbrante do sol e que desnorteava os adversários. Fora útil em tantas ocasiões, mas também fora utilizada por inimigos.

Então, no centro da luz, criou-se um remoinho azul que tomou uma forma alta e magra, fina como um ramo de um salgueiro com galhos no topo, bifurcando-se em baixo. Depois de um trovão mais violento que todos os outros deixou de ser um simples ramo de salgueiro e adotou a figura de um ser altivo, cor de bronze, que segurava uma espécie de rolo esverdeado, como um pergaminho. Goku apertou os maxilares, número 17, ao lado dele, endireitou as costas e dobrou ligeiramente os cotovelos, de punhos apertados. Estava tão apreensivo quanto Goku.

O ser dobrou-se numa grande vénia, levando o rolo até ao peito. A voz tinha um timbre musical e quase nem moveu os lábios quando disse:

– Saudações, saiya-jin.

Goku perguntou-lhe:

– Tu és Lux?

O ser espetou o queixo pontiagudo e, continuando quase sem mover os lábios, respondeu:

– O meu senhor não se dignaria a pisar o mesmo chão que vós, miseráveis mortais. Mas fui enviado por ele para vos transmitir a sua mensagem.

E estendeu o rolo. Goku olhou receoso para a mão do ser, de dedos muito compridos, com unhas amarelas. Hesitou.

Seria apenas um mensageiro, mas temia-o pois notava nele um ki estranho e, ao mesmo tempo, inexistente. Quando tentava ler-lhe a aura, esta esquivava-se por um labirinto de sombras e não conseguia saber se era insignificante, se era quase tão poderoso quanto Majin Bu, que lhe servia agora como medida de adversário temível.

Uma cotovelada de número 17 despertou-o e ele tirou automaticamente o rolo da mão do ser.

– O que é que está aqui escrito? – Perguntou com o rolo na mão, o braço esticado, para manter aquela coisa longe de si próprio.

– O que pediste.

Nani?

O ser esclareceu misterioso.

– Um desafio.

Ouviu o sussurro de número 17 no ouvido esquerdo:

– Eu disse-te. Os teus desejos satisfeitos.

Passou-lhe o rolo e o humano artificial aceitou-o sem demonstrar qualquer réstia de medo. Fez mais, retirou a tampa achatada de uma das extremidades, inverteu-o e um papel que estava dentro do tubo caiu para cima da palma da sua mão aberta. Apanhou o olhar intrigado de Goku, que ora espreitava o ser que lhes falava quase sem abrir a boca, ora espreitava o papel dobrado.

Número 17 entalou o tubo aberto debaixo do braço e quando se preparava para decifrar o que dizia o misterioso papel, confiando que conseguia ler a língua em que se apresentassem as palavras aí escritas, se bem que podia ser só um estratagema para os enganar e afinal não ter nada escrito, Ozilia saiu disparada da cabana.

Estacou diante do ser, com as pernas a tremer. O diamante que ela segurava numa das mãos refulgia em milhentas cores, um arco-íris inigualável, como ele nunca tinha visto nenhum. Goku também se maravilhara com o espetáculo colorido. O ser fez uma segunda vénia, mais demorada e lânguida, dizendo:

– Ozilia. É um prazer rever-te.

Mas ela não lhe devolveu a deferência e interpelou-o com brusquidão:

– Valo. O que fazes aqui? Nunca pensei que consentisses em cruzar a névoa sagrada para te conspurcares nesta existência.

– Tudo por ti, Ozilia.

– Pelo teu mestre, que te enfeitiçou e desviou do caminho, diz antes assim.

– Sempre bela… E teimosamente estúpida.

– Tu não queres lutar comigo.

O ser teve uma mudança de atitude, muito ligeira, mas que Goku conseguiu perceber. Tornou-se mais perigoso, mais lúgubre, menos previsível. Deixou de se esconder no labirinto, penetrou fundo nas trevas e sumiu-se totalmente da sua perceção.

– Tu não deves lutar comigo, Ozilia. Diz antes assim.

– Já estou condenada. O que tenho a perder?

– Oh… Tanta coisa se pode perder ainda. Tu sabes tão bem!

O ser sorria e Ozilia rosnou como um leão das montanhas.

Número 17 interrompeu a cena. Tinha lido o papel e dizia com um espanto genuíno:

– Trata-se de um convite.

Goku estranhou, desviando parcialmente a atenção dos dois seres que se provocavam um ao outro:

– Um convite?

Hai.

Número 17 olhou para o ser.

– Um torneio de artes marciais. O poderoso Lux convida os melhores guerreiros da Galáxia do Norte para participarem numa competição que ele está a organizar no seu Palácio do Tempo. O prémio final para o campeão é desconhecido, as regras só serão apresentadas aos lutadores que tiverem a coragem de aparecer.

Ozilia deu um passo atrás. Negou com a cabeça, os sobrolhos finos muito arqueados, o rosto pálido, as íris douradas descoradas, mas Goku reagiu com entusiasmo.

– Ótimo! Chamas-te Valo, não é assim? Pois diz ao teu senhor Lux que estaremos lá. Eu irei, de certeza. E poderei levar mais alguns amigos.

Piscou o olho ao ser que lhe sorriu e perguntou:

– Aceitas o desafio?

– Aceito.

Valo inclinou-se numa terceira vénia.

– Transmitirei essa novidade ao meu senhor, que o deixará muito agradado. Até à próxima, saiya-jin.

Número 17 cruzou os braços.

– Sabes o que é que estás a fazer, Son Goku?

– A cumprir a promessa que fiz à Ozilia – respondeu sorrindo satisfeito com a sua decisão. Enfiou os polegares no cinto, acentuando a atitude descontraída.

Ozilia berrou-lhe:

– És um completo idiota, saiya-jin!

O sorriso de Goku apagou-se.

– Ora essa… E porquê?

– Estamos a falar de um deus. E tu acabaste de aceitar o desafio de um deus?!

– Vai ser um torneio. Além disso, não irei sozinho. O número 17 virá comigo.

– Não me metas nessa história.

– Porque não? Não queres participar nesse torneio?

– Tu não falas por mim.

– Eu não estou a falar por ti. Mas tu és um excelente lutador, poderás fazer a diferença nesse torneio.

– E achas que Lux vai organizar um torneio justo? – Indagou Ozilia desesperada com tamanha demonstração de ingenuidade.

Depois, ela voltou-se para o ser, abrindo os braços:

– Valo, o desafio não está aceite. Diz a Lux que se tratou de um engano…

Mas o ser já lá não estava. Fora-se embora discretamente, sem o espalhafato de trovões e relâmpagos que o tinham trazido até ali. Goku perguntou por ele, chamou por ele, caminhou alguns passos a perscrutar a floresta circundante, mas o ser efetivamente já lá não estava. Ozilia abriu a boca num rugido estarrecedor, tapando a cara com as mãos.

Número 17 enfiou o papel dentro do tubo e fê-lo rodopiar entre as mãos. O desafio tinha sido lançado. Um torneio. Um deus tirano. Um saiya-jin imbecil. Uma criatura divina que ligava tudo aquilo. E qual era o papel dele no meio daquela história? Ele dera início à cadeia de eventos, sem dúvida, mas estava tentado a abandonar o comboio. A viagem tornara-se demasiado cansativa e, acima de tudo, incontrolável e ele detestava tudo aquilo que não podia controlar. Mas por outro lado, havia o tal desafio e ele gostava de jogos. Aquilo soava-lhe, familiarmente, a um jogo.

Ozilia deixou-se cair de joelhos no chão, gemendo exausta. Goku condoeu-se dela. Ainda estava ferida, assim como número 17. Os dois apresentavam um aspeto lamentável e já se dispunha a fazer novamente a proposta de lhes trazer um feijão senzu quando ela o fulminou com um olhar mortífero.

– Muito bem, saiya-jin. E como pretendes alcançar o meu mundo e chegar ao Palácio do Tempo, onde acontecerá o famoso torneio do tirano?

Goku estremeceu.

Não tinha uma resposta imediata para aquela pergunta.

Número 17 fechou os olhos.

Mas por que raios não ia ele embora da sua casa? Precisava de descansar algumas horas, só assim a tisana faria efeito e curaria os seus ferimentos. E curaria da mesma forma aquela criatura irrequieta que parecia uma panela de pressão prestes a explodir, sempre com as emoções à flor da pele.

Notas finais
E temos a apresentação de outro deus - Valo, o mensageiro. O nome dele significa "luz" em finlandês.

Próximo capítulo:
Ideia.