Layla suspirou pela terceira vez enquanto passava ungento nas costas de Erin e via, com alívio, que todas as feridas eram superficiais. Eles estavam apoiados nas raízes de uma árvore o mais distante possível da estrada com Erin inclinado e Layla deslizando a pasma improvisada em suas costas.

Ambos limparam o sangue de seus corpos com panos limpos, mas o cheiro lúgubre ainda estava no ar.

— Viu? Está tudo bem.

Layla suspirou de novo.

— Sim, é um milagre.

— Você sabe que milagres não existem.

Em meio a tanto caos a morena riu e Erin se sentiu melhor. Lentamente ela deixou as costas machucadas e atravessou a raiz protuberante, sentando em outra em frente ao amigo.

— Me desculpe.

Erin pegou as mãos dela na sua.

— Está tudo bem comigo. Não foi culpa sua, não se preocupe.

Layla respirou fundo e olhou para o rosto de Erin pensando que em qualquer momento ali ele poderia ter ido embora. Desaparecido. Estar morto.

Os olhos amendoados a rebateram com a determinação de quem ainda está vivo e a sobrancelha grossa se ergueu, num desafio. Layla sorriu mais aliviada do que preocupada e assentiu, desistindo da batalha que iria trilhar com ele se continuasse.

— O que aconteceu mais cedo? – perguntou cauteloso.

Ainda com os olhos um no outro Layla não viu escapatória e com um suspiro encarou as mãos juntas.

— Hoje de tarde vi Zain e a deusa juntos. Mas juntos, juntos mesmos – ela afastou as mãos para demonstrar – e eu... surtei, eu acho.

Erin assentiu compreensivo.

— Foi uma raiva inexplicável.

— Você gosta dele Layla.

— Não! – ela balançou a cabeça convicta – Eu não posso. Você sabe...

A expressão de Erin foi de tristeza, mas ele concordou. Com mais um suspiro exasperado de Layla ela continuou e o homem não esperou pelo que se seguiu.

— Mas teve outra coisa também. Um calor estranho. Eu me senti... quente.

Os olhos dela procuraram compreensão mas Erin estava confuso.

— Você ficou com calor vendo eles juntos?

Layla assentiu, sentindo-se ruborizar.

— Eles estavam se beijando e eu pensei... que queria também – sussurrou baixinho.

Erin arregalou os olhos.

— Eu queria sentir aquele tipo de toque – ela deslizou os dedos no braço – aquelas sensações...

Quando Layla voltou a olhar para Erin havia algo ali que não se encontrava antes. Algo tão intenso quanto toda a cena daquela manhã. Ela se sentiu agitada.

— Você... poderia me mostrar?

O fio de voz que Layla usou com ele fez todo o corpo de Erin estremecer, mas a resposta era óbvia.

— Eu... claro.

Lentamente Layla deslizou da raiz para o chão e engatinhou, no pequeno espaço entre dos dois, até Erin. Ele prendeu a respiração vendo-a se aproximar e quando o rosto corado dela se encontrava a poucos centímetros do seu, ele soltou o fôlego.

— Me mostre – sussurrou, como uma ordem.

Obediente como um servo ele esquadrilhou rapidamente o rosto que conhecia tão bem e com uma das mãos puxou o rosto dela para si.

Layla sentiu sua boca colar na de Erin e em seguida, lentamente, todo o fogo que lhe cutucava o corpo queimou. Suas línguas se encontraram e ela nunca imaginou que um beijo fosse lhe deixar fragilizada. Ela queria mais. Mais de Erin. Mais do seu beijo. Mais.

Lentamente ela afastou a boca da dele.

— Eles estavam em pé – disse pausadamente, com a respiração falhando – e estavam com os corpos se esfregando. Eu quero isso também.

Erin grunhiu, algo que Layla jamais imaginou que ele faria, e a puxou com facilidade do chão a sua frente para seu colo. Encaixada nele ela sentiu-o e o beijo que veio ardeu como uma tocha em seu âmago. Era profundo e intenso, e fazia todo seu corpo tremer em excitação.

Sim.

Sim.

Sim.

Era muito bom.

Sem perceber Layla gemeu, com o corpo indo de encontro ao de Erin, e o sorriso no rosto do mesmo a fez querer batê-lo apenas para depois para repetir tudo de novo.

Eles se beijaram intensamente por longos minutos, com as mãos pesadas de Erin puxando-a pela cintura contra si. Ao final, quando o próprio Erin impôs certo limite entre eles, ambos buscaram fôlego.

Layla se sentiu esfriar lentamente e seu coração voltou ao normal ainda mais devagar. Ela estava quente, tão próxima assim do corpo do homem, mas sentia o mesmo acontecer com ele.

— É melhor eu parar por aqui – disse ele com sofreguidão – não sei se consigo me controlar além disso.

Layla respirou fundo e assentiu, tristonha.

— Mas eu posso... quero dizer, nós podemos... fazer mais depois?

Erin sorriu de lado e assentiu.

— Sim, nós podemos.

Os olhos de Layla brilharam.

— Certo!

Erin não conseguiu evitar e riu, deslizando delicadamente a amiga para o chão. Seu membro não se aquietaria até tê-la numa distância segura.

— Então – ela entendeu o recado e se levantou – eu acho que vou buscar os outros. Vamos acampar aqui, certo?

— Com certeza.

Layla sorriu e se afastou, adentrando no meio das árvores sem sequer olhar para trás. Encostado precariamente na raiz da árvore Erin abriu um pequeno sorriso que foi seguido de uma risada.

— Essa garota não tem jeito.

•••

Zain correu de volta para a carruagem tão rápido que bateu com tudo contra ela. Seu coração estavam acelerado e doía como nunca doera antes. Ele não sabia que veria Layla e Erin se beijando, e se beijando de um jeito tão...

Ele socou a lateral da carruagem e imediatamente a porta abriu. A deusa surgiu preocupada, perguntando o que havia acontecido. Sem pensar em nada ele entrou no cubículo e a beijou.

Ela adorou ser beijada, mas para Zain aquele beijo só o lembrava do que vira poucos minutos atrás. De Layla gemendo, de Erin sorrindo, dos corpos próximos. Como ele odiava ter visto aquilo!

Pensara que jamais se sentiria assim. Layla não era do tipo romântica, ele nunca achou que...

Mas eles tinham uma história. Layla e Erin tinham uma história antes dele. Eles se conheciam, eles... se beijavam como amantes de longa data.

O quão idiota ele havia sido por sustentar um sentimento tão amoroso em relação a Layla? O que ele esperava? Que depois de tanto tempo escondendo-o ela o descobriria e sorridente lhe desse o coração?

Idiota!

A porta da carruagem abriu com tudo e a luz intensa do sol adentrou o cubículo escuro. Zain afastou-se da deusa e do beijo, vendo-a corada e sorridente. Na porta estava Layla, que fez uma careta, mas a tirou quase imediatamente do rosto.

— Vamos acampar até estarmos reorganizados. O templo está perto, mas não vamos arriscar.

Zain engoliu a própria saliva e a ignorou, descendo da carruagem.

— Vocês não podem! – interveio a loira – Temos que chegar lá o quanto antes!

Layla abriu um sorriso de escárnio pra garota.

— Se não tivéssemos tirado um dia de férias naquele maldito vilarejo estaríamos em tempo, divindade— zombou – e agora que um dos nossos precisa se recuperar nós vamos adiar sim sua chegada no templo, você goste ou não.

A expressão de desaprovação no rosto da loira sumiu quando Layla bateu a porta na cara dela, voltando-se para um Zain mudo e carrancudo do lado de fora.

— O que foi? – ela ergueu a sobrancelha – É sobre o que falei? Me desculpe, eu estava com alguns problemas, mas nada com que precise se preocupar – disse em tom de zombaria – vamos? Precisamos tirar essa carruagem da...

— Desde quando você e Erin estão juntos?

A pergunta pegou Layla de surpresa. Ele havia os visto?

— Nós não estamos juntos, nós só...

Zain riu com deboche.

— Você chama aquilo de não estar juntos? Pois vocês pareciam bem juntos.

— Olhe aqui – ela deu um passo a frente – você pode pensar o que você quiser. Por que estamos falando nisso agora? Temos feridas para cuidar.

— Não, você tem feridas para cuidar – ele ergueu o braço e mostrou um corte longo nele, mesclado a suas cicatrizes – eu cuidei muito bem das minhas sozinho.

Os olhos de Layla não traíram sua expressão de preocupação e Zain pensou se não havia sido grosso demais. Ela tocou com cuidado a pele ao lado da ferida e a mesma estava realmente bem cuidada. Ensinar a Zain o básico de sobrevivência foi uma ótima ideia.

— Me desculpe – pediu afastando-se do braço – é culpa minha.

— Não se preocupe, você escolheu exclusivamente de quem cuidar.

Layla franziu as sobrancelhas. Havia sido displicente ao não pensar em Zain, mas...

— Vá lá – resmungou o garoto dando de ombros – ele está esperando por você.

— O que raios está acontecendo aqui? – disse, já irritada – tudo isso por causa de um beijo?

Zain a olhou tão raivoso quanto.

— É!

Layla bufou.

— Não seja infantil Zain. Foi só um beijo! – ralhou sem paciência – Eu vi você e a magrela aí atrás e não reagi assim!

O garoto processou as palavras rapidamente, dando um passo a frente.

— Você não sentiu o mesmo que eu!

— Pode ter certeza que sim! – ela não se intimidou e andou também, ficando frente a frente – Sua irritação não chega perto da raiva que me consumiu! – gritou.

Zain arfou, surpreso, mas manteve-se firme.

— Eu duvido! Por que você ficaria com raiva?

Layla rosnou de frente ao garoto.

— Por que você estava beijando ela e não eu!

As palavras que saíram da sua boca foram tão verdadeiras e impulsivas que Layla surpreendeu-se com elas. Fora aquela a razão de tanta raiva?

Zain lhe devolveu o rosnado.

— Você nunca me pediu um beijo!

Ela o encarou profundamente.

— Então me beije agora!

Sem esperar qualquer outra palavra Zain tomou os lábios da jovem para si e Layla sentiu cada ponto do seu corpo entrar em combustão. Se o beijo de Erin havia sido fogo o de Zain lhe causava um incêndio completo e ela mal conseguiu permanecer de pé.

Suas línguas eram uma tempestade em suas bocas, numa briga que nunca venceriam e o corpo de Zain apertou forte o de Layla. Cada célula da garota reagiu a ação em explosões de prazer e quando ela se deu conta estava contra a carruagem com todo o corpo do garoto encaixado no seu.

Não havia palavra para definir todas as sensações e Layla se entregou completamente, puxando-o instintivamente contra si. Foi intenso, profundo, possessivo, enlouquecedor. Havia algo ali que a incitava como nunca antes, um sentimento, algo interno, que a levava cada vez mais para Zain.

Ela queria mais.

Layla gemeu e Zain desceu as carícias para seu pescoço, do pescoço para a clavícula. Beijou-lhe as orelhas frias, aquecendo-as, e mordiscou seus nódulos. A respiração da jovem estava entrecortada e tudo que Layla conseguia pensar era desconexo demais.

Quando a boca dele voltou a sua não havia uma só parte do corpo de ambos que não estivesse quente. Layla era como fogos de artifício e cada suspiro e gemido dela o instigava a continuar, a buscar mais. Suas mãos deslizaram pelo corpo da jovem, brincando, seduzindo, provocando.

Zain mordeu os lábios de Layla e ela arfou, buscando de volta o contato roubado, e o garoto riu, rouco, e o timbre de sua voz derreteu qualquer parte integra dentro da mesma. Ela enganchou a mão dentro dos cabelos dele e o puxou para si, beijando-o com intensidade.

Zain sorriu entre seus lábios e aprofundou o beijo, sentido cada parte do corpo de Layla arrepiar ao seu toque. Era uma delícia ver a reação dela a ele.

Lentamente eles se afastaram, a contra gosto, e Zain procurou desesperadamente os olhos negros na confirmação de que aquilo era real. E o brilho nas íris dela lhe respondeu com algo ainda melhor. Desejo.

— Por que você... – ela respirou fundo – nunca me beijou antes?

Zain sorriu e depois riu, em alto e bom som, fazendo-a sorrir em resposta.

— Porque você nunca me pediu – ele desceu o rosto novamente para perto da garota, roçando seus lábios nos dela.

— Então, por favor – ela esfregou o próprio rosto no dele, sentindo a pele ainda queimar ao toque e ao cheiro do mesmo – me beijei todos os dias a partir de hoje.

O sussurro roubou outro sorriso dele.

— Com todo prazer.

Layla retribuiu o sorriso e eles se beijaram de novo, com menos passionalidade e foi tão gostoso quanto antes. Agora que seus sentidos voltavam ela conseguia sentir o roçar de uma barba quase imperceptível no rosto dele, o calor de suas mãos em sua cintura exposta, o cheiro inebriante de sal e plantas silvestres. E o cheiro de sangue.

Eles novamente se separaram e deixaram o fôlego se recuperar antes de falarem.

— Temos que montar o acampamento. Eu vou cuidar de todos os ferimentos – olhou-o com intensidade, impondo suas palavras – e vamos esperar até amanhã para seguir.

— Certo, chefinha.

O sorriso espontâneo de Layla o iluminou e com dificuldade Zain se afastou, tentando inutilmente recompor suas roupas ainda sujas de sangue. Layla fez o mesmo, mas seu conjunto de couro mal se mexeu, e ela imediatamente prendeu os cabelos num rabo de cavalo para melhorar a aparência.

— Agora...

Abrindo a porta da carruagem Layla não esperou ver o que veria. Na verdade, ela não esperou não ver, pois tudo que havia dentro da carruagem era nada e a outra porta oposta aquela estava escancarada denunciando a fuga da suposta deusa.

— Desgraçada.