Deus dos Contratos
1 Capítulo Único
Notas iniciais
— Hm... Então, após este tempo todo, na verdade você é o Rex Lapis. — Repete a informação, ainda descrente com a recém descoberta. Sua típica gargalhada juvenil invade os ouvidos do Arconte Geo, irritando-o pela primeira vez por trás de seu frio olhar decepcionado, fazendo-o apertar sua lança firmemente em punho enquanto a voz, exageradamente alta do ruivo, ecoa pela Casa Dourada. — Se divertiu enganando todo mundo, Morax? Mal consigo imaginar quão engraçado foi para você observar a todos em Liyue desamparados com a perda do Arconte. Quantas vezes riu sozinho, Morax?
Morax. Ouvir este nome, sendo cuspido da boca de Childe com tanto escárnio, eleva sua fúria de modo que, o Mensageiro dos Fatui percebe as labaredas de cólera em seus belos olhos de tonalidade tal qual uma pedra Cor Lapis, ofuscados pelas pestanas escuras que os cerram e as, agora expressivas, sobrancelhas franzidas na glabela.
Mesmo tomado pela ira, Zhongli fita atentamente a imensidão azul dos olhos de Childe. Os grandes olhos do homem de Snezhnaya agora são apenas parcialmente vistos graças às sombras que seus cabelos fazem sobre seu olhar semicerrado em desprezo, fitando-o de volta, não devolvendo a ira que lhe é direcionada, mas sim, um misto de indiferença, como quando está a lutar com inimigos irrelevantes, e zombaria.
— Não vai responder é? — Ele solta outra gargalhada. — Ora, ora. Por favor, Zhongli-sensei. Não fique acanhado agora. Não pense que fiquei abalado por suas mentiras.
Suspira.
— Não ri em momento algum.
— Mentiroso. — Childe diz ao jogar seu arco ao chão. O som seco do objeto se chocando contra o piso ecoa fúnebre pelo ambiente fechado. Pela primeira vez desde que entraram ali seu tom não é de um jovem brincalhão, mas sim, digno do Mensageiro dos Fatui. Não é a primeira vez que o vê dessa forma.
Em uma das muitas caminhadas noturnas que partilharam lado a lado pelos campos ao redor de Liyue, encontraram dois Fatui de baixa patente assediando uma jovem vestida com o uniforme da guilda dos aventureiros. No mesmo instante, desviou os olhos para ver a feição do Mensageiro. O arregalado olhar descrente foi precedido pelo soltar de seu arco sobre a grama levemente molhada pelo sereno da noite úmida.
Apenas pegou o arco, observando as costas finas se afastarem a passos apressados em direção aos três, não disse nada, pensou que iria apenas dar um sermão nos aliados já que soltou sua arma. Estava enganado. De suas mãos cobertas apenas pela luva negra de arquearia, surgiram duas lâminas de elemento Hydro.
Já próximo, Childe pigarreia para chamar a atenção. Os dois Fatui no mesmo instante abrem curtos sorrisos envergonhados, nunca tiveram a oportunidade de falar com um Mensageiro fora o dia de suas iniciações.
— O que pensam que estão fazendo?
— Estamos apenas nos divertindo, senhor Tartaglia.
Zhongli se aproximava a passos lentos, mas ao ouvir o grito de dor, correu. O Mensageiro direcionou apenas um olhar de soslaio à feição chorosa da Aventureira e aos punhos cerrados sobre o peito, em uma nítida tentativa de se defender, sem proferir mais palavra alguma, as lâminas em suas mãos foram ambas em direção aos próprios aliados, cortando-lhes as pernas de modo que caem ao chão de joelhos em meio aos próprios gritos de dor.
O olhar sério invade o rosto de Childe como se nunca tivesse sido aquele jovem de altas risadas. Aperta levemente o arco entre os dedos inconscientemente enquanto observa impotente.
— Tartaglia. — O ruivo ergue uma sobrancelha, é a primeira vez que o chama de tal forma. — Nosso contrato. Estou esperando. — Afirma com a lança baixa, em posição sem guarda, completamente desprotegido.
Após Childe, de forma imprevisível até para o Arconte de seis mil anos, libertar Osial para que destruísse Liyue, forçando assim sua revelação para proteger a cidade e destruindo seus longos planejamentos e contrato com os Fatui, negou-se a entregar a Gnosis. Afinal, o contrato não foi devidamente seguido, o teste foi executado, mas o resultado não o foi satisfatório, precisa manter sua Gnosis e assim manter a cidade segura.
Os guerreiros da terra gélida não aceitaram. Childe, movido pela determinação dos Fatui e pela obrigação como o décimo primeiro Mensageiro, o desafiou para um duelo valendo a Gnosis, o tesouro que Tsaritsa os enviou para buscar.
— Já que as palavras do Arconte dos Contratos não servem de nada, vamos resolver da melhor forma. — Disse já com o sorriso de escárnio em seu rosto jovial.
Negou. Seria um duelo sem propósito em aceitar. Não havia nada que o Mensageiro pudesse dar em troca. Foi o que pensou até ele apontar sua lâmina azul para o próprio pescoço, exalando uma aura séria e intimidadora.
Childe não precisou dizer nada, dentro de seus grandes olhos azul-royal gritava as palavras de qualquer guerreiro que exalta a batalha mais do que a própria vida. Voltar sem ao menos lutar seria para ele uma vergonha maior do que ser derrotado.
— Se é assim. Vamos lutar em outro lugar.
— Não. Aqui. Agora.
Olhou ao redor. Inúmeras pessoas, ainda assustadas, os olhando com os olhos arregalados e cobertas por feridas. Foi essa a justificativa que pensou, porém, além disso, havia outro motivo para querer enfrentá-lo longe dos olhares atentos. O enterro de sua amizade é algo que diz respeito apenas aos dois e ninguém mais. Não é algo que mereça uma plateia.
— Se concordar em lutar em outro local, lhe dou, não apenas o direito de escolher o lugar, mas também de me acertar o primeiro golpe.
Childe franziu as sobrancelhas por alguns segundos, tentando assimilar as palavras do Arconte. Por fim, sua típica gargalhada juvenil inundou os ouvidos de todos que os escutavam. Por pelo menos um minuto inteiro, o ruivo de Snezhnaya gargalhou, ignorando os olhares assustados em si e o irritado de Zhongli.
— Está me subestimando, Morax? — Questionou buscando pelo fôlego que o escapou.
— O que me diz? Você tem apenas a ganhar com esse trato. — Ignora propositalmente a pergunta do outro.
— Tudo bem. Eu aceito.
Agora, Zhongli aguarda o primeiro golpe que o prometeu pelo contrato, sob o teto da Casa Dourada, local escolhido pelo Fatui. A ponta de sua lança tocando o chão e o peito aberto, revela que não se importa de onde virá o ataque enquanto observa atentamente os movimentos do arqueiro.
— Não estou com pressa, Morax. — O circunda desarmado e despreocupado. Sabe que o Arconte manterá sua promessa e não o vai atacar. Seus olhos, ainda que frios, agora estão pensativos, olhando para cima, revela o leve brilho de seus olhos azuis enquanto observa o passado. Aquele que o olha não deixa de perceber que assim parece o mesmo Childe de dias atrás, de quando comiam juntos em restaurantes, caminhavam pelos campos e observavam o porto, onde o Fatui perdia horas observando o horizonte falando sobre sua terra gelada e sua família que aguarda seu retorno, sem saber que tornou-se um Fatui.
Ambos acabam recordando-se de momentos que passaram juntos, sozinhos em seus silêncios.
O ruivo se recorda da vez em que se rendeu aos hashis. Suas mãos, desacostumadas com o manuseio do objeto, teimavam em derrubar a comida de volta à porcelana cara de Liyue. Sua feição irritada, observando os palitos como um acampamento de Hilichurls, é cômica, mas Zhongli observava sem qualquer emoção em seu rosto.
— Zhongli-sensei... como segura esse maldito palito? — Por fim, conseguiu engolir seu orgulho e pedir a ajuda do moreno.
Demonstra e o dá as instruções corretas sobre como os hashis devem ficar acomodados na mão. Porém, é em vão. O Fatui grunhi frustrado perguntando-se como alguém pode comer com simples pedaços de madeira.
— Com licença, Childe. — Se levanta, o ruivo mal dá atenção pois não sabia a intenção do homem de Liyue. Quando sente a mão cobrir a sua e o peito colar em suas costas, arregala os olhos. Fita-o indagador com o rosto vermelho de vergonha. Todavia, o moreno mantém sua costumeira feição neutra. — Preste atenção.
Mesmo que suas mãos estejam protegidas pelas luvas, Childe consegue sentir a quentura da mão de Zhongli junto à sua de forma provocativa. Devia estar aprendendo, mas não consegue se concentrar, frequentemente olha para a porta, perguntando-se se alguém entraria e compreenderia erroneamente a situação. O Arconte percebe a falta de atenção e nervosismo alheios, seu rosto, vermelho até as orelhas, o revela. No fim, sua ajuda não parece ter adiantado.
Observa a mão enluvada junto à sua que nervosa e desengonçadamente segura os hashis. Diferente de suas próprias luvas, as de Childe não cobrem por completo as mãos, como um vestido de corte provocativo no busto de mulher. Fita a pele branca da mão do homem de Snezhnaya exposta pelo corte do tecido que lhe cobre os dedos, não duvida que Childe tenha as palmas grossas e rudes de um guerreiro que há muito conhece o campo de batalha, mas as costas de suas mãos são finas e pálidas como uma flor Qingxin. Roça os dedos pela pele exposta.
Macio.
Desliza seus dedos por sob a luva negra do arqueiro, sentindo-o tensionar os ombros e comprimir os músculos das mãos, surpreso por sua aproximação repentina. Há poucos milímetros e conseguir entrelaçar seus dedos, hipnotizado pela fineza e palidez da mão que aos poucos se revela da luva que a enclausura, ouve a voz alarmada do ruivo.
— Zhongli-sensei?!
Sentir a quentura do torso do homem de Liyue em suas costas, encostando-o de forma íntima que jamais é visto entre dois homens em sua terra natal já era o bastante para esquentar o rosto do jovem de Snezhnaya, porém, quando sentiu-o adentrar por debaixo de sua luva de forma casual, porém lenta e sedutoramente, era demais para enxergar apenas como uma brincadeira do mais velho. Ao ouvir sua voz, ele se afastou, tão lentamente e cuidadoso quanto quando se aproximou.
— Desculpe-me, o ofendi?
— ...Talvez um pouco intrusivo demais, Zhongli-sensei. — Mal consegue olhá-lo nos olhos, mas força-se a isso, buscando disfarçar o nítido constrangimento que suas bochechas rosadas revelam enquanto puxa o tecido de sua luva que foi quase arrancada de si, devolvendo-a ao local de origem.
— Perdoe-me.
Enquanto isso, Zhongli se recorda de quando ambos estavam a fazer compras pelo porto, caminhando com o pôr do sol a seu lado, iluminando as águas do mar, tingindo-o de laranja como o céu tal qual um espelho. Desvia por um instante o olhar para o jovem ruivo ao seu lado, que tagarela sobre algum assunto que há alguns segundos esqueceu-se de prestar atenção. Nesse momento percebeu, seu laranja favorito deixou de ser o do sol poente.
— Irmão! — Repentinamente ele o entrega todas as compras que carregava e desaparece do seu lado, correndo em direção à fina voz infantil. Childe se ajoelha no chão e abraça apertado uma criança, um menino com seus mesmos cabelos ruivos.
— Zhongli-sensei, esse é o Teucer, meu irmãozinho. — O homem de Snezhnaya se levanta com o menino nos braços. Ambos são imagem e semelhança, os mesmos grandes olhos azuis, brilhantes como uma safira, os mesmos cabelos ruivos e bagunçados, e agora, lado a lado ao irmão, Childe parece exalar a mesma aura infantil e alegre do menino. As palavras orgulhosas e amáveis quanto à família fazem jus à expressão calorosa do ruivo. — O que você veio fazer aqui, Teucer? — Pergunta curioso e preocupado.
— Eu tava com saudade... E... E... Você também pode me levar para ver o Senhor Ciclope?! — A feição do menino varia de tímida para empolgada em um segundo. Childe gargalha com o pedido do irmão.
— Senhor Ciclope? Não conheço tal criatura. — Zhongli comenta intrigado.
— Não? Você não trabalha com os brinquedos com meu irmão?
— Brinquedos? Na verdade, seu irmão é um Fa-... — Antes que pudesse concluir sua fala, Childe pigarreia alto com um sorriso nervoso nos lábios, fitando atentamente os olhos dourados do Arconte como se o quisesse dizer algo.
— O sensei aqui não trabalha comigo não, Teucer. Ele é um professor de história. Vai saber responder qualquer pergunta sua. É a pessoa mais inteligente que conheço.
— Oh!
Zhongli cruza um dos braços, levando uma mão aos lábios de forma pensativa, compreendendo a situação. Por algum motivo, Childe parece mentir ao irmão sobre a própria vida.
— O Senhor Ciclope é um Guarda da Ruína bonzinho que o Teucer acredita que existe. — O ruivo sussurra para si depois de devolver o pequeno menino ao chão de modo que não escute suas palavras. — E a partir de agora eu não sou um Fatui. Entendido, Zhongli-sensei?
Sua voz calma e sussurrante ao pé da orelha do Arconte o arrepia e deixa desconsertado. Se limita a assentir com a cabeça, ainda que não compreenda o motivo para as mentiras, o ajudará a manter seu segredo.
Quando Teucer, com uma das mãos dadas ao irmão mais velho, ergue para si a mão livre para que andassem todos juntos, sente o coração amolecer e esboça um curto sorriso. O menino e Childe alargam seus sorrisos no mesmo instante quando segura a mãozinha.
— Eu confiei em você, Zhongli. — Sua voz ecoa fria como mármore. — Pela primeira vez eu me... — Morde a língua, estava prestes a dizer que se apaixonou. Seria tolice, não é necessário dizer isso. Já não importa mais. — Imaginei que fosse um amigo de verdade. — O Arconte fecha momentaneamente os olhos e suspira.
— Sou seu amigo.
Quando torna a abrir os olhos, não tem tempo para reagir, Childe já estava à sua frente com a lâmina de Hydro, aproximando-se rápido como um falcão a abocanhar a presa, e lhe perfura o peito. Morax grunhi de dor, o som da falsa lâmina perfurando seu peito invade seus ouvidos de forma macabra, e é ainda pior quando o ruivo a puxa de volta. Vê seu sangue voar para fora em pequenos jorros junto à ponta da espada, o gosto de ferro invade sua boca. Consegue sentir o sangue querendo sair pela garganta. Cospe ao chão o líquido vermelho.
— Então — Levanta a ponta de sua lança. — começaremos agora.
— Eu te dou a oportunidade de parar isso agora. Acha mesmo que me derrota com esse ferimento, Morax? — Gargalha novamente, mas Zhongli o conhece bem o bastante para saber que não é sua risada de escárnio comum, Childe está claramente afetado emocionalmente, nem mesmo um Mensageiro dos Fatui gostaria de matar um amigo afinal. — Me entregue a Gnosis. Não quero ter que te matar.
Seus olhares se cruzam novamente. O golpe no peito parece ter feito o sangue descer da mente, antes irritada, de Zhongli, seu olhar agora parece mais calmo, e o de Childe, menos intimidador do que aparenta acreditar. De todas as pessoas, o Arconte escolheria ter de lutar com qualquer outra que não o Fatui à sua frente, que em poucas horas, deixou de fitá-lo com ânimo e carinho, como se fossem membros de uma mesma família, para desprezo e raiva por ter sido enganado.
A cada respiração, sente seu peito doer pelo grande buraco em seu torso. Talvez se estivesse sem sua Gnosis já teria morrido. Em um segundo forma um escudo de energia ao seu redor, sem deixar de observar o perigoso guerreiro.
— Sinto muito por ter mentido para você, Childe. Mas eu não menti sobre ser seu amigo.
O ruivo cerra os dentes e avança rápido, agora com duas espadas feitas de Hydro em mãos. O observa se aproximar pacientemente, sem tomar qualquer pose de batalha. Childe bate as lâminas contra seu escudo sem causar qualquer efeito. Franze as sobrancelhas, fitando-o nos olhos em cólera. Continua o atacando, transformando suas armas em cada ataque, o som da água se moldando e chocando-se contra seu escudo é rápido e ameaçador, mas o Arconte não parece se importar.
Com a ponta sem lâmina de sua lança, Zhongli acerta a barriga do Fatui, fazendo-o recuar vários passos com uma feição de dor. O arco volta a aparecer em suas mãos, usando-o para atirar contra seu escudo. As flechas ricocheteiam ao redor de Rex Lapis, que suspira, voltando a se irritar, no fim, simples palavras não farão o ruivo perdoá-lo.
— Não entendo sua frustração. Não mente para sua própria família, Childe?
É o humano mais rápido que já viu lutar, em um piscar de olhar está de volta à sua frente com uma flecha em mãos, que quebra assim que tenta atravessá-la em seu escudo de energia.
— Cínico. — Rosna entre dentes. — Você sabe que não é a mesma coisa. Ou você acha que eu deveria contar para o Teucer que o irmão mais velho dele é um assassino dos Fatui?
— Se não consegue lidar com minha mentira, conte para ele e deixe de ser hipócrita. Conte também sobre como quase destruiu Liyue inteira, sem se importar com os inocentes que ali estavam. Crianças da idade do Teucer, Childe.
De novo uma gargalhada. O ruivo não esboça tristeza ou arrependimento, ele gargalha, isso traz de volta a ira aos olhos do Arconte que não compreende como o jovem homem gentil, que tanto se importa com a família, pode rir após tal atrocidade.
— Que curioso ouvir isso de você. Na guerra você matou outros Arcontes e Deuses, não foi? Quem é o hipócrita aqui? Eu sou mais humano que você, eu sabia que Rex Lapis estava vivo e não deixaria a cidade ser destruída.
Nesse instante o tempo de seu escudo termina, e voraz como uma besta, o ruivo voa em sua direção com uma espada de duas mãos feita de Hydro. Consegue perceber que, de fato, tem a intenção de matá-lo, Childe mira precisamente em seu pescoço. Bloqueia com sua lança. O som afiado do encontro de seus golpes ecoa, inundando a Casa Dourada com o ar da batalha.
— Tem uma justificativa boa assim para cada assassinato que cometeu?
Childe responde com outro golpe de sua espada. Zhongli a desvia para o lado com a lança e direciona um ataque, que é prontamente bloqueado por duas adagas que repentinamente surgem nas mãos do Fatui. Com o cruzar de seus olhares, Childe percebe que o moreno não está completamente focado, tornando-se um alvo fácil. Chuta a área que antes havia perfurado o Arconte.
Zhongli grunhe, criando um pilar de pedra que afasta o ruivo.
— Se continuar pensando em outras coisas essa luta nem ao menos vai servir para me divertir. Vai ter que se esforçar mais, Zhongli-sensei.
Morax havia se lembrado do dia em que Childe alugou a cozinha de um restaurante de Liyue apenas para que pudesse cozinhar para si seu prato especial que chama de “Pesca Extrema”. Vê-lo cozinhar como se estivesse em um campo de batalha, conversando com os ingredientes antes de cortá-los com uma faca, com um largo sorriso no rosto, foi divertido.
O prato, assim como sugeria seu preparo, não tinha qualquer classe e refinamento, os tentáculos do polvo saem para fora do caldo, vermelho como um mar de tubarões assassinos, porém, cheira bem como um prato de restaurante.
— Prove, Zhongli-sensei! — Pediu com um sorriso largo de criança nos lábios e a voz tão empolgada quanto.
Provou o caldo. Depois o polvo e o caranguejo.
— É delicioso.
— Não é?! Eu disse! — E gargalhou. A gargalhada que Zhongli adora ouvir, não a de zombaria de quando está ironizando seus inimigos, mas sim de verdadeiro divertimento, como um jovem comum conversando com um amigo querido.
Conversaram e beberam a tarde toda, até que o mortal, completamente bêbado após desafiar o Arconte para uma competição de bebida, dormiu sobre a mesa. Começou a arrumar tudo, não seria correto devolver o restaurante desarrumado ao dono. Vez ou outra ouvia baixos resmungos do ruivo, mas nunca palavras compreensíveis, apenas murmurava enquanto dormia. Até que o chamou, em alto e bom tom.
— Zhongli-sensei...
Virou-se em direção à mesa, Childe estava acordado, mas ainda com um olhar sonolento e tão anestesiado pelo álcool que não sentiu a folha de hortelã presa em sua bochecha. Caminhou até ele, enxugando as mãos.
— O que foi? Vai vomitar?
— Hm...? Não, nada disso. Eu tive um sonho...
Silêncio. Zhongli se pergunta se ele voltou a dormir de olhos abertos antes de conseguir contar-lhe sobre o tal sonho que teve. Cutuca o ombro do ruivo.
— Tô acordado. Eu sonhei com minha família, Zhongli-sensei... — Comprime os lábios, como se prestes a dizer algo constrangedor. Mas desiste. — Onde tá a sua família?
Zhongli desvia o olhar. Há anos não sabe o que é ter uma família, mais anos do que aqueles em que viveu como Arconte. Mal consegue se recordar dos rostos de seus familiares e isso não o abala, após milênios, tornou-se uma lembrança vazia e sem significado.
— Morreram há muitos anos. — Limita-se a essa informação vaga.
— Meus pêsames... — Silêncio de novo, dessa vez, Childe abaixa o olhar de modo que não consegue ver se continua acordado ou voltou a dormir, então, volta a caminhar em direção à bancada que estava limpando e arrumando. — Zhongli-sensei. Eu posso ser sua família.
Os olhos do Arconte assumem um brilho dourado, intenso como dois sois, fixos nas safiras opacas do olhar de Childe. Nesse instante, o mortal percebe que o Arconte enfim começou a levá-lo a sério, trazendo um sorriso de canto aos seus lábios finos. A temperatura parece cair alguns graus dentro do ambiente fechado, intensificando em ambos a atenção e a certeza de que, qualquer movimento em falso poderia acarretar suas mortes.
Zhongli avança com a arma em punho. O ruivo sorri e espera que se aproxime, com apenas um olhar sabe quais serão os movimentos do Arconte. Assim como previu, é atacado por um golpe direto, que se desviar, se tornará um golpe transversal com a lâmina em seu peito e se bloquear ele irá girar a lança e acertá-lo com o lado sem corte. Determinado a testar seu oponente, Childe prefere desviar.
Seu adversário realiza exatamente o ataque que previu, porém, junto ao golpe transversal de sua lança, Zhongli também cria enormes lanças de pedra que voam em sua direção. Tenta cortá-las apressado, não conseguiria desviar, mas as pedras são rígidas como ferro branco e o atingem, uma de raspão no peito e a outra na coxa.
Recua, mas diferente de como tratou o moreno, deixando-o se recompor, ele continua a avançar, pressionando-o de forma sufocante. Finalmente é uma batalha de verdade, pela primeira vez, isso não o faz sorrir, por mais que tente forçá-lo em seus lábios.
Um raio roxo faz com que o moreno recue desentendido, olha ao redor, procurando por outro Fatui, detentor de uma visão Electro, que possa ter aparecido para ajudar o Mensageiro. Porém, não há ninguém além dos dois. Após a luz desaparecer, percebe Childe com a máscara dos Fatui cobrindo-lhe o rosto e uma lança roxa feita de Electro nas mãos.
Volta a cobrir-se com seu escudo de energia Geo antes de chocarem suas armas, sem saber o maior motivo pelo qual Childe cobriu seu rosto.
Sente-se frustrado, angustiado, por mais que precise cumprir com seu dever para com os Fatui e entregar a Gnosis à Tsaritsa, compreende que o Arconte quer proteger sua amada cidade, porém, se for sincero, Zhongli não lutará consigo como agora, certamente pegará leve e ficará abalado por suas palavras, não quer isso, não quer deixar a batalha ainda mais difícil para ele, percebeu quando o pegou distraído que está sendo igualmente difícil para ele, desse modo, não pode contar-lhe sobre como seu peito está apertado e suas mãos tremem como há anos não tremiam. Não sabe o que quer de fato. Nunca quis lutar com Zhongli. Se fosse qualquer outro, ainda que fosse mais forte que si, seria simples, apenas precisaria lutar com toda sua força, mesmo que perdesse, terminaria satisfeito, todavia, no momento, nem ao menos lutar o faz feliz.
É acertado por dois golpes simples, que o fazem sangrar aos montes de modo que seus joelhos cedem, fazendo-o cair ao chão. Um simples instante de distração e tem sorte por continuar vivo.
— Você que está pensando em outras coisas agora, Childe? Não me faça me arrepender de aceitar essa luta sem sentido.
Um grunhir é seguido pelo som firme da ponta de uma lança chocando-se ao chão, o ruivo transformou suas adagas em uma lança para conseguir ajuda para se levantar. Irritou Zhongli ao ponto que sabe que não há mais volta. Sorri novamente de forma forçada. Não havia como continuarem amigos. Ele mentiu sobre a própria identidade, sobre sua amizade, sobre todo o significado dos dias que passaram juntos em Liyue. Já a si próprio, tentou destruir a tão amada cidade do Arconte e quer agora roubar seu poder e entregar a Tsaritsa, mandante dos Fatui.
Fatui.
Há anos essa palavra ecoa em sua mente.
Em um movimento de sua mão, sua máscara é modificada, seu poder é aumentado, uma capa vermelha surge em suas costas enquanto seus cabelos esvoaçam com a energia que flui em suas veias. Percebeu por fim que, se não usar seu poder máximo, não teria como derrotar o Arconte e sair vivo.
— Zhongli-sensei. Eu posso ser sua família. — No mesmo instante morde a língua, descrente com o que acabou de dizer. Mesmo bêbado, não devia ter dito algo tão constrangedor, porém, ouvir a risadinha anasalada de Zhongli incrementou a vergonha quente que sobe por seu rosto. — Esquece. Eu tô bêbado. — Volta a descansar a cabeça sobre a mesa, escondendo seu rosto.
O Arconte se senta ao lado do mortal, observando as orelhas avermelhadas pela vergonha por entre os cabelos ruivos que brilham de forma convidativa para que os toque. Passa os dedos pelos fios de cabelo laranjas como o pôr do sol, sentindo sua maciez. Após algum tempo, percebe que Childe deixou de esconder o rosto para o observar de canto de olho, revelando um de seus belos olhos azuis.
— Adoraria que fosse minha família.
— É?! — Os arregalados olhos descrentes fazem com que o moreno dê outra risada.
— Sim. — Afirma e assente com a cabeça.
— Então...! — Se levanta, quase tropeçando entre os próprios pés apenas para colocar um deles sobre a mesa como um super herói. — A partir de agora não precisa se preocupar, Zhongli-sensei! Eu vou te proteger e surrar quem você achar que mereça uma surra.
— Me proteger de que? — Questiona com os braços cruzados e um dedo sobre os lábios de forma pensativa.
— Não sei, do que você precisar. Não deixo ninguém machucar minha família. — Afirma voltando a se sentar com um sorriso triunfante e sincero.
Estava bêbado, por isso Zhongli não o questionou sobre qual seria seu grau de parentesco, preferiu deixar o ruivo com sua fantasia, que julgou como infantilmente fofa, e com seu sorriso vitorioso ao invés de questionar e novamente receber aquele olhar envergonhado. Porém, a ideia de Childe o considerar sua família fez um sorriso bobo surgir em seus lábios e seu coração aquecer de uma forma que há anos não sentia.
Família. Foi a primeira palavra que passou na mente de Childe quando sua cabeça se chocou contra o chão, fazendo o som mórbido ressoar pela Casa Dourada. Metade de sua máscara foi destruída de forma que seu olho direito é revelado por entre a poeira em seu rosto. Seu peito foi perfurado por duas estacas de pedra por onde sente sua consciência se esvair lentamente. Sua perna esquerda, há instantes exalava uma dor difícil de aguentar para manter-se de pé após o moreno pisar em seu joelho, sabe que o quebrou ou pelo menos deslocou, mas agora já não sente nada graças à adrenalina e a falta de sangue.
Seu arco jaz muitos metros longe de onde caiu seu corpo, jogado pelas rochas do Arconte. Já não possui mais forças para criar suas armas de Hydro.
Com esforço, consegue focar sua visão em Morax que o observa imponente com sua lança em pose de descanso e os olhos ainda brilhantes, como se o estivesse relembrando o motivo de seu fracasso.
Aproxima-se a passos lentos.
O som continuado dos passos é o único no local, revelando o fim da batalha, além da respiração sôfrega do ruivo cujos pulmões ainda se esforçam para mantê-lo vivo. O barulho assemelha-se a um ganido acuado pelo sangue que já chegou à sua traqueia.
Estaca ao lado do caído com sua lança ao seu lado, apontando a lâmina para cima.
— Você tá... esperando o quê? — Childe questiona. Sempre que luta está apostando sua vida, esta batalha não foi diferente, nunca se deve contar com a piedade do adversário.
— Somos uma família, Childe? — O ruivo cerra os dentes com o resto de suas forças para segurar as lágrimas.
— Claro que não.
Morax movimenta sua lança. O detentor da visão de água mantém-se de olhos abertos, nunca temeu este momento que sempre soube que chegaria, aguarda pacientemente a lança atravessar seu peito.
O som da lâmina tocando o chão de forma abrupta invade seus ouvidos. Childe, mal conseguiu ver o movimento da lança, sente-se tão anestesiado que não sabe dizer se ela atravessou seu corpo ou não. Com esforço consegue levantar levemente a cabeça e ver que Rex Lapis a enfincou há um milímetro de seu torso.
— Não? — Childe demora a responder, apenas o som de sua respiração sendo ouvida por ambos.
— Não. — Não consegue mais segurar, uma pequena lágrima escorre de seus olhos.
— Pensou nisso enquanto lutávamos.
— Não pensei.
— Pôde acertar outros golpes. Pareceu errar por desatenção. Ou por hesitação.
— Fui mais fraco... Me mata logo... Não quero ouvir isso antes de morrer. — Afirma com o rosto coberto por lágrimas sob um olhar que busca parecer sincero. Tenta se levantar.
Consegue ficar de joelhos segurando o ferimento em seu torso por onde escapa seu sangue, sempre de cabeça baixa. Suas lágrimas não precisam ser vistas na hora de sua morte. Cerra firmemente os olhos, lembrando-se de sua família que aguarda seu retorno e como ficarão quando se for. Possui arrependimentos, mais do que consegue se lembrar de forma que não vale a pena pensar que se arrepende de todos eles. Só o que faz é esperar o golpe de misericórdia que não tarda a chegar.
— Escravo dos Fatui. — Zhongli segura seu queixo fazendo-o olhá-lo nos olhos. O brilho de seu olhar quase é o bastante para cegá-lo. — Forme um contrato comigo.
Escravo. A forma como se referiu a si o faz arregalar o grande olho azul safira, o único visto pela parte quebrada de sua máscara.
Contrato. Que contrato o Arconte poderia querer consigo? Não possui nada para dar-lhe em troca de sua vida.
Childe entreabre e fecha os lábios, como se buscasse por palavras que não encontra. Sente que a cada instante sua consciência está mais próxima de partir fazendo-o desmaiar, mal consegue compreender as simples palavras de Zhongli.
— Me diga seu nome. Seu nome de verdade. — Ele pede com seus atentos olhos dourados em si esperando sua resposta.
Respira fundo sentindo seus pulmões doerem entre suas costelas quebradas. Não possui forças para reclamar, para fazer piadas ou gargalhar, se esse contrato o mantiver vivo para que veja sua família uma última vez, dará o que for necessário.
— ...Meu nome é...
Notas finais
Beijão, até a próxima!!!!
A.Mareli S.
Fale com o autor