Deus dos Erros

22 A Mão Que Afaga


Notas iniciais
Hello People! Aqui vai o Antepenúltimo Capítulo!

Setenta e sete dias… Há onze semanas Fábio perdera seu irmão mais velho, e Laiza um de seus melhores amigos. O tempo não diminuíra a dor da perda, os segundos apenas a aprofundavam em seus corações corroídos. Agora, eles enfrentavam novamente a ameaça da morte, sem saber se aquele dia seria apenas a véspera do aniversário de Cristo, ou a véspera da morte de um amigo.
Sentada na sala de espera, Laiza segurava a mão de Fábio. O menino nunca fora muito aberto para o carinho alheio, contudo, durante aquele momento, sua autoproteção havia sido arruinada pela tristeza e desesperança. Ele se escondia dentro de um capuz, como era de seu costume, olhando para o nada enquanto seus pensamentos mergulhavam em lágrimas que ainda não ousavam externar-se.
A garota olhou para frente e viu o reflexo de ambos em uma porta de vidro escuro. Ela havia mudado tanto desde que Charles morrera. Durante seu enterro, ela havia usado roupas coloridas, mesmo que escuras, tentando manter sua personalidade vivaz. Um esforço que foi perdendo sua convicção com tempo, e logo suas cores vivas e alegres desbotaram. Agora, a garota usava roupas pretas ou brancas, ou pretas e brancas, escolhendo-as conforme se sentia. Não conseguira manter sua alegria espontânea após perder Charles, e temia não conseguir evitar uma amargura constante se perdesse Heitor.
— Ainda bem que o meu irmão não está aqui. – disse Fábio quebrando o silêncio.
Laiza arregalou os olhos surpresa e soltou a mão do menino.
— Por que você está falando isso? – questionou.
— Ele não ia aguentar perder o Heitor.
— Querido, Heitor vai…
— Não diga que ele vai ficar bem. – interrompeu-a Fábio com seriedade. – Charles não ficou.
Os dois se encararam por alguns segundos. Laiza queria assegurar o menino de que tudo ficaria bem, mas ele estava certo. Não havia como saber o que aconteceria com Heitor.
— Tudo bem, eu não vou dizer isso. Mas você também não pode falar que ele não vai ficar bem. A gente não tem como saber disso.
— Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. – Fábio se levantou e começou a andar.
— Fábio…
— Eu vou ao banheiro. – declarou antes de deixar a sala de espera.
Laiza fechou os punhos com frustração. A desesperança havia tomado o coração de Fábio, e mesmo que a garota quisesse lutar contra isso, como poderia? Afinal, o mesmo havia acontecido a ela, pois ela também não apostava na recuperação de Heitor. Queria, mas… simplesmente não conseguia.
Lágrimas encheram seus olhos.
— Vocês perderam alguém recentemente… eu não sabia. – disse Mirela, uma menina de cabelos brancos sentada na fileira de cadeiras oposta a de Laiza. – Eu sinto muito.
A menina trabalhava em uma loja de ocultismo que ficava próxima ao local onde Heitor fora encontrado. Fora ela quem ligara para a emergência, e fizera questão de ir até o hospital prestar consolo e assistência.
— Obrigada. – Laiza limpou suas lágrimas. – Um amigo faleceu há uns dois meses.
— Era o irmão do garoto?
— Sim. O irmão mais velho.
— Achei que vocês fossem irmãos também. – Mirela tirou um bloco de papel de sua bolsa e começou a desenhar algo. – Me desculpa ficar falando assim… é que você parece ser uma irmã mais velha.
— Eu meio que sou uma tia. Minha irmã vai se casar com o pai dele. E você não precisa se desculpar, se não fosse por você…
— Fiz o que qualquer um faria. – Mirela sorriu e entregou uma folha de papel para Laiza. – Toma. Mostra isso para o garoto. Talvez anime ele um pouco.
No papel havia um desenho em estilo chibi de Laiza abraçando Fábio. Charles observou o desenho e sorriu. Quando soube que Fátima, a irmã mais velha de Laiza, iria se casar com Júlio, o pai de Charles e de Fábio, o garoto enfureceu-se. Contudo, vendo a amiga cuidar de seu irmão mais novo, Charles quase se sentia feliz por ter alguém que ficasse ao lado de Fábio em sua ausência. Quase, pois a preocupação com Heitor não deixava espaço para nenhuma emoção ou sentimento positivo.
O fantasma olhou para frente, encontrando o olhar da menina de cabelos brancos. Ela rapidamente olhou para outra direção, como se tivesse o visto e quisesse desviar de seu olhar. Embora Charles tivesse ficado intrigado com aquilo, sua mente estava presa a outros lugares. Ele se afastou das duas meninas e entrou nos caminhos de névoa, seguindo por eles até chegar à Unidade de Terapia Intensiva, ala onde o quarto hospitalar de Heitor se encontrava.
Charles caminhou até o rapaz, parando ao seu lado. Analisou seus traços com cuidado, sem saber se seria a última vez em que os veria. Heitor ainda usava um moicano crespo, curto e largo, um corte que Charles sempre gostara nele. Sua face, que outrora era séria e suave, agora se contorcia em uma expressão de dor e agonia. Sua cor mulata parecia ter desbotado devido à perda de sangue, assumindo os tons do limiar de sua extensão vital.
Charles olhou ao redor em busca de seu espírito. Imaginou que se o garoto não fosse de fato se recuperar, sua alma já estaria ali, de pé ao lado se seu corpo. Mas não estava. O fantasma queria acreditar que aquilo significava que ainda havia esperança, que Heitor ainda tinha chances de sobreviver. Contudo, assim como ele próprio, sua ingenuidade também estava morta. Ele sabia que nem todos os mortos se tornavam fantasmas, e que mesmo que Heitor sobrevivesse, podia nunca mais acordar. E mesmo que acordasse, podia nunca mais ser o mesmo, sofrendo de sequelas irreversíveis. Dentre todas as várias possibilidades para o seu futuro, sobreviver em bem estar era a menos provável.
O garoto esticou a mão, parando-a a milímetros do rosto de Heitor.
— Há tanto que eu quero te dizer… — lágrimas começaram a descer por seu rosto. – Coisas que eu deveria ter te dito antes. Coisas que eu deveria ter feito antes. Que nunca mais vou poder fazer. Eu não sei se você vai me ver de novo, mas eu não quero isso… Quero que você acorde, que você viva. Que você me deixe ir, e realmente viva a sua vida. E por mais que eu te… — ele apertou os olhos e tocou seu rosto. – …não quero te encontrar de novo. Porque você merece mais do que isso. Quando for a sua hora, quando você já tiver vivido a sua vida, não quero que você se torne como eu. Você merece a paz do descanso que eu nunca vou ter. Eu não quero que você sofra mais, porque… porque eu amo você.
A pele cinzenta de Charles começou a escurecer, enegrecendo aos poucos seu braço direito até que a mão que tocava o rosto de Heitor estivesse tomada pelas trevas. Assim que isso ocorreu, o aparelho que marcava as batidas cardíacas de Heitor começou a apitar, indicando uma parada cardíaca. Charles retirou a sua mão imediatamente, afastando-se rapidamente do quarto e de Heitor para não machucá-lo mais. Ele viu médicos entrando no quarto e então voltou à nevoa, retornando à sala de espera, onde seu irmão mais novo agora estava.
Embora Charles soubesse que precisava ir embora, que sua presença apenas traria sofrimento àqueles que ele amava, ele não conseguia deixá-los. Quando mais a marca dos divididos se apoderava dele, menos força ele tinha para fazer o que era preciso. Então ele permaneceu ao lado de Fábio e Laiza, ao lado de sua antiga família.

— Finalmente… — disse alguém na escuridão, bem longe dali.
Em uma sala escura, um menino estava sentado no interior de uma circunferência de velas apagadas. Assim que abriu seus olhos brancos e cegos, as chamas das velas se acenderam. Uma mulher de quarenta e poucos anos, com cabelos cinza e crespos, e olhos bem azuis entrou na sala escura, tomando as chamas como um sinal de avanço. Beatriz Ramon Santana, conhecida como Señora Deseara, uma cartomante da Baía de São Sebastião com dons mediúnicos, encarava o olhar alvo de Joel, um rapaz paranormal e cego que ela adotara há muitos anos.
— Que hás visto? – perguntou a cartomante.
— O garoto. Charles Correia. – respondeu Joel segurando uma foto que roubara da casa de Charles ao enganar seu irmão mais novo Fábio e sua amiga Ágata. – Ele está com o irmão agora.
— Tenemos que ser rápidos. – disse Deseara com nervosismo. – No lo dejes escapar!
Joel olhou para a foto que segurava, vendo o brilho índigo que a cobria.
— Não se preocupe. Ele é nosso agora. – Joel colocou a foto sobre o fogo de uma das velas, iniciando um ritual. – E logo também teremos o mágico.

A escuridão transformara o braço de Charles em puro breu. O menino olhava para si mesmo, temendo estar perdendo o controle sobre si novamente. Ele… – Charles dá um abraço… – Náuseas cresceram dentro de suas entranhas. Uma sensação pesada brotara em sua alma. – Charles dá um abraço… – Alguém estava o chamando, arrastando-o para longe. O mundo ao seu redor se dissipou, novas cores sobrepondo-se as antigas e revelando uma nova tela. Charles não estava mais no hospital. Uma pequena praia estendia-se ao seu redor, lotada de espíritos que o olhavam com seriedade. Figuras distantes, exceto por duas. Uma garotinha negra de cabelos cacheados com um colar de madeira, e um ser encapuzado com uma máscara de crânio com olhos de cristais.
— Charles dá um abraço. – disse Vivian Obá diante de Charles, terminando sua invocação.
Ela segurava uma vela cuja chama se esvaíra com a presença do garoto. A bruxa não era mais uma mulher velha, ela havia recuperado seu amuleto e o usara seu poder para mais uma vez rejuvenescer até aparentar ter cinco anos de idade.
— O que…? – Charles não conseguia entender o que estava acontecendo.
— Eu disse a você, menino: Você pagou por apenas um dos crimes de Marcus, ainda resta o outro. – relembrou a bruxa. – Você me deve um favor e está na hora de pagá-lo.
O nome de Marcus o confundira. Charles sabia quem ele era, lembrava-se dele e das coisas que tinham feito um pelo outro, porém, quanto mais pensava no menino, mais confuso ficava, como se as suas lembranças estivessem escorrendo de sua cabeça.
— O que você quer? – perguntou Charles com impaciência. – Não tenho nada além de infelicidade pra dar a você. Pode levar se você quiser.
A pequena feiticeira sorriu de maneira vil.
— Que engraçado você dizer isso. – comentou.
Antes que continuasse a falar, o ser encapuzado agachou ao seu lado e sussurrou algo ao ouvido da bruxa. Quando terminou de falar, olhou para Charles, e o garotou notou que seu olho direito de cristal estava rachado e sem cor. Aquele era o mesmo espírito que vira na Corta das Viúvas e naquela mesma praia, a Praia da Feiticeira, logo após libertar Marcus. O espírito que Charles vira o abraçando na visão que a Velha havia lhe dado.
— Tudo bem. Você tem dez minutos. – disse a menininha para o fantasma de capuz. – Não se esqueça da marca. Precisamos dela.
— Eu sei. – confirmou o espírito com um timbre gutural que sou familiar a Charles.
A feiticeira se afastou e então a névoa dos mortos se fechou ao redor dos dois espíritos, impedindo que os outros membros da legião de Vivian Obá pudessem vê-los.
— Quem é você? – perguntou Charles confuso. – O que você quer?
O espírito respondeu com um abraço forte e terno.
— Eu sinto muito. – disse-lhe soltando-o e se afastando. – Muito mesmo.
O ser encapuzado pôs uma mão sobre sua máscara de crânio e a empurrou para dentro de sua cabeça, assim revelando seu rosto. Charles arregalou os olhos, incrédulo com o que via. À sua frente estava uma menina muito magra, alta de cabelos negros e lisos. Seu olho esquerdo era negro como piche. Já seu olho direito era verde água e leitoso, cego devido à tortura que sofrera meses atrás.
— Otávia… — disse Charles sem entender o porquê de sua amiga estar ali. – O que…?
Ele queria fazer muitas perguntas, mas não sabia por qual começar. Não fazia absolutamente sentido algum que ela estivesse ali. Que ela usasse a máscara de crânio, símbolo do exército de Córade e da legião de espíritos de Vivian Obá. A mesma legião que perseguiu, aprisionou e torturou Marcus, o menino que acolhera e cuidara de Otávia após sua morte.
— Foi você… você contou à bruxa sobre Marcus… Você o traiu!! – vociferou Charles enfurecido.
Otávia desviou o olhar, falhando em impedir que lágrimas descessem de seu olho esquerdo.
— Sim. Fui eu. – ela voltou a encará-lo. – Infelizmente, foi necessário.
— Foi necessário? FOI NECESSÁRIO?! Por quê? Por que você fez isso? Por quê?!!
A fúria de Charles fez com que a areia ao seu redor começasse a se mover como se uma ventania a atingisse.
— Você não entende… não vai entender. Mas deveria. – ela fechou seu semblante com determinação. – Você como eu sabe o que é amar outra pessoa. Sabe como é a dor de não poder estar com aqueles que você ama.
Charles recuou um passo, surpreso com o tom impositivo da garota.
— O que isso tem a ver com trair seus amigos?
— Trair…? Sim, eu traí Marcus. Traí você… e todos os outros. Mas, por mais que isso me doa, faria de novo. Faria mil vezes a mesma coisa. Se esse é o preço…
O garoto balançou a cabeça negativamente, sem conseguir acreditar no que estava ouvindo, ou compreender.
— Por quê? O que você ganhou com isso? Marcus… ele foi destruído. Eu não sei como, mas sei que foi sua culpa. SUA!! Me explique como destruir o melhor amigo que você tinha é um ato necessário de amor! Me explique!
Otávia avançou um passo. Ódio puro e fervente apossou-se de suas expressões.
— Não fui eu quem destruiu Marcus. Foi ele. – contrariou. – Nepecrapto. É tudo culpa dele, sempre foi. Tudo que eu tive que fazer, o que eu ainda tenho que fazer… É tudo por causa dele!
— Você acusa Nepecrapto de me manipular desde que vim morar com vocês, mas é você quem vem nos manipulando. E eu quero saber o porquê. AGORA!
O vociferar raivoso de Charles ardeu na pele de Otávia como se uma nuvem de ácido tivesse a atingido. Ainda assim, a menina não demonstrou nenhum sinal de dor. Sua própria marca dos divididos brilhou em seu ombro direito, posição oposta à marca de Charles que brilhava em seu peito esquerdo.
— Muito bem, eu vou contar. – decidiu-se. – Você merece isso. Você merece muito mais do que isso. Eu cuidava de Heitor quando ele era mais novo, eu já havia te contado sobre isso. Mas não te contei sobre o porquê. Eu não estava trabalhando como babá por dinheiro. Eu queria me aproximar de Heitor. Precisava me aproximar da família dele.
— Por quê? – questionou Charles ainda mais confuso.
— Por causa do irmão dele. Renato.
— Mentirosa! Heitor não tem irmãos. – contrariou Charles.
— Não que ele saiba, ou você, ou qualquer outra pessoa da família além da mãe de Heitor e do próprio Renato. – contou Otávia. – Ele nasceu muito antes da mãe dos dois conhecer o pai de Heitor. Fruto de um abuso que ela sofreu quando era mais nova. Os pais dela decidiram dar a criança para um casal de conhecidos que não podia ter filhos, e eles criaram Renato como se fosse filho deles. Mas ele descobriu sobre os verdadeiros pais e quis se aproximar do irmão mais novo.
— Mesmo que isso seja verdade, o que você tem a ver com isso?
— Renato e eu éramos… nós somos namorados. Ele me pediu para trabalhar como babá do Heitor, e quando fosse o momento, eu iria apresentar os dois. Mas eu morri antes disso, foi então que eu conheci Nepecrapto, e tudo começou a desandar. De início, eu acreditei que ele era um protetor, que se preocupava comigo. Mas ele me fez acreditar que se eu permanecesse ao lado de Heitor, ele conseguiria me sentir e eventualmente me ver. Então foi o que eu fiz.
“Renato conseguiu me sentir, mas não me ver. isso me deixou cada vez mais perturbada. O meu esquizograma aflorou e não demorou muito para eu estar completamente possuída por ele, ao ponto de influenciar Renato a se jogar da Torre Vermelha. Quando ele morreu, eu senti como se toda a minha alma se incendiasse, sabia que estava sendo consumida pela marca, mas então o espírito de Renato apareceu na minha frente, e ela regrediu completamente.”
Charles se lembrou de quando quase fizera o mesmo com Fábio. Ele fizera com que seu irmão saísse na madrugada e iria fazer com que ele se pusesse na frente de um carro em velocidade, contudo, antes que chegasse a tal ponto, Heitor apareceu, e a influência que o esquizograma tinha sobre Charles regrediu imediatamente. Foi então que Otávia apareceu, dizendo para ele não usar a marca com aqueles que ele amava.
— O amor de outra pessoa pode curar o veneno da marca. Nepecrapto me contou isso depois que ele também apareceu para Renato. Aquele maldito também é o tutor dele.
Charles então se lembrou do desenho de Renato rabiscado ao lado do de Otávia em uma das paredes do prédio abandonado.
— O que aconteceu com ele? – quis saber.
— Bem, Nepecrapto queria que eu e Renato fôssemos consumidos pelas nossas marcas, mas enquanto nós nos amássemos e estivéssemos juntos, os esquizogramas não tinham como nos possuir. Então ele tentou nos separar. – Otávia cerrou os punhos até que sangue escorresse por suas mãos. – É claro que ele não fez isso explicitamente. Ele é sorrateiro. Uma palavra, um conselho, uma ideia, pouco a pouco ele sugeriu a Renato que a culpa de ambas as mortes minha e dele era na verdade do homem que me assassinou. Que se não fosse por ele, estaríamos os dois vivos e ele poderia estar com a família que ele sempre sonhara.
“Renato começou a ficar distante, ele sumia na névoa e não dizia para onde ia. Então um dia aconteceu… ele encontrou e matou o meu assassino, sendo assim tomado pelo seu esquizograma e se tornando um consumido como Nepecrapto. Eu nunca mais o vi.”
Charles ficou silenciosamente cabisbaixo por um minuto, assimilando tudo o que havia ouvido. Olhando para trás e analisando tudo que havia acontecido consigo mesmo desde que conhecera Nepecrapto, ele podia ver a verdade nas palavras de Otávia. Se não fosse por Heitor, Charles teria sido consumido por sua marca ao causar a morte de seu irmão. Quando isso não funcionou, Nepecrapto o fez acreditar que Heitor seria capaz de vê-lo durante o Halloween, fazendo-o assim quebrar sua promessa de não se aproximar novamente dos vivos, e reativando seu esquizogramas. Quanto mais pensava, mais indícios ele descobria de que seu tutor estava tentando durante todo aquele tempo fazê-lo ceder ao desespero, algo sobre o qual Otávia sempre o alertara.
— Aquela noite no cemitério… Nepecrapto…
— Tentou me destruir. – completou Otávia. – Ele sabia que eu iria atrapalhá-lo. Quis se livrar de mim.
— Eu acredito em você, mas isso ainda não explica o porquê de você estar com Vivian Obá, e entregar Marcus a ela.
Otávia olhou para seu braço esquerdo, retomando seus pensamentos originais.
— Normalmente, quando você se torna um consumido, não tem volta. – ela disse. – Mas eu encontrei um jeito. Marcus havia me contado sobre os Filhos da Água, sobre Vivian Obá e todos os feiticeiros que são leais a ela. Eu sabia que ela poderia trazer o meu Renato de volta, e ela pode. Há um encanto que pode reverter o esquizograma, mas a bruxa só teria poder para fazer isso se tivesse o Amuleto de Moloque de volta. Então eu… eu entreguei a ela a única pessoa que sabia onde ele estava.
Charles recuou mais um passo, horrorizado com a confissão de Otávia.
— Ela me prometeu que o soltaria depois que tirasse o amuleto dele, eu não sabia que ele tinha escondido no Mundo Morto, e nem que você e Leonardo iriam acabar se envolvendo em tudo isso. – Otávia o olhou com remorso e desespero. – Não sabia que Marcus seria obliterado.
— Não sabia… Você… — repetiu Charles arfando e lacrimejando com tristeza e revolta. – Leonardo, Marcus, eles… eles se foram por sua culpa! Como pode dizer que não sabia?!!
— Eu não sabia! Eu os amava! Não era para isso acontecer. Mas… mas aconteceu. E não há mais com voltar atrás. Não posso parar agora. – Otávia assumiu uma pose firme. – Preciso terminar o que comecei.
Otávia esticou seu braço esquerdo para baixo e olhou com frieza nos olhos de Charles. O menino recuou mais um passo. Havia algo mais que precisava ser explicado.
— Otávia… — ele engoliu em seco. – Por que eu estou aqui? Se vocês já tem o amuleto… por que precisam de mim?
O braço esquerdo da garota começou a brilhar, revelando uma dúzia de esquizogramas de cores diferentes e formas idênticas à marca que brilhava no peito esquerdo de Charles.
— Os esquizogramas representam o Zodíaco dos Mortos, já lhe contamos isso. – ela apontou para o peito de Charles. – O seu representa a Bruxa Enforcada, que é referente ao Signo de Libra. O signo complementar de Libra é Áries. O único que pode se conectar com ele. – ela começou a avançar na direção de Charles. – O referente ao Signo de Áries no Zodíaco dos Mortos é o Coração Incinerado. O mesmo que Renato tem como marca dos divididos. Para Vivian Obá fazer o encanto de reversão, ela precisa de treze esquizogramas… iguais ao seu.
Charles tentou recuar mais, porém, a aproximação de Otávia o paralisou. Havia uma energia em seu braço cheio de esquizogramas que estava selando seus movimentos. A névoa se desfez ao redor dos dois espíritos. Novamente estavam cercados pelos Filhos da Água e na presença de Vivian Obá.
— Não se preocupe, Charles. – disse a menina colocando a mão sobre sua marca. – Quando eu tirar a marca de você toda a sua dor irá embora. Tudo aquilo que te faz sofrer… você não vai mais sentir.
Charles queria gritar. Versos da profecia da Velha ressoavam em sua mente: “O toque amigo quer consolar… Mas seu destino é lhe roubar”. Ele começou a sentir um torpor invadir seu peito, e enquanto sua marca estava sendo tomada dele, o menino podia ver nos olhos de Otávia que suas últimas palavras eram mentiras, pois tamanha era sua dor que começara a chorar sangue pelo olho cego.
Um novo esquizograma começou a ser desenhado nas costas da mão esquerda de Otávia. O último necessário para seu tão esperado feitiço. E quando estivesse completo, Charles não deixaria de sentir apenas o que lhe fazia sofrer. Não restaria nenhum sentimento, emoção ou pensamento que lhe definisse. Sua alma estaria eternamente vazia.

Notas finais
Reta Final people! Eu adoraria saber sua opinião sobre a minha história, então, por favor comente! Até o próximo capítulo! (23- Os Erros de Deus)