Deus Ex Machina
1 Capítulo 1
Sabrina levantou e segurou a cabeça com uma das mãos enquanto a outra apoiava todo o peso do corpo contra a cama. Tinha sido um sonho estranho. Um pequeno filete de suor frio escorreu pela têmpora e caiu no colchão. Enxugou o rastro que marcou seu rosto e sentou na cama apoiando-se no joelho e suspirou.
Olhou ao redor. Varreu o cômodo com os olhos semicerrados, não encontrava em parte alguma a pequena Musha. A cabeça voltou a pesar.
Lembrava-se vagamente do sonho, mas lembrava-se do calor, das chamas que consumiam todo seu quarto. E um pequeno vulto nas labaredas que avançavam pelos pés da cama.
Levantou-se com dificuldade. Deu-se conta que suas pernas estavam fracas — como se tivesse passado o dia em jejum e fumado. A nostalgia física lhe deu vontade de voltar a fumar — havia alguns meses, apenas, que tinha largado o vício graças as extensas sessões de meditação junto ao seu Alakazam. Era uma experiência incrível, inebriante, quase como o cigarro, que lhe expurgava o estresse e lhe trazia conforto, mas menos prejudicial a saúde, pelo menos acreditava.
- K'zam! — ergueu-se ainda se apoiando na cabeceira da cama.
O cansaço físico que crescia mediante a novos esforços para se locomover atordoavam sua mente, dificultando a conexão com seus pokémon. Seus poderes estavam entrando em conflito com seu corpo. Havia algo errado.
Expandiu a consciência tentando alcançar em algum canto daquela casa qualquer um deles. "K'zam, Musha, Thitelle, Niclus, onde vocês estão?"
Sentiu a onda psíquica bater em uma consciência e voltar.
"Niclus!"
O estado zen em que a armadura consciente se encontrava reverberou apenas uma resposta vazia, calma e limpa, ao ser atingido pela onda, indicava que a Reuniclus estava em profundo estado de resignação mental, então, bem distante de qualquer chamado.
Um silêncio mental abateu toda energia e a jogou contra a cama. Uma respiração fraca era tudo que indicava que, ainda, existia vida em seu corpo estirado.
No canto do quarto, sobre a penteadeira o Musharna flutuava, sereno, com os olhos, que mal se abriam, fixos na sua treinadora. Sentado na cadeira, com um sorriso ofuscado pelo denso bigode, o Alakazam fazia suas colheres flutuarem no ar para distrair seu sorriso funesto que ora desenhava um quadro um tanto excêntrico ao fixarem toda sua atenção no corpo fatigado da treinadora.
- É um bom começo — sussurrou o pokémon com suas colheres.
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