Deus dos Erros
5 Tesouro dos Mortos
Notas iniciais
Sete pessoas tecidas em linhas sem cor arranhadas na parede, lacerações mínimas no concreto que eram tão frágeis como rachaduras em vidro, mas carregavam significados resistentes. Os desenhos na parede da sala lembravam hieróglifos deixados por homens das cavernas e rabiscos infantis deixados por crianças. Duas das figuras eram claramente imagens de Otávia e Marcus, as outras cinco eram mistérios distintos. Uma velha de pijama, um jovem de óculos escuros, duas adolescentes gêmeas de mãos dadas e um homem de boné. Seriam esses os fantasmas que ali viviam, ou melhor, recusavam-se a morrer?
— Uma família… — sussurrou Charles para si mesmo.
Ele tentou tocar o desenho do homem de boné, pois havia um X arranhado abaixo dele, mas tentou esticar um braço que não estava mais em seu corpo.
— Isso é para sempre? – perguntou enquanto apertava seu ombro direito mutilado e olhava para trás.
— Não. – respondeu Marcus. – Ele vai crescer de novo. Não vai demorar muito.
— Nossos corpos são ilusões. – disse Otávia mordendo seu indicador enquanto fitava os desenhos na parede. – Você só estaria realmente machucado se o Curumim conseguisse te devorar inteiro.
Charles voltou a olhar os desenhos. Estava intrigado por eles, mas não podia permitir que novas perguntas germinassem em uma floresta abarrotada de questões. Precisava de respostas.
— Pode nos perguntar. – disse Marcus entendendo sua expressão.
— Só nunca pergunte como morremos. – completou Otávia olhando para Marcus. – É como na prisão. Ninguém gosta de falar como chegou lá.
Charles alternou o olhar entre os dois, não sabia nada além de seus nomes. Ainda assim, já tinham sua confiança.
— Aquele lugar… dentro da árvore… o que era aquele lugar? Como podíamos estar dentro de uma árvore? – começou Charles.
— É um lugar morto. – explicou Otávia. – Eles podem ser… confusos.
— Alguns são seguros, como os nossos caixões. Outros… bem, você viu como era lá dentro. Depende de quem é o dono do lugar. – continuou Marcus. – Nós os chamamos de necrotérios.
— Deveriam chamar de matadouros. – Charles lembrou-se de como fora fatiado e pendurado como pedaços de carne em um açougue. – E essa marca? Esse “esquizograma”? – ele tocou em seu peito. – O que é isso afinal? Por que ela me deixou daquele jeito?
Marcus olhou para Otávia também em busca de sua resposta, mas a garota mordeu novamente seu indicador e desviou o olhar.
— É sempre muito difícil deixar nossa vida antiga pra trás. – disse Marcus decidindo assumir a conversa. – Muitos fantasmas não conseguem e tentam se agarrar ao passado. Então eles mudam.
— Como assim “mudam”?
— Ficam loucos. Vingativos. Raivosos… Desumanos. – respondeu Otávia olhando com tristeza para Charles. – Se tornam um perigo para os vivos, para aqueles que eles um dia amaram.
— Mas… por quê? – questionou Charles. – Não podemos nem ficar perto das nossas famílias sem que isso aconteça? Não é justo.
— Justo ou não, é assim que é. – disse Marcus balançando os ombros. – Melhor aceitar isso de uma vez.
Charles apertou a marca em seu peito, arfando com raiva, lembrando-se do que quase fizera a Fábio e das palavras de Nepecrapto em seu enterro. É a última vez que os vi. – repetiu para si mesmo em silêncio. – A última.
— É importante que você saiba. – continuou Marcus. – A marca afeta cada pessoa de uma maneira diferente. A sua é no peito, então você é afetado pelos seus sentimentos. Se você se deixar levar por eles…
— Eu não vou deixar isso acontecer. – interrompeu Otávia com determinação. – Nós não vamos deixar isso acontecer. Não é mesmo?
— É claro… — respondeu Marcus franzindo o cenho enquanto olhava para a garota. – Vamos te ajudar nisso se precisar.
Charles havia achado aquilo estranho, e novas perguntas se formavam. Onde seriam as marcas de Marcus e Otávia? Se é que eles tinham alguma. Seriam iguais a dele?
— E o símbolo… disseram-me que havia treze marcas. O que significa a minha?
— É como um signo. – respondeu Marcus voltando a olhar Charles. – Só que ao invés de ser do dia em que você nasceu, é do dia em que você morreu.
— O seu é a Bruxa Enforcada. – contou Otávia. – No lugar do signo de Libra. Não sabemos muito bem que diferença isso faz.
— E o símbolo do apanhador de sonhos? – perguntou Charles se lembrando da primeira noite em que viu seu irmão dormir após sua morte. – Por que ele sempre aparece quando alguém está dormindo?
— Quando uma pessoa dorme, ela vai para um lugar entre todos os mundos, então nós podemos entrar em contato. Mas só se a marca estiver fraca. – disse Marcus. – Ela é como uma proteção que todos têm. Quanto mais assustado ou perturbado alguém está, mais fraco fica seu apanhador de sonhos. E mais fácil fica para visitarmos suas mentes. Por isso que as pessoas às vezes sonham com fantasmas.
— Assustados e perturbados. – repetiu Charles mais uma vez sendo lembrado de que não havia nenhum modo de estar com sua família sem machucá-los. Era uma tortura. – Por que nós existimos, então? Por que viramos fantasmas? Não existe Céu e Inferno? É só isso que resta?
Marcus e Otávia se entreolharam.
— Nós não sabemos o porquê. Mas existe, sim, um Céu e um Inferno. – respondeu Otávia.
— Como você sabe?
— Bem, nós nunca fomos a nenhum dos dois, né. – disse Marcus como se fosse uma piada. – Mas já vimos muita coisa nesses anos todos. Nem todo mundo vira fantasma e já vimos outros fantasmas sendo arrastados até…
— Não é um assunto legal. Próxima pergunta. – exigiu Otávia segurando seu ombro direito de uma maneira retraída.
Charles colou seus olhos em Otávia. Até então queria questionar Marcus, pois apesar de o garoto parecer ser um menino gordinho e baixo que não devia ter muito mais do que onze anos quando morreu, ele era muito perspicaz. Mas Otávia… Otávia era quem mais atiçava sua mente. Ainda mais quando agia de maneira tão visivelmente anormal.
— Por que você está sempre ao lado de Heitor? – perguntou Charles.
Otávia olhou-o com frieza, mas não era algo pessoal. Havia gelo em suas lembranças.
— Ele é o único que ainda se lembra de mim.
— Então vocês…
— Próxima. Pergunta. – disse Otávia rispidamente.
Charles ponderou insistir em saber sobre o passado de Otávia, mas claramente a garota não confiava tanto nele quanto ele confiava nela. De todas as perguntas que poderia fazer, resolveu dar lugar à mais desejada. Aquela que havia se enterrado no fundo de sua cabeça desde a noite em que morrera.
— O que e quem é Nepecrapto? – perguntou. – Por que ele apareceu pra mim? Por que ele tem que me ensinar sobre a morte?
Os olhos de Marcus se arregalaram e seguiram um lento percurso entre os desenhos da parede até o rosto cabisbaixo de Otávia.
— Nepecrapto… você não disse que o tutor dele era ele. – disse Marcus a Otávia.
— Agora você sabe. – respondeu Otávia assumindo uma postura mais ereta e séria. – Quando um fantasma chega à morte, ele precisa de um tutor. Alguém que o ensine a se proteger por aqui. Existem muitos tutores, mas nenhum tão perigoso quanto o seu.
— Por quê? O que ele fez? Como você o conhece? – disparou Charles ansioso por respostas.
— Ela está exagerando. Todos os tutores são um pouco perigosos. – contrariou Marcus. – Todos eles são Consumidos e foram obrigados a nos ensinar.
— “Consumidos”?
— Fantasmas que cederam completamente às suas marcas…
— E cometeram atrocidades imperdoáveis contra os vivos. – completou Otávia com um ar irritado. – E eu não estou exagerando. Nepecrapto é um dos tutores mais perigosos. Não confie em nada do que ele disser. Ele só quer te manipular.
Charles achou aquilo estranho. Desde o momento em que vira Nepecrapto, segundos antes de morrer, o achara bizarro, sinistro e realmente sombrio. Sentira uma malícia sarcástica em cada palavra que dissera e cada movimento que realizara parecia venenoso. Entretanto, tudo o que o bizarro havia feito fora lhe prevenir de uma realidade dura, dolorosa e inevitável.
Ele lhe dera verdades como lições, e Charles não quisera escutá-lo. Negara sua morte quando estava diante de seu corpo, permanecera em casa quando o sinistro o alertara sobre a impossibilidade de tal ato, perambulara por onde queria quando ele havia dito que não era seguro andar por aí. Nepecrapto fora apenas um professor. Duro, desagradável e insensível, mas verdadeiro para com suas funções.
Os erros de Charles eram apenas dele, ninguém o havia manipulado.
— Eu acho melhor pararmos esse interrogatório por hoje. – sugeriu Marcus olhando pesadamente para Otávia, e depois sorrindo para Charles. – Já está quase na hora do almoço. O que você quer comer?
Um leve vento cortava caminho entre um milhar de obstáculos, os quais se moviam de um lado para o outro, indo e vindo, nunca ficando por muito tempo. Inúmeras tarefas eram realizadas: andar, correr, dirigir, digitar, ouvir, cantar, falar, olhar, gritar, chamar, comer, rir, chorar. Viver. Os vivos de Nagameiro, um bairro da Baía de São Sebastião, eram agitados, ininterruptos e certamente famintos. Havia no mínimo sete pastelarias, cinco lanchonetes de fast-food, três chocolatarias e duas barracas de açaí em uma mesma rua. Marcus e Charles, que já havia recuperado seu braço direito, seguiam algumas pessoas que entravam em uma das primeiras.
— Não estou entendendo. – disse Charles desviando de uma mulher que entrara com sua filha na pastelaria. – Como vamos comer? Estamos mortos.
— Muitas religiões oferecem comida aos espíritos. – contradisse Marcus revezando o olhar entre todos que estavam no estabelecimento. – No Brasil isso é um meio mal visto por… muita gente. Se eles soubessem que estão todos errados…
— Alguém vai nos oferecer comida? – estranhou o garoto.
— Não. É exatamente isso que eu estou falando. Ninguém vai nos oferecer nada. Temos que “dar um jeitinho”. – Marcus sorriu astutamente. – Já aprendeu a mover as coisas?
— Mais ou menos… — o garoto se lembrou da tarde em que assustara Ágata e Heitor.
— Me observe então. – instruiu Marcus deixando o lado de Charles e parando atrás de uma garotinha, que esperava seu pedido, sentada a uma mesa com a mãe.
Alguns minutos depois um garçom trouxe dois joelhos e dois copos com caldo-de-cana. Quando a menina levantou seu copo para beber, Marcus sussurrou algo ao seu ouvido. Então, a menina tremeu como se estivesse com frio e acidentalmente deixou o copo virar na mesa, derramando mais da metade de seu conteúdo.
Charles franziu o cenho sem entender o motivo de Marcus ter feito aquilo, mas logo ele percebeu as intenções do menino. Outro copo aparecera em cima da mesa, com exatamente a mesma quantidade de caldo-de-cana que a menina havia derramado. O fantasma mulato agarrou o copo, ergueu-o e sorriu para Charles.
— “O lixo de um é o tesouro do outro”. – disse oferecendo o copo a Charles que estava pasmo. – Espere mais um pouco, vou conseguir um joelho na outra mesa.
E assim o fez. Um salgado e uma bebida, duas coisas tão simples e baratas que nunca pesaram valiosas nas mãos de Charles, não como agora. De tudo que perdera ao morrer, de tudo que o consumia com saudade e nostalgia, nada lhe dera tanto alívio quanto uma mordida em um joelho e um gole de caldo-de-cana.
— É realmente incrível! – maravilhou-se Charles saboreando cada partícula da refeição. – Incrível!
— Viu? Estar morto não é tão ruim. – comentou Marcus sentando-se ao seu lado em cima de um carro do lado de fora da pastelaria. – Há muitas coisas que podemos pegar assim. Tudo que eles quebram ou jogam fora. Só tem que ser bem recente, tipo a regra dos cinco segundos. Podemos até trocar de roupa, temporariamente. Você não gostaria de usar outra coisa além dessa roupa toda cheia de sangue?
Charles olhou para baixo e pela primeira vez percebeu o quão acabado estava. Durante todos aqueles dias ele havia usado as mesmas roupas que escolhera para ir até a Torre Vermelha no dia em que morrera: uma blusa branca com o desenho de um cravo negro por baixo de uma blusa quadriculada azul, sapatos all star e calças jeans escuras. Cada peça de roupa estava rasgada e havia sangue até em suas meias.
— Não seria uma má ideia. – concluiu Charles achando aquilo bisonhamente engraçado.
— Ótimo, vamos vasculhar nas redondezas se tem alguém se livrando de alguma roupa velha. Se não tiver… bem, um acidente aqui e um ali não faz mal a ninguém.
— Faz, sim. – riu Charles. – Mas… pra que se importar com isso? Não é como se fôssemos ser vistos.
— Eu estou te vendo. – retrucou Marcus. – Enfim... vamos a uma festa à noite, afinal de contas, hoje é véspera de Halloween. E é muito legal ser um fantasma no Halloween.
Charles sorriu com a ideia, um sorriso que carregava mais esperança e alegria do que tivera desde que seus sonhos haviam sido roubados. Talvez… talvez ainda houvesse oportunidades para sonhar de novo. Viver, não de novo, mas de uma maneira que nunca fizera antes. Então dezenas de copos se ergueram com o cair do sol. Todos preenchidos por uma bebida dividida entre o rosa, azul, branco e preto. Um drink temático em homenagem a um dos filmes que estrearam naquele ano. Um pequeno agrado para os cinquenta primeiros a entrar no bar àquela noite.
Marcus estava extremamente contente ao ver todas aquelas pessoas dançando, bebendo e rindo. Provavelmente estava escolhendo vítimas para suas pegadinhas de fantasma, o que tornava sua presença em um bar ainda mais esquisita. Quantos anos ele tinha afinal? Pois, apesar de sua aparência paralisada no tempo, ele definitivamente não era uma criança. Ou era?
— Eu vou ao banheiro. – disse Marcus sorrindo. – Sempre tem alguém bêbado no banheiro. São os alvos mais fáceis.
— Você é estranho. – comentou Charles sorrindo. – O que eu faço aqui?
— Otávia adora dançar, por que você não tenta? Eu prefiro outro tipo de diversão. – e com isso dito Marcus atravessou uma multidão dançante rumo aos banheiros.
Charles subiu em uma mesa redonda, um dos únicos lugares onde poderia evitar ser atravessado por pessoas, e observou a decoração do lugar. Todo o bar havia sido ornamentado com uma temática sombria e pitoresca de Halloween. Havia morcegos de borracha, lâmpadas de cabeças de abóbora, cortinas de teia falsas, barmans vestidos como Coringas e garçonetes vestidas como Arlequinas, baldes de crânio e todo tipo de bugiganga temática possível.
Algumas pessoas também haviam decidido se caracterizar para a festa, não havia muitas realmente usando fantasias; ao invés disso expressavam seu apreço pela data através de estampas e acessórios. Charles nunca havia estado em uma festa daquele tipo, era relativamente novo e não gostava de beber, mas o que importava agora? Talvez devesse ter aproveitado enquanto podia e ter ido a várias festas assim, mas como saberia que nunca cresceria o suficiente para que conseguisse a permissão necessária para isso? Agora não precisava de permissão para nada mais.
— Primeiro Halloween? – perguntou alguém parado diante da mesa de Charles.
A princípio, o menino imaginou que era apenas mais um vivo falando com outro vivo, mas ninguém além de Charles parecia tê-lo ouvido. O rapaz que lhe perguntara era quase dez centímetros maior que Charles, e claramente muito mais forte do que ele. Usava óculos escuros com uma jaqueta de couro de motoqueiro e aparentava ser asiático. Charles o reconheceu dos desenhos que vira na parede àquela manhã.
— Vou tomar isso como um sim. – disse o rapaz sorrindo.
— Quem é você?
— Qual é o seu nome?
— Eu perguntei primeiro. – retrucou Charles.
— Eu morri primeiro. Você é que é novo aqui. – revidou o asiático.
— Meu nome é Charles. – cedeu.
— Leonardo. E não, você não pode me chamar de Léo. – respondeu. – Você vai ficar aí em cima o tempo todo, Charlie?
— Charles… — corrigiu. – E tem alguma outra coisa pra fazer?
— É claro que tem. – Leonardo virou o rosto na direção da mesa e uma garrafa de vodca caiu no chão. – Pronto. Algo pra fazer. – ele disse segurando uma garrafa fantasma do chão.
— Eu não bebo.
— E nem deve. Ouvi dizer que bebida mata. – Leonardo sorriu, oferecendo a garrafa.
Charles esticou a mão e pegou a garrafa com cautela. Abriu-a, e bebeu um gole já esperando uma sensação de fogo líquido escorrer por sua garganta, mas fora enganado por seus palpites. Não houve sensação nenhuma além de um leve entorpecer, um gosto feito de puro efeito que nenhum vivo havia provado.
— Só ficamos com a parte boa, a parte que importa. – disse Leonardo revelando um olhar escuro e azul ao tirar os óculos escuros. – Então é melhor tomar cuidado. Vejo você por aí.
O rapaz asiático andou para trás e desapareceu na multidão embriagada, deixando Charles com a decisão de continuar se entorpecendo ou descobrir uma nova atividade.
— Que companhias interessantes você arrumou. – comentou Nepecrapto aparecendo ao lado de Charles. – Sente-se melhor agora?
— Eu havia me perguntado quando você apareceria. – disse Charles colocando a garrafa fantasma na mesa. – Por onde esteve? Cometendo algum crime?
Inicialmente os lábios do bizarro permaneceram duros como placas de mármore, então se abriram em um pequeno e sutil sorriso.
— Você me julga, Char-les? Ora, não foi você quem quase matou seu próprio irmão? – questionou.
— Quase. – repetiu Charles.
— Porque foi impedido. Mas não foi essa a única oportunidade que você teve de evitar aquilo. – Nepecrapto desceu da mesa e ficou de costas para Charles. – Eu pedi que você fosse embora. Você me escutou?
— Você é injusto. Não me disse o que podia acontecer. Não claramente. – resmungou Charles.
— É claro. Perdoe-me então. Você está certo.
O sinistro dobrou o pescoço como se estivesse muito triste enquanto enchia o chão com suas lágrimas de sangue.
— Vou recompensá-lo então. – voltou a falar pesaroso. – Serei o mais claro possível. Existe um dia no qual você pode ver sua família e seus amigos. Vê-los sem machucá-los. Apenas um dia. O dia em que o Mundo dos Mortos e o Mundo dos Vivos se tocam. Durante o Solstício de Inverno. É uma data muito conhecida.
— Que dia? – perguntou Charles ansioso.
— Que horas são? – disse Nepecrapto em resposta.
Charles havia entendido. Era uma hora da manhã de trinta e um de outubro. O Halloween já havia chegado. Sua chance já começava a se encurtar. Sem falar com Marcus ou Leonardo, o menino correu para fora do bar e se jogou nas cortinas de névoa, aparecendo quase que imediatamente diante a uma porta negra com rabiscos brancos.
— Por que está fechada? – perguntou-se Charles, pois Heitor sempre tivera o hábito de abrir todas as portas que visse, um reflexo de sua claustrofobia.
O fantasma se imaginou passando pela porta e entrou no quarto. O lugar era pequeno e apertado. As paredes eram em parte de cobertas por uma madeira clara, a qual havia uma cama embutida e feita do mesmo material. O mesmo fato acontecia com a escrivaninha e o armário, todos os móveis participando da composição do cômodo.
A princípio Charles não havia reconhecido o lugar. Todas as roupas e lençóis estavam jogados no chão, havia pelo menos sete garrafas vazias de ice sobre uma mesinha de centro, e cigarros, que exalavam um odor semelhante ao de borracha queimada, apagados em um cinzeiro. Fotos de Heitor, Charles e Laiza foram espalhadas pela cama bagunçada, mas não havia ninguém no quarto para vê-las.
— Charles… — disse Otávia espantando-se ao entrar no quarto. – O que…
— Eu é que pergunto. O que você está fazendo aqui? Onde está Heitor? – questionou Charles.
Como uma resposta, a porta do banheiro anexado ao quarto se abriu e Heitor saiu por ela vestindo apenas uma calça de moletom suja de vômito.
— O que aconteceu?? – perguntou Charles incrédulo.
— Você. – respondeu Otávia. – Ele tem estado assim desde que voltou do hospital. Antes era apenas bebida, uma garrafa por dia. Mas quando você realmente morreu…
— Mas eu estou aqui agora! – disse Charles vendo Heitor cambalear até sua cama. – Podemos nos ver!
— Não, Charles. – disse Otávia estranhando suas palavras. – Não podem. Você morreu. Ele não.
— Mas… Nepecrapto disse que hoje é o dia em que os vivos podem ver os mortos. – contrariou Charles, ajoelhando-se ao lado de Heitor com a esperança de ser visto. – Hoje! No Halloween!
— Tem certeza de que foi isso que ele falou? Exatamente isso?
— Bem… não. Ele disse que durante o Solstício de Inverno…
— Hoje não é o Solstício de Inverno, Charles. – Otávia se ajoelhou ao seu lado e apoiou gentilmente as mãos sobre seus ombros. – O solstício foi há poucos meses, em junho.
Os olhos de Charles tremeram ao encarar o rosto absorto de Heitor. Jurara que nunca mais o veria, mas bastara apenas uma centelha de esperança para incendiar toda a sua disciplina. Lágrimas fugiam de seus olhos como torrentes de uma represa partida. A marca em seu peito começara a doer mais uma vez.
— Está tudo bem. – dissera Otávia abraçando-o. – Eu estou aqui. Você não está sozinho.
— Mas ele está… — fungou Charles.
Otávia o abraçou com mais força, tentando refazer a represa em seu coração, mas era uma tarefa que apenas outra pessoa poderia realizar.
— Charles… — sussurrou Heitor abrindo os olhos. – Desculpe…
— Não. – disse Charles esticando sua mão sobre o rosto de Heitor, mas sem realmente o tocar. – Não.
Um barulho de garrafas caindo fez com que Otávia soltasse Charles, e Heitor pulasse da cama. Apenas uma garrafa de ice permanecera de pé. Os três que estavam no quarto, mortos e vivos, olharam para a mesa e viram que havia um tabuleiro ouija sobre ela. Charles sabia que Heitor o usava de decoração durante o Halloween, mas nenhum dos dois nunca acreditara no jogo.
— Quem… quem está aí? – perguntou Heitor segurando a garrafa sem tirá-la do lugar.
Então o objeto se movimentou até estar sobre a letra “C”.
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